A- İlgi ve ihtiyaçları:
2.6. Beden Eğitimi ve Spor
2.6.4. Okul Sporu
As relações entre Igreja e Estado no último quartel do XIX, foram permeadas por tensões desencadeadas pelo padroado de cunho regalista. Essa contradição foi expressa na própria constituição de 1824, que em seu artigo 5º dava ao catolicismo romano o status de religião oficial75, mas que concedia ao imperador no § 14 do art.
73 Idem, ibidem, p. 72.
74 O prédio que pertencia ao Colégio Nossa Senhora de Lourdes abriga atualmente o campus da
Unesp de Franca. Para um estudo sobre o Colégio Nossa senhora de Lourdes e a implantação do projeto ultramontano em Franca, temos o trabalho de Patrícia Carla de Melo Martins. Catolicismo
Ultramontano e o colégio feminino Nossa Senhora de Lourdes de Franca (1888 – 1930). (Dissertação
de Mestrado). Franca: UNESP, 1998.
75 “A religião católica apostólica romana continuará a ser a religião do Império. Todas as outras
religiões serão permitidas com seu culto doméstico ou particular, em casa para isso destinadas, sem forma alguma exterior de templo”. BARROS, Roque Spencer Maciel de. Vida religiosa. In: HOLANDA, Sérgio Buarque de (Org.) História geral da civilização brasileira. v.4. São Paulo: Difel, 1971, p. 319.
102, o direito do beneplácito imperial. Por esse direito, o imperador decidia quanto à validade, ou não dos “decretos dos concílios e letras apostólicas, e quaisquer outras constituições eclesiásticas, que não se opuserem à Constituição”76.
Considerando essa peculiaridade do catolicismo brasileiro, tornam-se compreensíveis as contendas envolvendo uma definição de jurisdições entre o poder civil e religioso. Para Roque Spencer Maciel de Barros, o fato dos conflitos não terem ocorrido antes, se justifica devido ao tipo de catolicismo praticado no Brasil antes da reforma ultramontana:
Foi exatamente o fato de não ser realmente católica a imensa maioria da população nacional que possibilitou, por longos anos, o modus vivendi estabelecido entre o Império e a Igreja. Enquanto o “país legal” (para usar de uma expressão cara a Tavares Bastos) se declarava católico, o “país real” movia-se inteiramente à margem da fé romana77.
De acordo com o historiador, antes do fim do Império, todos se consideravam católicos, do maçom ao anticlerical78, pois o ser católico não era uma mera escolha
de foro íntimo, estando relacionada a uma série de direitos como o ingresso no funcionalismo público, a elegibilidade, a obtenção do bacharelado e o direito a lecionar nos cursos superiores79.
A contradição entre o catolicismo legal e o real veio à tona com a eclosão da Questão Religiosa, que não foi exclusivamente um conflito episcopo-maçônico, revelando as contradições e ambigüidades do amálgama Estado-Igreja no Brasil. Ela foi desencadeada pela expulsão de maçons das irmandades religiosas pelos bispos D. Vital de Olinda e D. Macedo Costa do Pará, que obedecendo diretamente as ordens emanadas do Vaticano, entraram em choque com as autoridades e com o sistema jurídico imperial.
76 Idem, ibidem, p. 320.
77 Idem, ibidem, p. 320-321. 78 Idem, ibidem, p. 323.
O estopim da Questão Religiosa foi a expulsão do padre e maçom Almeida Martins pelo bispo do Rio de Janeiro D. Pero Maria de Lacerda. Numa festa organizada pelo Grande Oriente do Lavradio em 2 de março de 1872, em comemoração à Lei do Ventre Livre, o padre proferiu um discurso em homenagem ao Visconde do Rio Branco, presidente do Conselho de Ministros e Grão-mestre da maçonaria brasileira80.
