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OÖYİEP’nin Yürütücü İşlevler Üzerine Etkileri

Belgede T.C. MARMARA ÜNİVERSİTESİ (sayfa 130-136)

BÖLÜM V: SONUÇ, TARTIŞMA VE ÖNERİLER

5.2. Tartışma

5.2.2. OÖYİEP’nin Yürütücü İşlevler Üzerine Etkileri

Manoel Carlos, autor de telenovelas, defendendo a orientação factual que dá a suas produções, proferiu a seguinte sentença: “não posso omitir os problemas que enfrentamos”46. Essa frase também poderia remeter tranquilamente à postura ética assumida por um jornalista no exercício da sua profissão: segundo o inciso II do art. 6 do novo código de ética dos jornalistas brasileiros47, de 04 de agosto de 2007, é dever do jornalista divulgar fatos e informações de interesse público. De acordo com Bahia (1990, p. 9), “é da natureza do jornalismo levar a comunidade, direta ou indiretamente, a participar da vida social” através dos acontecimentos que difunde. Igualmente, nesse sentido, parece caminhar a telenovela, em virtude de sua recente preocupação em retratar o complexo social.

Em relação à prática do jornalismo, a obrigação de informar não representa nenhuma novidade, até porque esse é o motivo primeiro de sua existência. Já no tocante às narrativas novelescas, não havia, inicialmente, grandes preocupações com a vivência cotidiana dos indivíduos. Apenas em anos recentes, graças à postura de certos autores socialmente engajados, a sociedade passou a ser problematizada nessas tramas ficcionais. Dessa forma, constatamos que, desde fins dos anos 1960, ao aproximar-se da realidade social, a telenovela acabou fragilizando os limites que a separavam do discurso factual. Daí encontrarmos coincidências entre as metas daquele gênero ficcional e as do jornalismo.

Dando continuidade à análise do processo de factualização da ficção, esmiuçaremos o fazer jornalístico, buscando elencar alguns aspectos que lhe são específicos e que, de certa forma, foram incorporados ao fazer novelesco. Desse modo, poderemos compreender de maneira mais acurada as implicações da aproximação entre esses dois campos.

46 Manoel Carlos apud O DESTINO já está traçado. Extra, Rio de Janeiro, 03 jul. 2003. Geral.

47 Cf. BRASIL. Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, 04 de agosto de 2007. Disponível em: <http://www.fenaj.org.br/federacao/cometica/codigo_de_etica_dos_jornalistas_brasileiros.pdf>. Acesso em: 07 out. 2008.

Quando centramo-nos sobre o trabalho de seleção das temáticas que serão abordadas numa telenovela, constatamos que esse processo não se dá de maneira aleatória. Como vimos anteriormente, os autores contemporâneos apresentam uma clara preocupação em levar aos indivíduos informações e questionamentos sobre sua realidade, prestando, de certa forma, um serviço público a sociedade. Considerando tal meta, verificamos que os assuntos apresentados geralmente preenchem as seguintes qualificações: atualidade, relevância social, proximidade em relação aos interesses dos indivíduos e, principalmente, veracidade – que remete mais a uma questão de aparência (verossimilhança), do que de efetividade. Temos então elencados as quatro características básicas que elevam as temáticas novelescas ao status de notícia – matéria-prima do jornalismo.

Tal qualidade noticiosa dos assuntos suscitados na telenovela pode ser mais bem apreendida quando atentamos para os seguintes conceitos de notícia: segundo Schlesinger (1993), analisada de um ponto de vista temporal, a notícia deve ser percebida enquanto matéria efêmera e transitória. Isso evidencia seu caráter essencialmente atual; “notícia é qualquer fato, acontecimento ou opinião que interessa ou afeta um grande número de pessoas em uma comunidade e é capaz de ser por ela entendida”, assim apregoa Spencer (apud BAHIA, 1990, p. 36), deixando claro que o assunto noticiado deve prezar pela relevância social e está próximo da realidade dos indivíduos; já Alsina (1996, p. 185) nos diz que “notícia é uma representação social da realidade cotidiana, produzida institucionalmente, que se manifesta na construção de um mundo possível”. Esse autor evidencia a condição de perspectiva de mundo da matéria jornalística. Assim, aquilo que o jornalista nos expõe, com base em suas observações, são mais fragmentos do concreto, reconstruído discursivamente, do que sua total apreensão. Temos então que a veracidade exigida da matéria noticiosa remete mais uma questão de aparência do que de concretude. Isso justifica as palavras de Sodré e Ferrari (1986, p. 107), quando expõem que para a reportagem (leia-se notícia) “não é bastante ser verdadeira; [...] tem que parecer verdadeira – ser verossímil”. Assim, esses autores salientam que o texto deve se preocupar em “produzir determinado efeito, mas a partir de dados fornecidos pelo próprio real [socialmente constituído]” (p. 123).

