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1.2. Sağlık Okuryazarlığı

1.2.5. Sağlık Okuryazarlığının Değerlendirilmesi

Não lembro a primeira vez que senti aquele cheiro forte e enjoativo que vinha sabe- se lá de onde. Era criança e esbarrava com aquele odor quando passava pela Mister Hull em direção à praia do Pacheco, já no município de Caucaia. Cresci com aquilo – eram muitos os domingos de praia – e toda vez que me aproximava da pista grande, saindo de Fortaleza, tapava o nariz e ficava emburrada antevendo o mal-estar. O tempo passou – nem eu mesma sabia – mas aquela sensação de criança ficou guardada.

Ao programar os dias em que eu teria de estar no Antônio Bezerra por conta da pesquisa que começara, vi-me resmungando: “lá vou eu ter que conviver com aquela catinga.”. Pensar no cheiro adocicado da castanha sendo industrializada causava-me náuseas. A lembrança era difusa – não tinha certeza da exata localização da fábrica Cione, que beneficia castanha – mas o embrulho do estômago era bem concreto. Curioso como as recordações acordam nossas emoções e mexem até com sensações físicas.

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O fato é que iniciei minha pesquisa e o contato com o bairro me levou a prestar atenção em outras coisas. Além disso, ia para o Antônio Bezerra, mas não esbarrava com aquele cheiro. Isso se tornou tão frequente que esqueci de vez aquela lembrança infantil e por um segundo pensei que a fábrica fosse longe dali. Acontece que minhas visitas se concentraram na parte central do bairro; há uma distância segura da segunda sede da fábrica, mais no final de Fortaleza.

O andamento da minha investigação levou-me a ir diversas vezes ao bairro. Era necessário sentir aquele cotidiano quando o ritmo do mundo do trabalho era mais feroz e passei a caminhar pelo bairro e a marcar entrevistas em vários dias da semana. Mas, sempre fazia de forma rápida o percurso entre o Terminal de Ônibus do Antônio Bezerra (a Cione tem uma sede também quase em frente) e o banco Bradesco, ponto de referência que eu utilizava para me orientar e encontrar as ruas Martins Neto, Hugo Vitor e Salgado Filho.

Certo dia, porém, resolvi flanar pelo bairro. Tinha objetivos muito claros: encontrar as construções citadas pelos meus interlocutores e tentar encontrar naqueles lugares as descrições que os moradores me fizeram. Naquele dia, eu me dedicaria a andar, queria encontrar a antiga fábrica de algodão, a igreja Jesus, Maria e José, o posto de saúde da Hugo Vitor, o cartório e a delegacia. Iniciei meu percurso a partir do Bradesco, decidi “ir subindo” até chegar à fábrica de algodão que seria minha última parada. Aquele caminho era estratégico porque pelo que me disseram a antiga fábrica ficava próxima ao viaduto, bem perto do terminal onde eu pegaria o ônibus de volta para casa.

A primeira sensação que guardei foi da solidão que senti enquanto andava pela Mister Hull. Havia carros, motos e alguns policiais em frente à delegacia, que parecia organizada. Todo aquele aparato me inibiu até de dizer bom dia ou tirar fotos. Passei devagar, olhando de soslaio e confesso que senti certo alívio por minha pesquisa não ter a violência como foco. Lembrei-me do aparelho repressor de Althusser e segui adiante, respirando fundo.

O cartório, próximo à delegacia, também não me atraiu, apesar de não ter me causado medo. A impessoalidade daquela construção cheirava à burocracia e me deu tédio... Continuei andando e as poucas palavras que troquei foram muito mais para pedir informações sobre o caminho do que para colher novas impressões sobre o bairro. Naquele andar, vivenciava a relação indivíduo-cidade-cotidiano e sentia que aquela não era “as minhas áreas”, o meu pedaço.

O posto de saúde estava cheio, muita gente esperando para ser atendida. Mas, havia também alguns comerciantes vendendo água, lanches e bombons. A fachada em verde claro e branco, do prédio, pareceu-me nova. Mas o olhar resignado e triste de algumas senhoras deixou

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evidente a precariedade do serviço público de saúde. Também não fiquei ali... No posto, o que me afastou foi o choque com o real.

