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Quechuas, Tamoios, Mapuches/ Tabajaras, Guaranis/ Incas, Astecas e Maias/ Tupamaros e Tupis/ De América/ [...]/ Quer meu canto ser alegre/ Frente as dores/ Da América/ Pendões todos amarelos/ Mostrando que vai chegar/ O dia que a gente havia/Agora só de cantar/ Manera, manera, agora/ [...]/ Tem que buscar/ Tem que seguir/ E repartir a solidão/ Da América.

Geraldo Vandré, Canto livre de América (1973).

A partir de dezembro de 1968, com a imposição do AI-5, o caráter ditatorial do governo foi agravado ainda mais, pois foi colocado em recesso o Congresso Nacional e as Assembléias Legislativas estaduais, e passou-se a ter plenos poderes para cassar mandatos eletivos.77 Além de “suspender direitos políticos dos cidadãos, demitir ou aposentar juízes e outros funcionários públicos, suspender o habeas corpus em crimes contra a segurança nacional, legislar por decreto, julgar crimes políticos em tribunais militares, dentre outras medidas autoritárias”. Como também, “foram presos, cassados, torturados ou forçados ao exílio inúmeros estudantes, intelectuais, políticos e outros oposicionistas, incluindo artistas”. E por algum tempo, não seria permitido ou mesmo tolerado “nenhuma contestação ao governo, nem sequer a do único partido de oposição”, o moderado MDB (Movimento Democrático Brasileiro), pois era “a época do slogan oficial ‘Brasil, ame-o ou deixe-o’”, do governo Médici (1969-1974). Além do mais, nos chamados “porões do regime”, paralelamente “generalizava-se o uso da tortura, do assassinato e de outros desmandos. Tudo em nome da ‘segurança nacional’, [vista como] indispensável para o ‘desenvolvimento’ da economia do posteriormente denominado ‘milagre brasileiro’” (RIDENTI, 1993, p. 152).

Em depoimento gravado no final da década de 1970, e reproduzido em 2006 para DVD, a cantora Elis Regina relembra um pouco como se agravou ainda mais a repressão (que já vinha desde 1964), após o AI-5, levando vários artistas ao exílio. “A partir de 68 a gente passou por um período de vazio, inclusive vazio físico, né, porque... muita gente tava fora. E... não se contava assim, de imediato, [...] até com o respaldo da presença: de Gil, de Edu, do Caetano, de Chico, de uma série de pessoas que, normalmente a gente costumava encontrar”. Ela continua, enfatizando o vazio no campo musical, como também o medo que tinha naquela

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Não estamos querendo dizer, com isso, e nem negando que tenha ocorrido censura, repressão, prisões e torturas, entre vários outros arbítrios, entre 1964 e 1968, mas, que a partir da imposição do AI-5, a situação se agravou muito mais.

época. “E quando eu falo que havia um vazio físico, havia um vazio que era um misto de saudade, um misto de ansiedade, de realmente não [se] saber exatamente [...] que é que tava acontecendo. E pra pessoas mais ingênuas, como no meu caso na época, bastante, né, um certo medo até”. Também acrescenta que, então, se “fazia o melhor possível, do que era possível ser feito, esperando, se respirar em conjunto”. Já sobre a época em que foi dado esse depoimento, no final dos anos 1970, ela declarou esperançosa:

Parece-me que, se começa a respirar. A articulação existe, quer dizer, a gente tá com possibilidade de se encontrar. Parece que, já não causa espécie, ter um grupo de dez, quinze pessoas debatendo problemas, que dizem respeito à sua profissão, dizem respeito ao seu trabalho, à sua forma de se comunicar com as pessoas, à sua forma de ser, dentro da medida do possível, um repórter da sua sociedade, do seu tempo, da sua terra, do seu povo, da sua cultura.78

