Urge repensar a pobreza portuguesa, a partir da base e muito para lá dos pobres, porque a pobreza não é fruto do acaso nem uma mera consequência de falhas e/ ou
omissões de origem individual. Ela é um fenómeno que diz respeito a indivíduos, famílias, gerações, comunidades e territórios (Portela, 2008). A reflexão sobre a pobreza em Portugal justifica-se, pois a reprodução social da pobreza tem custos elevados e consequências sérias. Neste domínio, exercem papel importante as Redes Sociais.
A Rede Social contribui substancialmente para o próprio reconhecimento da pessoa como indivíduo e da sua imagem (Sluzki, 1996, p. 42). As relações constitutivas da Rede Social contribuem para a ausência de isolamento e buscam uma adequada integração social. A Rede Social proporciona o apoio social que pode ser acessível (Navarro, S. 2004). O conceito de Rede Social, incorporado na acção social, ajuda a superar uma visão individualista, em que as relações se estabelecem só entre indivíduos, sem considerar que estes formam parte de grupos, mais ou menos organizados, entrelaçados, em ocasiões, com estratégias e fins comuns. A Rede Social é um universo colectivo em que as pessoas, por meio dos vínculos com os outros, têm a possibilidade de partilhar e trocar experiências vitais e fazer as suas leituras acerca da realidade, inventando conjuntamente novas soluções. Essas descrições têm a capacidade de reconverter o que antes era uma inquietação ou um problema individual, num problema dividido, susceptível de ter uma abordagem e uma solução colectiva (Navarro, 2004).
A Rede Social foi criada, em Portugal, pela resolução nº 197/97 do Conselho de Ministros, com o intuito de promover a articulação da intervenção das autarquias, serviços públicos e entidades privadas sem fins lucrativos, que trabalham no domínio da acção social, com vista à erradicação ou atenuação da pobreza e exclusão social e a promoção do desenvolvimento social. Uma Rede Social pode ser definida como um conjunto de unidades sociais e de relações, directas e indirectas, entre essas unidades sociais, através de cadeias de dimensão variável (Portugal, 2007).
A Rede Social assume-se como um fórum de articulação e de congregação de esforços em cada concelho do País. Propõe-se, por isso, que em cada comunidade se criem novas formas de conjugação de esforços, se avance na definição de prioridades e que se planeie de forma integrada e integradora, através de parcerias entre entidades públicas e privadas. O programa da Rede Social visa o desenvolvimento de relações de cooperação entre organismos públicos e de iniciativa social privada, bem como
incentiva ao desenvolvimento de dinâmicas de articulação a nível dos concelhos e das freguesias (Almeida, 2008). As Redes Sociais apelam a solidariedades partilhadas em cada concelho do país. Podem funcionar como um instrumento para permitir que o Estado saia de cena, desobrigando-o das responsabilidades que lhe devem ser assacadas Ribeiro). De facto, o Programa Rede Social torna-se, em cada concelho, um projecto comum das parcerias (institucionais) que se constituem para o viabilizar. São sempre compostas por entidades públicas e privadas sem fins lucrativos com intervenção social relevante nas duas estruturas que corporizam os projectos de Rede: o Conselho Local de Acção Social e as Comissões Sociais de Freguesia (Castro e Gonçalves, 2002). Assim as Redes Sociais concelhias são estruturadas por Conselhos Locais de Acção Social (CLAS), dos quais emanam os Núcleos Executivos (NE), e, de forma menos implementada, as Comissões Sociais de Freguesia (CSF).
O CLAS (Conselho Local de Acção Social),21 principal estrutura de base concelhia que sustenta a implementação das Redes Sociais, é constituído geralmente por cinco ou sete representantes de várias entidades que a ele podem aderir: as Câmaras Municipais, Juntas de Freguesia, Organismos da Administração Pública implantados na área, Instituições Privadas de Solidariedade Social sem fins lucrativos. O CLAS trabalha em parceria. No conceito de parceria, salienta-se a ideia de processo de acção conjunta, entre vários actores que se mobilizam para realizar objectivos comuns, a partir da construção partilhada de diagnóstico, disponibilizando recursos, para, de forma articulada definirem e negociarem estratégias e caminhos e implementarem actividades que viabilizam o referido objectivo, avaliando continuamente e em conjunto os seus resultados (Amaro, 2005).
