İLGİLİ ARAŞTIRMALAR
2.3. Ontolojik Yaklaşım
2.3.5. Ontolojik Yaklaşıma Göre Kavramsal Değişim
Ao caminhar pela Comunidade Alto Vera Cruz, pode-se notar uma diversidade local curiosa, uma mistura de elementos, condições e até mesmo divergências peculiares (como já previsto previamente ao início das investigações). As ruas principais de acesso se caracterizam pelos tantos negócios locais, onde se observou uma grande movimentação e um intenso comércio ativo. Estas vias são pavimentadas e contam com a disponibilidade de serviços públicos essenciais (energia elétrica, água, saneamento básico...) - uma estrutura que possibilita a circulação de ônibus, bem como de fornecedores das lojas/supermercados/outras lojas existentes - além do próprio funcionamento deste comércio local. Notou-se, também, a existência de um posto policial e uma casa lotérica, dos quais serviços (seja de pagamento, apostas, saques – operações financeiras simples) pareciam muito requisitados diariamente.
As FIG. 4 adiante retrata o grande movimento de moradores na Casa Lotérica, o que estaria diretamente relacionado ao fato de ser o único representante bancário local (não há agências bancárias nas proximidades da comunidade). Independentemente das pessoas possuírem ou não uma conta bancária, quase todas as que participaram desta pesquisa afirmaram realizar seus pagamentos em correspondente bancário (92,04%, FIG 5).
Existe um conhecimento comum exposto nas entrevistas - compartilhado principalmente entre as pessoas de baixa renda, uma vez que representam a
maioria do público que efetua transações financeiras mais simples (recebimento de benefícios sociais realizados pelas pessoas através do Cartão Cidadão da Caixa ou por aqueles que optaram pela conta simplificada Caixa Fácil, pagamentos, depósitos, saques, transferências, abertura de contas simplificadas Caixa Fácil) - sobre a recomendação realizada pelos próprios funcionários das agências bancárias de se demandar tais serviços financeiros simples em agências Caixa Aqui (correspondentes autorizados da Caixa Econômica Federal). Ainda, a maior parte dos entrevistados também admitiu que utiliza os serviços bancários ou os serviços das instituições financeiras somente para realizar o pagamento de suas contas. Esta restrição do uso dos serviços disponibilizados pelas instituições financeiras fica ainda mais evidente quando ao se comentar sobre a possibilidade de alguma situação de emergência, a qual exigisse valores acima daqueles que possuíam como reserva (se realmente tivessem alguma reserva ou poupança), os entrevistados, em sua maioria (65,17%), relataram que solicitam empréstimos de familiares e amigos, evitando qualquer outra possível alternativa para se obter crédito.
FIGURA 4 – A Casa Lotérica da Comunidade AVC
FIGURA 5 – Os Moradores da Comunidade AVC e Alguns Serviços Financeiros
Fonte: Elaboração Própria, 2014.
Não se pode negar que há a presença de indivíduos prósperos que, por trabalharem como autônomos, em algum negócio próprio local, são capazes de arrecadar uma renda mensal familiar total em torno de R$10.000,00 a R$ 20.000,00. Em conversa com dois comerciantes da área, residentes da comunidade, soube-se que a relação com os bancos surgiu da necessidade de se abrir a empresa e, portanto, uma conta corrente em nome de pessoa jurídica. Eles possuíam cartões de débito e de crédito e nunca tiveram problemas em acessar o crédito concedido pelos bancos, apesar de evitarem e, até mesmo, alegarem a não necessidade deste procedimento, uma vez que os seus empreendimentos eram muito rentáveis. Enfatizaram, também, um aspecto local importante com a seguinte frase: “Dentro de uma favela há a circulação de muito dinheiro. O comércio é muito rentável e quem souber usar a esperteza, pode conseguir muito como autônomo.”. Um deles reclamou sobre os juros do cartão de crédito e confessou que passou por problemas de inadimplência relacionados às suas contas do mesmo. Ambos admitiram também utilizar os serviços de crediários com frequência, atribuindo a eles grande importância.