Longe de apresentarmos aqui uma discussão exaustiva sobre o conceito de notícia, ou qualquer questionamento sobre a validade das definições propostas pelos autores citados, nosso intuito é apenas demonstrar que existe uma proximidade bastante significativa entre os critérios utilizados na seleção dos assuntos que serão tratados no âmbito novelesco contemporâneo e aqueles empregados comumente na definição do que é noticioso no campo factual.

Outra coincidência entre telenovela e jornalismo surge no trabalho realizado posteriormente à definição do tema que será enfocado: o cuidado na apuração dos dados. Segundo Bahia (1990, p. 40), “averiguar, indagar, questionar, esclarecer, romper convencionalismos e reservas, dirimir dúvidas, conhecer e conferir as diferentes versões de um acontecimento é o que se apura na notícia”.

Em dados coletados no Dicionário da TV Globo (2003), encontramos diversos exemplos de produções novelescas realizadas com base em pesquisas prévias, cujo objetivo primeiro era fornecer aos telespectadores uma representação a mais próxima possível do concretamente vivido: Barriga de Aluguel (1990), escrita por Glória Perez, teve sua sinopse apoiada em pesquisas científicas em torno da inseminação artificial. A trama teve como eixo central a disputa, na justiça, pela guarda de uma criança, envolvendo a mulher que gerou o embrião e a que o carregou na barriga. Para reproduzir de maneira verossímil esse processo judicial, aquela autora contou com a assessoria de três juízes; Em Laços de Família (2000- 01), de Manoel Carlos, temos como tema principal uma história baseada em fatos concretos. Segundo esse autor, por volta de 1990, nos Estados Unidos, foi veiculado na imprensa o drama de uma mãe que, almejando salvar sua filha da leucemia, engravidou para que o bebê pudesse lhe doar a medula. O material completo sobre esse caso mais um extenso banco de dados sobre tal doença foram coletados, contribuindo, assim, para uma composição bastante verossímil de uma situação similar na trama ficcional. Outro assunto destacado nessa telenovela, e que também mereceu uma pesquisa cautelosa, foi a prostituição feminina no âmbito da classe média, representada através da personagem Capitu. Para compor esse personagem, Manuel Carlos se fundamentou em entrevistas que haviam sido realizadas por sua equipe junto a garotas de programa. Percebemos, com base nessas duas produções, que a telenovela, ao versar sobre questões factuais, alcançou uma dimensão jornalística, inclusive no que se refere ao tratamento da informação que será abordada.

A mesma postura objetiva que se exige do jornalismo48 tem sido continuamente cobrada das telenovelas no tocante a veiculação de representações mais fidedignas às situações e tipos humanos encontrados na sociedade. Podemos pensar nisso no sentido, já tratado, da habituação: ao distanciar-se dos enredos folhetinesco-melodramáticos em favor de uma abordagem contemporânea, as telenovelas brasileiras fomentaram a formação de novas expectativas em relação aos seus conteúdos. O público não mais busca nas tramas novelescas histórias simplórias, marcadas pelo maniqueísmo, seus anseios se direcionam as abordagens

48 A objetividade no campo jornalístico e sua efetiva aplicabilidade serão problematizadas em extensa análise desenvolvida no próximo capítulo.

mais verossímeis, precisamente em razão da atual ancoragem das telenovelas no cotidiano. Temos, então, que os telespectadores se mostram inclinados na seguinte direção: se é para a telenovela retratar o cotidiano, então que ela faça isso da forma mais fiel possível.

