O aluno G.
Para a caracterização do aluno recorremos a documentos disponíveis no seu processo individual. Para ter acesso ao processo individual do aluno, que contém informações de índole estritamente confidencial, solicitámos autorização por escrito ao diretor da CAP e ao encarregado de educação (cf. anexos B e C), a qual foi consentida.
O aluno em estudo tem 10 anos de idade e frequenta o 4.ºano de escolaridade do 1.º ciclo do ensino básico, numa turma de um Centro Escolar pertencente a um Agrupamento de Escolas da região Douro Sul. Por motivos de confidencialidade vamos guardar o anonimato do nosso objeto de estudo e por isso designamos por G..
O G. nasceu numa freguesia urbana de um concelho do norte de Portugal, onde vive com os pais e dois irmãos mais velhos. Para a caracterização do aluno recorremos ao atual perfil de funcionalidade que integra compreensivamente as componentes reconhecidas no modelo conceptual da CIF e da CIF-CJ, conforme consta do respetivo PEI (cf. anexo D).
QUADRO 2
Perfil de Funcionalidade do aluno por referência à CIF-CJ
Funções e Estruturas do Corpo, Atividade e Participação e Fatores Ambientais
Na componente atividade e participação o G. apresenta dificuldades ligeiras na aquisição da linguagem (d133.1), justificadas pelas dificuldades nas funções mentais da linguagem (b167.1) e pela expressão da linguagem (b1671.2) Apresenta dificuldades ligeiras em comunicar e produzir mensagens (d330.2), que se refletem em restrições na manutenção de conversações (d350.2). Revela limitações moderadas em falar (d330.2) resultantes das alterações nas funções da articulação (b320.3) e nas funções e fluência e ritmo da fala (b330.3), o que justifica a frequência semanal de terapia da fala (e355+4), que se apresenta como facilitador de todo o processo ensino aprendizagem.
competências básicas de desempenho contudo as competências complexas necessárias à execução de um conjunto integrado de ações, estão comprometidas verificando-se dificuldades na organização de tarefas e gestão do tempo.
O seu desempenho em atividades de escrita (d145.1; d170.2), de leitura (d166.1), de cálculo (d150.2; d172.2), encontra-se condicionado pelas alterações sediadas no domínio das funções intelectuais (b117.2).
Apresenta dificuldades em concentrar e dirigir a atenção (d160.2, d161.2), perde frequentemente o objetivo do seu trabalho, o que de alguma forma se apresenta como barreira ao desenvolvimento da autonomia na realização dos seus trabalhos individuais. Estas dificuldades parecem resultar de alterações sediadas no domínio das funções de atenção (b140.2). Apresenta ainda limitações no domínio das funções da memória (b144.2), funções mentais específicas de registo e armazenamento de informações e sua recuperação quando necessário sendo mais evidente nas funções de memória de curto prazo (b1440.2), funções mentais responsáveis pelo armazenamento temporário.
São facilitadores para o processo de ensino aprendizagem do aluno o apoio e atitudes da família próxima (e310+4), (e410+4), apoios e atitudes das pessoas em posição de autoridade, professores (e330+4), (e430+4) e apoios dos profissionais de saúde (e355+4). É ainda de referir que os colegas têm com o G. um relacionamento caracterizado pelo apoio mútuo (e325.4) e pela aceitação da diferença (e425+3). A família é colaborante preocupa-se com a vida escolar do aluno, possuindo elevadas expectativas face ao desenvolvimento biopsicossocial do mesmo (e410+4). O uso de produtos e métodos na educação (e130+3) surgem também como facilitadores.
O aluno recebe apoio de uma professora de Educação Especial (e5853+3), que colabora na implementação do Programa Educativo Individual do mesmo.
Da análise do perfil de funcionalidade podemos verificar que não há “rótulos”, mas a descrição das diferentes componentes do desenvolvimento de forma a permitir uma visão holística do aluno. São cada vez mais conhecidos os efeitos negativos do processo de rotular crianças. O escritor inglês Paul Widlake (cit. in Costa e Silva 1996, p. 42) afirma: “Os processos utilizados para rotular os alunos podem ter maior responsabilidade nas dificuldades de aprendizagem do que qualquer outra iniciativa dos professores.” O recurso à utilização de rótulos leva a limitar as expectativas sobre o que uma criança é capaz de realizar, conduzindo erradamente à generalização indevida.
Para uma leitura mais fácil dos dados constantes do relatório do Processo Individual do aluno, organizamos esses mesmos dados num arranjo gráfico (GRAF. 1, 2 e 3).
GRÁFICO 1 – Funções do Corpo
Verificámos pela observação do GRAF.1 que o qualificador mais usado para descrever a magnitude da deficiência situa-se predominantemente, 63%, no qualificador 2 (deficiência moderada). O qualificador 3 (deficiência grave) situa-se nas funções da articulação e nas funções da fluência e do ritmo da fala.
Lendo o GRAF. 2, no perfil de funcionalidade a componente atividades e participaçãoé mais valorizada face às funções e estruturas do corpo e aos fatores ambientais. Verifica- se uma maior percentagem, 64%, de domínios qualificados de dificuldade moderada.
GRÁFICO 3 - Fatores Ambientais
Neste caso específico do GRAF. 3, os fatores ambientais limitam-se a indicar a extensão dos efeitos positivos do ambiente, ou seja dos facilitadores. Parece-nos contudo que, se analisado o ambiente numa perspetiva crítica, porventura identificaríamos algumas barreiras ambientais. Esta análise confirma também o que especialistas como Simeonsson e colaboradores concluíram num estudo realizado em 2010
A abordagem aos Factores Ambientais é ainda pragmatizada com escassa identificação de barreiras ambientais. A predominância de facilitadores parece transparecer uma atitude ainda pouco crítica sobre o ambiente (Simeonsson et al., 2010, p. 58).
Professora do 1.º ciclo
A professora, com 54 anos de idade, tem formação académica e habilitação profissional na área do 1.º ciclo e a sua experiência de trabalho docente com crianças portadoras de T21 ou outro tipo de NEE iniciou-se com o aluno G. Esta condição foi uma novidade para a docente da turma que funcionou como um desafio procurando por vários meios instruir-se acerca da mesma. Acompanhou este aluno desde o 1.º ao 4.º ano,
para construir uma relação de proximidade com o aluno e para obter um conhecimento profundo e consciente do seu perfil de funcionalidade e funcionamento em vários contextos.
Terapeuta da fala
A terapeuta da fala é uma profissional com 30 anos de idade e com 5 anos de serviço na área da terapia da fala. Desde o estágio que sempre trabalhou com crianças portadoras de T21 e de várias idades. A sua intervenção terapêutica com este aluno ocorre desde outubro de 2010. A Terapeuta é oriunda de entidades externas com as quais o Agrupamento de Escolas estabeleceu parcerias e protocolos.
Encarregado de educação
As funções de encarregado de educação são desempenhadas pela mãe do aluno. Uma senhora de 47 anos de idade, professora do 1.º ciclo, informada, atenta e muito interessada em toda a vida escolar do seu educando.