A diversidade de condições se destaca não somente no comércio local, mas também nas moradias. Pode-se perceber que algumas casas passaram por grandes reformas, enquanto outras aparentam uma situação precária, desfavorável. Além disso, as ruas que dão acesso às vias principais, geralmente, possuem algum calçamento ou são pavimentadas, diferentemente das tantas outras que não possuem essa ligação direta. A FIG.6 exemplifica este relato. Trata-se de duas partes diferentes da Rua Desembargador Bráulio, a primeira na altura do número 860, onde existem várias lojas comerciais; a segunda próxima ao número 565.
FIGURA 6 – Rua Desembargador Bráulio, Comunidade AVC – Duas partes diferentes que compõem a mesma via.
Ao se adentrar nos locais mais distantes das vias principais, as entrevistas obtiveram respostas interessantes e um tanto reveladoras sobre o que poderia configurar um comportamento de consumo comum. Em visita à casa de uma senhora amiga da equipe, observou-se que a fachada da residência aparentava condições desfavoráveis. No entanto, em seu interior, apesar da estrutura humilde e envelhecida evidente pelas paredes, havia um número notável de bons eletrodomésticos (em termos de qualidade e tecnologia) e móveis. Isto incitou a ideia de que os moradores da comunidade, ainda que possuíssem uma baixa renda, seriam usuários recorrentes de crediários – os quais são oferecidos de forma facilitada pelas lojas de eletrodomésticos e de departamentos.
No seguimento da investigação, uma parte considerável dos moradores confirmou a grande utilização daquele serviço financeiro e atribuiu importância ao fato de terem acesso aos mesmos. Expuseram que, para garantir a aquisição de alguns bens pessoais necessários e de eletrodomésticos e móveis, os quais facilitariam ou aumentariam a sua qualidade de vida, era necessário fazer crediários, pois, do contrário, não haveria a possibilidade de realizar tais compras. A FIG.5 anterior retrata esta constatação. Nenhum dos entrevistados, entretanto, ressaltou uma grande preocupação com os juros embutidos no valor das parcelas de pagamentos referentes aos crediários realizados. Atribuíram importância somente ao valor das parcelas que deveriam pagar ao adquirir este tipo de serviço financeiro.
De acordo com o andamento das entrevistas, tomou-se conhecimento de que uma parte significativa dos respondentes (45,77%) possui dificuldades para entender os serviços oferecidos pelos bancos ou instituições financeiras e uma minoria de 36,82% atribuiu alguma complexidade ao acesso e/ou uso daqueles (FIG.7). Percebeu-se, também, que a maioria dos participantes possui uma conta bancária e algum tipo de cartão. No entanto, vale considerar significativa a proporção de quase 40% de indivíduos da amostra (exatamente 77 entre 201 entrevistados - FIG. 8) que relataram não possuir qualquer tipo de conta bancária. Quando perguntados sobre as razões, as respostas mais frequentes variaram entre os seguintes argumentos: i) Sua renda é muito baixa para ter uma conta bancária ou demandar algum tipo de crédito; ii) Não conseguiram manter sua
conta por causa das altas taxas bancárias. Ainda, ressalta-se que a quantidade de pessoas que afirmaram não ter qualquer tipo de cartão é quase similar à proporção daquelas que não possuem conta bancária (37,31% ou 75 pessoas dentre as 201 da amostra total, FIG. 9).
É interessante notar que há uma minoria dos entrevistados que possui cada tipo de conta bancária - conta corrente (37,81% ou 76 indivíduos), conta poupança (35,32% ou 71 indivíduos), conta salário (7,46% ou 15 indivíduos) – e, no entanto, a maioria deles (61,69% ou 124 entrevistados) tem alguma conta. Isto pode ser explicado pelo fato de que uma grande quantidade de pessoas possui somente um tipo de cada conta: 45 possuem somente conta corrente, 40 possuem somente conta poupança e 8 possuem somente conta salário (FIG. A 6).
