A presente pesquisa foi realizada em uma escola privada de grande porte da cidade de Parnaíba-Piauí, voltada à educação de crianças, jovens e adultos. Como citado anteriormente, fazer a pesquisa no próprio local de trabalho se tornou a opção mais viável e pertinente, tendo em vista a possibilidade de uma pesquisa-intervenção e a riqueza de discussões que poderiam ser feitas a partir desse lugar de pesquisadora/profissional.
Essa não foi uma escolha fácil, ao se pensar nas ciladas que poderiam surgir, mas por outro lado, existia o encantamento ao pensar nas possibilidades de criação, transformações e mudanças de práticas e de modos de lidar e enxergar a infância em um cenário do qual se fazia parte. Nesse momento, faz-se necessário trazermos um pouco da trajetória acerca da definição desse lugar de profissional e pesquisadora.
época, a escola funcionava em dois espaços diferentes: sede e anexo, devido à reforma que vinha sendo feita na sede. O espaço considerado sede era muito pequeno e escuro, em que prevaleciam salas de aula criadas no improviso e quase sem nenhum espaço de socialização. Já o anexo, ocorria em uma escola pública estadual cedida pelo governo. Diferente do outro espaço, a escola cedida era ampla, com muitas salas, pátios e áreas abertas.
No primeiro dia em que visitei a escola, fui encaminhada à sala do diretor para que ele me desse as boas vindas e explicasse a minha função naquele local. Havia um ano que eu tinha realizado o processo seletivo para trabalhar na instituição, no entanto, a vaga era pra ser psicóloga de um projeto desenvolvido pela empresa. Em conversa com o diretor, descobri que não seria psicóloga do referido projeto, pois a escola estava necessitando da presença de profissional da área para dar conta das demandas existentes lá.
Observei que, anteriormente, não havia estado nenhum profissional da área atuando na escola, pois a chegada e presença de uma psicóloga pareciam novidade para boa parte da equipe. Primeiramente, ordenaram: “Você vai para a Saúde!”, referindo-se ao espaço de saúde que também faz parte da instituição, mas localiza-se fora da escola, onde atuam médicos e odontólogos. Quando as coordenadoras compareceram à sala do diretor, já deram outro veredito: “Não! É aqui que ela tem que ficar, para saber o que está ocorrendo”. E foi assim, que cheguei e me inseri nesse espaço, ainda que transparecendo a ideia de um “não lugar” e estando, mais uma vez, vivenciando esse híbrido saúde-educação.
A escola conta com aproximadamente 1.200 alunos matriculados e um quadro de cinquenta professores e cinco coordenadores pedagógicos, entre outros profissionais da área administrativa e técnicos, que se dividem nos segmentos da Educação Infantil, Ensino Fundamental I, Ensino Fundamental II, Ensino Médio (EBEP - Educação Básica com Educação Profissionalizante) e Educação de Jovens e Adultos (EJA).
Logo que iniciei meu trabalho, indicaram que eu realizasse atendimentos individualizados aos alunos e prestasse orientações aos familiares. Uma lista com uma quantidade expressiva de alunos me foi repassada, a fim de que eu desse conta e buscasse estratégias para melhorar o desempenho daqueles considerados “alunos-problema”. Foi percorrendo esse caminho que iniciei minha trajetória na escola, buscando mostrar, aos poucos, as possibilidades de inserção da psicologia dentro do espaço escolar e delimitando o meu lugar, que de início estava confuso.
Historicamente, esse lugar confuso da psicologia inserida no espaço escolar é demarcado pelo fato dessa área de atuação ter se caracterizado, inicialmente, como um
desmembramento da psicologia clínica. A psicologia, situada nesse contexto, passou a ser vista, muitas vezes, a partir da perspectiva da prevenção e do ajustamento, buscando evitar ou afastar a ocorrência de certos fenômenos nesse espaço e de ajustar ou adaptar aqueles alunos considerados “problemas” ao ambiente e normas estabelecidas (PATTO, 1987).
Partindo dessa perspectiva, o psicólogo escolar era visto e se colocava neste lugar, em alguns momentos, como um portador de soluções mágicas ou salvador para determinadas dificuldades que surgiam no espaço escolar, ou até mesmo uma figura ameaçadora a que cabia apontar, julgar e decidir sobre certas situações. Ainda encontramos vestígios desse cenário no contexto contemporâneo, que acaba por nos trazer pistas para o entendimento da produção de alguns fenômenos no espaço escolar, em que as práticas psicológicas estão atravessadas na existência e manutenção dos mesmos, como, por exemplo, a medicalização do fracasso escolar. No próximo capítulo, voltaremos a tocar nessa questão, trazendo dados mais específicos que servem como analisadores desse contexto.
