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Tornar-se pai e tornar-se mãe são processos que correspondem a transições. O seu caráter irreversível faz com que a parentalidade seja descrita como uma das transições mais marcantes do ciclo vital, impulsionando grandes mudanças e reestruturações pessoais e familiares (Darvill, Skirton & Farrand, 2010; Frade, Pinto & Carneiro, 2013; Ohashi & Asano, 2012). Todas as transições são responsáveis por alterações profundas na vida das pessoas, mas a transição para a parentalidade é especialmente crítica. Criar e educar uma criança constitui o maior desafio que um progenitor enfrenta, mas nem todos os pais vivem este processo devidamente apoiados, o que pode comprometer o seu desempenho (Galdiolo & Roskam, 2012; Martins, 2013). A este propósito, Polomeno (2014) faz referência a todas transformações biológicas, sociais, físicas e psicológicas que ocorrem em simultâneo,

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acarretando uma gestão de stresse mais ou menos acentuada, consoante a capacidade dos pais para se adaptarem ao novo papel, particularmente naqueles que experienciam a parentalidade pela primeira vez.

O trajeto de desenvolvimento infantil é caracterizado tanto por marcos físicos do crescimento, como pelo cumprimento de tarefas-chave. É um processo dinâmico, que pode ser explicado através de perspetivas cognitivas, motoras, psicossociais e psicossexuais. A conquista bem-sucedida das tarefas-chave é fundamental para que as crianças adquiram e dominem as tarefas-chave da etapa seguinte (Sheridan, Sharma & Cockerill, 2014). Espera- se que o papel parental se reformule, se adapte e se ajuste à nova fase desenvolvimental da criança. Desta forma, o processo transacional do desenvolvimento infantil é acompanhado pelo processo transacional do exercício da própria parentalidade (Hockenberry & Wilson, 2014; Soares, 2008; Ytterhus, Wendelborg & Lundeby, 2008).

Na transição para a parentalidade torna-se fundamental que os recém pais ajustem as responsabilidades e objetivos pessoais e familiares, reconstruam a identidade e sentimentos acerca de si próprios, e reconheçam a necessidade de incorporar novos comportamentos e atitudes na sua vida (Cardoso, 2011). Expectativas irrealistas dificultam a sua adaptação (Darvill, Skirton & Farrand, 2010), pelo que deve existir congruência entre as suas perceções e o que irá de facto acontecer (Meleis, 2007; Ohashi & Asano, 2012).

A transição processa-se à medida que os pais vão tomando consciência do que mudou e em que medida as coisas estão diferentes (Cardoso, 2011), ou seja, através do que Meleis e colaboradoras (2000) descrevem como mudança e diferença. Quando existe reconhecimento das mudanças que a chegada de um filho representa, os pais são capazes de encontrar uma coerência para o que está a acontecer, reorganizando-se num novo modo de viver, ao criar as condições necessárias para receber o recém-nascido e assumir a responsabilidade subjacente ao seu papel (Deave & Johnson, 2008; Holmes, Sasaki & Hazen, 2013; Trillingsgaard et al., 2012).

Ao longo do exercício da parentalidade existem desafios de maior dificuldade e complexidade, que podem instigar stresse e vulnerabilidade parental, constituindo pontos ou eventos críticos. São exemplos: a transição entre etapas desenvolvimentais, problemas de comportamento, disciplina e estabelecimento de limites, bem como a adaptação ao infantário e escola (Liu et al., 2012; Martins, 2013; Polomeno, 2014; Ytterhus, Wendelborg & Lundeby, 2008). Para além destes, a hospitalização da criança é apontada como um dos pontos críticos mais significativos no exercício da parentalidade (Magalhães, 2011; Roteta & Torre, 2013; Spielman & Taubman-Ben-Ari, 2009).

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As condições do pai, da mãe e da criança, assim como a interação entre eles influenciam o desenrolar da transição (Cardoso, 2011). Distinguem-se como condicionantes facilitadoras: (1) a idade e maturidade dos pais, por estar ligada a uma parentalidade mais responsiva e sensitiva às necessidades da criança, bem como a um estilo parental mais flexível e autoritativo; (2) estatuto socioeconómico elevado, maior nível de escolaridade e menor carga horária laboral, pela maior disponibilidade de tempo e recursos para participar em atividades com a criança; (3) experiências anteriores com crianças, uma vez que os conhecimentos e habilidades prévias contribuem para uma maior autoconfiança e perceção de autoeficácia nos cuidados ao filho; (4) a satisfação conjugal e relacionamento estável entre o casal; (5) a coparentalidade e satisfação dos membros do casal com as divisões de tarefas parentais; (6) a disponibilidade para aprender e atitude positiva face aos desafios; (7) recurso a estratégias de coping predominantemente positivas (Biehle & Mickelson, 2011; Bouchard, 2014; Canaval et al., 2007; Cudmore, 2012; Di Maggio & Zappulla, 2014; Doss et al., 2009; Figueiredo et al., 2008; Liu et al., 2012; May & Fletcher, 2013; Mortensen et al., 2012; Östberg, Hagekull & Hagelin, 2007; Reichle, Backes & Dette-Hagenmeyer, 2012; Schoppe-Sullivan & Mangelsdorf, 2013; Soares, 2008; Spielman & Taubman-Ben-Ari, 2009).