FIGURA 7 – Compreensão e Utilização dos Serviços Bancários e a Auto- Exclusão dos Moradores Que não Utilizam os mesmos – Comunidade AVC
FIGURA 8 – A Comunidade AVC e a Utilização e/ou Acesso a Contas Bancárias
Fonte: Elaboração própria, 2014.
FIGURA 9 – A Comunidade AVC e a Utilização e/ou Acesso aos Serviços de Cartões
FIGURA 10 – Algumas Características Socioeconômicas dos Moradores Entrevistados – Comunidade Alto Vera Cruz
Fonte: Elaboração própria, 2014.
Curioso saber que os entrevistados, em sua maioria, trabalham em empregos formais ou de forma autônoma. O número de desempregados foi relativamente baixo, mas ainda superior à quantidade de pessoas que trabalham sem carteira assinada. Apesar de certa resistência em se revelar a renda (principalmente por parte dos homens, o que representou 20% de não respostas dentro da amostra), a maioria respondente admitiu receber de um a dois salários mínimos (individual) e de um a três salários (familiar). Associando-se esta informação com grande parte dos relatos que descreveram uma composição da unidade familiar de dois a cinco indivíduos, há a possibilidade de se atribuir uma razão plausível para o fato de que poucas pessoas afirmaram ter o cartão utilizado no recebimento do benefício concedido pelo programa “Bolsa Família” (um total de 15, proporcional de 7,46%) 22. As FIG. 9 e FIG. 10 ilustram estes argumentos.
As conversas com as mulheres, moradoras da comunidade, revelaram uma postura mais independente das mesmas. Elas, casadas ou solteiras, participam
22
Na seção 5.3.1 há uma explicação detalhada sobre o programa “Bolsa Família” e as pessoas beneficiadas pelo mesmo. Vale relembrar que a renda máxima por cada indivíduo integrante da unidade familiar de R$ 154,00 garante o direito de participação ou benefício concedido pelo “Bolsa Família”.
ativamente da economia de suas famílias, trabalhando e se relacionando com o sistema financeiro de alguma forma - realizam pagamentos de suas contas, muitas delas possuem contas bancárias, cartões de débitos e cartões de crédito (FIG.A 3 e FIG. A 4). Algumas poucas relataram problemas de inadimplência relacionados à falta de pagamento das contas dos cartões de crédito, protestando muito contra as altas taxas de juros, admitindo a incapacidade de quitar tais dívidas e o risco de ter o seu nome associado a uma imagem negativa no sistema de informações creditícias brasileiro (Serviço de Proteção ao Crédito - SPC). Mas um grande número de mulheres admitiu que faz uso de crediários (47,06% ; 48 mulheres e 46 homens utilizam tal serviço) e atribuiu uma importância a este serviço, enfatizando o quanto facilitam sua vida, em termos de condições adequadas à sua realidade, para adquirir o que é necessário (FIG. A 5). Ainda, enfatiza-se que das 15 pessoas que afirmaram ter o cartão Bolsa Família, 10 são mulheres. Isto corrobora a informação de que preferencialmente este cartão é emitido em nome das mulheres da unidade familiar.
Para finalizar a descrição das observações deste campo de pesquisa, destaca-se a resposta dos entrevistados quando se perguntou sobre o que fariam com o dinheiro caso recebessem um empréstimo naquele dia e uma grande parte deles respondeu que reformaria suas casas ou compraria uma casa na comunidade (46% dos respondentes). Isto corrobora o mencionado ao final da primeira seção deste capítulo, o fato de que os moradores querem melhorar suas condições dentro da comunidade e não manifestam vontade de sair do local.
4.4 Análise geral do “campo de pesquisa” – Comunidade AVC