Bahia (1990, p. 13) expõe que “em jornalismo uma informação objetiva é uma informação fiel ao que relata, precisa no que diz. Em sentido mais amplo, objetividade significa apurar corretamente, ser fidedigno, registrar as várias versões de um acontecimento. É também ser criterioso, honesto e impessoal”. Dessa forma, ser objetivo é prezar por um relato factual imparcial, ou seja, todos os esforços são despendidos para se evitar abordagens tendenciosas, falhas na apuração dos fatos, visões preconceituosas... Daí a necessidade de se verificar todas as faces de uma história, almejando o máximo de precisão.

Quando foi transmitida a telenovela Duas Caras (TV Globo – 2007-08), escrita por Agnaldo Silva, houve uma grande polêmica em torno da forma como foi representado aí o comportamento evangélico: em um de seus núcleos dramáticos, essa narrativa trouxe à discussão o problema do preconceito em relação aos comportamentos sociais distantes do padrão heteronormativo e patriarcal. Nesse sentido, o autor se centrou sobre a intolerância religiosa em relação aos novos arranjos familiares: em uma das cenas exibidas, viu-se um grupo de evangélicos agredindo fisicamente três personagens – Bernardinho, de orientação homoafetiva, Dália e Heraldo – que mantinham um relacionamento amoroso entre si. De acordo com a revista Veja, em matéria intitulada “Fogueira santa”, publicada em 19 de março de 2008, a central de atendimento ao espectador da TV Globo registrou várias reclamações de pessoas evangélicas que se mostraram ofendidas diante de tal representação ficcional49. Nas palavras do jornalista Michelson Borges, seguidor da doutrina adventista, o que foi apresentado não passa de “uma deturpação tremenda do que vem a ser um evangélico”50. Ele ainda ressalta que os autores de telenovela deveriam realizar pesquisas mais aprofundadas para não incorrem em erros desse tipo. Percebe-se, com isso, que, diante de uma tendência factual na teledramaturgia, o público passa a não aceitar representações imprecisas, nem distorções, nem adaptações, o que ele espera é exatidão entre o desenrolar das tramas novelescas e a lógica do cotidiano social.

A perecibilidade dos assuntos tratados nas telenovelas contemporâneas brasileiras é mais um reflexo de sua dimensão jornalística. A notícia é em si um produto efêmero, só tem

49 Cf. MARTHE, Marcelo. Fogueira santa. Veja, n. 11, ed. 2052, 19 mar. 2008. Disponível em: <http://veja.abril.com.br/190308/p_139.shtml>. Acesso em: 26 set. 2008.

50 Michelson Borges apud POLÊMICA no horário nobre. Domingo Espetacular. São Paulo: TV Record, 16 de mar. de 2008. Vídeo online (10min5), son., color., arquivo FLV. Disponível em: <http://www.mundorecord.com .br/play/5470bce2-d6c7-4bf5-8dcb-f452dbbc737b>. Acesso em: 6 out. 2008.

razão de ser quando se refere a fatos recentes. Assim encontra-se em Park (1972, p. 175): “como forma de conhecimento, a notícia não cuida essencialmente nem do passado nem do futuro, senão do presente [...]. A notícia só é notícia até o momento em que chega às pessoas para as quais tem interesse noticioso. Publicada e reconhecida a sua significação, o que era notícia se transforma em História”. Dessa forma, temos que o impacto causado por determinadas questões levantadas nas narrativas ficcionais está estreitamente ligado à sua atualidade, à relevância que apresenta em um dado contexto sócio-histórico. Caso tais narrativas sejam novamente veiculadas, perdem a sua qualidade noticiosa, passando apenas a funcionar como registros históricos51. Por esse ângulo segue o ponto de vista de Pallottini (1998, p. 74), quando afirma que a telenovela contemporânea brasileira é “um programa vivo, atual, reconhecível em sua urgência e, posteriormente, em sua historicidade”. Assim, “certas telenovelas que se poderiam supor excessivamente datadas, ou excessivamente locais, podem ser, hoje em dia, revistas e estudadas como testemunhas de um tempo e de um lugar que, a um determinado momento, se documentaram”.

