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Generating Organizational Intelligence

6.5. Organizational Knowledge Generation

A dependência em relação à ciência médica é apenas um exemplo, muito intenso e representativo, do papel predominante que a ciência ocupa hoje em nossa sociedade347. Além da própria presença da ciência, Hans-Georg GADAMER348 destaca que a sua aplicação na vida social é outro fator a ser levado em conta, pois está a alterar a práxis da convivência humana e submeter esferas cada vez mais amplas da vida humana ao domínio técnico.

Voltando os olhos para a aplicação da ciência, GADAMER chama atenção para a tensão existente entre o saber e a ação. Para o autor, quanto mais a ciência busca definir não só o saber, mas também a sua aplicação - por meio da racionalização do próprio julgamento que o ser humano faz ao aplicar o saber - mais amarras349 são colocadas sobre o ‘fazer’. Por conseqüência, reduz-se a capacidade de julgamento350. Cria-se uma espécie de juízo

confundir independência com individualismo auto-suficiente. Significa, basicamente, uma aversão enorme ao trabalho de equipa; uma ausência de gestão por objectivos no tribunal; uma oposição militante à colaboração interdisciplinar; e uma idéia de auto-suficiência que não permite aprender com outros saberes” (grifo nosso)

346 O longo debate no Congresso Nacional acerca da regulamentação do Ato Médico é caso ilustrativo dessa

profunda influência do conhecimento médico.

347“Promovidos pela rápida conversão da ciência em força produtiva, os critérios científicos de eficiência e

eficácia logo se tornaram hegemônicos, ao ponto de colonizarem gradualmente os critérios racionais das outras lógicas emancipatórias” (SANTOS, 2005:51).

348 As reflexões que se seguem estão baseadas em um cotejo entre as obras de FOUCAULT e AGAMBEN,

trabalhadas no primeiro capítulo, e um extenso estudo de GADAMER acerca de importantes questões da saúde: a natureza da saúde, a relação médico-paciente, a ciência médica e a prática médica e etc. Tais reflexões povoam as páginas dos artigos da coletânea “O Caráter Oculto da Saúde”. O mais interessante é que não se trata de uma obra inteira sobre saúde, mas a reunião de 13 artigos sobre o tema escritos entre os anos de 1963 e 1991. Ou seja, a coletânea de artigos encerra a opinião de GADAMER sobre assuntos centrais da saúde durante quase 30 anos de intensa produção acadêmica.

Nas reflexões de GADAMER acerca da saúde e da ciência médica ficam claros os pressupostos de sua teoria desenvolvida especialmente em Verdade e Método. A idéia central é que, se o problema hermenêutico não se resume ao estudo metodológico das ciências modernas, ainda que essa seja a pretensão da ciência, da mesma forma a saúde não se resume ao método da ciência médica.

A partir do ponto de vista hermenêutico, de redefinição da relação sujeito e objeto e da atenção ao papel da tradição, GADAMER busca o que é a saúde na relação que se estabelece entre o indivíduo, a sociedade e a ciência médica.

349 “A espontaneidade daquele que faz uso da técnica é, na verdade, precisamente por meio dessa técnica, cada

vez mais interrompida. Ele tem de se submeter às leis dos respectivos temas dessa técnica e nisso renunciar à ‘liberdade’. Ele se torna dependente do correto funcionamento da técnica.” (GADAMER, 2006:26)

350 Gadamer afirma que a ciência se institucionalizou como empresa, que transforma tudo de acordo com sua

“lógica empresarial”. Em seus dizeres: “A institucionalização da ciência como empresa pertence ao amplo contexto da vida econômica e social na era industrial. Não apenas a ciência é uma empresa, mas todos os processos de trabalho da vida moderna são organizados de maneira empresarial. A parte isolada é ajustada com determinado desempenho, num todo empresarial maior, o qual, por seu lado, possui uma função exatamente

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indolente, pois “quanto mais intensivamente a área de aplicação é racionalizada, mais falta o próprio exercício do juízo e, com isso, a experiência prática no seu verdadeiro sentido”.351