Mais adiante, Elis Regina fala um pouco do momento que estava vivenciando e do seu convívio com outros artistas, mas também, como depreende-se, de um não comprometimento de outros. “Não dá pra separar o momento que a gente tá vivendo, como pessoa, como cidadão, como [se fosse um] indivíduo sozinho, narciso, olhando pro espelho assim, o dia inteiro, dizendo: ‘eu me amo’; num dá pra separar. O nosso relacionamento em termos de grupo é muito forte, a gente debate muito tudo que acontece, desde programas de televisão até notícia de jornal”. Depois continua: “A gente até, às vezes, ler jornal junto e um comenta uma notícia pro outro”. Em seguida, ela lamenta e desabafa, dizendo: “É muito difícil que as coisas não sejam saídas de um debate, e que as coisas não sejam postas em votação, e que as coisas não sejam, afinal, levadas adiante, quando são o pensamento da maioria. Porque a gente é assim, a gente acredita nessas coisas: democracia, assim, sabe?”.79

Todavia, em relação à censura, especificamente, segundo Creuza Berg (2002), a partir de 1968, a sua legislação se altera, ou melhor, é acrescida, principalmente a partir de 21 de novembro de 1968, pela Lei n.° 5.536/68, que teoricamente criava o Conselho Superior de Censura.80 Entretanto, dentre os vários artigos da referida Lei, só os quatorze primeiros foram

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Ver: REGINA, Elis. Depoimento. In: Elis. Falso Brilhante. Disco 3. Rio de Janeiro: Emi Music Brasil, 2006. DVD mono (16 faixas; Extra).

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Ver: REGINA, Elis. Depoimento. In: Elis. Falso Brilhante. Disco 3. Rio de Janeiro: Emi Music Brasil, 2006. DVD mono (16 faixas; Extra).

80 Segundo Kushnir (2004, p. 104 e 117), esse Conselho só foi implementado mesmo, mais de uma década

depois, em 1979, quando do fim do AI-5 e a consolidação do processo de abertura política, sendo implementado pelo Decreto n.° 83.973/79, que regularizou a ação do Conselho Superior de Censura. A este Conselho caberia rever as decisões finais, em grau de recurso, que fossem relativas à censura de espetáculos e diversões públicas proferidas pelo Diretor-Geral do Departamento de Polícia Federal, além de elaborar normas e critérios que orientassem o exercício da censura, submetendo-se à aprovação do Ministério da Justiça. Ver o artigo 17 da referida Lei n.° 5.536/68, em: RODRIGUES, Carlos; MONTEIRO, Vicente A. & GARCIA, Wilson de Q. (orgs.). Censura Federal: leis, decretos-leis, decretos, regulamentos. Brasília: C. R. Editora, 1971, p. 183.

colocados em prática, como assinalou Miliandre Garcia (2008). É importante destacar, ainda, que a partir de novembro de 1968, através do artigo 14 da referida lei, os candidatos ao cargo de técnico de cesura, por exemplo, deveriam prestar concurso público, para o qual exigia-se diploma de conclusão de curso superior de Ciências Sociais, Direito, Filosofia, Jornalismo, Pedagogia ou Psicologia (BERG, 2002, p. 92-93; KUSHNIR, 2004, p. 103). O que pode ser visto também no livro Censura Federal, dessa forma:

Art. 14. Fica alterada para Técnico de Censura a denominação das classes integrantes da atual série de Classes de Censor Federal, Código PF 101, do Quadro de Pessoal do Departamento de Polícia Federal.

§1.° Para o provimento de cargo da série de Classes de Técnico de Censura, observado o disposto no artigo 95, § 1°, da Constituição, é obrigatória a apresentação de diploma, devidamente registrado, de conclusão de curso superior de Ciências Sociais, Direito, Filosofia, Jornalismo, Pedagogia ou Psicologia.

§ 2.° É ressalvada a situação pessoal dos atuais ocupantes de cargos da série de Classes de Censor Federal. [...] (RODRIGUES, MONTEIRO & GARCIA, 1971, p. 182).