As Redes Sociais podem ser uma oportunidade para pôr em prática os direitos dos idosos. Há legislação e programas de apoio para o idoso. As Nações Unidas
21 O Conselho Local de Acção Social (CLAS) é constituído por representantes do Município, das Juntas
enumeraram vários princípios para os idosos que devem ser respeitados22. Os idosos têm os mesmos direitos e deveres que os demais cidadãos portugueses: A Constituição Portuguesa dedica-lhes o artigo 72º onde consta:
1. As pessoas idosas têm direito à segurança económica e a condições de habitação e convívio familiar e comunitário que respeitem a sua autonomia pessoal e evitem e superem o isolamento ou a marginalização social.
2. A política de terceira idade engloba medidas de carácter económico, social e cultural tendentes a proporcionar às pessoas idosas oportunidades de realização pessoal, através de uma participação activa na vida da comunidade. Os residentes em equipamentos têm direito à sua privacidade.
22 Os princípios das Nações Unidas (16/12/ 1991) para os idosos são: 1. Ter acesso à alimentação, à água,
à habitação, ao vestuário, à saúde, a ter apoio familiar e comunitária. 2.Ter oportunidade de trabalhar ou ter acesso a outras formas de geração de rendimentos. 3. Poder determinar em que momento se deve afastar do mercado de trabalho. 4. Ter acesso à educação permanente e a programas de qualificação e requalificação profissional. 5. Poder viver em ambientes seguros adaptáveis à sua preferência pessoal, que sejam possíveis mudanças. 6. Poder viver em casa pelo tempo que for viável. 7. Permanecer integrado na sociedade, participar activamente na formulação e implementação de políticas que afectam directamente o seu bem-estar e transmitir aos mais jovens conhecimentos e habilidades. 8. Aproveitar as oportunidades para prestar serviços à comunidade, trabalhando como voluntário, de acordo com os seus interesses e capacidades. 9. Poder formar movimentos ou associações de idosos. 10. Beneficiar de assistência e protecção da família e da comunidade, de acordo com os seus valores culturais. 11. Ter acesso à assistência médica para manter ou adquirir o bem-estar físico, mental e emocional, prevenindo a incidência das doenças. 12. Ter acesso a meios apropriados de atenção institucional que lhe proporcionem protecção, reabilitação, estimulação mental e desenvolvimento social, num ambiente humano e seguro. 13. Ter acesso a serviços sociais e jurídicos que lhe assegurem melhores níveis de autonomia, protecção e assistência.14. Desfrutar os direitos e liberdades fundamentais, quando residente em instituições que lhe proporcionem os cuidados necessários, respeitando-o na sua dignidade, crença e intimidade. Deve desfrutar ainda do direito de tomar decisões quanto à assistência prestada pela instituição e à qualidade de vida. 15. Aproveitar as oportunidades para o total desenvolvimento das suas potencialidades. 16. Ter acesso a recursos educacionais, culturais, espirituais e de lazer da sociedade. 17. Poder viver com dignidade e segurança, sem ser objecto de exploração e maus tratos físicos ou mentais. 18. Ser tratado com justiça, independentemente da idade, sexo, raça, etnia, deficiências, condições económicas ou outros factores.
Em cada comunidade, podem ser criadas várias redes sociais e redes de conexão entre elas. Essas redes podem ser formais, como grupos de apoio formal, planificados e como redes informais ou naturais, com as que são constituídas por cuidadores que ajudam os outros: membros da família, amigos, vizinhos (Seed, 1990). A criação de uma rede de conexões pode levar consigo três estratégias (Coulshed y Orme, 1998): 1. Terapia de rede que emprega habilidades de trabalho em grupo para ajudar as famílias em crise, reunindo as suas redes para servir de agentes de mudança.
2. Reuniões das redes de solução de problemas que congregam cuidadores formais e informais, para aclarar quem faz, o quê, e a quem.
3. A construção de uma rede é como criar redes novas e manter ou mudar as existentes.
No trabalho social, a importância da criação de uma rede de conexões é a de fortalecer os vínculos e as relações que existem dentro de uma comunidade ou área geográfica determinada. É importante não esquecer que as Redes de Apoio Social devem ser complementares de outros serviços e não substituir o Estado na sua obrigação de proporcionar serviços chave. Trata-se do princípio da subsidiariedade.
No novo mundo a incrementar, é indispensável a inovação social. O envolvimento da sociedade civil terá como resultado a conjugação de diferentes factores: predispor para experimentação permanente; criar harmonia entre investigação e acção; aptidão para criar redes, colaborações e parcerias; novas soluções de investimento e capacitação de todos os actores sociais.23
Concluindo, contar com o apoio social e emocional é necessário para evitar sentimentos de abandono, de tristeza, de solidão. As Redes Sociais podem prestar ou organizar o apoio a dar. Estas redes concelhias, todavia, não excluem, mas supõem as redes familiares, as redes de amigos e vizinhos e as ajudas prestadas pelas diversas instituições de solidariedade.