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II. ÂġIK ALĠBOĞLU’NUN ġĠĠRLERĠNE GENEL BĠR BAKIġ

II.3. ġiirlerinde ĠĢlediği Konular

A obra Ilusões perdidas, de Honoré de Balzac, é composta de três romances que, inicialmente, foram publicados separadamente. A primeira parte, intitulada Ilusões perdidas, compunha a ultima parte do conjunto intitulado Études des moeurs du XIXe siècle (Estudo dos costumes do século XIX), composto por doze volumes in 8, repartidos em: Scènes de la vie de province (Cenas da vida de província ), Scènes de la vie parisienne (Cenas da vida parisiense) e Scènes de la vie privée (Cenas da vida privada ) que havia sido vendida para a editora senhora de Béchet. Em 1837, Edmond Werdet (1795-1869) compra a propriedade da obra, composta de cinco capítulos, e a publica com o título Ilusões perdidas. Os capítulos 17 Comment se font les petits journaux (Como se fazem os pequenos jornais) e 18 Le Souper (A Ceia) que compõem a segunda parte, intitulada Un grand homme de province à Paris (Um grande homem de província em Paris), escrita em 1839, foram publicada parcialmente no jornal La Presse, seguido por L'Estafette.

Em junho de 1838, Hippolyte Souverain (1803-1880) coloca à venda os dois volumes de Un grand homme de province à Paris (Um grande homem de província em Paris), seguido de um prefácio em que o autor anuncia a terceira parte, que tem como título Les Souffrances de l'inventeur (Os sofrimentos do inventor ). Com o final do

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prazo, Balzac escreve a terceira parte na gráfica de Giroux, em Lagny. Desta maneira, é publicada como um folhetim, com o título de David Séchard ou Les Souffrances de l'inventeur (David Séchard ou o Sofrimento do inventor), a terceira parte, em 1843, em dois jornais. Em junho de 1843, depois de ter sido publicada a terceira parte do romance como romance de folhetim, no jornal L’État (O Estado) e Le Parisien-l’État (O Parisiense e o Estado), as três partes que compõem o romance foram reunidas e publicadas por Charles Furne, (1794-1859), Jacques-Julien Dubochet (1798-1868) e Pierre-Jules Hetzel (1814-1886). Uma outra publicação separada de David Séchard é publicada, em dois volumes in 8, pelo editor Dumont em 2 de março de 1884.39

Esta configuração de publicação, dividida em várias edições, denuncia a mudança no que concerne à relação do livro com os jornais e a lógica capitalista. A mudança de regime de publicação dos textos literários que se instaura - passando de uma publicação em livros, para uma publicação periódica, o que configura uma grande aproximação junto ao jornal - revela características que contribuem para o entendimento do campo literário francês da época. Era mais lucrativo, para os editores e donos de jornal, dividir uma obra em várias partes e a vender separada e periodicamente, em jornais. Essa nova era caracteriza-se pelo jornal acessível a todas as classes sociais, sedentas de notícias que se repetiam e vendiam diariamente. Neste sentido, Frédéric Barbier afirma:

A partir do último quarto do século XVIII, a produção de livros que tratam dos temas que chamamos de atuais (e, sobretudo, relatos de viagens) aumentam de maneira muito sensível; ao mesmo tempo, a imprensa periódica conhece igualmente um crescimento espetacular, de tal maneira que, através desse duplo movimento, percebe-se

39 Cf. Illusions perdues (1837-1843) Histoire du texte. Disponível em: http://www.balzac-etudes.paris-

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realmente uma mudança profunda na sociedade francesa como um todo, relativamente à necessidade de informação.40

Com o aumento do número de jornais, que constituem o meio de comunicação periódica mais popular da época, o ''suporte de uma representação do mundo''41, há uma pressão sobre a literatura, que se aproveita da estrutura periódica de comunicação do jornal para a sua difusão. Vemos, então, o advento do romance de folhetim, em 1836. Tem-se, nesta época, um dificílimo convívio entre o discurso jornalístico e o discurso literário:

No entanto, a coincidência dos dois sistemas discursivos, suas proximidades, explicam fenômenos constantes de contaminação, o jornal toma emprestado da literatura os seus modos poéticos, a Literatura recupera de forma deslocada todos os procedimentos de vocalização e de validação da informação.42

