2. BÖLÜM AİLE İÇİ ETKİLİ İLETİŞİM AÇISINDAN NLP (NÖRO LİNGUİSTIK PROGRAMLAMA) VE UYGULAMALAR
2.1. NÖRO LİNGUİSTİK (NLP) KAVRAM
2.1.4. NLP’NİN AMACI VE UYGULAMA ALANLAR
Muito embora a servidão por dívida seja o principal mecanismo de cerceamento da liberdade do trabalhador praticada no meio rural brasileiro, tal fenômeno não se restringe ao limite geográfico nacional.
Guardadas as especificidades regionais e locais, trata-se de um problema de proporções globais e, por isso, desperta a atenção de diferentes organismos internacionais competentes, tanto pela tutela dos direitos inerentes a qualquer ser humano, quanto pela elaboração de normas relativas à proteção do homem na relação específica de trabalho ou de emprego.
Independente do campo de atuação, o fato é que a servidão por dívida, bem como outras práticas análogas ao trabalho escravo, viola o valor central das sociedades contemporâneas, consagrado de maneira pioneira pela Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1948: a dignidade da pessoa humana.
Além disso, atinge também a sua dimensão social consubstanciada no direito ao trabalho, que engloba diversos aspectos, desde a livre escolha de emprego, passando pelas condições justas e favoráveis de trabalho, até uma remuneração que assegure uma existência digna ao trabalhador e a sua família.
Portanto, o combate e a erradicação dessa e de outras modalidades contemporâneas de trabalho escravo depende de uma atuação conjunta de todos os Estados,
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Tendo em vista a abrangência da conceituação elaborada pela OIT sobre trabalho forçado, optou-se por manter o foco sobre as peculiaridades da servidão por dívida praticada no Brasil. Muito embora essa observação possa parecer dispensável, o leitor deve estar atento para o fato de que essa modalidade de trabalho forçado é encontrada em vários países e, dependendo do contexto local, pode apresentar diferentes características. No contexto particular do sul da Ásia, por exemplo, a servidão por dívidas é encontrada em diversos setores que sofrem pressões econômicas intensas, como a tecelagem artesanal, a moagem do arroz, a fabricação de tijolos e a exploração de pedreiras. A grande parte da força de trabalho, nesses casos, é constituída de trabalhadores migrantes vindos de países mais pobres da região ou, no caso da China e Índia, das províncias mais pobres em direção àquelas com um crescente desenvolvimento industrial. O recrutamento é realizado através de agentes laborais, principalmente na época das chuvas, que adiantam entre três a sete meses dos rendimentos familiares, ficando o trabalhador obrigado a retornar ao local de prestação de serviços se o adiantamento não for liquidado (OIT, 2009, p. 17-20).
mesmo que tais práticas não estejam incorporadas tradicionalmente às crenças ou aos costumes de alguns territórios nacionais35.
Em um contexto de globalização e de intensos fluxos migratórios, principalmente por motivos econômicos e sociais, questões como a exploração do trabalho através da imposição de dívidas ilegais deixa de ser um desafio interno e passa a atingir de modo indistinto, tanto as nações desenvolvidas quanto os países denominados em desenvolvimento. Bhavna Sharma (2008, p. 40-41), citando os dados estimados pela ONU, indica que no mundo existem 20 milhões de pessoas submetidas à escravidão por dívidas e, apesar de ser comumente encontrada no trabalho agrícola, como é o caso do Brasil, Paraguai, Bolívia e Peru, ela está também disseminada em outras várias atividades econômicas, atingindo adultos e crianças.
Mantendo a proposta sistemática dos itens anteriores, o estudo do “cerceamento da locomoção do trabalhador em razão de dívida contraída com empregador ou preposto”, conforme dispõe o art. 149, caput, do Código Penal, será realizado através da análise conjunta dos compromissos firmados no exterior e dos diversos instrumentos normativos internos atinentes à matéria.
