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On Bir Heceli ġiirler

III. ÂġIK ALĠBOĞLU’NUN ġĠĠRLERĠ

III.3. On Bir Heceli ġiirler

As descrições a seguir são feitas através do olhar do narrador, que é muito presente em Ilusões perdidas e que faz comentários e digressões ao longo do romance. Uma característica marcante de tais descrições é que o olhar do narrador não parece legitimado no mesmo grau do olhar do personagem Lucien. Fazemos essa afirmação baseando-nos na recorrência do apelo aos modos de expressão artística e aos gêneros,

123 CH, t.V, p. 302.

124 ''Le père Doguereau, comme l'avait surnommé Porchon, tenait par l'habit, par la culotte et par les

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que à época, tinham mais prestígios como a pintura, a poesia e o teatro. Outra característica interessante é que o olhar do narrador ou o de Lucien mudam ao longo do texto relativamente à inserção de Lucien em Paris e no jornalismo. Na medida em que o mundo literário, editorial e jornalístico é apresentado a Lucien, o grande homem de província percebe sua ingenuidade.

As descrições topográficas dos quartos de Lousteau e de d'Arthez são feitas através do olhar do narrador. As duas iniciam com o recorte do espaço, servindo como enquadramento do quarto de Lousteau, uma porta: ''Ele encontrou, com dificuldade, uma porta aberta no final de um longo corredor obscuro, ele reconheceu o quarto típico do bairro Latino.''125 E aquele de d'Arthez, a entrada escura de uma casa: ''Lucien foi exato e viu, primeiramente, uma casa menos decente que o seu hotel e que tinha uma entrada sombria, de onde começava uma escada escura''126 A entrada de ambos os quartos é qualificada como escura, sombria o que caracterizaria o jornalismo, a literatura, a política e a edição na época. Já o corte onde começa a descrição da terceira descrição do espaço que mostraremos, aquela do Palais Royal, é apresentado através do narrador, que a qualifica como inevitável para a compreensão da trama. Esta descrição, ao invés de ter essa moldura, inicia-se com uma justificativa do narrador.

Os adjetivos escolhidos para classificar os móveis do quarto de Lousteau, de d'Arthez e as lojas do Palais Royal são pejorativos e funcionam como hipálages, com a transferência das características morais das personagens, para os espaços que habitam. Os verbos que caracterizam objetos como as botas e o barbeador são respectivamente,

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''il trouva, non sans peine, une porte ouverte au bout d'un long corridor obscur, et reconnut la chambre classique du quartier Latin.'' CH, t. V, p. 349.

126 ''Lucien fut exact et vit d’abord une maison moins décente que son hôtel et qui avait une allée sombre,

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bocejar e errar. Esses verbos exprimem sentidos normalmente utilizados na caracterização de pessoas ou de seres animados, marcando a personificação do quarto, ao mesmo tempo em que caracteriza o personagem através da fusão entre o mesmo e seu espaço.

O quarto de Lousteau tem: ''uma cama de nogueira, com um péssimo tapete de segunda mão embaixo. Ali, essa miséria era sinistra, as cortinas amareladas, várias botas horrorosas juntas, meias velhas e totalmente furadas, cigarros amassados, lenços sujos...''127

O quarto de d'Arthez tinha ''duas janelas feias entre as quais ficava uma estante de madeira maciça, cheia de caixas etiquetadas. Uma beliche magra de madeira pintada, parecida com beliches de colégio, uma mesa de cabeceira comprada de segunda mão.''128 Esta descrição mostra muito mais a pobreza do quarto de d'Arthez do que a sujeira do quarto de Lousteau. Mostra a pobreza do autor que procurava ganhar a vida com a sua pluma, e que não era capaz de, para isso, explorar outras pessoas e entrar em negócios ilegais.

Enquanto o quarto de Lousteau é frio, pobre, indigno, tem uma ''desorganização cínica'', o quarto de d'Arthez é pobre, porém limpo, o que chama a atenção de Lucien, que se questiona: ''Que diferença entre esta desordem cínica e a linda, a decente miséria de d'Arthez?'' 129

127

''un lit en noyer au bas duquel grimaçait un méchant tapis d'occasion. Là cette misère était sinistre,

rideaux jaunis; un ignoble assemblage de mauvaises bottes; des vieilles chaussettes à l'état de dentelle; des cigares écrasés; des mouchoirs sales...'' CH, t. V. p. 350.

128

''avait deux méchantes croisées entre lesquelles était une bibliothèque en bois noirci, pleine de cartons

étiquetés. Une maigre couchette en bois peint, semblable aux couchettes de collège, une table de nuit

achetée d’occasion.'' CH, t. V. p.312.

129''Quelle différence entre ce désordre cynique et la propre, la décente misère de d'Arthez?”CH, t. V. p.

