“Um galo sozinho não tece uma manhã: Ele precisará sempre de outros galos”.
Após a realização das sessões literárias junto aos diferentes segmentos escolares, durante as quais foram escolhidos os contos e poemas a serem incluídos no plano de pesquisa, além daqueles que seriam trabalhados posteriormente em sala de aula, deu-se início ao processo de planejamento,
com a participação dos professores e demais segmentos da escola. Ao coletá- lo na escola os professores informaram que continuava o mesmo e que não havia sofrido alterações.
Analisa-se, portanto, nesta seção, a atividade de planejamento com base nas transcrições do 10º Encontro de pesquisa-ação participativa, no qual foram delineadas as estratégias de reestruturação do Plano Bimestral – Ano 2000 trabalhado pelos professores de Língua Portuguesa – 3º ciclo.
2.1.1 Reestruturando o plano bimestral de trabalho
Antes de iniciar a reformulação do referido plano, a professora- pesquisadora ressaltou que havia planejado como tarefa prévia para o 10º Encontro a apresentação de uma reflexão acerca dos planos utilizados pelos professores de Língua Portuguesa, já discutidos anteriormente. Porém, a tarefa não foi cumprida pelos participantes, fato esse realçado pela professora-pesquisadora no início do encontro, lembrando, outrossim, que, apesar de os professores apontarem seus alunos como descumpridores de tarefas, estes também se incluem nessa categoria, mesmo na qualidade de profissionais.
Considerando-se que durante o 5º encontro de pesquisa-ação participativa, com base nas análises realizadas na dissertação (SAMPAIO, 2002), haviam sido discutidos junto aos participantes, ponto a ponto, os aspectos teórico-metodológicos apresentados no plano bimestral e no plano anual. Esperava-se, assim, uma maior contribuição dos envolvidos durante sua reformulação, porém, ao explicitar o objetivo do encontro, que seria “propor reflexões acerca do plano anual, especialmente o bimestral, visando a reorganizá-lo” (TRANSCRIÇÃO DO 5º ENCONTRO DE PESQUISA-AÇÃO PARTICIPATIVA, p. 144), percebeu-se que a expectativa dos participantes
era a de esperar unicamente pela iniciativa de reformulação proposta pela professora-pesquisadora.
Esse aspecto tornou-se evidente na medida em que os participantes não demonstravam se apropriarem do que no plano estava registrado, dificultando, assim, o encaminhamento para a reformulação proposta. Esse fato vem comprovar o desuso da atividade de planejar na escola como prática de reflexão e, ainda possivelmente, a pouca autonomia dos professores em lidar com o plano como instrumento. Nesse sentido, como discutido por Desgagné (1998) uma das contribuições da pesquisa-ação, em sua gênese pressupõe a necessidade de recuperar para os docentes o poder sobre sua prática, quando necessário, questionando-a.
Essa reformulação em conjunto se justifica pelo fato de que, como preconiza Vigotski (1996), o uso do instrumento não está limitado às experiências pessoais de um indivíduo, mas se constituem produtos das relações históricas entre os homens, de modo que a apropriação deles pelo indivíduo ocorre sempre na interação com o outro.
Diante disso, como encaminhamento, a professora-pesquisadora organizou os professores em grupos, e, de posse do plano, sugeriu aos participantes a reformulação de alguns aspectos que iam sendo analisados, mais uma vez, pela professora-pesquisadora. Isso porque, o propósito da pesquisa-ação seria que a reformulação fosse feita pelos envolvidos, já conhecedores de sua realidade e das finalidades do seu fazer pedagógico, cuja compreensão perpassava as reflexões emitidas, e não pela própria pesquisadora.
Recorrendo-se a Vasconcellos (1999, p. 82), ao discorrer sobre os fundamentos da elaboração do planejamento, vê-se que ele faz referência a três dimensões a serem levadas em conta nesse processo, de modo que a cada uma das dimensões do planejamento corresponda, respectivamente, a
um tipo de atividade reflexiva, quais sejam: a “Realidade (cognoscitiva), a Finalidade (teleológica) e Plano de Ação Mediadora (projetivo-mediadora)”.
A realidade é por Vasconcellos definida como o ponto de partida e o de chegada (só que já transformada), bem como o campo de caminhada. É por isso, que há a necessidade de conhecê-la antes para depois intervir, vendo-a sempre como uma construção e não como algo pronto.
A finalidade corresponde ao esclarecimento da intenção pretendida, que se configura na interação com o conhecimento da realidade e, partindo dela, se projeta, abrindo novas possibilidades de ação. Vê-se, com isso, que o plano de mediação é inerente ao planejamento, pois se caracteriza pela própria atividade reflexiva Projetivo-Mediadora, que tem como “função representar prefiguradamente uma ação e fazer” (VASCONCELLOS, 1999, p. 85).