Somadas à limitação da aplicação do saber está a limitação imposta pela dependência dos meios de comunicação. O profissional da área ou o profissional responsável pela informação detém o monopólio do saber, e os outros recebem acesso às informações na medida em que é desejável. O detentor da informação se transforma em um ‘fator social próprio’, capaz de uma produção artificial de necessidades, sobretudo com o recurso da publicidade moderna. Dessa forma, o profissional se torna intangível, e o seu apelo à ciência, irrefutável. É a chamada ‘autonomização’ que se dissemina entre as profissões práticas, em especial a médica.352

Assim, a sociedade depara-se com uma ciência que busca tudo justificar e tudo saber, além de pretender dominar a aplicação de seus preceitos e o acesso às valiosas informações por ela produzidas. E tudo submetido à ordem econômica, que transforma o fazer científico em técnica tão logo haja promessa de algum lucro353.

Para que a sociedade não abra mão de sua liberdade, GADAMER sugere, por um lado, que a ciência desempenhe seu papel e faça sua desmitologização pelos meios apropriados da informação crítica e da disciplina metódica354, e, por outro, que seja retirado da ciência a tarefa de controle de sua aplicação. Tal papel pertence à política:

Controlar a aplicação daquele nosso ser-capaz-de-fazer, que é possibilitado cientificamente, não é tarefa da ciência, mas permanece como uma tarefa política. Ao contrário, também, não é tarefa de política, mas de ciência, controlar suas próprias necessidades, investimentos, tempo e dinheiro, etc. Em última análise, essa é a função da crítica científica355. (grifo nosso)

O argumento de GADAMER tenta chamar atenção para algo que deveria parecer claro: o homem é responsável por si mesmo, e também pelas conseqüências de sua omissão.

prevista na organização altamente especializada do trabalho moderno; isso significa, porém, ao mesmo tempo, uma função sem uma orientação própria sobre o todo” (GADAMER, 2006:25-26).

351 GADAMER, 2006,:26.

352 GADAMER, 2006:27. Ressalte-se que essa idéia desenvolvida por Gadamer na filosofia guarda justa

correspondência de resultados na sociologia com os estudos de Foucault acerca do saber-poder na era da ‘ortopedia social’. Além disso, voltando os olhos para a saúde, é exatamente o que acontece com as prescrições feitas por médicos. Os pacientes não têm acesso às informações sobre o seu tratamento, e devem adquirir os medicamentos indicados por seus médicos, a despeito da possibilidade de arcar com tratamentos mais baratos e com remédios genéricos. Não é à toa que a propaganda das grandes farmacêuticas não se dirige ao grande público, mas sim aos médicos, que costumam ser agraciados com todo tipo de brindes, presentes e até comissões em dinheiro.

353 GADAMER, 2006, 33. 354 GADAMER, 2006, 15. 355 GADAMER, 2006: 34.

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Acreditar que a lógica científica conduzirá sempre a sociedade para o melhor caminho é acomodar-se e abrir mão de sua liberdade política, que pode e deve limitar a aplicação da ciência à vida.

Essa liberdade do cidadão necessita ser especialmente estimulada (e respeitada) na área da ciência médica, pois tal ciência não lida com a produção de algo artificial, mas antes do restabelecimento do natural356. Além disso, os próprios critérios de aferição da cura são subjetivos, pois a “esfera do não-racionalizado neste campo é especialmente ampla”.357 A noção de saúde, portanto, está tanto ligada à ciência da saúde quanto ao sujeito, à pessoa. Ela é um estado e não algo a ser diagnosticado358.

A saúde é, portanto, algo interior. Um bem-estar oculto359 que permite que o indivíduo se volte para fora360, esqueça de sua condição e se abra para a experiência do mundo. É o “estar-aí”361. O papel das ciências médicas, e do médico, não é, portanto, fazer saúde, mas trabalhar para que ela se restabeleça. A ciência médica deve ser construída tendo em vista sua peculiar e intensa relação entre saber teórico e prático362.

Um dos nossos desafios é exatamente pensar como compatibilizar uma noção humanizada e humanizante de saúde com a lógica capitalista e cientificista ora dominantes363. E repensar uma das relações mais básicas, corriqueiras e importantes da saúde – a relação entre médico e paciente – é um bom ponto de partida.