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Nossa opção por pesquisar os estudantes de Letras decorre concomitantemente de dois motivos.

O primeiro diz respeito ao fato de esses sujeitos empíricos nos fornecerem respostas de leitores reais sobre o que leem e a maneira como realizam suas leituras, ao contrário do que ocorre nas pesquisas que se valem de modelos baseados em destinatários idealizados. Estes últimos, a nosso ver, embora forneçam pistas de leitores visados, são insuficientes para sustentar descrições de leituras diversificadas, além de não nos possibilitarem a identificação de indicadoresde maneiras como as pessoas se apropriam efetivamente de suas leituras.

O segundo motivo se coaduna com o primeiro em virtude da condição específica em que os estudantes se encontram diante das exigências do curso de Letras, o qual se caracteriza por visar à formação de leitores profissionais. Dessa maneira, os estudantes do curso de Letras são considerados um tipo especial de receptores de obras literárias pelo fato de suas leituras estarem mais diretamente submetidas ao controle imposto pelos agentes autorizados e instituições envolvidas em sua formação leitora, acadêmica e profissional.

Assim, ao “inculcar” ou “fortalecer” nos estudantes a crença na superioridade da leitura canônica, o processo de formação leitora no curso de Letras confronta os alunos com práticas da literatura legítima. Trata-se aqui da legitimidade no sentido weberiano de “crença na ‘conformidade à lei’” (WEBER, 1999:157-526), do reconhecimento da norma difundida entre os indivíduos de uma sociedade, cujo efeito é impor e manter a dominação, independentemente das razões que levam os dominados a aceitarem os privilégios concedidos aos dominantes na ordem social estabelecida. No caso do campo literário, a legitimidade se exerce com base na lei específica desse campo que permite distinguir de toda a produção literária, a partir de um conjunto de regras válidas na produção e recepção literárias, alguns textos e modos de ler como sendo representativos da alta literatura. Provavelmente, é essa crença na legitimidade do cânone que faz com que estudantes como Alencar, um de nossos pesquisados, deprecie sua maneira de ler anterior ao curso de Letras:

[...] Foi no curso de Letras que eu entendi porque, porque assim, em minha opinião, quando você lê o Harry Potter, você está lendo um entretenimento ali, gostoso, legal e tal, mas ele não traz questões mesmo humanas assim, o Harry Potter nunca está em dúvida se ele é do bem ou do mal, é o Elfo lá do Senhor dos Anéis, nunca está em dúvida se ele é do bem ou do mal, agora Raskólhnikov lá do Crime e

Castigo, lá o tempo inteiro faz maldade, faz bondade e fica aquela coisa... e tem

aquela idoneidade humana, é esse tipo de literatura que eu acho que curso estuda que é interessante, essa porção mesmo do ser humano, isso que eu vi a diferença...” (Alencar, 25 anos, pai com curso superior incompleto na área engenharia civil e mãe graduada em Psicologia e pós-graduada na área de Educação)

Essa mesma crença faz com que alguns estudantes rejeitem o modo de ler acadêmico, como o faz Alice, outra aluna pertencente ao grupo pesquisado por nós, quando compara sua maneira atual de ler e o modo como lia “antes da Letras me estragar”:

[...] Às vezes a história não prendia, mas eu sabia que o cara tinha sido valioso para aquele período literário, para aquela escola e etc. Então eu acho que isso realmente tirou o prazer de ler [...] porque eu tento pegar sempre um livro que tenha qualidade e que a história me prenda, então às vezes é uma busca meio difícil. Tento pegar livros que são clássicos, que são já consagrados, mas que a história me prenda por causa de alguma coisa, porque não adianta eu pegar um Guimarães Rosa pra ler porque eu não vou gostar. Não adianta eu pegar poesia pra ler porque, por mais que poesia seja uma coisa válida, seja legal, a poesia não tem aquela história. Eu quero saber de história, eu quero saber dos épicos, eu quero saber de outras coisas. Então aí eu já vou pra algum outro caminho assim, o que eu quero ler? (Alice, 22 anos, pai e mãe com curso superior completo nas áreas de Contabilidade e Estética, respectivamente).

Assim, diante das fronteiras entre um alunado destituído das condições que facilitam acesso à apropriação do capital literário e de uma pequena, talvez ínfima, parcela de graduandos, cujas condições são mais propícias à constituição de disposições adequadas à certificação que recebem ao final do curso, é possível supor que as relações dos graduandos com a literatura constituem uma dimensão da própria relação que eles estabelecem com o diploma.

Nesse sentido, a “noblesse oblige” que “determina que os detentores de um certo título escolar, que funciona como título de nobreza, realizem as práticas (...) inscritas em sua definição social, (...) em sua ‘essência social’”(BOURDIEU, 2003:177) permitiu-nos formular a hipótese de que, por meio desse efeito de atribuição estatutária, os graduandos em Letras buscam se adequar ao ideal tácito do diploma do curso, fortemente apoiado numa relação desinteressada com a cultura e com a literatura. Essa busca, por sua vez, demandaria esforços por parte dosestudantes para aquisição da relação legítima com as obras literárias valorizadas no curso.