No que tange ao conteúdo das expressões “servidão por dívidas” e “servidão em geral”, a Convenção Suplementar sobre a Abolição da Escravatura de 195636 estabeleceu, em seu art. 1° e alíneas, a definição que envolve ambas as situações. Na íntegra determina o dispositivo:
Cada um dos Estados Partes a presente Convenção tomará todas as medidas,
legislativas e de outra natureza que sejam viáveis e necessárias, para obter
progressivamente logo que possível a abolição completa ou o abandono das
instituições e práticas seguintes onde quer ainda subsistam, enquadram-se ou não na definição de escravidão que figura no artigo primeiro da Convenção sobre a escravidão assinada em Genebra, em 25 de setembro de 1926
a) A servidão por dívidas, isto é, o estado ou a condição resultante do fato de que um devedor se haja comprometido a fornecer, em garantia de uma dívida, seus serviços pessoais ou os de alguém sobre o qual tenha autoridade, se o valor desses serviços não for eqüitativamente avaliado no ato da liquidação de dívida ou se a duração desses serviços não for limitada nem sua natureza definida;
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No Nepal, por exemplo, haliya é o termo usado para denominar os trabalhadores rurais que são obrigados a trabalhar para os proprietários das terras, em virtude da pobreza, do endividamento e, principalmente, em função do complexo sistema de castas, que isenta as classes mais altas de tais atribuições. A grande maioria dos trabalhadores escravos no Nepal pertence ao grupo indígena Tharu que, por terem sido desapossados de suas terras tradicionais, submetem à escravidão por dívida (chamada de kamaiya) para a própria sobrevivência. A sua característica peculiar é a possibilidade dos proprietários de vender seu kamaiya para outro senhor de terras. Embora aleguem que somente a dívida é vendida, na prática trata-se de um mecanismo de compra e venda de trabalhadores (ANTI-SLAVERY INTERNACIONAL, 1999, p. 54-55).
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A Convenção sobre a Escravatura de 1926 e a Convenção Suplementar de 1956, ambas da Organização das Nações Unidas, foram promulgadas no Brasil através do Decreto n° 58.563 de 1° de julho de 1966, após terem sido aprovadas pelo Congresso Nacional pelo Decreto Legislativo n° 66/65 (SCHWARZ, 2008, p. 115).
b) a servidão isto é, a condição de qualquer um que seja obrigado pela lei, pelo costume ou por um acordo, a viver e trabalhar numa terra pertencente a outra pessoa e a fornecer a essa outra pessoa, contra remuneração ou gratuitamente, determinados serviços, sem poder mudar sua condição (grifo nosso).
Para a organização internacional de Direitos Humanos, Anti-Slavery Internacional (1999, p. 50-51), o artigo “proíbe qualquer escravidão por dívida em que os termos precisos do pagamento não tenham sido especificados, ou em que o trabalho feito por um devedor não seja remunerado da mesma maneira que o salário recebido por trabalho semelhante”.
Complementa Rodrigo Garcia Schwarz (2008, p. 115) que a definição estabelecida pela Convenção Suplementar supera a concepção restrita de escravidão prevista na Convenção sobre a Escravatura de 1926, que associava a prática do escravismo à incidência do direito de propriedade. Como resultado, a servidão por dívidas e a servidão em geral ficaram, para todos os efeitos, equiparadas à escravidão histórica.
É o que explica a obrigação imposta, pelo texto em destaque, aos Estados partes de adotarem as medidas necessárias, de natureza legislativa ou não, com o fim de abolir e abandonar todas as práticas análogas ao trabalho escravo, mesmo que não se enquadrem na definição estabelecida no art. 1°, §1 da Convenção de 1926 da Organização das Nações Unidas.
Entretanto, o mérito da Convenção Suplementar de 1956 não se resume apenas no alargamento da conceituação tradicional de escravidão, mas, igualmente, na proteção ampla dispensada ao princípio da liberdade de trabalho. Tal conclusão pode ser inferida através da regra prevista na Seção VI, art. 9°, ao dispor que os compromissos firmados pelos Estados partes não poderão fazer qualquer reserva ao texto do documento internacional em estudo.
Na mesma direção, a Convenção n° 9537 da OIT, sobre a proteção do salário, oferece um importante substrato no tratamento da matéria. Ao estabelecer condições específicas de pagamento e ao vedar limitações à livre disposição do salário impostas pelo empregador (art. 6°), a Convenção tangencia o problema da servidão por dívidas ou da peonagem, especialmente praticada no Brasil.
Tal é o sistema de garantias assegurado pelo documento internacional, art. 2°, §§ 2 e 3 c/c art. 22 da Constituição da OIT, que a exclusão da aplicação de qualquer de seus dispositivos pelos Estados Membros deverá ser indicada nos relatórios anuais apresentados à
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Convenção aprovada na 32ª reunião da Conferência Internacional do Trabalho, com entrada em vigor no plano internacional em 24.09.52. No Brasil, o compromisso internacional foi aprovado através do Decreto Legislativo n° 24 de 29.05.56, ratificado no ano seguinte e com vigência nacional em 25.04.1958. Informações disponíveis no endereço eletrônico: <http://www.ilo.org/public/portugue/region/ampro/brasilia/info/download/ convencao95.pdf>. Acesso em 09.09.2010.
