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2. GENEL BİLGİLER

2.5. Lokalizasyonla İlişkili Nöbetlerin Özellikleri

2.5.5. Oksipital Lob Nöbetleri

O não-uso do preservativo também pode estar relacionado à produção simbólica acerca do HIV. Para tanto, a discussão sobre o contexto da iniciação sexual tem sido fundamental para entender a relação entre sentido do HIV e a gestão dos riscos entre HSH. Dentre àqueles que iniciaram suas práticas durante a infância ou adolescência, como é o caso de Flávio e Rony, ao terem como parceiros “homens mais velhos”, “ativos” e “heterossexuais”, tenderam a se sentir mais seguros diante da possibilidade de não infecção. Diz Flávio: (...) e eu me sentia seguro por sair com

pessoas mais velhas (...). Isso pode ser explicado porque, supostamente, o homem mais velho e ativo é quem domina a situação37, como afirma Rony:

(...) Mas porque o ativo, o meu parceiro, no caso assim dizendo, ele já vinha dominando a situação. E eu por ser mais suscetível, mais:::s liberal (.) ao meu parceiro (.) >que estava dominando a situação<, eu acabava deixando ele fazer aquilo que agradava a ele, porque com certeza agradaria a mim

37 De acordo com Braz (2010b), o fato de o homem ser “passivo” e “dominado” não implica necessariamente em

desconstrução da masculinidade, e nem mesmo em posicionamentos sexuais rígidos. A construção da sexualidade compõe-se por meio de relações fluidas e flexíveis.

também. Então (x) muitas vezes ele acaba (.) <fazendo sexo, penetração e a ejaculação> ↑ sem o preservativo.

Neste caso, o homem passivo e mais novo se vê como suscetível na relação. Ou seja, incapaz de negociar o uso do preservativo. A idéia de dominação é reforçada pela elevação do tom da voz quando Rony fala sobre o assunto: >que estava dominando a situação<, porém parece envergonhado ao falar que acabava <fazendo sexo, penetração e a ejaculação> sem preservativo, percepção essa refletida na diminuição da pronúncia dessa última expressão.

Outra informação diz respeito à satisfação sexual na busca pelo prazer. Para Rony, a sua realização inclui o contentar do parceiro, o qual era alcançado quando ele deixava o homem ativo ejacular dentro de si. Nesse caso há uma ambiguidade, pois ao mesmo tempo em que ele esperava do companheiro o cuidado para com a sua saúde, demonstra satisfação ao realizar o desejo do companheiro de prática sexual. Nesse caso, a gestão dos riscos é atribuída ao homem mais velho. A proteção dos possíveis agravos à saúde é de responsabilidade do adulto, o que remete mais uma vez à imagem contraditória da “criança indefesa” e do “homem cuidador”. Mesmo que esses jovens já não sejam mais crianças, essa noção parece perdurar até nos dias atuais e configurar parte de suas experiências sexuais. Nota-se ainda a construção de uma relação de completude entre Rony e seu parceiro na opção pelo risco, na medida em que a prática sexual que culmina com o gozo do parceiro dentro dele visa agradar os dois.

Em seguida, Flávio relata que o vírus da aids parecia ser uma lenda urbana, informação essa que acabou por constituir uma barreira de proteção contra o vírus ao menos no plano simbólico. Ele fala: (...) parece que eu não acreditava, sabe? Parece que = meio uma lenda urbana ((risos)). Aí

você sabe ((engasgo)) mas não usava preservativo. Flávio se contradiz ao usar as expressões: não

acreditava e Aí você sabe, porém usa o advérbio mas, de explicação, para contrapor a sua primeira afirmação e relata: não usava preservativo. Em um primeiro momento diz que não acreditava na existência do vírus, mas, em seguida, afirma que sabia. Cabe neste momento, a retomada da relação entre a idade de Flávio e a configuração de suas práticas arriscadas. Esta questão merece destaque por ser Flávio um jovem de vinte e um anos e que, portanto, não viveu no período em que a aids não tinha as formas de tratamento da atualidade. De forma semelhante, não conviveu com as pessoas acometidas pelo vírus da imunodeficiência humana. A imagem do homem infectado do início da epidemia – esquelético e com sinais da síndrome de Kaposi, a qual trazia o HIV para o plano existencial – já não se faz presente no cotidiano da maioria das pessoas. Assim, em função

dos avanços científicos e do acesso aos antirretrovirais, Flávio não convive com pessoas nas quais a materialidade da doença se faz notar nas debilidades físicas. Por isso, sua construção de risco ao HIV foi transportada para um plano imaginário e isto produziu a lenda urbana. Lenda essa que passou do plano imaginário à constatação do vírus quando ele se descobriu infectado: Argúi:

<Entã::::o> hu:::m infecção? ((risos))... como assim? ((risos)) e:::u (x) >já peguei<. Já tem dois anos que <eu já sei disso>.

