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ÇAY BAHÇELERİNDE ALINMASI GEREKEN ÖNLEMLER

Me dá um beijo/ Com essa boca vermelha de caqui/ [...]/ Que eu quero brincar nas ruas daqui/ Não vai ter perdão/ Pra quem não entrar neste cordão/ Que puxa, repuxa, endoida e afoba/ Até os puros de coração/ Eu quero um gole morena/ Dessa cerveja vermelha/ Só vou parar quando essa zorra terminar/ [...]/ Vou me deixar até o sol iluminar.

Ney Costa Santos Filho & Marcelo Costa Santos,

Cerveja vermelha (1973).

Ao se abordar o aspecto da repressão durante a ditadura militar no Brasil, geralmente procura-se dar bastante ênfase a questão da tortura, ao passo que a chamada repressão preventiva tem sido pouco estudada. Porém, nos últimos anos, alguns autores procuraram se deter sobre essa seara, a exemplo de Marionilde Magalhães (1997), em A lógica da suspeição e de Marcos Napolitano (2004a), em A MPB sob suspeita. Durante o regime militar brasileiro, de acordo com Magalhães (1997), havia uma “tática de repressão preventiva”, a qual consistia em acumular uma grande quantidade de informações sobre a vida pública e privada de indivíduos considerados potencialmente subversivos, denominada por ela de “lógica da suspeição”, e que em muitos casos demonstrou ser muito eficiente.

Essa prática de repressão preventiva consistia na vigilância e controle cotidiano sobre boa parte da sociedade brasileira, e foi consolidada pela criação do que foi denominado de “comunidade de informações” (MAGALHÃES, 1997). O autor Marcos Napolitano (2004a, p. 104) também chama a atenção para “a produção do silêncio e da suspeita” que era feita pelo regime militar brasileiro, através de uma vigilância constante sobre alguns membros da sociedade civil. Ou seja, como uma forma de prevenir o que consideravam como “atuação ‘subversiva’, sobretudo naquilo que os manuais da Doutrina de Segurança Nacional chamavam de ‘propaganda subversiva’ e ‘guerra psicológica contra as instituições democráticas e cristãs’”, gerando assim uma lógica da suspeita ou “ethos persecutório”.168

A comunidade de informações era composta de inúmeros serviços, tanto de espionagem quanto de repressão política, “tais como os serviços de informação das três armas

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Para mais detalhes sobre esse “ethos persecutório” de combate ao que era visto como “propaganda subversiva” e “guerra psicológica” por parte dos informantes do regime militar brasileiro, e principalmente sobre as formas de agir das chamadas “comunidade de informações” e “comunidade de segurança”, ver também: FICO, Carlos. Como eles agiam. Os subterrâneos da ditadura militar: espionagem e polícia política. Rio de Janeiro: Record, 2001.

(CENIMAR, CIE, CISA), as Divisões e Assessorias de Segurança Interna dos órgãos públicos, a Polícia Federal, as chamadas ‘segundas seções’ das polícias militares e das forças de segurança e o Serviço Nacional de Informações – SNI” (NAPOLITANO, 2004a, p. 124 [nota 1]). Havia também a (o) DOPS (Delegacia/Departamento de Ordem Política e Social), que era apenas mais uma das instituições ligadas à comunidade de informações. Apesar de que, por outro lado, em 1970, com a “criação do sistema CODI/DOI – Centro de Operações de Defesa Interna/ Destacamento de Operações de Informações”, segundo Marcos Napolitano (2004a, p. 124 [nota 1]), “os agentes desses vários órgãos foram submetidos ao comando unificado do Exército”.

Ao serem representados, conforme Douglas Marcelino (2006, p. 268), “por meio dessa enorme gama de siglas, referidas a órgãos civis, mistos e outros exclusivamente militares, esses setores conformaram-se num dos mais eficientes propulsores de um contundente discurso extremista, por meio do qual tentavam influenciar às tomadas de posição de outros escalões do governo militar”. Desse modo, ao se constituir “numa espécie de ‘voz autorizada’ dentro do regime, a comunidade de informações assumiu um papel importante durante a ditadura, ultrapassando as tarefas de um simples ‘sistema de inteligência’”. Por isso, podemos afirmar que “os agentes de informações que compunham o pessoal desses órgãos foram fortes propagadores do imaginário anticomunista, utilizando um jargão bastante peculiar” (MARCELINO, 2006, p. 268). Mas na captura da recepção desse tipo de discurso anticomunista dentro e fora dos governos militares, é preciso ter cuidado para não generalizá-lo como representativo do pensamento militar como um todo, segundo Douglas Marcelino (2006, p. 268). O qual considera “que as idéias-força mobilizadas pelos agentes de informações são representativas de setores específicos entre os militares”, sobretudo do grupo que ficou mais conhecido nos estudos sobre a ditadura militar no Brasil, como a “linha dura”, podemos acrescentar.169

Além do mais, essa “indústria de informações”, conforme expressão de Alexandre Fiuza (2006, p. 188), colocada em prática pelos informantes da comunidade de informações, “também deu suporte às operações que levaram as pessoas à prisão, à tortura, ao desaparecimento; bem como produziu e reforçou o convencimento dos ideais do regime nas

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É importante ressaltar, no entanto, de forma semelhante a Carlos Fico (2004c, p. 57 [nota 17]), que para este trabalho também estamos usando a expressão “linha dura” para caracterizar, sobretudo, “os grupos militares e civis diretamente envolvidos com as comunidades de segurança e de informações”. Ou seja, para os “militares (e os civis) diretamente envolvidos em tortura e assassinato político”, e que, “após 1968, integravam as turmas de captura e interrogatório do sistema Codi-Doi ou suas equivalentes das instâncias estaduais da repressão (Dops), além dos centros de informações dos ministérios militares” (FICO, 2004c, p. 34).

próprias fileiras da repressão”. Nesse sentido, é possível afirmar que tais “informações não se constituíam em um amontoado caótico de folhas dispersas abordando temas fragmentados [...]. Configuravam, isto sim, uma rede intertextual produtora de eficazes efeitos de sentido e de convicção [...]”. Afinal de contas, “uma das formas do agir da comunidade de segurança e informações foi o estabelecimento da relação entre ela própria, que ‘executava’, e os demais militares, que a admitiam, baseada na força de elocução de um tal discurso – que assim vivificava, recriava-se continuamente e sustentava ações” (FICO, 2001 apud FIUZA, 2006, p. 188, grifo do autor).

Dessa forma, ao contrário dos aparatos repressivos preexistentes, que guardavam autonomia entre si, foi montado um complexo aparato repressivo que procurou consolidar uma estrutura única e coesa, com uma rede inextricável, cujas ações passaram a ser coordenadas a partir de um núcleo central, o Serviço Nacional de Informações (SNI). Este, foi criado em 1964 e logo subordinou todos os outros órgãos repressivos, como os centros de informações das três armas, a polícia federal e as polícias estaduais (MAGALHÃES, 1997). Por isso, com o intuito de integrar e harmonizar suas ações, foi criado o Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna, DOI-CODI, ou CODI- DOI, se preferir, uma instituição tornada oficial em 1970, aglutinando representantes de todas as demais forças policiais. Dotada de recursos financeiros e tecnológicos, as atividades desse sistema eram estrategicamente planejadas e orientadas pela lógica da disciplina militar, com o intuito de enfrentar o que seus próprios agentes entendiam como uma “guerra revolucionária”, (MAGALHÃES, 1997), que estava sendo patrocinada pelo comunismo internacional.

Sobre a hierarquia do aparelho repressivo, Marionilde Magalhães (1997) destaca que a seleção de pessoal para exercer as funções repressivas passava por um conjunto de critérios e por uma rígida hierarquia, onde no topo ficava o presidente da República, tendo como seu

staff para assuntos de segurança, o Conselho de Segurança Nacional e a equipe executiva do

SNI. A isto, subordinavam-se outros órgãos de repressão alocados em todas as regiões do Brasil, coordenados cada um, por um militar que, por sua vez, tinham analistas de informações para assessorá-los. Os quais, tinham que frequentar cursos ministrados pela EsNI (Escola Nacional de Informações). No estrato intermediário ficava o interrogador, uma função que se dividia entre a de responsável direto pelos interrogatórios e a de monitor. Sendo que este se escondia atrás de um espelho falso durante os interrogatórios e, por meio de um aparelho de transmissão, ia sugerindo perguntas, técnicas de intimidação, hora de interromper a sessão etc. Já abaixo dos interrogadores, estavam os captores (aqueles policiais responsáveis

pelo aprisionamento dos suspeitos), como também o pessoal administrativo e o de carceragem (MAGALHÃES, 1997).

Além disso, havia ainda em paralelo a essas atividades, conforme Marionilde Magalhães (1997), os informantes, aos quais podia-se, dependendo de sua competência, ser delegada a função de analista, interrogador ou captor. Porém, estes informantes, denominados de fontes, para efeitos de confiabilidade eram classificados segundo uma hierarquia de seis níveis. Quer dizer, havia seis níveis de fontes e seis graus de veracidade do informe, quais sejam: A, B, C, D, E, F e 1, 2, 3, 4, 5, 6. Assim, um informe A1 seria de uma fonte sempre idônea e com grande probabilidade de verdade, ao passo que se o informe fosse F6, não se podia confiar na idoneidade da fonte, entretanto, o “grosso” mesmo caía no C, isto é, uma fonte razoavelmente idônea e com o informe tendo possibilidades de ser verídico, conforme Adyr Fiúza de Castro (1994, p. 47 apud MAGALHÃES, 1997). De acordo com Marionilde Magalhães (1997), o agente do tipo C, geralmente era do próprio Exército e, na maioria das vezes, era um sargento formado pela EsNi, que vestido à paisana, infiltrava-se nos mais diversos locais para coletar a maior quantidade possível de informações. Já os agentes do tipo D, E e F, no geral eram “informantes eventuais” (remunerados ou não) ou “informantes espontâneos” e, portanto, pessoas que tinham uma certa cumplicidade e que voluntariamente se dispunham à cooperar com o regime militar, fosse pela convicção, fosse para receber alguma ajuda de caráter pessoal, segundo Magalhães (1997).

Desse modo, conforme Marionilde Magalhães (1997), a técnica de infiltração consistia em suspeitar de todos, em princípio, coletando e arquivando quaisquer dados obtidos e ainda expressá-los por escrito à polícia. A partir daí, estes seriam classificados, segundo ela, com palavras-chave, por caracterizarem uma gradação em que se colocava num extremo, por exemplo, o inimigo mais perigoso, e no outro, aqueles que provavelmente estariam dispostos a cooperar com o regime. Obedecendo a esta ordem, ela diz que esta técnica de arquivamento poderia ocorrer nessa gradação: fanático comunista, esquerdista ou socialista, subversivo, autor de atos indiretamente subversivos, inocente útil e confiável (MAGALHÃES, 1997). Segundo ela, os informes obtidos, além de aumentarem a eficiência do processo repressivo, também podiam assumir um papel preventivo, por instruírem os poderes a respeito das tendências dos movimentos de oposição, em cada micro-conjuntura. Prática que adquiriu uma maior relevância após 1968, quando os militares assumiram uma posição mais profissional com relação às técnicas de repressão, conforme Magalhães (1997).

Por outro lado, segundo Carlos Fico (2004c, p. 36), a “distinção que hoje se pode fazer entre a espionagem (ou ‘comunidade de informações’) e a polícia política (ou

‘comunidade de segurança’)”, nos ajuda a entender melhor as instâncias repressivas que teriam composto os chamados “porões da ditadura”. Pois, segundo ele, “mesmo com o ‘endurecimento’ do SNI a partir de Médici, o órgão e suas representações nos ministérios civis (as divisões de segurança e informações, então remodeladas e fortalecidas) persistiram como produtores de informações, não se envolvendo diretamente nas ‘operações de segurança’”. O que em si era um “eufemismo que designava as prisões, interrogatórios, torturas e extermínios, praticados pelo ‘Sistema Codi-Doi’, pelos órgãos de informações dos ministérios militares (Cie, Cisa e Cenimar) e pelos departamentos de ordem política e social” (FICO, 2004c, p. 36-37).170 No entanto, o próprio Fico (2004c, p. 39) admite que “a comunidade de informações teve [uma] função muito importante na propagação da defesa da necessidade da repressão stricto sensu, mas também da censura, do combate à corrupção, da utilização dos meios de comunicação para a propaganda etc.”

Conforme Carlos Fico (2004c, p. 36), o SNI também foi criado em 1964, porém “com propósitos mais modestos do que os que assumiria a partir de março de 1967, quando, de produtor de informações para subsidiar as decisões do presidente da República, transformou-se, sob a chefia do general Emílio Garrastazu Médici, em cabeça de uma ampla rede de espionagem”. Portanto, segundo o autor Carlos Fico, quando da criação do SNI em 1964, diferentemente “do que supôs Goubery do Couto e Silva, que afirmou ter criado ‘um monstro’, não foi ele, mas a linha dura, que gestou tal criatura”. Nesse sentido, de 1969 em diante, com o sistema Codi-Doi, de acordo com Fico (2004c, p. 35), foi implantada “uma polícia política bastante complexa no país – que mesclava polícia civil, polícia militar, militares das três forças e até mesmo bombeiros e polícia feminina – e foi responsável pelos principais episódios de tortura e extermínio”. O que acabou por representar “a vitória completa da antiga ‘força autônoma’”. Sem esquecer, ainda, que “em função de suas necessidades intrínsecas, essa [mesma] polícia política atuava com grande liberdade de ação” (FICO, 2004c, p. 35).

Assim, a vitória definitiva da chamada “corrente/força autônoma” – vista como o “embrião da linha dura” –, e “representada [também] pela decretação do AI-5, fez com que a espionagem passasse a atuar a serviço dos setores mais radicais, divulgando as avaliações que justificavam a escalada e a manutenção da repressão” (FICO, 2004c, p. 36). Conforme o

170 Ainda sobre a implantação do denominado “Sistema Codi-Doi”, Carlos Fico (2004c, p. 57 [nota 21]) destaca

que esse referido sistema “foi implantado em 1970 no I Exército (Rio de Janeiro), no II Exército (São Paulo), no IV Exército (Recife) e no Comando Militar do Planalto (Brasília). No ano seguinte, seriam criados os da 5ª Região Militar (Curitiba), da 4ª Divisão de Exército (Belo Horizonte), da 6ª Região Militar (Salvador), da 8ª Região Militar (Belém) e da 10ª Região Militar (Fortaleza). Em 1974 foi implantado o de Porto Alegre (III Exército)”.

próprio Carlos Fico (2004c, p. 37, grifo do autor), “de fato, a partir do AI-5, as diversas instâncias repressivas já existentes passaram a agir segundo o ethos da comunidade de segurança e de informações [...]”. Ou seja, para Fico (2004c, p. 34), “o Ato Institucional n.° 5 foi o amadurecimento de um processo que se iniciara muito antes”, logo após o golpe de 64. Afinal, o projeto repressivo global, posto em prática pelo regime militar, “forjou-se na fase dos primeiros IPMs [Inquéritos Policiais Militares] de 1964, a partir do descontentamento dos integrantes da então ‘força autônoma’ [...] com a morosidade das punições aplicadas por Castelo Branco durante a primeira ‘Operação Limpeza’” (FICO, 2004c, p. 36). Além de que, foi “justamente em função da mencionada vitória da linha dura caracterizada pelo AI-5”, que ocorreu “a penetração da dimensão estritamente política na censura de costumes”, de acordo com Fico (2004c, p. 37 e 38). Um processo sobre o qual preferimos dizer que houve uma radicalização, a partir da implantação do AI-5 e da imposição da Doutrina de Segurança Nacional, no final dos anos 1960, ao invés de um amadurecimento.

Dessa maneira, podemos dizer que em nome da tão divulgada Segurança Nacional foi instalado no Brasil, durante a ditadura militar, um complexo sistema repressivo para combater a subversão e, ao mesmo tempo, também, reprimir preventivamente qualquer atividade considerada suspeita por se afigurar como potencialmente perturbadora da ordem estabelecida (MAGALHÃES, 1997). Tendo em vista que era constante a obsessão pela vigilância, com base nos manuais da Doutrina de Segurança Nacional, e como forma de prevenir uma suposta atuação subversiva do comunismo internacional e nacional, contribuindo assim para gerar a lógica da suspeição. Portanto, os milhares de agentes envolvidos eram movidos por esta lógica e, ao incorporá-la, acabavam absorvendo a ideia de que “mais importante do que a produção da informação em si, era a produção da suspeita” (NAPOLITANO, 2004a, p. 104).

Como assinala Douglas Marcelino (2006, p. 269), era bastante frequente, por parte dos setores da comunidade de informações, a veiculação “de certas idéias-força com o objetivo de ‘pressionar’ a Divisão de Censura de Diversões públicas para que ela promovesse a censura de aspectos políticos”, como na programação televisiva, por exemplo, diz ele. Desse modo, alguns aspectos mais irrelevantes, acrescenta ele, “quando apareciam num determinado programa de TV, tornavam-se motivo para o envio de uma informação à DCDP e ao ministro da Justiça demandando que providências fossem tomadas”. Por isso, um certo “‘delírio persecutório’ perpassava muitas das idéias desses agentes, não sendo difícil perceber o quanto era corriqueira a produção de documentos com avaliações extremamente exageradas que identificavam, em qualquer programa que fosse, ‘estratégias subliminares’ dos agentes do

movimento comunista internacional’” (MARCELINO, 2006, p. 269), como veremos adiante. No campo da música, especificamente, conforme Fiuza (2006, p. 189), “foi criada uma dinâmica de controle que abarcava desde os grandes festivais da música popular até os pequenos festivais em colégios, em pequenas ou médias cidades, ou ainda nas periferias dos grandes centros urbanos”.

