Fonte: Arquivo da Banda Santa Cecília de São João del-Rei. As partes musicais impressas em papel cartão e medindo 17 cm x 13 em que os instrumentistas podiam guardar com facilidade e anexar no corpo do instrumento
para a leitura.541
Outra marcha citada pelo maestro Antônio de Pádua (filho de João Mariafra) como francesa é Jê dernier (?) que a Lira Lagoense possui e toca regularmente.542 Os sinais da presença da marcha fúnebre francesa são bastante evidentes apesar de os maestros demonstrarem pouco ou nenhum conhecimento desse fato. As Liras de Prados e Lagoa Dourada e a Banda Ramalho de Tiradentes tocam Uma Derradeira Homenagem – tradução de Um Dernier Hommage –, cujas partituras foram copiadas de material impresso na França.
Adhemar de Campos Neto (Adhemarzinho, como é conhecido em Prados) reconhece a origem francesa de duas marchas: uma chama Derradeira Homenagem,543 outra, Um Eterno Adeus,
541
No verso dessa partitura, veio impresso La Couronne d‟Immortelles/Marche Funèbre Op. 501, de outro francês, Blancheteau, música que nenhuma banda da microrregião toca. A música foi editada em Paris por Margueritat, Ed. Boulev. Bonne-Nouvelle, 21.
542
Esta é uma marcha exclusiva da Lira Lagoense. Não foi encontrada em outro arquivo das bandas da região e nem é reconhecida como sendo de João Mariafra.
543
Uma Derradeira Homenagem, ou Um Dernier Hommage, música composta por E. Marie, compositor francês do século XIX. Ainda não sabemos detalhes sobre seu nascimento e morte. Ele teve suas marchas editadas na França por Ve. Margueritat, Ed. Boule. Bonne – Nouvelle 21.
de autor desconhecido, mas, de autoria [origem] francesa, 544 que se misturam às 15 marchas que tocam na Semana Santa em que predominam os nomes de Antônio Américo, João Américo e Paulo Américo, todos da família Costa, uma das tradicionais da cidade de Prados.
Essa Derradeira Homenagem, segundo Adhemar, Até na morte do Kennedy [John Kennedy, ex- presidente dos EUA] foi tocada. Quem teve a oportunidade de ver o funeral do Kennedy, essa marcha foi tocada, quer dizer, não é brasileira, com certeza. É uma obra estrangeira.545
Partitura 8 – Um Dernier Hommage, de E. Marie.
Fonte: A parte pertencente à Banda Ramalho de Tiradentes foi copiada em Belo Horizonte por João Vicente de Faria em 18/1/1913.
Os fatos relatados mostram como essas músicas chegaram a outros países e ao Brasil e, aos poucos, se espalharam pelo interior, momento em que os nomes dos seus respectivos autores foram se perdendo. Os nomes dos autores franceses – por exemplo, E. Marie e Michel Bleger
–, os autores das marchas relacionadas pelo maestro pradense, são de reconhecimento restrito
apesar de constarem em catálogos de obras das editoras francesas destinadas às bandas de música.
Foram autores, certamente instrumentistas e mestres de banda, mais devotados à música popular do que figuras de destaque internacional como italianos autores de óperas. Esses
nomes de “figurões da cena lírica internacional”, de certa forma, conseguiram permanecer. No
544
Adhemar de Campos Neto, em depoimento a mim concedido em sua residência na cidade de Prados. 545
Idem. O maestro não considera a possibilidade de uma música composta por brasileiro ter sido levada para o exterior, realizando um movimento inverso ao que estão acostumados.
tocante à pesquisa, devemos considerar que os nomes dos compositores estrangeiros, de menor expressão, foram sendo apagados das partituras, restando-nos pouco ou nenhum vestígio nas partes musicais.
Partitura 9 – Parte do trompete (trompa) da marcha fúnebre Luge qui legis. Fonte: Arquivo da Banda de Música do 11º BIMth de São João del-Rei.
Dos italianos, ainda restam, nos arquivos da Banda do 11º Batalhão do Exército ou da Teodoro de Faria, páginas impressas na Europa de La Vestale e Luge qui Legis, escritas por Gasparo Luigi Spontini (1774-1851) e Gaetano Donizetti (1797-1848), respectivamente, ou Jone, extraída da abertura da ópera de mesmo nome de Enrico Petrella (1813-1877).546 Hoje, estão esquecidas nos arquivos e não têm sido utilizadas em suas apresentações. São, no entanto, testemunho da influência que tiveram os italianos na configuração dos repertórios desses conjuntos desde as duas últimas décadas do século XIX.
546
As três peças são trechos de óperas compostas antes de 1870. À sua obra, Gaetano Donizetti incluiu um trecho coral, algo incomum para esse gênero de música.
