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A qualidade da atenção do ator depositada no seu trabalho, dos ensaios às apresentações, pode determinar a qualidade da recepção do espetáculo teatral. Cada mínimo detalhe da fala é importante na fruição de uma encenação. O ator deve ativar sempre a sua atenção, sustentando-a e renovando-a, para trabalhar sobre a palavra e capturar esse tão sensível sentido do espectador que é a audição. Nesse aspecto, ao refletirmos sobre

criações cênicas nas quais o texto é um dos principais referenciais, devemos dar atenção especial à habilidade do ator em transformar a palavra escrita em fala cênica.

Nessa transformação do texto escrito para a cena, ao menos duas questões serão sempre pertinentes a qualquer momento de um processo criativo:

• Para que pretendemos encenar tal texto e levá-lo ao espectador?;

• O que deve ser indispensável para nossa montagem não se tornar apenas um recital de um texto literário decorado?

Se não acharmos respostas à primeira pergunta os atores poderão ficar com suas atenções dispersas, criando cenas sem unidade de sentido, culminando no desinteresse ou na apreciação confusa do espectador. Quanto à segunda questão, se não é considerada, não poderíamos negar que, talvez, a leitura da peça no livro fosse um convite mais agradável à recepção do que assistir a uma montagem pouco trabalhada ou de elaboração confusa. Mais adiante serão retomadas essas questões.

A atenção do ator precisa, portanto, ser ativa, para que não seja apenas um ente passivo da criação que fica a esperar as indicações do diretor. O ator não deve ativar a atenção apenas por breves momentos da criação, como quando o diretor o solicita que faça algo, mas deve sustentá-la sempre que estiver em trabalho, renovando-a, constantemente, com inesgotável imaginação e insaciável curiosidade.

É a qualidade da ação do ator que irá atrair ou não a curiosidade do espectador, e a qualidade de sua ação depende do nível de sua atenção. Se o ator tem o zelo de estar sempre atento, de forma ativa, curiosa e instigada, podem ser maiores as chances da atenção do espectador também ser ativa e instigante em relação ao espetáculo. Conquistar e manter a atenção do espectador não é o único objetivo do ator, mas isso não pode ser ignorado, tendo em vista que o teatro é uma arte de encontro presencial.

Atores pretendem suscitar algo no espectador e esse é um dos principais motivos que leva as pessoas ao teatro. Sentimentos? Emoções? Reflexões? Sensações? Seja o que for, para suscitar algo no espectador, será preciso, primeiro, captar a sua atenção. Não se trata de fazer macaquices, ainda que macaquices possam até ser interessantes em algum contexto específico, mas sim de trabalhar atentamente sobre cada palavra, verso, frase e trechos longos. É preciso rechear esse trabalho com justaposições, como de ritmos e intensidades distintas, organizadas em perspectiva, para oferecer ao espectador ações físicas com qualidades específicas e instigantes.

Nesse sentido, para elaborar uma fala cênica com variações de elementos como ritmo, entonação, timbre, intensidade e fluência51, o ator deve dominar recursos técnicos como a respiração, a articulação, a colocação e a ressonância. Ler o texto somente respeitando a pontuação e a semântica também não é suficiente para conquistar a atenção do espectador. Para que a fala do ator não soe monótona e previsível, é necessária uma qualidade vocal específica ao teatro, pois, parafraseando Stanislávski (2008), cada pequeno trecho do texto dramático deve ser dito, em cada instante da cena, motivado por algum elemento de seu contexto.

Para saber como falar em cena, é preciso saber ampliar a escuta. É necessária uma escuta atenciosa para poder captar os elementos mais provocativos das circunstâncias propostas e saborear o texto num jogo de reações: um ator ouve o outro com interesse e atenção ativa, deixando-se tocar por suas palavras e/em ações, e, por conseguinte, como uma (re)ação física, diz também o seu texto. Esse jogo do ator, quando bem executado, com atenção e com perspectiva, pode elevar sua presença artística a um nível capaz de provocar grande interesse e atenção, também, em quem o observa.

Não estamos dizendo que o ator deve ser refém do espectador, subordinando sua arte aos gostos e desejos de um suposto público. Stanislávski também não pretendia isso. No entanto, é necessário que o ator seja capaz de proporcionar

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um evento artístico aos espectadores, que possa catalisar o seu interesse e sua atenção.

Para concluir esta seção, vejamos as palavras da diretora e pesquisadora teatral Anne Bogart, que destaca, do ponto de vista dos criadores da obra teatral, o papel fundamental da atenção e do interesse:

Grandes peças resistem ao tempo porque abordam questões humanas críticas que ainda são vitais para uma cultura. Quando estendemos a mão para uma peça, quando estabelecemos contato, criamos uma relação com essas questões. O interesse é nosso guia. O interesse desperta atenção. A atenção excita o objeto de nossa atenção. Nós interagimos com interesse e atenção a esses temas e eles também reagem. Nessa interação acontece alguma coisa que nos transforma. Nossa tarefa é encontrar formas em que a interação possa ocupar o momento presente. Nossa esperança é que ela será perceptível a outros que serão arrebatados ao sentir sua energia e poder (BOGART, 2011, p. 82).

Para que essa esperança de arrebatamento dos espectadores, mencionada por Bogart, possa se tornar concreta, o ator deve, de acordo com o “sistema” de Stanislávski, fundamentar a sua criação no uso consciente da imaginação e da visualização. Como veremos a seguir, as imagens instigam e potencializam a fala do ator.

Benzer Belgeler