Nesse sentido, interessa voltarmo-nos, mais uma vez, à telenovela Mulheres Apaixonadas. Se a atualidade é uma das características essenciais da notícia, aquela narrativa teledramatúrgica pode ser considerada praticamente um telejornal, justamente em virtude da instantaneidade com que captava os acontecimentos do dia-a-dia para depois expô-los aos telespectadores. Tal proeza pôde ser realizada, pois algumas cenas passaram a ser gravadas poucas horas antes de serem veiculadas, precisamente para que fosse possível a inserção, na fala dos personagens, dos fatos que acabavam de ser noticiados nos veículos jornalísticos. Segundo o autor Manoel Carlos, sua equipe ficava atenta às notícias do rádio até as 18h, quando eram gravadas as cenas com a inclusão das ocorrências coletadas52. Em suas palavras: “esta novela, mais do que as outras, foi pensada com esse objetivo, de reproduzir acontecimentos do dia, de repercussão nacional, em cima do lance. Ela é mais ‘realista’ do que as outras porque hoje existem mais recursos técnicos, mais agilidade em produção e edição”53. Assim, devido a seu caráter extremamente atual, Mulheres Apaixonadas será retomada, posteriormente, como representante ficcional no contexto de um estudo de caso,

51 No quarto capítulo retomaremos esse aspecto, expondo dados mais precisos acerca da relevância factual de uma telenovela reprisada: como exemplo, nós abordaremos a reexibição da produção Mulheres Apaixonadas, que se deu entre 01 de setembro de 2008 e 27 de fevereiro de 2009.

52 DARIANO, Daniela. Novela em tempo real. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 27 fev. 2003. Cidade, p. 14. 53 Manoel Carlos apud CASTRO, Daniel. Globo põe notícia do dia em novela das 8. Folha de São Paulo, São Paulo, 27 fev. 2003. Ilustrada. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2702200304.htm>. Acesso em: 06 abr. 2009.

que será desenvolvido no último capítulo, acerca do trânsito informacional entre a ficção novelesca e o jornalismo impresso brasileiros (representante factual).

***

Demonstramos, até aqui, o gradativo deslocamento da telenovela de uma estrutura “fantasiosa” rumo à “jornalisticidade” ficcional, ou seja, saímos de uma narrativa distante do cotidiano presente para uma que o tem como substrato. Mas é importante ressaltar que esse movimento se mostra apenas como uma tendência, até o momento não se efetivou por completo, pois a ficção ainda não deixou de ser percebida enquanto tal. O que temos de concreto é apenas a utilização de novos mecanismos que amplificam o efeito de real, favorecendo os processos de identificação. Morin resume de forma coerente essa situação, expondo que, para esses novos produtos ficcionais midiáticos,

O ótimo da identificação se estabelece num certo equilíbrio de realismo e de idealização; é preciso haver condições de verossimilhança e de veridicidade que assegurem a comunicação com a realidade vivida, que as personagens participem por algum lado da humanidade quotidiana, mas é preciso também que o imaginário [leia-se ficção] se eleve alguns degraus acima da vida quotidiana, que as personagens vivam com mais intensidade, mais amor, mais riqueza afetiva do que o comum dos mortais. É preciso, também, que as situações imaginárias correspondam a interesses profundos, que os problemas tratados digam respeito intimamente a necessidades e aspirações dos leitores ou espectadores; é preciso, enfim, que os heróis sejam dotados de qualidades eminentemente simpáticas. (MORIN, 1997, p. 82-83)

Vemos, com isso, uma dialética entre a estética do excesso – sentimentos e situações conduzidas ao extremo – e a estética do cotidiano – imersão na trivialidade da vivência humana. Acreditamos, no entanto, que, no contexto atual, a segunda está levando vantagem. É importante ressaltar que, mesmo não tendo alcançado seu ápice, o processo de factualização ainda se mostra em curso: a telenovela brasileira, a cada dia, tem se aproximado mais do complexo social, exercendo, por vezes, em certa medida, um papel informativo junto aos indivíduos. Com isso, vemos delinear-se um novo estatuto para a ficção.

Nosso próximo passo será verificar um outro processo, paralelo ao da factualização da telenovela, ocorrente no campo midiático: a ficcionalização do jornalismo. Pois acreditamos que seja por causa desses dois movimentos, de sentidos opostos, mas convergentes num mesmo ponto de equilíbrio médio, que os discursos factuais e ficcionais tendam praticamente ao mesmo nível de credibilidade.

Belgede T.C. MARMARA ÜNİVERSİTESİ (sayfa 130-136)