Para além da questão da lenda urbana, Gabriel se coloca em um grupo de pessoas com características específicas que, segundo ele, por possuírem uma membrana celular capaz de impedir a penetração do vírus HIV, o faz imune. Diz ele: e aí eu não sei se eu entro naqueles quase 1% de

brancos >caucasianos< = que tem uma super = específica = membrana celular (.) que não permite a entrada do HIV, que são as pessoas imunes (...). Vale ressaltar o emprego dos descritores 1%,

super e específica, os quais refletem à magnitude da complexidade deste suposto fenômeno, capaz de tornar imunes ao vírus da aids apenas 1% da população. No entanto, como condição para isso, se faz necessário serem brancos >caucasianos<. Afirmação que remete ao discurso de Aristóteles no capítulo anterior, no qual ele relacionava seus modos de gerir os riscos à idéia de classe social.

Ao partir novamente do pressuposto de que pode ser imune, Gabriel acrescenta outra informação. Em uma conversa sobre o seu posicionamento durante as práticas sexuais, ele disse que opta pela prática insertiva em contraposição à receptiva, noção essa já discutida também no capítulo anterior. Em acréscimo, fala sobre a possível relação entre a sua posição nas atividades sexuais e os riscos nela implicados. Ao discutir acerca do atrito entre seu pênis e o ânus do parceiro, fez a correlação entre o seu posicionamento de insertivo e, portanto, de quem sofre menos atrito durante as relações, ao de uma mulher lésbica. Em seus dizeres: e aí uma coisa muito interessante = que

nesse caso meu posicionamento é quase como o posicionamento de uma lésbica. Essa comparação está relacionada diretamente à idéia de imunidade. Em função da quase inexistência de dados epidemiológicos sobre a infecção de mulheres lésbicas às DST, HIV/aids, seus corpos foram ditos pelo senso-comum como “imunes”. Principalmente pela questão de não ocorrer penetração entre pênis e vagina. Por isso, não teria a troca de secreções. Entretanto, Almeida (2005) assinala que do ponto de vista da ginecologia e da higiene, o corpo lésbico é visto como mais vulnerável em função da sua fisiologia.

Para essa mesma autora, o que faz o corpo lésbico um corpo vulnerável é o fato de que durante as práticas sexuais dessas mulheres é feito uso de acessórios, como o pênis de borracha e

vibradores. E esse evento poderia culminar na troca de fluidos corporais entre as mulheres que fazem sexo com mulheres, pela lubrificação vaginal ou pelo sangue menstrual. É interessante notar que o mesmo motivo que coloca Gabriel em uma zona de imunidade o posiciona no espaço do risco. Pois, se o atrito entre o seu pênis e o ânus do parceiro não pode ser suficiente para provocar

um machucado, tal experiência poderia causar a troca de secreções, e esse é um potencial transmissor de infecções.

Gabriel reflete sua espiritualidade ao falar sobre as maneiras pelas quais ele gere seus riscos. Pensa existir uma força nobrenatural a qual permitiria um contato entre ele e o mundo espiritual, por meio da qual receberia sinais capazes de despertá-lo para a interrupção da prática sexual com o parceiro. Diz ele:

Existe em último caso uma coisa na qual eu não acredito muito, mas não sei o porquê acontece de vez em quando = ↑ eu olho para a cara da pessoa e num primeiro momento eu fico afim = e do nada ↓ eu perco a vontade. Talvez, para alguns espiritualistas = alguma coisa do tipo = poderia chamar isso de sexto sentido (.) e de que alguém no mundo espiritual e não no mundo material avisou alguma coisa e fez com que eu parasse e que poderia acontecer alguma coisa = (...).

Trata-se, a nosso ver, do uso do recurso intuitivo. Há uma crença de gestão de riscos pautada pelos valores simbólicos, místicos e religiosos, neste caso em uma vertente espiritualista. Comumente, apesar de ciência e religião apresentarem versões distintas para as questões ora discutidas, Gabriel, durante as nossas discussões, acaba por aproximá-las. Isso porque como se descreveu no capítulo anterior, este rapaz possui informações científicas, e usou uma retórica focada em diversos saberes científicos, dentre os quais a biomedicina. Em outro momento, ele recorre a fontes místicas para dar sentido a sua prática sexual sem preservativo.

Benzer Belgeler