Aqueles que já ocupavam o cargo de censor federal, segundo Creuza Berg (2002, p. 93), “estariam classificados, de acordo com o nível de escolaridade, em TCs-classe A (até o segundo grau) e classe B (nível superior)”, levando a uma progressiva burocratização do processo censório, com essa reorganização operacional da censura. Todavia, diferentemente do que diz Creuza Berg acima, ao nos debruçarmos sobre os pareceres elaborados pelos técnicos de censura, não podemos afirmar de forma categórica – tomando como base os próprios pareceres, como ela fez –, que havia esta divisão mencionada. Analisando a censura musical durante o regime militar, Carocha (2006b, p. 4; 2006a, p. 205) também assinala uma burocratização da censura musical. “O processo de análise de uma composição era bastante burocratizado. O compositor ou sua gravadora enviava o trabalho, que era estudado pelos censores da turma de música da Divisão”, diz ela. Ainda segundo esta autora, após a lei de 1968 houve uma mudança no número de censores responsáveis pela análise de canções censuradas: “O número habitual de censores por composição analisada variava entre um e quatro, até 21 de novembro de 1968, quando o artigo 13 da Lei n.° 5.539, buscando uma atuação mais uniforme, estabeleceu o número de três censores por obra a ser analisada” (CAROCHA, 2006a, p. 205; 2006b, p. 4).

No entanto, uma discrepância apresentada por Carocha sobre a censura musical, diz respeito à própria lei citada por ela. Ou seja, a lei de 21 de novembro de 1968 não é 5.539, e sim 5.536, a qual, conforme está no livro Censura Federal: “Dispõe sôbre a censura de obras teatrais e cinematográficas, cria o Conselho Superior de Censura, e dá outras

providências” (RODRIGUES, MONTEIRO & GARCIA, 1971, p. 180, grifo no original). E não sobre o que está atribuído por Carocha (2006a, p. 205 [nota 43]; 2006b, p. 7 [nota xviii]), a seguir: “Modifica dispositivos da Lei 4.881-A, de 6 dezembro de 1965, que dispõe sobre o estatuto do magistério superior e dá outras providências”.

Acreditamos que o erro apontado acima advém, mais uma vez, por Maika Lois reproduzir, quase que literalmente, aquilo que foi formulado por Stephanou (2001, p. 252), também com o número da lei grafado equivocadamente, como segue: “O número habitual de censores por obra analisada variava entre dois e quatro, até 21 de novembro de 1968, quando o artigo 13 da Lei n.° 5.539, buscando uma atuação mais uniforme, estabelece o número de três censores por obra a ser analisada”. Segundo Stephanou (2001, p. 253), antes de 1968, em casos mais complicados eram convocados até cinco censores, como um filme de Glauber Rocha, por exemplo, “onde uma proibição causaria enorme repercussão, inclusive internacional”. No entanto, continua Stephanou: “O fato de ser três ou cinco não é relevante, pois os ‘veredictos’ eram muito parecidos, talvez pelo fato de que os censores assistiam juntos às projeções das películas e os ensaios teatrais”.

Também é interessante mencionar o que Creuza Berg assinala a respeito dos censores, destacando que eles não só faziam a censura prévia de uma obra, mas também “assistiam posteriormente aos espetáculos para averiguar se os cortes, mudanças ou vetos estavam sendo respeitados” (BERG, 2002, p. 93). Isso no caso do teatro, e até o ano de 1968. Em relação à música, especificamente, Berg (2002, p. 93) faz o seguinte comentário: “Os TCs recebiam da DCDP treinamento e apostilas contendo o que deviam ou não censurar e, no caso das músicas, recebiam ainda uma lista de palavras proibidas, além da legislação necessária para fundamentar seus pareceres”.