Este cruzamento entre os discursos constitui uma mudança, tanto no espaço jornalístico, quanto no literário, que lança mão do jornal para sua difusão, mas torna-se uma literatura essencialmente crítica, principalmente em relação às pressões exercidas pelos editores e donos de jornal sobre os escritores.43 Podemos citar dois outros

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''À partir du dernier quart du XVIII siècle, la production des livres traitant de ce que nous appellerions des sujet d'actualité (et notamment les récit de voyages) augmentede façon très sensible; dans le même temps, la presse périodique connaît également un développement spectaculaire, de telle sorte que, à travers ce double mouvement, nous percevons en fait un changement profond de l'ensemble de la société française vis-à-vis du besoin d'information.'' BARBIER, F. Les innovations technologiques. In: CHARTIER, Roger & MARTIN, Henri-Jean (sous la direction de). Histoire de l'édition française. Le livre triomphant 1660-1830. Paris, Promodis, 1990. p. 722.

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''le journal devient rapidement le principal système discursif, support d'une représentation du monde.'' THÉRENTY, 2007 , p. 18.

42 ''Pourtant la coincidence des deux systèmes discursifs, leurs proximités, expliquent des phénomènes

constants de contamination, le journal emprutant à la littérature ses modes poétiques, la Littérature récupérant en les décalant tous les procédés de mise en voix et de validation de l'information.'' THÉRENTY, 2007, p. 15.

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romances da literatura francesa, além de Ilusões perdidas, onde encontramos uma crítica em relação à imprensa do século dezenove, são eles: Charles Demailly (1860), dos irmãos Goncourt e Bel-Ami (1885) de Guy de Maupassant (1850-1883).

Tal interseção marca a literatura da época, que se torna um espaço de discussão e reflexão sobre os problemas sociais e produz o nascimento de um novo gênero: o romance de folhetim. O jornal, ao mesmo tempo, absorve o caráter poético do campo literário, produzindo o que Thérenty denomina poética do cotidianoque:

se diferencia profundamente dos protocolos eficazes da escritura jornalística, que é dominada e praticada de maneira bastante uniforme, hoje em dia, pela maior parte dos profissionais da imprensa que fizeram ''estudos do jornalismo''.44

Três momentos marcam a construção do estatuto profissional do jornalista e a total separação da escrita jornalística da literatura. Antes da abertura de cursos de jornalismo, existiam livros para o estudo da escrita jornalística, mas só em 1928 temos a criação, na França, da primeira escola de jornalismo, em Lille. Em 1930, a ideia de que o jornalismo é uma profissão, é legitimada. Mas, somente em 1935, o jornalismo ganha seu estatuto profissional, ''desligando-se'', desta maneira, da literatura.

O jornal do século XIX difere daquele do século XVIII, uma vez que neutraliza a retórica para usar algumas formas reservadas, em um primeiro momento, aos escritores:

A passagem do século XVIII ao século XIX desenha, aliás, claramente uma mudança de modelo: o jornal se alimenta cada vez menos da

44 ''(...) qui difère profondément des protocoles efficaces d'écriture du journal, maîtrisés et pratiqués assez

uniformément aujourd'hui par la plupart des professsionels de la presse qui ont suivi des ''études de journalisme.'' THÉRENTY, 2007, p. 11.

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retórica para trabalhar outras formas tradicionalmente reservadas ao grupo dos escritores: a ficção, a conversação, a autobiografia.45

Como já demonstrado na página anterior a respeito de Balzac o jornal torna-se, além de um espaço de publicação para os autores, um empreendimento atrativo no que concerne o lucro e a difusão de seus textos. Outros autores da época como George Sand (1804-1876), Alphonse de Lamartine (1790-1869) Alexandre Dumas (1802-1870) e Théophile Gautier (1811-1872) publicavam eventualmente em jornais. Assim como Balzac, que compra a Chronique de Paris em 1836 e a Revue parisienne em 1840, fazendo ''do periódico um tipo de universo conexo da Comédia humana.''46 A geração romântica é caracterizada como a primeira ''tocada massivamente pela febre periódica.''47

Este movimento circular, de interação mútua, entre o jornal e a escrita literária resulta em textos jornalísticos mais poéticos e literários de um lado, e do outro em uma ''veracidade'' nos fatos descritos pelos autores da época, sempre encobertos pelo véu da ironia, das metáforas. A inserção da literatura no jornal leva-o a um abandono periódico dos códigos retóricos utilizados nos textos jornalísticos. Este toma emprestado dos escritores literários a preocupação estética.