A autoeficácia é uma das crenças que apresenta maior impacto na aprendizagem e no desempenho do papel parental (Biehle & Mickelson, 2011; Rogers & Matthews, 2004; Spielman & Taubman-Ben-Ari, 2009). Segundo Bandura (1977) caracteriza-se por ser uma crença de alguém quanto às suas próprias capacidades para desempenhar com sucesso determinada tarefa específica, crença essa que vai sendo construída através de experiências de êxito, persuasão verbal, flutuação emocional e experiências vicárias ou comparativas. Uma elevada perceção de autoeficácia pode aumentar a habilidade dos pais no envolvimento nos cuidados ao filho, enquanto que um baixo nível de autoeficácia está associado a sentimentos de ansiedade, depressão e stresse (Liu et al., 2012; Martins, 2013). O desenvolvimento da perceção de autoeficácia pode ser potenciado pela aquisição de competências (Bryanton, Beck & Montelpare, 2013; Martins, 2013). O exercício da parentalidade exige aos pais um conjunto de competências para que possam, desde logo, responder adequadamente às necessidades do filho, potenciando, ao máximo, o seu crescimento e desenvolvimento (Bryanton, Beck & Montelpare, 2013). A preparação prévia é um fator facilitador, assumindo um caráter importante na consciencialização e na construção de expectativas realistas (Meleis, 2010). Por outro lado, o défice de conhecimentos e habilidades no cuidado à criança pode comprometer a perceção de autoeficácia e de satisfação no exercício do papel parental (Liu et al., 2012).

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Segundo a literatura analisada, os pais, ao longo do processo de transição, devem adquirir conhecimentos e habilidades que lhes permitam articular competências no sentido de dar resposta às necessidades relacionadas com a alimentação, a higiene e conforto, os hábitos de sono e repouso, a prevenção de acidentes, a definição de limites e disciplina, a estimulação do desenvolvimento infantil e, ainda, as alterações do estado de saúde da criança. Estas necessidades vão-se, naturalmente, redefinindo ao longo da parentalidade, à medida que a criança cresce e progride nos estádios desenvolvimentais (Richards, Ciasulli & Schub, 2013; Schub & Engelke, 2014b; Schub & Engelke, 2014c; Schub & Engelke, 2014a; Schub & Engelke, 2014d).

As características da criança também têm sido apontadas como condicionantes do processo de transição para a parentalidade. O temperamento é um fator determinante, uma vez que, a forma como a criança responde aos cuidados que recebe, influencia a perceção de competência parental, afetando a confiança e o estilo parental (Lopes, 2012; Martins, 2013; Östberg, Hagekull & Hagelin, 2007; Spielman & Taubman-Ben-Ari, 2009). Porém, mais do que as características da criança em si, é, sobretudo, a forma como elas influenciam a relação entre os pais e a criança, que condiciona o processo de transição. Ou seja, os processos de ligação mãe/pai-filho e vinculação constituem fatores influenciadores da transição, sendo que a segurança e qualidade das interações afetivas contribuem para uma parentalidade mais positiva (Martins, 2013; Reichle, Backes & Dette-Hagenmeyer, 2012; Smith, 2014; Soares, 2008).

A transição parental deve colmatar na sensação de domínio das capacidades e comportamentos imprescindíveis para lidar com as novas circunstâncias e responder adequadamente às necessidades do filho. O processo da reformulação da identidade, pela incorporação do novo papel enquanto pais, desenvolve-se em várias fases até à integração da identidade parental, quando predominam sensações de competência e confiança (Canaval et al., 2007; Galdiolo & Roskam, 2012; Meleis, 2007; Meleis et al., 2000).

No decorrer da transição torna-se pertinente uma intervenção terapêutica dirigida ao reforço de competências e de recursos, bem como à minimização de vulnerabilidades, facilitando a incorporação do papel. Pela natureza dos cuidados que prestam e pela proximidade do seu trabalho, os enfermeiros encontram-se numa situação privilegiada para identificar necessidades parentais e respostas congruentes com as expectativas dos pais. Desempenham um papel preponderante, não só na adaptação à parentalidade, mas também nalgumas situações críticas no exercício da mesma, como o surgimento de uma doença na criança (Martins, 2013; Meleis, 2010) .

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