Sobre essa lista de palavras proibidas, o cantor e compositor Raul Seixas, faz referência em um show, ao vivo, realizado em 26 de fevereiro de 1983, na Sociedade Esportiva Palmeiras, ao dialogar com o público presente, dessa forma: “[...] Vocês sabem [risos], que existe um dicionário, que saiu agora, chamado dicionário da censura. O dicionário da censura é o seguinte: todo compositor brasileiro tem a obrigação de receber um dicionário dessa grossuras [sic], com todas as palavras proibidas”. Depois ele acrescenta: “E inclusive uma palavra proibida é... – não sei porquê – é... povo, gente, universidade, escola; não pode se falar em música”. Em seguida, de forma irônica, ele cita a sua música intitulada Rock das

Aranhas, que havia sido censurada em 1979, expressando-se assim: “Inclusive pintou a palavra ‘aranha’, depois de mim; eu fui o percursor [sic] da aranha; depois de Deus! [mais

risos]”.81 Uma música que havia sido vetada pela ação da censura moral, possivelmente por fazer alusão, de forma metafórica, ao relacionamento sexual entre duas lésbicas, como deduz- se daquilo que é mencionado em sua letra abaixo:

Subi no muro do quintal/ E vi uma transa que não é normal/ E ninguém vai acreditar/ Eu vi duas mulher botando aranha pra brigar/ Duas aranha, duas aranha/ Duas aranha, duas aranha/ Vem cá mulher deixa de manha/ A minha cobra quer comer sua aranha/ Meu corpo todo se tremeu/ E nem minha cobra entendeu/ Como é que pode duas aranha se esfregando/ Eu tô sabendo, alguma coisa tá faltando!/ É minha cobra, cobra criada/ É minha cobra, cobra criada/ [...]/ Deve ter uma boa explicação/ o que é que essas aranha tão fazendo ali no chão?/ Uma em cima, outra em baixo/ E a cobra perguntando, onde é que eu me encaixo?/ É minha cobra, cobra criada/ É minha cobra, cobra criada/ [...]/ Eu soltei a cobra e ela foi direto/ Foi pro meio das aranha pra mostrar como é que certo/ Cobra com aranha é que dá pé/ Aranha com aranha sempre deu um jacaré/ [...].

Com a oficialização do Conselho Superior de Censura, em 1979, como um órgão de recurso,82 o qual havia sido criado onze anos antes, em 1968 (mas não funcionava), Ricardo Cravo Albin (2002) conta que era uma das pessoas deste órgão que procurava argumentar junto à DCDP para liberar as músicas censuradas e acatar os recursos dos compositores. O conselheiro Ricardo Cravo Albin comenta que já tinha argumentado junto à DCDP em outras ocasiões e conseguido a liberação de várias músicas censuradas, por meio de seus argumentos. Quanto à liberação desta música mencionada acima, ele faz o seguinte comentário: “Quando o ‘Rock das aranhas’ foi entregue a mim para [eu] relatar, o próprio presidente do Conselho declarou de público, e ironicamente, que queria ver que argumentos eu poderia usar para liberá-lo, tão indefensável era o nível da música”. Observação que Albin diz que usou como mote para defendê-la, atacando a estrutura da música como um argumento razoável para tentar liberá-la, ao menos para gravação, o que foi realmente alcançado em 1980 (ALBIN, 2002, p. 152).

No seu relato foi argumentado assim, conforme Albin (2002, p. 154-155, grifo do autor): “[...] A apresentação do recurso ao CSC para esse Rock das aranhas, [...] propõe e

também impõe uma reflexão sobre as diferenças entre a legítima malícia das canções que brotam da alma das ruas e dos poetas do povo e da exploração dessa mesma malícia através do apelo à pornografia e à chulice”. Mais adiante ele argumenta em sua justificativa: “Devo

81 Ver: ROBERTO, Cláudio & SEIXAS, Raul. Rock das Aranhas. In: Raul Vivo. São Paulo: Estúdio Eldorado,

1992. CD stereo (18 faixas; Faixa 11).Alguns anos depois do referido show,quando da gravação desta música em disco, antes de começar a cantar o Rock das Aranhas, Raul acrescenta o seguinte, logo na introdução: “Dedico esta música, sem nenhum preconceito, às cantoras Simone, Gal Costa e Maria Bethânia”.