Repartição Internacional do Trabalho, especificando, inclusive, quais as categorias de pessoas atingidas pela medida.
Há que se destacar que eventuais limitações impostas pela autoridade competente só poderão ocorrer em casos excepcionais ou quando não for conveniente a aplicação dos dispositivos da presente Convenção, pelas condições ou circunstâncias de emprego, bem como em função de práticas de uso corrente específicas de cada país. É interessante observar que a competência conferida às autoridades não exclui a fixação de limitações por meio de negociação coletiva, por sentença ou através de medidas legislativas.
Dentre as restrições38 impostas pela Convenção da OIT, vale a pena mencionar o pagamento do salário em moeda de curso legal, sendo vedada a sua realização através de bônus ou cupons, art. 3°, §§1 e 2, e a proibição de descontos em salários pelo empregador, salvo quando previstos em lei ou convenção coletiva e desde que o trabalhador seja devidamente informado sobre as condições e os limites que tais descontos puderem ser efetuados, art. 8°, §§1 e 2.
Maurício Godinho Delgado (2006, p. 762) afirma que são dois os fundamentos do articulado conjunto de garantias e proteções ao salário contra abusos do empregador, com o fim de viabilizar “a sua livre e imediata percepção pelo trabalhador ao longo da relação de emprego”.
Do ponto de vista social, a proteção se justifica, pois as verbas salariais atendem às necessidades essenciais do obreiro, como ser individual e social, respondendo substancialmente pela sua sobrevivência e de sua família. Quanto ao aspecto jurídico, o ordenamento reconhece no salário um caráter alimentar, conferindo à parcela uma tutela especial em relação a outros direitos e créditos existentes (DELGADO, 2006, p. 762).
Assim, a prática do endividamento ilegal através da qual o empregador ou preposto utiliza o artifício de oferecer ao trabalhador um adiantamento, a ser descontado em seus salários futuros, além da cobrança irregular de despesas com a alimentação, o transporte, as ferramentas e, até mesmo, as multas decorrentes de trabalho insatisfatório, resulta em mecanismo proibido no âmbito internacional e no ordenamento justrabalhista brasileiro (ALEXIM, 1999, p. 44).
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Tais restrições estão também previstas na CLT, conforme dispõe o art. 462, caput e §1° a §4° e o art. 463,
As variadas denominações39 empregadas para retratar o fenômeno existente no meio rural brasileiro, como peonagem, truck system, imobilização por dívida ou trabalho cativo, não alteram a característica central dessa modalidade de escravidão contemporânea que é o débito crescente imposto ao trabalhador que inviabiliza o livre rompimento da relação de emprego, cerceando consequentemente a sua liberdade de locomoção.
Alice Monteiro de Barros (2009, p. 820-821), ao analisar o truck system, explica que tal sistema retributivo expandiu durante a Revolução Industrial, principalmente com o desenvolvimento do maquinismo e da grande manufatura, mas já existia na Inglaterra desde o século XV. Tratava-se de uma eficaz alternativa devido à escassez de moeda e à falta de gêneros básicos da vida, em determinadas regiões, o que obrigava as empresas a organizar instituições para o fornecimento desses insumos aos empregados.
Contudo, o pagamento através de vales ou cupons e, posteriormente, o fornecimento dos gêneros de primeira necessidade pelo próprio empregador ou por terceiros a ele vinculados, através do conhecido “barracão”, começou a gerar uma série de abusos resultando no endividamento dos trabalhadores e no seu estado de submissão vitalícia. Os preços cobrados eram extorsivos e os produtos destinados ao abastecimento eram de péssima qualidade (BARROS, 2009, p. 821).
Daí o porquê do ordenamento jurídico, em geral, proibir taxativamente “a vinculação automática do salário a armazéns ou sistemas de fornecimento de mercadorias” (DELGADO, 2006, p. 766), como também impedir a coação ou o induzimento do trabalhador para utilizar as lojas e armazéns da empresa, caso existam40. Nestes termos, conferir os seguintes dispositivos legais:
Art. 7° da Convenção n° 95 da OIT
1. Quando em uma empresa forem instaladas lojas para vender mercadorias aos trabalhadores ou serviços a ela ligados e destinados a fazer-lhes fornecimentos,
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Imobilização por dívida é o termo usado por Neide Esterci (1994, p. 13), pois em tal situação a extração dos serviços é feita através da coação física e/ou moral, resultando na imobilização da mão-de-obra, ou seja, na restrição da capacidade do obreiro de ir e vir, além da limitação de sua liberdade de oferecer a outros os seus serviços. Já o trabalho cativo é expressão utilizada por Ricardo Rezende (2004, p. 19), que o contrapõe ao trabalho livre. Segundo o autor, o trabalho cativo seria aquele em que “o peão deve adquirir a alimentação, os objetos de cozinha, a lona de plástico para a construção do barraco e as ferramentas de trabalho do próprio gato no preço que ele decidir”. Enquanto no trabalho livre “a remuneração do peão na fazenda está livre de quaisquer despesas”.