Tendo como pressuposto o conhecimento acerca da realidade e da finalidade a que se destina o planejamento, surge o momento em que a “operacionalização precisa ser elaborada (plano de mediação), reconstruída, a partir da análise sobre as determinações da realidade e da reflexão sobre os fins almejados” (VASCONCELLOS, 1999, p. 86).
Com base nessa compreensão do processo de planejamento e de sua operacionalização, é que, após a distribuição de cópias do plano bimestral, todos pudessem apresentar propostas, com base no documento lido. Em seguida, a professora-pesquisadora passou a instigar os participantes a demonstrarem sua compreensão a respeito do que neste documento estava registrado e, com a ajuda do quadro de giz, passou a expor a finalidade almejada, sugerindo um esboço para sua reestruturação, à medida que discutia com os participantes a importância daquela proposta.
Na concepção de Libâneo (1994, p. 221), há três modalidades de planejamento, articuladas entre si: o plano da escola, referindo-se ao seu
bimestral/semestral de trabalho dos professores e o Plano de aula. Nessa
mesma perspectiva, porém apresentando diferente terminologia, Vasconcellos (1999, p. 95), ao definir os níveis de planejamento, considera que o Planejamento da escola corresponde ao seu Projeto Político-Pedagógico e o
Projeto de ensino-aprendizagem pode ser subdividido em Projeto de curso e Plano de aula (grifos nossos). É com base nesses autores que, no âmbito
desta tese, adotam-se as seguintes terminologias: Projeto Político-
Pedagógico (plano geral da escola), Plano bimestral (Plano de Curso) e Plano das sessões de leitura (Plano de aula).
Para Masetto (1997, p. 86), a eficiência de um plano de aula depende do fato de que, além de uma boa redação, é preciso que apresente diretrizes claras, práticas e objetivas. Para esse mesmo autor, o plano de ensino pode ser organizado em partes, cujos componentes são: 1) identificação; 2) objetivos; 3) conteúdos; 4) estratégias; 5) avaliação; 6) cronograma, e 7) bibliografia. A adoção desses aspectos constitutivos do planejamento, separadamente, dá-se em função da organização didática e não por compreendê-los como momentos isolados. Ao contrário, ressalta-se a necessária interligação e articulação entre esses componentes como norteadores do plano de ensino.
É nessa perspectiva que se aborda, aqui, o processo de planejamento e, conseqüentemente, a reelaboração do plano bimestral dos professores, considerando o constructo do plano original com o já reformulado pelo grupo, comparando-os, tendo por base os seus componentes, pois, como adverte Padilha (2002, p. 26):
O planejamento dialógico resgata justamente a dimensão histórica da experiência das pessoas e do planejamento já instituído nas escolas ou nos sistemas educacionais, para ampliar a possibilidade de reconstrução do que já existe, partindo do instituído para instituir outra coisa, mas em coletividade e permanente comunicação.
Mesmo se considerando o desuso do planejamento nas práticas escolares, ressalta-se o fato de que os professores-participantes afirmavam terem um plano, ou seja, um registro já instituído como documento. Esse fato não poderia ser desprezado na pesquisa, de modo que se apresenta, aqui, como referência de análise para o que foi construído coletivamente na pesquisa-ação.
Para a análise do planejamento pedagógico, elaboraram-se quadros demonstrativos dos planos bimestrais 2000 e 2004 [reformulado], comparando quadro a quadro, com base nos seguintes critérios: identificação do plano; atribuição dos objetivos; seleção de conteúdos; procedimentos metodológicos utilizados; avaliação; organização do tempo escolar; e inserção da bibliografia básica e dos anexos.
2.1.2 Identificando o plano de ensino
Para efeito de análise, adotou-se um quadro síntese dos elementos do plano, subdividido em duas colunas: na primeira, apresenta-se o documento do ano 2000 (Quadro 4), que foi instituído pelos professores antes da pesquisa-ação; na segunda coluna, apresenta-se o documento reelaborado no decorrer da pesquisa (Quadro 5), documento elaborado no ano 2002.