Acompanhando a postura oficial da Igreja e influenciado pelo clima acalorado dos debates nos jornais da corte, o bispo de Olinda, D. Vital Maria Gonçalves de Oliveira lançou um interdito sobre a irmandade do Santíssimo Sacramento até que esta se “depurasse” da presença dos maçons. Seguindo o exemplo de D. Vital, o bispo do Pará, D. Antônio de Macedo Costa, aumentou o rigor da punição, ameaçando de excomunhão os maçons que participassem das associações religiosas e de extinção daquelas confrarias e irmandades que mantivessem em seus quadros pedreiros-livres.
Os maçons recursaram à Coroa defendendo a tese de que as bulas e demais documentos papais condenando a Maçonaria não tinham validade no Brasil, pois não haviam sido, de acordo com o direito de beneplácito, aprovadas pelo Imperador. Em 1874 Os bispos foram condenados a quatro anos de prisão com trabalhos, pena comutada em prisão simples, sendo anistiados no ano seguinte pelo gabinete presidido por Caxias81.
Se a questão religiosa causou grande furor nos meios ilustrados nacionais dividindo a opinião pública e o próprio clero, para Emíla Viotti da Costa ela não teve maiores repercussões no sentido de derrubar a monarquia. Para que isso ocorresse seria necessário que a nação fosse efetivamente católica. A importância do fato
80 Idem, ibidem, p. 338. 81 Idem, ibidem, p. 364.
residiria na exposição do anacronismo da legislação brasileira ao adotar uma religião de Estado, propiciando o surgimento de idéias de separação entre o poder civil o poder religioso82.
A “Igreja livre no Estado livre”, a fórmula preconizada por Cavour e que se tornou estandarte dos liberais, maçons ou não, só foi promulgada com a República, por meio do decreto 119 A de 07 de janeiro de 1890, que estabeleceu o fim do padroado régio, estabelecendo a secularização dos cemitérios, o casamento civil, o ensino laico e o fim das subvenções às obras assistenciais e educacionais católicas, incluindo-se os seminários.
No Brasil, a separação inaugurada com o novo regime ocorreu de forma relativamente branda, especialmente se compararmos com a situação à que foi relegado o clero francês no contexto da Revolução. Apesar do anticlericalismo da boa parcela dos liberais e positivistas brasileiros, houveram negociações entre as lideranças episcopais e as autoridades estabelecidas. Ivan Manoel citou uma reveladora carta de D. Macedo Costa a Rui Barbosa, Ministro da Fazenda do Governo Provisório, pedindo para que alguns direitos da Igreja fossem assegurados, como a manutenção da propriedade dos bens de mão-morta, pedido que foi atendido prontamente pelo regime instaurado, como prova o 5º artigo do Decreto 119 A83.
Apesar dos protestos gerados pela laicização do Estado, conforme expresso na Pastoral Coletiva elaborada pelo episcopado em 189084, a tendência geral foi de
acomodação e reconhecimento, por parte do governo, de que a Igreja ainda era uma força que poderia ser canalizada a favor do regime. Esta não desapareceu do
82 Da monarquia à república: momentos decisivos. 7ª ed. São Paulo: UNESP, 1999, p. 456-457. 83 MANOEL, Ivan Aparecido. D. Antônio de Macedo Costa e Rui Barbosa: a Igreja Católica na ordem
republicana brasileira. Pós-História, Assis, v.5, 1997, p. 70.
panorama político republicano. Basta saber que as eleições realizadas na Primeira República ocorriam, via-de-regra nos templos católicos e que muitos padres, além de se candidatarem para cargos eletivos, faziam valer sua influência em âmbito local, como atesta o exemplo do padre Cícero Romão Batista. O apoio da alta hierarquia católica ao movimento de 1930, que colocou Vargas no poder, é outro elemento que reforça o argumento apresentado85.
Estabelecido de maneira geral o panorama do catolicismo ultramontano, de sua difusão no Brasil e das mudanças institucionais que o país atravessou após o advento do regime republicano no que tange às relações com a Igreja, passemos agora para a cidade de Franca e suas peculiaridades.