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Nestes termos, conferir também o art. 203 do Código Penal que tipifica como crime a conduta de frustrar direito assegurado por lei trabalhista, aplicando a mesma pena de detenção, de acordo com §1°, I, àquele que “obriga ou coage alguém a usar mercadorias de determinado estabelecimento, para impossibilitar o
desligamento do serviço em virtude de dívida”. Aqui o objeto jurídico a ser protegido é a organização do
nenhuma pressão será exercida sobre os trabalhadores interessados para que eles façam uso dessas lojas ou serviços.
2. Quando o acesso a outras lojas ou serviços não for possível, a autoridade competente tomará medidas apropriadas no sentido de obter que as mercadorias
sejam fornecidas a preços justos e razoáveis, ou que as obras ou serviços estabelecidos pelo empregador não sejam explorados com fins lucrativos, mas sim no interesse dos trabalhadores (grifo nosso).
Art. 462 da CLT - Ao empregador é vedado efetuar qualquer desconto nos salários do empregado, salvo quando este resultar de adiantamentos, de dispositivos de lei ou de contrato coletivo (atualmente convenção coletiva).
§2º - É vedado à empresa que mantiver armazém para venda de mercadorias aos empregados ou serviços destinados a proporcionar-lhes prestações in natura exercer
qualquer coação ou induzimento no sentido de que os empregados se utilizem do
armazém ou dos serviços (Incluído pelo Decreto-Lei nº 229, de 28.2.1967).
§3º - Sempre que não for possível o acesso dos empregados a armazéns ou serviços não mantidos pela empresa, é lícito à autoridade competente determinar a adoção de medidas adequadas, visando a que as mercadorias sejam vendidas e os serviços
prestados a preços razoáveis, sem intuito de lucro e sempre em benefício dos empregados (Incluído pelo Decreto-Lei nº 229, de 28.2.1967).
§4º - Observado o disposto neste Capítulo, é vedado às empresas limitar, por qualquer forma, a liberdade dos empregados de dispor do seu salário (grifo e
acréscimos nosso).
E mesmo na circunstância excepcional de ser impossível o acesso a outras lojas e armazéns, considerando a inexistência de qualquer tipo de comércio local, o fornecimento pela empresa, sem intuito de lucro sobre mercadorias ou serviços de uso essencial, deverá se pautar através da cobrança de preços razoáveis e sempre voltado ao benefício dos trabalhadores.
A razão por trás dessas limitações é justamente assegurar a efetividade dos princípios da intangibilidade (art. 462 da CLT) e irredutibilidade salarial (art. 7°, VI da CR/88) a fim de evitar a total dependência e submissão do trabalhador, ainda mais considerando a natureza alimentar dessa parcela.
Todavia, a relevância de tais disposições se mostra manifesta no contexto da prestação laborativa no meio rural brasileiro, porque os trabalhadores das atividades agropecuárias estão muito mais vulneráveis a abusos e violências por parte dos empregadores e seus representantes, seja pelo isolamento geográfico de muitas fazendas, às vezes com acesso somente por avião, e pelo número limitado de grupos móveis de fiscalização.
Somado a isso, o baixo grau de instrução da grande parte dos trabalhadores rurais e o elevado senso de honra em relação às dívidas contraídas com os empregadores, intensifica a gravidade dessa exploração de mão-de-obra, quando praticada no campo.
Considerando essa realidade, destaca Ricardo José Fernandes de Campos (2007) o Precedente Normativo n° 68 da SDC-TST que autoriza a falta ao serviço pelo rurícola com a
finalidade de realização de compras, sem remuneração ou mediante compensação de horário, mas sem prejuízo do repouso remunerado.
PN (68) – EMPREGADO RURAL. FALTAS AO SERVIÇO. COMPRAS Autoriza-se o chefe de família, se empregado rural, a faltar ao serviço um dia por mês ou meio dia por quinzena, para efetuar compras, sem remuneração ou mediante compensação de horário, mas sem prejuízo do repouso remunerado, desde que não tenha falta injustificada durante o mês.