Passamos por volta de um ano funcionando em dois locais: sede e anexo. Na sede, ficavam as turmas de Educação Infantil e as turmas de 1º e 2º ano do Ensino Fundamental I, pela manhã, e Ensino Médio, no turno da tarde. Já no anexo, ficavam as demais turmas de Ensino Fundamental I pela manhã e, à tarde, as turmas de Ensino Fundamental II. Organizava-me para estar em ambos, auxiliando nos processos de ensino e aprendizagem e adequando-me à proposta pedagógica da escola que defende uma “educação para a vida e para o mercado de trabalho”.
No ano de 2016, a reforma que vinha sendo feita na sede foi concluída e, logo, toda a equipe voltou a estar junta. Após o processo de reforma e ampliação, a escola passou a ter um espaço físico amplo, bem projetado, acessível e com uma quantidade significativa de recursos. Atualmente, as salas de aula são bem espaçosas, iluminadas e climatizadas. Além delas, existem salas voltadas a projetos, espaços de convivência, auditório, quadra poliesportiva, brinquedoteca, parque infantil, biblioteca, consultório odontológico, espaço de alimentação e serviço de nutrição e, por fim, o serviço de psicologia escolar e psicopedagogia, em que mantemos contato mais próximo e desenvolvemos ações articuladas.
A partir desse trecho do diário de campo, trago mais características do espaço físico da escola:
Depois da inauguração, passei a ter uma sala: a sala do Serviço de Psicologia Escolar. A sala fica no primeiro andar do chamado “prédio”, que é o espaço de entrada na escola. É uma sala ampla, climatizada, com mesas e cadeiras, armários, computador e com muitos jogos e brinquedos. No primeiro andar, juntamente com
minha sala, tem o auditório, a sala de projetos e pesquisas educacionais, a sala da psicopedagogia, banheiros, a sala da coordenação pedagógica de educação para o trabalhador e a sala de reuniões. Na parte térrea do prédio fica a recepção, a biblioteca, a secretária, a direção da escola, o setor financeiro e administrativo, banheiros, copa e a sala dos professores. Perto da minha sala existe um janelão com uma fachada, em que é possível visualizarmos grande parte da escola. Estando nesse espaço, lembro-me do Panóptico, modelo arquitetônico desenvolvido por Jeremy Bentham e descrito por Michel Foucault ao tratar das sociedades disciplinares. Se é no prédio que ficam algumas “figuras de poder” da escola, é do seu alto que é possível enxergar e fazer o controle do que ali acontece. É por lá também que vemos a beleza da escola e sua imensidão. É possível visualizar o imenso jardim com grama, flores e árvores; as salas de aula, a sala da coordenação pedagógica e a rádio da escola, todas em seu entorno; os bancos nas pequenas pracinhas e o pátio com as crianças brincando. Após o pátio estão as salas da Educação Infantil, em um espaço colorido e lúdico. Depois vem o playground infantil e a quadra de esportes. Do outro lado temos os laboratórios de ciências e de robótica, a sala do Lego Educacional, salas de projetos por área e o consultório odontológico (DIÁRIO DE CAMPO - 30.05.2016).
Figura 4 - Vista panorâmica da escola
Figura 5 - Sala do serviço de psicologia escolar
Fonte: Arquivo pessoal da pesquisadora.
Figura 6 - Sala do serviço de psicopedagogia escolar
É importante destacar que, além do espaço físico, a escola se mostra também como um campo de forças. A cartografia, nesse sentido, auxilia-nos a investigar o coletivo de forças presente nesse espaço, cabendo ao pesquisador implicado apreender esses movimentos de apropriação e invenção da vida. Acerca disso, Barros e Kastrup (2015) pontuam que:
A prática da cartografia não visa isolar o objeto de suas articulações históricas nem de suas conexões com o mundo. Ao contrário, o objeto da cartografia é justamente desenhar a rede de forças à qual o objeto ou o fenômeno em questão se encontra conectado, dando conta de suas modulações e de seu movimento permanente (p.57).
Desse modo, analisamos quais as forças presentes nesse campo que contribuíram para a produção e surgimento dos processos de medicalização do fracasso escolar. Em campo, encontramos pistas que nos auxiliaram nesse entendimento e que estão relacionadas com questões como: a relação escola e família, relação professor e aluno, desgaste do trabalho docente, tempo de serviço, presença do especialista no espaço escolar, disseminação do saber médico no contexto social, dentre outras. No próximo capítulo traremos discussões referentes a essas pistas a partir de cenas vivenciadas em campo, que também nos serviram como analisadoras desses processos.