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O Palais Royal é descrito com a utilização de inúmeros adjetivos e substantivos que denotam sujeira, e comparado com uma taberna:

En place de la froide, haute et large galerie d'Orléans, espèce de serre sans fleurs, se trouvaient des baraques, ou, pour être plus exact, des huttes en planches, assez mal couvertes, petites, mal éclairées sur la cour et sur le jardin par des jours de souffrance appelés croisées, mais qui ressemblaient aux plus sales ouvertures des guinguettes hors barrière.130

Outra característica que esta descrição tem em comum com aquela do quarto de d'Arthez e de Lousteau é a personificação do espaço, que ganha uma ''fisionomia assustadora'' e é caracterizado com adjetivos como impudico e inconveniente:

Ce sinistre amas de crottes, ces vitrages encrassés par la pluie et par la poussière, ces huttes plates et couvertes de haillons au dehors, la saleté des murailles commencées, cet ensemble de choses qui tenait du camp des Bohémiens, des baraques d'une foire, des constructions provisoires avec lesquelles on entoure à Paris les monuments qu'on ne bâtit pas, cette physionomie grimaçante allait admirablement aux différents commerces qui grouillaient sous ce hangar impudique, effronté, plein de gazouillements et d'une gaieté folle, où, depuis la Révolution de 1789 jusqu'à la Révolution de 1830, il s'est fait d'immenses affaires.131

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''No lugar da fria, alta e larga galeria de Orleans, espécie de estufa sem flores, encontra-se barracas, ou

para ser mais exato, cabanas de madeira, bastante mal cobertas, pequenas, mal iluminadas do lado do pátio e do jardim por frestas chamadas de janelas, mas que pareciam as mais sujas aberturas das tabernas além-barreira.'' CH, t. V. p. 355.

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''Este sinistro amontoado de lama, essas vidraças engorduradas pela chuva e pela poeira, essas cabanas

de madeira, cobertas de farrapos por fora, a sujeira das paredes inacabadas, este conjunto de coisas que se assemelhava a um acampamento de ciganos, a barracas de um bazar, a construções provisórias com que se cercam em Paris os monumentos inacabados, esta fisionomia assustadora acomodava-se admiravelmente aos diferentes comércios que formigavam neste hangar impudico, descarado, cheio de murmúrios e de uma alegria louca, onde, desde a Revolução, de 1789 até a Revolução de 1830, grandes negócios foram feitos.'' CH, t. V. p. 356.

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Esta diferença aparece também na construção dos retratos destes dois tipos sociais. Percebe-se que, para compor o retrato de d'Arthez, o narrador inicia sua descrição com as características físicas do personagem, que são sempre apresentadas com adjetivos que agregam valores positivos: ''belo semblante'', ''cabelos espessos'', ''belas mãos'', ''finezas'', ''grandeza'', ''os olhos têm sabedorias como aquela dos votos das mulheres'', ''olhar pensativo'', ''belo semblante nobremente esculpido'', ''olhos pretos e vivos''. D'Arthez é comparado com a gravura de Napoleão feita por Robert Lefebvre, indicando uma competência do narrador, que lança mão de uma referência pictural, com um alto valor na hierarquia dos gêneros picturais, por ser o retrato de um imperador, afim de legitimar o retrato do personagem. Além da descrição física do personagem anteceder a descrição das vestimentas, indicando que a inteligência é a parte mais importante deste tipo, o primeiro ponto descrito é o semblante (belo semblante), o que indicava naquela época a inteligência. Esta descrição é descendente, começa com o rosto e termina nas mãos. Já a descrição das roupas deste personagem estaria, neste caso, em segundo plano e é ascendente, começando com as calças, sapatos, colete, casaco e terminando no chapéu:

Le jeune homme qui réalisait cette gravure avait ordinairement un pantalon à pied dans des souliers à grosses semelles, une redingote de drap commun, une cravate noire, un gilet de drap gris, mélangé de blanc, boutonné jusqu'en haut, et un chapeau à bon marché.132

A descrição de Doguereau é feita, também, através do olhar do narrador e inicia- se com suas vestimentas:

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''O jovem que realizava esta gravura usava uma calça comprida que entrava pelo sapato, que tinha a

sola presa aos pés, com sapatos de solas grossas, um paletó longo de lã ordinária, uma gravata preta, um colete de lã cinza, misturado com branco, abotoado até o pescoço e um chapéu barato.'' CH, t. V. p. 308.