Figura 9 – Marce Funebri (marchas fúnebres).547
Muitas são as músicas de países estrangeiros que chegaram à microrregião são-joanense. A Estampa da Edição do Stabilimento Musicali Adolfo Lapini, de Firenze na Itália, nos fornece um conjunto importante de informações. As peças são fáceis e foram compostas sob inspiração do combate ocorrido entre a Itália e a Etiópia dentro da Guerra da Eritreia (1885- 1895). Em 26 de janeiro de 1887, os italianos saíram vitoriosos de um combate. Motivados, os maestros de banda – e compositores – se puseram a compor músicas em memória dos mortos em combate. Desse episódio, Saati e Dogali, terminado em 26 de janeiro daquele ano, surgiram pelo menos duas marchas que têm como título a data e o local do conflito: 26
547
Capa do conjunto de marchas fúnebres de autores italianos impressas em Firenze/Itália. Do italiano Pidale Bennati, não há informações suficientes. Certo é que foi músico militar e maestro da Banda de Música Belforte del Chienti desde o ano de 1882. Dele, há outra marcha fúnebre escrita para banda, denominada Lugete Veneres. O gosto pela composição de marchas fúnebres na Itália foi relevante na segunda metade do XIX. No país eminentemente católico, muitos escreveram marchas com os títulos Due Novembre e Fatalitá' (Dois de Novembro e Fatalidade), alusivas ao dia dos mortos e à fatalidade da morte.
Genaio, de Felice Bortolioni, e I Martiri di Dogali, de Pidale Bennati. As outras possuem títulos sugestivos: Eterno Pianto, Lacrime, Battesimo de Sangue e De Christoforis.548
Devemos observar, por outro lado, que são dos franceses os melhores exemplos que temos de música fúnebre escrita para banda ainda em uso na região. Encontramos nos arquivos das bandas de música Santa Cecília de São João e na Banda Ramalho de Tiradentes os exemplos impressos em Paris de E. Marie, Michel Bléger, F. Ziegler, Blancheteau e H. Klosé. É o caso da Melodie Funèbre e de Un Dernier Hommage, de E. Marie, e de Le Champs Du Repo Op: 146, de Michel Bléger, editadas em Paris, das quais não se tem notícia alguma. Podemos considerar duas possibilidades de ingresso dessas partituras no Brasil: aquelas trazidas pelos militares desde o início do século XIX, ou as impressas na Europa e comercializadas nas maiores cidades brasileiras por casas especializadas no Rio de Janeiro e em São Paulo. Chama atenção, além da data de composição, a indicação de terem sido escritas para banda,
sendo “fáceis e de efeito”. E mesmo tendo sido encontradas no arquivo da Banda Theodoro de
Faria, elas foram primeiro utilizadas em Aiuruoca, mais ao sul de Minas Gerais, pelo maestro e professor Francisco Gomes Ribeiro, depois de terem sido compradas na Casa Scavone e Cia, situada na Rua 24 de maio da capital paulista ao preço de 3$000 (três mil réis). Essas marchas, portanto, nos chegaram exatamente na época do surgimento de mais bandas civis, quando o comércio de partituras de estrangeiros era uma realidade. Favoreceram-se os compositores do interior de Minas Gerais que puderam ter em mãos as músicas estrangeiras como modelo para as suas criações quando cresceram o interesse e as possibilidades em enterros e Semana Santa.
Por fim, devemos ressaltar que, em virtude da atuação de alguns maestros, sobreviveu um repertório que informa os modos de agir desses músicos e as estratégias que adotaram para guardar aquelas partituras que conseguiram para seus conjuntos. Vejamos o exemplo da Marcha Fúnebre Eterna Dor.
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Dos compositores: Felice Bortolini (1845-1903), Pilade Bennati (?), Gaetano Casati (?), Giovanni B. Frosali (?-1924) e Giovanni Nucci (?), somente Ernesto Becucci (1845-1905) tem a marcha Eterno Pianto no arquivo da Banda Theodoro de Faria. As outras cinco marchas não foram encontradas na microrregião estudada. www.processionemisteritp.it
Figura 10 – Página de apresentação da Marcha fúnebre Eterna Dôr, de Murgo Cherubino Salvatore.
Fonte: Arquivo pessoal de Joaquim Pinto Lara, de Resende Costa.549
Acondicionadas em um envelope produzido pelo maestro, estão a partitura do regente e todas as partes cavadas destinadas aos instrumentistas, sugerindo, possivelmente, o seu uso pela banda de música de Resende Costa. A partitura (46 compassos em Dó menor) traz inclusive a parte da percussão escrita e a assinatura de Joaquim Pinto Lara, como copista, em 1921. Buscamos, sem sucesso, informações sobre o autor. A Marcha também não está relacionada em nenhuma das bandas de música da microrregião de São João. Se algum dia esteve nas estantes dos músicos, caiu no esquecimento. Dessa forma, algumas músicas sobreviveram ao tempo e encontram-se à disposição daqueles que, porventura, queiram recolocá-las na estante dos músicos para serem interpretadas.