Um dos aspectos que, inicialmente, chama atenção na identificação deste documento (Quadro 4) é a confusão entre o que seja planejamento e plano, entendido pelos professores como sinônimos, como demonstrado a seguir:
Escola Estadual “4 de Setembro” Planejamento Bimestral – 1.º
Ano: 2000
Disciplina: Língua Portuguesa Série: 5ª
Escola Estadual “4 de Setembro” Plano de Trabalho - 2002 Disciplina: Língua Portuguesa
Ciclo: 3º Bimestre: 4º- Carga Horária: 60 h/a
Com isso, cabe assinalar o que se compreende por planejamento e por plano, uma vez que, além dessa evidência apresentada no Quadro 4, no decorrer desse trabalho ora se fala num deles, e, por repetidas vezes, fala-se de ambos, simultaneamente, como se ambos tivessem o mesmo significado. O planejamento é visto como um processo que, por si só, se diferencia de documento. Segundo Vasconcellos (1999, p. 81), o planejamento como processo envolve dois grandes subprocessos: o de “elaboração” e o da “realização interativa”. Isso porque planejar implica em tomada de decisão, implementação e em acompanhamento, instrumentalizando, assim, a visão política e pedagógica do sujeito.
Pode afirmar-se que o planejamento, como processo, está voltado para a sistematização de ações que possibilitam a implementação de objetivos a serem alcançados com a sua materialização. Já o plano (ver Quadro 5) se constitui no produto em forma de registro, documento escrito ou não, e que apresenta como função principal a de materializar o processo de planejamento.
Em outras palavras, o objetivo central do planejamento está vinculado à significação que este proporciona ao trabalho docente, podendo torná-lo instrumento de transformação das práticas, resultando num processo de reflexão e de tomada de decisão dos sujeitos envolvidos no processo ensino-aprendizagem. Como é definido por Cabral Neta (1997, p. 97), ao assinalar que “o planejamento é um processo que envolve uma reflexão
crítica e participativa (grifos da autora) sobre a previsão das principais
decisões que vão nortear o fazer pedagógico dos professores e a aprendizagem dos alunos”.
Conforme Sacristán (2000, p.197), o “plano indica a confecção de um apontamento, rascunho, [...] esboço ou esquema que representa uma idéia [...] que serve como guia para ordenar a atividade de produzi-lo efetivamente”. Assim, serve para prefigurar a prática, além de guiar em sua realização.
Portanto, identificar o plano de ensino implica em apontar suas características, ou seja, a qual disciplina pertence, qual a carga horária disponível; precisa, ainda, o tempo destinado a determinadas atividades, a que série ou ciclo se destina, o ano de implementação, além de outras informações julgadas necessárias.
Com isso, na identificação do plano bimestral, manteve-se o nome da escola (Quadros 4 e 5), substituindo-se o título de Planejamento bimestral (ver quadro 4) por Plano de trabalho (Quadro 5) e, ainda, a série por ciclo; inseriu-se, ainda, a carga horária prevista de 60h/a para o bimestre.
2.1.3 Atribuindo objetivos ao plano
Considerando que ensino e aprendizagem relacionam-se, dialeticamente, de modo que o ensino não existe por si mesmo, mas na relação com a aprendizagem, é que se dá especial atenção, no plano, à definição dos objetivos que traduzirão os resultados esperados. Os objetivos traçados indicam os conteúdos a serem selecionados, em termos conceituais, aos procedimentos metodológicos e as atitudes, incluindo-se o processo de avaliação.
Mesmo estando se referindo ao plano de ensino, estritamente ao seu aspecto didático, como este é um instrumento mais próximo da prática do professor, não é possível se estabelecerem objetivos específicos de uma disciplina sem que se tome como referência o Projeto Político-Pedagógico (PPP) da escola. Considerado como um documento norteador das diretrizes
gerais da instituição, o PPP indica o tipo de ação educativa para os que fazem a escola, dado seu caráter de construção coletiva.
Ao traduzir o foco de atuação da escola num dado momento (2002- 2004), o Projeto Político-Pedagógico deve ser levado em consideração na produção do plano anual, bimestral e nos demais que dele decorrem. A abrangência desse instrumento é determinada por uma dimensão mais geral do contexto escolar e por aspectos específicos do ensino, pois,
Pensar o planejamento educacional e, em particular, o planejamento visando ao projeto político-pedagógico da escola é, essencialmente, exercitar nossa capacidade de tomar decisões coletivamente (PADILHA, 2002, p. 79).
Portanto, é imprescindível que o plano bimestral de ensino leve em conta os princípios, os objetivos e as características do Projeto Político- Pedagógico da escola, campo de pesquisa-ação participativa, nas ações que o implementem dentro de sala de aula. Tomando por base essa reflexão é que, dentre os aspetos sugeridos e acatados pelo grupo de participantes, consta a inserção de dois objetivos gerais no plano bimestral, os quais estariam mais ligados ao Projeto Político-Pedagógico da escola. Com o primeiro se traçaria uma diretriz geral para o ensino, e, com o segundo, far-se- ia uma ligação com o ensino de língua materna, isto é, a que se propõe a disciplina Língua Portuguesa, como apresentado nos seguintes quadros:
Quadro 6: Objetivos do plano/2000 Quadro 7: Objetivos do plano/2002