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Segundo Ricardo Cravo Albin (2002, p. 41), o Conselho Superior de Censura era portador de um nome muito abjeto que havia até recebido meses antes um comentário consagrador de Millôr Fernandes, o qual teria dito sobre o referido órgão: “Se é de censura não pode ser superior”.

dizer [...] que em minhas muitas pesquisas por dentro da canção popular para veiculação aberta nunca encontrei nada semelhante em intenção explícita tão pornográfica quanto a presente [...]”. Ao concluir, ele ressaltou o seguinte, mostrando o porquê de seu parecer ser favorável à liberação da referida letra:

Nem me detenho em reanalisar a letra da música [...], sobretudo, pelo seu sentido [...] renitentemente pornográfico, mas também não fujo à tentação, como crítico, de declarar meu espanto ante a tão baixa qualidade da peça assinada por Raul Seixas, um compositor que já fez tantas coisas de qualidade. [...].

Por isso, por ser Raul Seixas quem é, torna-se difícil aceitá-lo em apelação tão abjeta e lastimável. Enfim, tamanha indigência Raul jamais se deveria permitir.

Como, no entanto, ele se permitiu, vamos respeitar-lhe o direito, a liberdade de fazer até lixo desse nível. No entanto, preservemos igualmente o direito de quem quiser ouvi-lo.

Portanto, sou pela liberação da música Rock das aranhas, ficando contudo restrita sua veiculação aberta, ou seja, através de emissoras de rádio e televisão.

Em 31/07/1980.83

Como o Conselho Superior de Censura não funcionava na prática, realmente, somente quando fosse para atender aos interesses dos censores e da censura, talvez seja por isso que algumas canções de protesto, como Pesadelo, de 1972, de autoria de Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro, gravada e interpretada pelo grupo MPB-4, no Festival Phono 73, tenha sido aprovada pelos censores. Ou seja, possivelmente os censores que analisaram a letra desta música, ao verem que sua letra era uma referência direta tanto ao trabalho dos censores quanto à resistência dos compositores ao verem seus trabalhos censurados (“Você corta um verso, eu escrevo outro”) – onde os primeiros procuravam evitar que fossem feitas referências de protesto ao regime militar nas letras musicais, por parte destes últimos –, optaram por liberá-la. Apenas para passar a imagem de que a censura não era tão rigorosa assim e que até mesmo a liberdade de expressão através da música era permitida aos compositores, aqui no Brasil. Eis abaixo, alguns versos que compõem a letra da canção

Pesadelo, que fizemos referência acima:

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Ainda segundo Albin (2002, p. 152-153), logo depois que a música foi aprovada, Raul Seixas teria ligado tarde da noite para ele perguntando se achava mesmo a letra muito ruim, pelo que havia colocado no parecer. Diz Cravo Albin que teria confirmado para Raul tudo aquilo que havia colocado no parecer, apesar de o pessoal do Conselho estivesse pensando que ele teria dito “o que disse apenas como elemento de convencimento estratégico para liberá-la para gravação”. Depois de ouvir isso, Raul teria batido o telefone abruptamente e Cravo Albin teria ido dormir. Mas, lá pelas três da manhã o telefone teria tocado, e era o Raul novamente, dizendo que tinha ligado de novo só para dizer que achava que Cravo Albin tinha razão, porém, iria gravar a música assim mesmo e ele iria ver que a mesma ia fazer muito sucesso.