Como bem aponta o autor (CAMPOS, 2007, p. 248), o precedente não se refere apenas a uma medida de proteção ao salário, impedindo que o trabalhador fique obrigado a fazer suas compras no próprio armazém do empregador, o que é, aliás, vedado pela regra do art. 462 §2° da CLT, mas também a um instrumento de combate à principal forma de coerção moral praticada no meio rural brasileiro.
Foram essas e outras particularidades do trabalho rural que motivaram o legislador a estabelecer previsões específicas, com realce no tema relacionado aos descontos salariais, quando comparado à categoria urbana. Merecem destaque a Lei n° 5.889/73 e o Decreto n° 73.626/74, responsável pela regulamentação da matéria.
De acordo com o art. 9° da Lei n° 5.889/73, só poderão ser descontadas as parcelas, calculadas sobre o salário mínimo, atinentes à ocupação da morada no limite de 20% e as decorrentes do fornecimento de alimentação “sadia e farta, atendidos os preços vigentes na região”, obedecido o percentual de 25%. Acrescenta ainda o §1° que essas deduções deverão ser previamente autorizadas, sob pena de serem declaradas nulas de pleno direito.
Ao contrário da previsão geral celetista (art. 458 da CLT), o rol de utilidades passíveis de descontos no trabalho rural, nas lições de Maurício Godinho Delgado (2006), é exaustivo. Não cabe, portanto, a caracterização de salário-utilidade a outras prestações in
natura, além da alimentação e da moradia, e ao desconto indenizatório realizado em virtude
de dano causado pelo empregado, segundo regra do art. 462, §1° da CLT.
Há que se destacar, porém, que a Lei n° 9.300/96, responsável pela introdução do §5° no art. 9° da Lei n° 5.889/73, criou uma hipótese excepcional de elisão do caráter salarial de uma utilidade ofertada pelo empregador. O que até então era apenas autorizado por norma jurídica, no caso do rurícola, pôde, a partir da alteração legislativa, ser realizado através de um contrato escrito, com a presença de testemunhas e notificação obrigatória ao respectivo sindicato de trabalhadores rurais.
Não obstante a introdução de nova regra na Lei n° 5.889/73, vários entendimentos jurisprudenciais41, inclusive do Tribunal Superior do Trabalho, afastam a necessidade absoluta de contrato escrito pelas partes para eliminar o caráter salarial de parcelas como a moradia e a alimentação e, portanto, vedando os descontos efetuados pelo empregador.
A respeito dessa possibilidade, afirma o Juiz Breno Medeiros, do Tribunal Regional do Trabalho da 18ª Região, em sede de Recurso Ordinário42, que “embora as partes não tenham formalizado contrato escrito sobre tal situação, deve ser ressaltada a intenção do legislador em não integrar tais bens na remuneração do trabalhador”.
O fundamento sustentado é o caráter essencial das utilidades, sem as quais ficaria inviabilizada a própria prestação do trabalho. Trata-se de uma situação muito comum no meio rural brasileiro, principalmente no norte do país, onde várias fazendas estão situadas em locais inóspitos e de difícil acesso, a quilômetros de distância de qualquer centro urbano ou comercial.
Para Arnaldo Süssekind (2005, p. 360) quando “a utilidade constitui um meio necessário ou conveniente para a execução dos serviços e não um rendimento do empregado proveniente do trabalho realizado”, ela se equipara aos instrumentos ou maquinismos indispensáveis ao funcionamento da empresa e, por isso, não podem substituir como utilidade vital o salário que o trabalhador faz jus pelos serviços prestados. Nesse caso, a utilidade é concedida para o trabalho e não pelo trabalho.
Tal entendimento está pacificado pela Súmula n° 367, I do TST, abaixo transcrita, que dispõe sobre a habitação, energia elétrica e veículo utilizado pelo empregado, mas nada impede a sua aplicação analógica para incluir também a alimentação43 fornecida pelo empregador, quando indispensável à execução do serviço.
367 – UTILIDADES IN NATURA. HABITAÇÃO. ENERGIA ELÉTRICA. VEÍCULO. CIGARRO. NÃO INTEGRAÇÃO AO SALÁRIO (Conversão das Orientações Jurisprudenciais n° 24, 131 e 246 da SDI-1 – Res. 129/2005, DJ 20.04.05)
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Cf. TRT da 18ª Região. Recurso Ordinário n° 00462-2005-221-18-00-9. Vara de Origem: Goiás. Relatora: