Frequentemente, o diagnóstico tem sido compreendido como sendo “a procura e a explicação
das causas patológicas, mediante a observação e a análise dos seus efeitos” (Paiva, Aguiar, & Pinho, 2006), mas há situações onde as causas são claramente conhecidas, como é o caso das anomalias provenientes de um sismo, de uma explosão, ou da aplicação de sobrecargas excessivas em locais que não foram dimensionados para tal.
Todavia, excluindo as causas diretas mencionadas anteriormente, tipificar as causas de anomalias em edifícios habitacionais é uma tarefa extremamente trabalhosa, podendo dever- se a diferentes aspetos (Paiva, Aguiar, & Pinho, 2006):
épocas de construção e inerentes especificidades;
enorme variedade de elementos e materiais constituintes de um edifício;
conhecimento limitado do desempenho e durabilidade de alguns elementos e materiais de construção em condições reais de utilização;
diversidade de funções que as várias partes do edifício e seus elementos constituintes desempenham;
complexidade do meio ambiente onde o edifício se integra;
várias fases ocorridas durante o tempo de vida útil de um edifício (conceção, projeto, construção, utilização - manutenção, alteração, reabilitação e demolição/desconstrução);
diferente interpretação entre causas e efeitos dos vários fenómenos que se podem desenvolver, podendo haver acontecimentos que são consequência de um ou mais fenómenos;
influência da componente humana nas fases do processo de degradação.
É de salientar que na maioria das vezes, as anomalias ocorrem devido à conjugação de variados fatores, não sendo possível tipificar uma única causa para a sua ocorrência (Lima, 2009). Todavia, as causas que se encontram geralmente na origem das anomalias (descritas nos subcapítulos seguintes), são devidas a erros de projeto, execução, utilização ou outras causas.
3.2.4.1. Projeto
Uma grande parte das anomalias constatadas em edifícios (36,0 a 49,0 %) (J.Reygaerts) devem-se a deficiências de projeto, como ilustrado na Figura 25. Para tal, numa fase primordial, é necessário apostar num bom projeto, pois este investimento só irá incrementar a qualidade construtiva da obra, permitindo uma contenção dos custos globais associados à mesma.
Figura 25 - Distribuição das anomalias em edifícios por tipo de causa
De entre as ocorrências que por vezes se verificam nas fases de conceção e projeto e que muitas vezes estão na origem do surgimento de anomalias, destacam-se as seguintes (França, 2014/2015):
deficiente avaliação da agressividade das condições de exposição; especificação inadequada dos materiais;
especificação deficiente dos recobrimentos das armaduras;
deficiente avaliação das deformações impostas - retração e temperatura; deficiente controlo da fendilhação;
deficiente controlo da deformação;
deficiente pormenorização de armaduras;
conceção estrutural inadequada (forma; drenagem; juntas; inclinação); deficiente avaliação das ações /esforços atuantes.
3.2.4.2. Execução
A execução, sendo a fase de materialização física da intervenção, é um dos períodos mais críticos da vida de um edifício, pois é nesta fase que se geram muitos procedimentos e decisões que afetam de forma definitiva a construção e que podem estar na origem de inúmeras anomalias dos quais nomeiam-se as seguintes (Paiva, Aguiar, & Pinho, 2006) e (França, 2014/2015):
seleção inadequada dos materiais;
não conformidade entre o projeto e a execução;
falta de preparação e de qualificação de mão-de-obra empregue, juntamente com o manuseamento e processos de aplicação inadequados dos materiais, originam erros/deficiências em diversas etapas:
- fabrico do betão; - cofragens Deficientes;
- posicionamento das armaduras; - recobrimentos - espaçadores; - colocação - compactação do betão; - cura do betão; 36,0 - 49,0% 19,0 - 30,0% 11,0 - 25,0% 8,0 - 11,0% 1,0 - 11,0% 0,0% 5,0% 10,0% 15,0% 20,0% 25,0% 30,0% 35,0% 40,0% 45,0%
Defeitos de projeto Defeitos de
execução Defeitos demateriais Defeitos deutilização Outros
- remoção prematura do escoramento da cofragem. ausência ou insuficiência de fiscalização.
3.2.4.3. Utilização - Exploração e Manutenção
Durante a fase de utilização de um edifício, são os utentes os principais responsáveis por manterem uma correta exploração e manutenção do mesmo, devendo estes estar cientes do tipo de uso para o qual o edifício foi projetado, bem como das operações de manutenção necessárias para um correto funcionamento da edificação. De entre as inúmeras situações que podem levar à ocorrência de anomalias, na fase de utilização, temos (França, 2014/2015):
exploração:
- cargas excessivas;
- exposição a substâncias/ambientes agressivos para os quais a estrutura não foi projetada.
manutenção:
- limpeza inadequada; - inexistente manutenção; - vida útil do material excedida.
É importante haver uma correta manutenção dos edifícios, pois só assim conseguiremos corrigir a tempo as anomalias detetadas, não permitindo que os fenómenos patológicos iniciados progridam, originando novas anomalias, onde por vezes a degradação já pode ser acelerada.
Em suma, é essencial referir que um erro na fase de projeto pode transcender-se até à fase de manutenção, pois, o mesmo pode transformar-se em dificuldades de execução, acarretar o aparecimento de anomalias na utilização ou, ainda, originar custos excessivos de manutenção (Paiva, Aguiar, & Pinho, 2006).
3.2.4.4. Outras Causas
Ações naturais - As ações naturais são ações que podem considerar-se como correntes e variam a sua intensidade consoante as condições de atuação, podendo tornar-se fortemente agressivas sobre as construções (Paiva, Aguiar, & Pinho, 2006). Podem ser de três tipos (França, 2014/2015):
físicas: temperatura, gelo/degelo, fogo, cristalização de sais, ações diretas (desgaste); químicas: dióxido de carbono - corrosão das armaduras, cloretos - corrosão das armaduras, oxigénio - corrosão das armaduras, ácidos - dissolução do cimento, sulfatos - reações expansivas com o cimento, álcalis - Reações expansivas com os agregados, sais e águas puras - dissolução do cimento;
Desastres naturais: são fenómenos que têm origem em causas naturais (tal como a causa anterior) mas são de maior intensidade, de ocorrência mais rara, cujos efeitos são geralmente mais graves, dos quais referem-se os seguintes:
sismo, tsunami, ciclone, tornado, tempestade marítima, cheia, avalanche, deslizamento de terras, erupção vulcânica, trovoada, grande incêndio, etc..
Desastres devidos a causas humanas imprevisíveis: são fenómenos de responsabilidade humana, que podem abranger uma construção ou um reduzido número de construções, em que pode haver uma diminuição da probabilidade de ocorrência deste tipo de desastres, através de medidas preventivas (Paiva, Aguiar, & Pinho, 2006). Podem ocorrer os seguintes desastres: fogo, explosão, choque, inundação, etc..
Na Tabela 55, pertencente ao Anexo AIII.4, encontram-se reunidas as principais causas de anomalias não estruturais, que servirão de base para caracterizar as possíveis causas das anomalias presentes nos edifícios de habitação em análise.