Nessa “lógica da suspeição”, conforme Magalhães (1997), ou de “produção da suspeita”, conforme Napolitano (2004a), que era posta em prática pelos vários informantes do regime militar brasileiro, a chamada comunidade de informações não só “alertava o governo e os serviços de repressão direta para situações concretas de contestação ao regime, mas, através de sua interminável escritura, elaborava perfis, potencializava situações, criava conspirações que, independentemente de qualquer coerência ou plausibilidade, acabavam por justificar a própria existência desses serviços”. Dito de outra forma, mobilizava-se um conjunto de estratégias discursivas e de técnicas de registro “para criar uma representação do inimigo interno que poderia estar oculto no território da política, e, principalmente da cultura”, onde espaços, instituições e personalidades ligados a esta última (como veremos) “eram particularmente vigiados pela [referida] ‘comunidade’ [de informações]” (NAPOLITANO, 2004a, p. 104).

Dessa forma, “a esfera da cultura era vista com suspeição a priori, meio onde os ‘comunistas’ e ‘subversivos’ estariam particularmente infiltrados, procurando confundir o cidadão ‘inocente útil’”. E dentro da esfera da cultura, “o campo musical destacava-se como alvo da vigilância”, sobretudo os artistas e eventos ligados à Música Popular Brasileira, em geral, e à musica popular brasileira de protesto, em particular, podemos acrescentar, visto que consideramos esta (a música de protesto) como um setor daquela (a MPB). Além de que – como também veremos adiante, através de exemplos que ficaram documentados –, a grande capacidade de “aglutinação de pessoas em torno de eventos musicais era uma das preocupações constantes dos agentes da repressão” (NAPOLITANO, 2004, p. 104). Assim, dentro dessa “tática de repressão preventiva”, conforme (MAGALHÃES, 1997), é possível percebermos os superdimencionamentos, ou seja, uma grande “incoerência e descompromisso com a verdade, dada a necessidade de superdimencionar qualquer atitude que pudesse ser considerada suspeita” (NAPOLITANO, 2004a, p. 105).

Nesse sentido, é que podemos vislumbrar, por exemplo, a preocupação dos militares com o movimento estudantil no final dos anos 1960, como também a vigilância sobre àquelas pessoas consideradas, por eles, como potencialmente perigosas e subversivas. Portanto, em novembro de 1968, a título de exemplificação – em um documento da “Delegacia Especial de

Ordem Política, Social e Econômica”, que tem como tema “Segurança Política” –, temos uma espécie de ficha do líder estudantil Honestino Guimarães, onde foi feita a seguinte informação a seu respeito: “Encontra-se em João Pessoa, o líder universitário de Brasília Honestino Guimarães, desenvolvendo contatos com os dirigentes [...] de diretórios acadêmicos, visando organizar o próximo congresso da extinta UNE”.171

Já em outubro de 1968, preocupado com a concessão de liminares ao setor teatral por parte de juízes federais, o diretor-geral do DPF em exercício Raul Lopes Munhoz, em ofício para o ministro da justiça Gama e Silva, solicita a atenção do ministro “a fim de que as decisões do Departamento de Polícia Federal, no tocante às proibições de espetáculos pornográficos e subversivos não sejam sustadas com a concessão de liminares” por parte desses magistrados. Segundo ele, essa atitude provocava o desprestígio do SCDP, tendo em vista que as peças teatrais vetadas eram “automaticamente liberadas, favorecendo os grupos teatrais interessados na baderna e na subversão”. Provavelmente com receio de que acontecesse, com a proibição da peça teatral Roda Viva, de Chico Buarque – que estava suspensa para “encenação pública em todo o Território Nacional” –, o mesmo que aconteceu com outros casos, isto é, a suspensão da proibição. Como exemplo flagrante, diz ele, “citamos o episódio relacionado com a peça teatral ‘PRIMEIRA FEIRA PAULISTA DE OPINIÃO’, quando o Senhor Jorge de Andrade e outros impetraram Mandado de Segurança contra ato da Censura Federal”, conseguindo sua liberação através de despacho da Justiça Federal.

Em seguida, ele faz referência específica ao despacho do juiz federal do Estado de São Paulo, Américo Lourenço Masset Lacombe, que concedeu liminar à Primeira Feira

Paulista de Opinião, organizada pelo Teatro de Arena de São Paulo. Segundo ele, o juiz teria

afirmado em seu despacho, que “as letras e as artes são livres e através delas é permitido amplamente a manifestação de pensamento, de convicção política ou filosófica, respondendo cada um pelos abusos que cometer”.172 Como também, diz que o juiz teria citado “autores célebres, como Aristóteles, Horácio, Hegel, Antônio Sebastiano Mintaro [...] e tantos outros,