Em Ilusões perdidas, Balzac descreve o que poderíamos denominar de imprensa literária, sem deixar, evidentemente, de abordar a situação do ''jornalista'' que era obrigado a se posicionar de acordo com as ideias políticas e interesses financeiros

45 ''Le passage du XVIIIeme siècle au XIXeme siècle dessine d'ailleurs nettement un changement de

modèle: le journal s'alimente de moins en moins à la manne rhétorique pour travailler d'autres formes traditionnellement réservées aux gens de lettres: la fiction, la conversations, l'autobiographie.'' THÉRENTY, 2007, p. 12.

46 ''(...) du périodique une sorte d'univers connexe de la Comédie humaine.'' THÉRENTY, 2007, p. 13. 47

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da folha na qual este publicava, mesmo que para isso, traísse suas posições políticas. O escritor-jornalista encontra-se completamente dependente da ideologia do jornal e tem ameaçada sua integridade. Balzac denuncia esta ameaça à dignidade e a dependência do escritor em relação à imprensa, que piora com a invenção do romance de folhetim em 1836. Esta época marca a literatura:

dont le sort est désormais lié à celui de la presse périodique, n'a été si dépendante des capitaux qui contrôlent les quotidiens. Les écrivains vendaient des livres; les journaux achètent maintenant les écrivains.48

Com o rei Luis Filipe, a burguesia ascende ao poder e demanda uma literatura moral e de fácil acesso, que não exija um conhecimento prévio para ser entendida e que, principalmente, discuta o cotidiano. A literatura que exprime os devaneios do autor, como Les rêveries du promeneur solitaire (1778) (Os devaneios do caminhante solitário) de Rousseau, ou os textos de teatro são gêneros colocados de lado por leitores ávidos de informação e pouco cultos, assim como a poesia, que era vendida para os intelectuais, representantes de uma parte restrita da sociedade. Com essa configuração no mundo da edição, os escritores se encontram submissos ao gosto do público e às imposições das editoras que sugerem o assunto e o gênero que estivessem na moda e que impõem prazos de entrega. No romance Ilusões perdidas, o autor critica essa submissão dos autores provocada pela mudança na configuração do campo literário através da fala do editor Dauriat:

Depuis deux ans, les poètes ont pullulé comme les hannetons (...). À quiconque m'apportera des manuscrits, vous demanderez si c'est des

48 ''cuja sorte está a partir de agora (1836) ligada àquela da imprensa periódica. A literatura nunca foi tão

dependente dos capitais que controlam os quotidianos. Os autores vendiam livros; os jornais, agora, compram os escritores.'' CH, t. V, p. 1134.

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vers ou de la prose. En cas de vers, congédiez-le aussitôt, les vers dévoreront la librairie.49

É interessante assinalar o jogo de palavras presente na última frase da citação. Aqui, Balzac brinca com a palavra vers que significa ''verso'' e ''verme'' em francês, mostrando com rigor, a transformação da literatura e seu caráter monetário. Este passagem revela de que maneira a literatura estava sendo orientada por instituições comerciais, interessadas em lucros, que obrigavam os autores a aceitar essa situação para conseguir viver.

Balzac começou sua carreira querendo ser autor de teatro, mas, considerando esta configuração capitalista, muda de ideia. A produção de romances cresce de maneira gigantesca, pois era um gênero capaz de interessar a maioria da população leitora. A imposição de um prazo de entrega também opera uma fratura entre a ''literatura desinteressada'' do século XVIII e a ''literatura lucrativa''50 do século XIX e muda a configuração das relações entre obra (autor)-editor-impressor, como podemos perceber no ensaio de Balzac intitulado De l’état actuel de la librairie (Sobre o estado atual da edição), publicado em 1830 no Feuilleton des journaux politiques, provavelmente no primeiro volume difundido, no dia três ou dez de março de 1830,51 que será discutido no próximo capítulo.

49 ''Há dois anos, os poetas pululam como os besouros (...). A qualquer pessoa que me trouxer os

manuscritos você perguntará se se trata de verso ou de prosa. Se for de verso, dispense-o o mais rápido possível, os versos devorarão a edição.'' CH, t. V. p. 361.