Essa hipótese nos incitou a investigar as práticas de leitura efetivas desses graduandos, partindo do seguinte questionamento: em que medida as interações entre as leituras

apreendidas e dados relativos às posições dos estudantes no espaço social, além de fatores como gênero, idade, disposições prévias em relação ao curso e à escola, à leitura e à cultura influenciam na utilização (ou não) das estratégias que visam à adequação ao modelo de leitura do curso, nos investimentos ou (des) investimentos no modelo oficial de leitura literária?

Tal adequação exige, para além das preferências legítimas e de modos de ler também legítimos, uma produção escrita a partir dessas práticas de leitura em conformidade com as regras da “produção ou escrita literária”. Essa, por sua vez, diz respeito à aquisição das competências de um “lector” com a finalidade de demonstrar conhecimento ao falar das obras de um “auctor”.

Considerando a oposição medieval entre auctor e lector, retomada por Bourdieu (1996:232), que define o primeiro como “aquele que produz, ele próprio, e cuja produção é autorizada pela auctoritas, a de auctor, o filho de suas obras, célebre por suas obras” e o segundo, o lector, como “alguém cuja produção consiste em falar das obras dos outros”, a separação entre os produtores de discursos novos (auctores) e os comentadores de discursos estabelecidos (lectores) torna-se relevante neste estudo pelo fato de nos centrarmos sobre as condições sociais de produção do leitor profissional, levando em conta alguns questionamentos que, ainda de acordo com Bourdieu (2009:135), devemos nos fazer acerca dos modos “como são produzidos os lectores, como são selecionados, como são formados, em que escolas, etc.”.

Os pressupostos de tal abordagem favorecem uma visão ampliada das relações do leitor, de um lado, com a leitura legítima associada à sua formação profissional, e, de outro, com suas práticas de leitura cotidianas, estejam elas desde muito familiarizadas com convenções e protocolos da literatura, ou sejam elas a expressão de uma “recém-conversão” à literatura legítima.

Nessa perspectiva, os estudantes devem se tornar lectores, cujas leituras serão reveladas por meio de seus comentários acerca das obras canônicas indicadas pelos professores do curso (também lectores que tendem a produzir um discurso crítico sobre as obras). Logo, essa leitura universitária, por meio de um jogo de reinterpretações realizadas pelos lectores, contribui para a manutenção da crença no valor da literatura legítima.

Nesse contexto, os leitores, na condição de estudantes de Letras, são confrontados com práticas de leitura literária e de escrita (comentários) conforme as expectativas do curso. Porém, a maior facilidade ou a dificuldade na realização dessas práticas decorre, entre outros fatores, de sua formação cultural anterior ao curso.

A leitura (e os mecanismos de legitimação que agem a partir de sanções ao longo do percurso escolar dos alunos por meio de elogios a uma “boa” interpretação e reprimendas ao que se considera uma “má” interpretação) constitui o foco principal durante os anos de escolaridade, assim como ocorre com os modos de ler que vão se alterando na medida em que os estudantes permanecem na escola e seu nível de escolaridade se eleva.

Assim, o efeito desses mecanismos tende a se acentuar no grau mais elevado da trajetória escolar. Por isso, parece-nos instigante estudar a graduação em Letras, por ser esse um nível de ensino em que se exige dos alunos a realização de práticas de leitura (e de escrita) situadas no topo da hierarquia da leitura literária e do conhecimento das obras legítimas; ou seja, no ponto em que os alunos ascendem ao estatuto de leitores (e comentadores) profissionais. Nesse estágio final, os alunos costumam se ver como leitores mais críticos, tendendo a desqualificar características de sua leitura anterior ao curso.

Essa perspectiva da leitura literária como produto do processo educativo possibilita apreender disposições e inclinações dos graduandos em face dela, considerando dois momentos do processo de sua realização: um relativo às práticas de leitura não diretamente controladas pelo curso e outro relativo às controladas por ele. Em ambos os casos, as relações dos leitores com os códigos eruditos dependem em regra de leis de transmissão de um capital linguístico, o qual constitui, nas palavras de Bourdieu (2008:49), “um caso particular das leis de transmissão legítima do capital cultural entre as gerações”, estando por isso submetido “a formas diferentes da combinação entre os dois principais fatores de produção da competência legítima, a família e o sistema escolar”.

Portanto, na lógica da sociologia bourdieusiana, que destaca a aquisição precoce do capital cultural como forma privilegiada de sua apropriação pelos “herdeiros” da cultura legítima (BOURDIEU, 2008:214), os graduandos em Letras cuja apropriação de capital literário tenha ocorrido de modo precoce, inconsciente, sem esforço, tenderiam a apresentar uma relação mais desenvolta com a literatura legítima estando, assim, mais aptos a realizar comentários baseados em obras literárias, inclusive as obras em vias de legitimação, distanciadas da cultura escolar (por exemplo, obras cujo processo de canonização não esteja totalmente formalizado).

1.1.6 Disposições e perfis de leitores

A distinção entre um leitor familiarizado com convenções e protocolos de leitura que “literarizam” um texto e, por isso, é capaz de interpretações em conformidade com as

Benzer Belgeler