Andar às margens de uma avenida como a Mister Hull requer atenção, ônibus e carros passam tão rentes que parecem nos levar. As calçadas irregulares – que ficam piores com os buracos, lixo e carros estacionados – não ajudam muito. E não deu mesmo para flanar, aliás, houve momentos em que tive que me concentrar no chão para ver onde pisava...Foi pensando nesse rali que cheguei até a pracinha da igreja Jesus, Maria e José.

Parei na banca de revista, comprei água e conversei com o vendedor e um senhor que estava com ele. Perguntei da fábrica de algodão. Eles sabiam pouca coisa, mas o senhor me disse que morava no bairro há mais de 18 anos e desde que fora para lá, aquela “fábrica já estava destruída”. Falei de minha intenção em ir lá, eles tentaram me desencorajar, dizendo que era perigoso mesmo de dia, que lá ficavam “muitos drogados e marginais”. O mesmo discurso de uma depiladora do bairro, que uns dias antes havia me dito: “ir lá é querer sair sem as calças”. Fiquei com receio, saí da banca e procurei uma sombra na pracinha. Sem me aperceber, estava em frente à igreja que estava fechada, olhei pra ela e me lembrei das capelas simples do interior. Embora fosse a primeira vez que parava naquela praça, eu me senti confortável. As sombras das árvores me deram certo alento e eu pensei: “que seja! Vou lá.” Saí, mas antes guardei, bem no fundo da minha bolsa, meu relógio, máquina fotográfica e celular.

O sol refletido naquelas paredes sem teto ofuscava a vista e a primeira imagem que tive foi de um “lugar branco”. Aos poucos, minha vista foi se acostumando, o lugar estava vazio, mas pelo chão, resto de roupas, fezes e lixo indicavam que pessoas haviam estado ali recentemente. Vi muitos escombros no chão. Algumas letras, pintadas nas paredes que se mantinham em pé, deixavam à mostra resquícios das propagandas que escondiam um tempo distante quando aquelas ruínas eram uma fábrica de beneficiamento de algodão, a Ceará Industrial36.

Nada ali lembrava a produção frenética do período em que a economia de Fortaleza se movimentava pelo ciclo algodoeiro. Contemplei o que restara daquele prédio, havia um desnível no meio da construção, que deixava o chão mais baixo. Aquela fábrica, cujo terreno de certo servia agora à especulação imobiliária, estava calada e parecia esperar sua demolição,

36 A Ceará Industrial, localizada ao lado do viaduto da Mister Hull, produzia farinha e óleo de algodão para

cozinha, entre outros produtos. “Foi adequada pelo BANCESA como pagamento de dívida da empresa, depois o banco faliu e até hoje está abandonada. Segundo lideranças políticas do bairro, ela foi comprada pela PMF para construção de uma escola, mas não existe certeza nisto.” (Valentim Santos, em conversa pelo Facebook, 07 de agosto de 2015).

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lenta e gradual. De alguma maneira, aquele abandono soava em meus ouvidos como um convite a voltar no tempo.

Passei por debaixo do viaduto, vi algumas pessoas em situação de rua; e andei alguns metros pensando sobre como teria sido aquele lugar. Quantas coisas e pessoas movimentara? Sem me dar conta, vi-me em frente ao muro da Cione e tomei um susto com sua imponência. Como um prédio tão grande passara despercebido por mim? Perguntava-me, afinal, não era a primeira vez que andava naquela calçada.

Atravessei a avenida e fui para o terminal. Antes, olhei mais uma vez para a Cione. Tive a breve sensação – que confesso não saber ao certo se foi real ou imaginária – de sentir o cheiro adocicado de castanha e de ver uma fraca fumaça no céu. Já da janela do ônibus, ao subir o viaduto, como todas as vezes que ali passara, vi as ruínas da fábrica de algodão. Agora, aqueles escombros falavam comigo, haviam ganhado significado.

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