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Cf. BIED, R. Le monde des auteurs. In: CHARTIER, Roger & MARTIN, Henri-Jean (sous la direction de). Histoire de l'édition française. Le livre triomphant 1660-1830. Paris, Promodis, 1990. p. 777.

51 Na introdução às notas do ensaio De l’état actuel de la librairie, os autores Roland Chollet e René

Guise advertem que a autoria desse texto foi atribuída a Balzac em função de pesquisas feitas em cartas que comprovam tal fato. E a data é também uma hipótese baseada em estudos. OD, t. II, p. 1480.

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Em Ilusões perdidas, tem-se um grande exemplo das relações entre o mundo da edição e a imprensa, o tema central do livro envolve discussões vivas na sociedade da época. Tais como o tema, por exemplo, do jovem que deixa a província para tentar a vida em Paris e que é extremamente atual no século XIX.52 O segundo tema recorrente nesta sociedade e que aparece no romance Ilusões perdidas é a briga e as alianças entre os editores, os donos de jornal e os homens de letras. Tal tema será interrogado na próxima seção. Entre os exemplos citados acima, existem outros, como aquele de Curé de village (1839) (O cura da aldeia) que se apoia nos artigos contemporâneos de La Presse (A Imprensa), onde Balzac publicava seu romance. Em Um grande homem de província em Paris, percebemos a dramatização do problema comercial analisado em seus textos sobre a edição e o diálogo entre sua obra romanesca e sua obra jornalística, que operam entre os sistemas de realidade e verdade. Isso quer dizer que em ambos os gêneros, seja o romanesco ou o discurso jornalístico o autor opera no critério alético, ou seja, ele trata da história que aconteceu, da realidade. Porém, o gênero romanesco permite que a história seja modificada. Este gênero está preocupado com a verdade, que opera no mundo do discurso. No extrato a seguir, da Poética de Aristóteles, esta questão é desenvolvida. Podemos prolongar a noção de ''poeta'' e compararmos com a do ''escritor'':

Não é tarefa do poeta dizer o que ocorreu, mas o que poderia acontecer, as coisas possíveis conforme a verossimilhança ou a necessidade. O historiador e o poeta não diferem pela métrica ou pela

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Cf. BERTHIER, P. Le thème du ''grand homme de province à Paris'' dans la presse parisienne au lendemain de 1831. In: DIAZ, José-Luis & GUYAUX, André (editores). Illusions perdues. Paris, Presses de l'Université de Paris-Sorbonne, 2003. p. 25-50.

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ausência dela (...), mas diferenciam-se por isso, por que um diz o que aconteceu e o outro o que poderia acontecer.53

Este fato pode ser exemplificado na passagem de Ilusões perdidas em que o editor Dauriat (que seria o personagem inspirado pelo editor Panckoucke) visita Lucien e Coralie:

Le commerce de la librairie dite de nouveautés se résume dans ce théorème commercial: une rame de papier blanc vaut quinze francs, imprimée, elle vaut, selon le succès, ou cent sous ou cent écus.54

Esses exemplos mostram que a escrita balzaquiana se alimentava dos jornais e explica o modo como se dava a circulação de ideias, nesta época, na França. A circulação das ideias se estabelecia através de um diálogo constante que impactava e definia características comuns ao romance e à imprensa. Nascia um novo modo de escrita jornalística, pautada em elementos literários, como por exemplo, a digressão; e uma escrita romanesca que discutia os problemas sociais debatidos na imprensa.

Vemos esse debate encenado em Um grande homem de província em Paris, em repetidos trechos como esse em que, após mais uma tentativa de venda frustrada de seu romance L'archer de Charles IX a dois editores-comissionários, Lucien tem mais uma decepção com a situação da edição e da literatura em Paris: ''Eu me enganei'', diz a si mesmo, surpreso, entretanto, pelo aspecto brutal que alcançava a literatura.''55

53 Poética, 1451 a36 (IX, 1-10). Citado por CAIRUS, 2010. p. 4. 54

''O comércio da edição chamada de novidades se resume neste teorema comercial: uma rama de papel branco vale quinze francos, impressa, ela vale, de acordo com seu sucesso, ou cem centavos ou cem escudos.'' CH, t. V, p. 451.

55 ''Je me suis trompé'', se dit-il, frappé néanmoins du brutal et matériel aspect que prenait la littérature.''

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Benzer Belgeler