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A tarefa de análise é um aspecto que ganha relevo em uma cartografia, uma vez que esse modo de pesquisar compromete-se de maneira significativa com esse processo. De acordo com Rodrigues (2012), na pesquisa cartográfica toda análise consiste em análise de implicação e busca gerar problematizações acerca de uma dada realidade, pois o que move a análise na cartografia são os problemas.

A análise na perspectiva cartográfica pode partir de um objeto com contornos precisos, mas gradualmente esse objeto vai se decompondo em partes que lhe constituem e a análise alcança as múltiplas relações envolvidas em sua produção. Ou seja, “a análise se efetiva a partir da decomposição de uma totalidade em elementos que a compõem” (BARROS; BARROS, 2014, p. 178). O método analítico consiste, assim, em dar visibilidade às relações que constituem uma dada realidade, na qual o pesquisador encontra-se inserido e implicado.

Desse modo, em nossa cartografia não buscamos analisar o fenômeno do fracasso escolar e da medicalização como algo com contornos precisos, fechado e acabado. Pelo contrário, buscamos investigar as relações que estavam por trás dessa produção no ambiente escolar, permitindo com isso uma análise que envolve a heterogeneidade e a criação de problemas no campo de investigação. Por isso, não realizamos uma análise para gerar respostas, mas, sobretudo, para problematizarmos os discursos e práticas que colaboram com a existência desses fenômenos no contexto educacional.

Ao entrarmos em campo vamos encontrando pistas que nos servem como analisadores dos processos que estamos acompanhando no espaço escolar. A partir desses analisadores, é que, efetivamente, iniciamos a análise na pesquisa cartográfica. A análise implica atitude, é ethos analítico e se faz por problematizações e por sua dimensão participativa (BARROS; BARROS, 2014).

A postura analítica, desse modo, vai questionar a naturalidade do objeto, dos sujeitos, dos saberes, da pesquisa e das relações que se estabelecem naquele território. Isso ocorre, pois na perspectiva cartográfica não tomamos uma realidade como algo dado e natural, mas sim como forma a ser posta em questionamento e análise.

Arriscar-se numa experiência de crítica, de análise de formas instituídas nos compromete politicamente. Tal operação de análise implica a desestabilização das formas instituídas e acessa o plano de forças a partir do qual a realidade se constitui, devolvendo-a ao plano de sua produção, que é o plano coletivo, heterogêneo e heterogenético, que experimenta incessantemente, diferenciação. (BARROS; BARROS, 2014, p. 181).

Desse modo, em nossa cartografia foi possível problematizarmos certas realidades a fim de produzirmos deslocamentos. Nossa análise iniciou-se a partir da criação de alguns analisadores, que nos trazem indícios de como se dá a produção do fracasso escolar e do “aluno-problema” naquele espaço. Assim, nosso objeto de estudo foi decomposto e visto a partir das forças, redes e rizomas que o constituíam, entrando em análise aspectos como: relações de saber/poder no espaço escolar, a relação professor-aluno, a relação família-escola, o lugar do especialista, o desgaste e silenciamento do trabalho docente. No próximo capítulo, falaremos sobre cada um desses aspectos, que se destacaram em nossa paisagem cartográfica.

DO APRENDER AO FAZER PEDAGÓGICO: A MEDICALICAÇÃO NO/DO ESPAÇO ESCOLAR

Figura 10 - Charge do cartunista Frato (1989)

4 DO APRENDER AO FAZER PEDAGÓGICO: A MEDICALICAÇÃO NO/DO ESPAÇO ESCOLAR

Queridos leitores,

cada vez mais assistimos a medicalização se alastrar em vários âmbitos da sociedade tentando tratar, minimizar, silenciar e aniquilar sentimentos e ações que fazem parte da vida, como: tristeza, euforia, agitação, dificuldade de concentração, baixa autoestima, o não aprendizado, dentre outros.

O termo medicalização tem sido utilizado em várias perspectivas: por um lado, a medicalização passa a ser vista como um fenômeno em que a racionalidade médica se mostra como força produtora de discursos que definem modos de ser e estar no mundo (CHRISTOFARI; FREITAS; BAPTISTA, 2015). Por outro lado, muitas pessoas a relacionam com o ato de medicar, no entanto, esse se constitui apenas um braço desse processo.

Quando tratamos da medicalização no espaço escolar, um dos âmbitos no qual ela vem se inserindo, não nos referimos somente aos processos que envolvem crianças e adolescentes, mas sim a um fenômeno que vai desde os fatores que envolvem o aprendizado até aqueles relacionados com o fazer pedagógico e a prática docente.

Desse modo, observamos que a escola tem se mostrado como lócus privilegiado desse processo de medicalização, uma vez que é lá que esse dispositivo se potencializa, ganhando intensa visibilidade por meio da classificação, normalização e gestão de condutas.

Neste capítulo, trazemos alguns acontecimentos que ganharam relevo em nossa cartografia e se mostraram como analisadores dos processos de produção do fracasso e do “aluno-problema” no espaço escolar. Buscaremos, assim, articular esses acontecimentos e dados produzidos em campo com as discussões teóricas trazidas pela literatura sobre a temática.

O capítulo constará de quatro subseções:

a) “A invenção da escola e o governo da infância: das estratégias de normalização disciplinar e controle biopolítico”, na qual falaremos da constituição da escola como um espaço que desde seu surgimento é orientado por estratégias de saber/poder;

b) “A produção do fracasso escolar: um campo com múltiplas entradas e saídas”, em que este fenômeno será visto como uma produção que envolve múltiplos fatores e sendo discutido a partir de três instâncias: individual, familiar e

pedagógica;

c) “O lugar do especialista e a incidência do discurso médico-psicológico no campo educacional”, abordando sobre os discursos científicos e midiáticos que adentram o espaço escolar trazendo uma racionalidade médica e sobre a presença do especialista neste campo e suas implicações na produção destes fenômenos;

d) “A escola contemporânea e a gestão da vida”, onde discutiremos os impasses que envolvem o cenário educacional contemporâneo, assim como as condições de trabalho docente que, em alguns momentos, colaboram com o enfraquecimento do potencial de criação e formação dessa área.

4.1 A invenção da escola e o governo da infância: das estratégias de normalização

Benzer Belgeler