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Doguereau portait un habit noir à grandes basques carrées, et la mode taillait alors les fracs en queue de morue. Il avait un gilet d'étoffe commune à carreaux de diverses couleurs d'où pendaient, à l'endroit du gousset, une chaîne d'acier et une clef de cuivre qui jouaient sur une vaste culotte noire. La montre devait avoir la grosseur d'un oignon. Ce costume était complété par des bas drapés, couleur gris de fer, et par des souliers ornés de boucles en argent.133

O caráter deste editor é revelado no momento em que este vai à casa de Lucien negociar a compra de seu romance O arqueiro de Carlos X. Outrora decidido a pagar mil francos pelo romance de Lucien, Doguereau entra na casa do jovem provinciano, percebe que tratava-se de uma pessoa pobre, e diminui sua oferta pela metade. Em seguida, o narrador faz, rapidamente, um retrato de Doguereau. O velhaco estaria sem chapéu ou qualquer coisa sobre a cabeça, que era decorada por dispersos cabelos cinzas. A escolha do adjetivo ''velhaco'' (vieillard), que tem um sentido pejorativo, o detalhe da cabeça vazia, conjugado com o mau caráter do personagem, definem este tipo de editor, figura típica da sociedade da época.

O retrato do editor é feito através de Barbet, personagem que aconselha Lucien a abandonar os versos e escrever em prosa, pois, era o gênero que se vendia mais naquela época. Balzac tomou cuidado na escolha dos nomes de seus personagens, de maneira que cada nome revela um pouco de seu caráter. O nome d'Arthez remete às artes, e Barbet era o nome usado, a partir do século XVIII, para designar os contrabandistas ou

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''Doguereau vestia um longo paletó com a cauda grande e quadrada, e o que estava na moda eram os

fraques com a cauda de bipartida. Ele usava um colete de tecido ordinário quadriculado de diversas cores e de tecido comum de onde saia um relógio de bolsilho, uma corrente de aço e uma chave de cobre que caiam sobre uma vasta calça preta. O relógio devia ter a grossura ser grande como uma cebola. Esta roupa era completada com as meias drapeadas de cor cinza ferro e sapatos ornamentados com fivelas de prata.'' CH, t. V. p. 302.

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bandidos que viviam nos Alpes e nos Pirineus134. A descrição deste personagem retrata uma pessoa gorda, suja e mal vestida. É interessante notar que a descrição se foca em três elementos redondos (o botão, o colarinho de seu paletó e os olhos), o que expressa a vontade do narrador de fixar que o personagem estava acima do peso e apesar de uma leve bonomia atribuída ao personagem, os adjetivos escolhidos na formação de sua descrição são insultuosos

Barbet avait une méchante redingote boutonnée par un seul bouton, son col était gras, il gardait son chapeau sur la tête. (...) Sa figure ronde, percée de deux yeux avides, ne manquait pas de bonhomie.135

Estes retratos nos mostram que, realmente, Balzac se apoiou em uma estrutura clássica na composição da maioria das descrições de Ilusões perdidas, para, supostamente, como dizemos acima, legitimar seu texto romanesco. Porém, as descrições estão a serviço do corpo, deixando transparecer a expressão do personagem, característica romântica que revela, com rigor, a originalidade de sua obra. Ou seja, o autor de Ilusões perdidas toma emprestado características de um gênero de prestígio e introduz seu tema original.

No prefácio da Comédia Humana, Balzac compara o homem ao animal que ''pega sua forma exterior, ou, para ser mais exato, as diferenças de sua forma, dentro do meio no qual ele se desenvolve.''136 A forma que o animal/humano desenvolver, aparece

134 Cf. Trésor de la Langue Française. Disponível em: http://atilf.atilf.fr/tlf.htm, consultado em

21/06/2012.

135 ''Barbet tinha um paletó feio abotoado por um botão apenas, seu colarinho era engordurado, sua figura

redonda, furada por dois olhos ávidos, não carecia de bonomia.'' CH, t. V. p. 352.

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no seu rosto, pois, é a parte do corpo que marca a singularidade do indivíduo e o enquadra no espaço social. Este estudo é proveniente da fisiognomia137 (fhysis: natureza e gnomon: interpretação), retomada no século XVIII por Lavater, autor que Balzac cita no prefácio da Comédia Humana. Esta interpretação distingue os tipos sociais através de suas características físicas, com isso origina definições racistas que explicam a inferioridade ou a superioridade dos homens através de suas características físicas. O nazismo é um exemplo da consequência desse pensamento preconceituoso.

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''A fisiognominia é a ciência, o conhecimento da relação que liga o exterior ao interior, a superfície

visível ao que ela encobre de invisível. Numa concepção restrita, compreende-se por fisionomia, a aparência, os traços do rosto e sua significação. Aquele que julga o caráter do homem numa primeira impressão que se faz de seu exterior é naturalmente fisiognomonista; ele o faz cientificamente quando sabe expor de maneira precisa e organizar numa ordem os traços e sinais observados; enfim, o fisiognomonista filósofo é aquele que, na inspeção de tal traço, de tal ou tal expressão, é capaz de deduzir as causas de tal ou tal traço, de tal ou tal expressão, é capaz de deduzir as causas e de dar as razões internas dessas manifestações exteriores.'' LAVATER, J.G. La physiognomonie ou l’art de connaître les

hommes d’après les traits de leur phisionomie, leurs rapports avec les divers animaux, leur penchants etc.

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Benzer Belgeler