Quando um muro separa, uma ponte une/ Se a vingança encara, o remorso pune/ Você vem me agarra, alguém vem me solta/ Você vai na marra, ela um dia volta/ E se a força é tua, ela um dia é nossa/ Olha o muro, olha a ponte, olha o dia de ontem chegando/ Que medo você tem de nós?/ (Olha aí... olha aí; olha aí... olha aí)/ Você corta um verso, eu escrevo outro/ Você me prende vivo, eu escapo morto/ De repente, olha eu de novo!/ Perturbando a paz, exigindo o troco/ [...]/ Olha o verso, olha o outro/ Olha o velho, olha o moço chegando.../ Que medo você tem de nós?/ [...]/ O muro caiu, olha a ponte/ Da liberdade guardiã/ O braço do Cristo, horizonte/ Abraça o dia de amanhã/ (Olha aí... olha aí; olha aí... olha aí [...]).84

Por outro lado, como diz Miliandre Garcia (2008, p. 35), a análise do fenômeno censório exige muita atenção por parte do pesquisador, que deve tomar algumas precauções para não ser complacente com os efeitos da censura sobre a produção artístico-cultural, como também, com as práticas isoladas que apresentam “indícios democráticos”. E ainda, “com os agentes censórios que se [auto] definiam como elementos liberais no interior da censura e com as [próprias] instituições corporativas ou entidades culturais que participaram do processo censório”. Todavia, algo semelhante ao que teria ocorrido com a canção Pesadelo, pode ter acontecido com a letra musical intitulada Nada será como antes, dos autores Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, interpretada pelo primeiro. A qual foi aprovada pela censura em 30 de março de 1971, apesar da evidente alusão em sua letra tanto aos exilados quanto há uma próxima vítima que supostamente poderia ir também para o exílio, como podemos perceber nos seguintes trechos de sua letra:

EU JÁ ESTOU COM O PÉ NESSA ESTRADA/ QUALQUER DIA A GENTE SE VÊ/ SEI QUE NADA SERÁ COMO ANTES, AMANHÃ/ QUE NOTÍCIA(S) ME DÃO DOS AMIGOS?/ QUE NOTÍCIA(S) ME DÃO DE VOCÊ?/ [...] AMANHÃ OU DEPOIS DE AMANHÃ/ RESISTINDO NA BÔCA DA NOITE UM GÔSTO DE SOL/ NUM DOMINGO QUALQUER/ QUALQUER HORA/ [...]/ SEI QUE NADA SERÁ COMO ANTES, AMANHÃ/ QUE NOTÍCIA ME DÃO DOS AMIGOS?/ QUE NOTÍCIA ME DÃO DE VOCÊ?/ SEI QUE NADA SERÁ COMO ESTA MANHÃ/ OU DEPOIS DE AMANHÃ/ RESISTINDO NA BÔCA DA NOITE UM GÔSTO DE SOL.85

Ainda sobre a história e a liberação da canção Pesadelo, é importante apresentar o que diz um dos próprios autores, Paulo César Pinheiro. Antes, ele fala de outra canção sua,

Sagarana, de 1969, uma homenagem ao escritor Guimarães Rosa (mas que também retratava

um triângulo amoroso) e que teve em Matita-perê, em parceria com Tom Jobim, uma

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Ver: TAPAJÓS, Maurício & PINHEIRO, Pulo César. Pesadelo. In: Phono 73: o canto de um povo. CD 2. Rio de Janeiro: Universal Music, 2005. CD stéreo (16 faixas; Faixa 3).

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Documento disponível em: <http://www.censuramusical.com/includes/docs/Milton_e_Ronaldo_Bastos_- _Nada_sera_como_antes.pdf>. Acesso em: 25 jun. 2010.

continuação86 (PINHEIRO, 2010, p. 122-123 e 31-39). Além de falar da dificuldade que era “pra driblar os caras”, ou seja, os censores, “dizer as mesmas coisas com outras palavras, dar o mesmo sentido da frase eliminada no verso substituído. Era duro, mas a gente com paciência, inteligentemente se defendia e a caravana passava” (PINHEIRO, 2010, p. 123).