549
Na marca deixada pelo carimbo, está escrito: “Officio Musical Moderno – Veril Gomes – Dirigido pelo Prof. Francisco Farina”.
Partitura 10 – Marcha Fúnebre “Eterna Dôr”, partiturizada, mas, sem data e local. Na última página
somente a assinatura de Joaquim Pinto Lara em 1921. Destaque para a “pancadaria” nome que se dava
ao grupo de percussão.
Fonte: Arquivo particular do maestro Joaquim Pinto Lara.
Devemos realçar a pouca importância dada pelos músicos e pessoas dos lugares por onde andamos à questão da autoria das marchas fúnebres. Em alguns casos, isso se explica, pois os nomes dos compositores permaneceram como título das músicas que criaram. Os exemplos da cidade de Prados revelam como esse costume prevaleceu. Lá, fez-se costume nomear as marchas fúnebres com nomes de pessoas que as compuseram: Antônio Francisco, João da Matta,550 João Américo, José Esteves e Teófilo Teixeira.551 Elas fazem parte da programação das procissões da Semana Santa da cidade e de outros municípios, quando não são ouvidas durante o enterro de alguém.
550
Não devemos confundir João Francisco da Matta, com João da Mata Pereira Torga, este autor de duas missas e de um Veni Creator Spiritus – solo ao pregador, muito conhecido em São João del-Rei. Não temos notícia de que Pereira Torga tenha se dedicado à composição de marcha fúnebre.
551
3.9 Compositores de outras localidades e a circulação de partituras
Ela [marcha fúnebre] faz parte da nossa linguagem de externar através da melodia de caráter tristonho, aquilo que nos vai na alma. Então ela nos fala mais a nós [mineiros] que a outras pessoas. Nós sentimos isso e em nós isso é inato. Faz parte do ser mineiro. Então ela não mereceu ainda atenção, já que não houve estudo de banda de música suficiente (Aluízio José
Viegas).552
A quantidade de música disponível nos arquivos das bandas da microrregião de São João dá mostras de que as pessoas se valeram das músicas dos compositores locais e da vizinhança para uso nos funerais e Semana Santa. Basta olhar o acervo e os autores que conseguimos elencar, ou mesmo os trabalhos de copistas, de que não foi preciso mandar buscar música fora. Em São João del-Rei, terra de muitos compositores, os repertórios das bandas de música começaram a se formar dentro das duas orquestras centenárias do município (a Lira e a Ribeiro Bastos), visto que elas, desde meados do século XVIII, eram as contratadas para festas que se realizavam na vila. Como a atual Banda Theodoro de Faria é egressa da Orquestra Ribeiro Bastos, ela herdou desta o repertório de banda que foi se formando a partir da segunda metade do século XIX.
Uma característica marcante notada nas cidades da microrregião de São João é a de possuírem pelo menos um compositor, dedicado à criação de músicas para as bandas da qual participava, como maestro, professor de música e instrumentista. Em se tratando das cidades localizadas no entorno de São João del-Rei, não há como deixar de considerar importantes figuras que tiveram seus trabalhos reconhecidos pela vizinhança.
No quadro geral das marchas, não foi preciso colocar após os nomes das cidades o Estado ao qual pertenciam, pois são todas mineiras: Aiuruoca, Baependi, Barbacena, Bonsucesso, Carandaí, Santa Rita do Ibitipoca, Passa Tempo, Passos e Pouso Alto, numa demonstração de circulação desse material no sul mineiro. Notamos a predileção de que teve o povo para com as músicas compostas por compositores que lhes eram próximos, com os quais conviviam, tanto nos momentos de alegria quanto nos de tristeza, ao som das partituras que iam criando, exatamente para cobrir a demanda criada pela comunidade.
552
Aluízio José Viegas, maestro e musicólogo são-joanense, em depoimento a mim prestado em 24/7/2000 na sede da Lira Sanjoanense em São João del-Rei.
Curt Lange e José Maria Neves sempre notaram a simbiose existente entre a assistência e os artistas, todos pertencentes ao mesmo grupo social. À necessidade de música para seus eventos, responderam os maestros com novas obras, o que explica a quantidade expressiva de partituras que nos chegaram de épocas passadas. “Na verdade, o artista criava para a mesma
classe social à qual pertencia e com a qual se identificava ideologicamente”.553
A questão a seguir, e que diz respeito à autoria, nos coloca um problema e evidencia, de forma cabal, o problema que vimos relatando nesta tese. A situação envolve a marcha Teófilo, ou Teófilo Teixeira, suposto autor da marcha fúnebre de mesmo nome. Teófilo de Carvalho Teixeira não era um estranho; somente morou em mais de uma cidade naquela virada de século XIX para XX.
Partitura 11 – Cópia da parte de requinta encontrada na Lira Ceciliana de Prados