2. Sürekli Kaygı Ölçeği: Bireyin içinde bulunduğu durum ve koşullardan bağımsız olarak kendini nasıl hissettiğini belirler (Tablo 2) Durumluluk kaygı
1.1.4.3. Nesfatin 1 ve insülin veya glukoz
A história da organização espacial do Centro-Sul paranaense está fortemente vinculada ao combate aos indígenas que habitavam estas terras. Várias foram às expedições organizadas pela Coroa Portuguesa com o objetivo de localizar precisamente os aldeamentos indígenas visando a conquista deste território, subtraindo-o dos povos que ali habitavam. Além disso, as periódicas diligências possuíam a missão de registrar os recursos naturais, sobretudo, indícios da presença de ouro na região dada a expectativa de existência deste minério (PONTAROLO, 2012). As primeiras investidas militares ao território indígena do atual Centro-Sul paranaense datam do início da década de 1770, porém estas ofensivas fracassaram perante a resistência do povo Kaingang, grupo indígena que habitava a região. Perante a eminente ameaça, os Kaingang atacaram e mataram vários soldados que estavam a serviço da Coroa Portuguesa (PONTAROLO, 2012). Após estes primeiros incidentes a região permaneceu “abandonada” até a vinda de D. João VI ao Brasil, quando as ofensivas para tomada deste território das mãos indígenas tiveram continuidade com a publicação de duas Cartas Régias nos anos de 1808 e 180911. Nestas, D. João VI declarava guerra aos indígenas que habitavam os campos de Guarapuava em virtude da hostilidade destes para com os soldados portugueses que visavam a conquista daquele território (BRASIL, 1808, 1809).
A intenção de “povoar os campos de Guarapuava e civilizar os índios bárbaros que infestam aquele território” (BRASIL, 1809. Não paginado), respondia também às demandas de comerciantes e fazendeiros das regiões de Castro e Curitiba que visavam a expansão de seus negócios e encontravam nos indígenas um entrave ao seus anseios. A busca por metais preciosos como ouro e diamante também motivara a intenção de dominar oficialmente tal território, protegendo-o de ataques de pessoas que não estivessem a serviço da Coroa Portuguesa (PONTAROLO, 2012). A Carta Régia de 1808 previa ainda que fossem dadas sesmarias nos campos de Guarapuava ao longo das vias de comunicação com Curitiba, proporcionais às forças e cabedais dos que assim a quiserem tomar e cultiva-las (BRASIL, 1808). Ou seja, as sesmarias eram doadas proporcionalmente a quantidade de escravos que cada um possuísse. Assim, aos mais abastados e aos fazendeiros já estabelecidos nos Campos Gerais e na região de Curitiba a Coroa doou grandes extensões de terras.
O sistema de sesmarias é o tronco de origem de muitas das propriedades da região, pois o governo de D. João VI e os seguintes fizeram deste o instrumento de povoação visando incentivar a posse e o uso das terras coloniais (ABREU, 1981). As sesmarias distribuídas no Centro-Sul Paranaense estavam em acordo com o tamanho estabelecido pela Coroa Portuguesa, a saber: “uma légua de testada por três de comprimento ou cinco mil e quatrocentos alqueires de terra. Outras apresentavam a superfície de uma légua e meia em quadra, equivalente a quatro mil e cinquenta alqueires de terra”. (ABREU, 1981, p. 51-52). Entretanto, com o objetivo de impulsionar o povoamento da região e mostrando a “generosidade” da família real, a Carta Régia de 01 de Abril de 1809 concedeu permissão para “repartir os terrenos devolutos em proporções pequenas pelos lavradores pobres”. (BRASIL, 1809. Não paginado). Assim, a participação de não brancos livres pobres, que viviam vagando pela capitania de São Paulo também foi incentivada como forma de viabilizar a povoação dos campos de Guarapuava e garantir o suprimento de gêneros alimentícios. “A fixação dessas pessoas na povoação e o aproveitamento de sua presença deveriam acontecer através da agricultura, da criação de gado e de uniões familiares” (PONTAROLO, 2012, p. 37).
Observa-se que o processo de ocupação da região orquestrado pela Coroa Portuguesa se encontra na oposição latifúndio e minifúndio, no qual os grandes fazendeiros por serem detentores de mão de obra escrava conseguiram imensas extensões de terras através da concessão de sesmarias satisfazendo, momentaneamente, seus anseios por terras novas e campos limpos para ampliação de seus rebanhos. Já aos moradores pobres livres foram destinadas pequenas porções de terra, principalmente em torno das Vilas, as quais serviam a plantação de gêneros de subsistência e alimentos que abasteciam o restante da população.
De acordo com Pontarolo (2012), outra forma de povoação utilizada pelo governo português foi o envio de criminosos condenados ao degredo. “Através da inclusão contínua de prisioneiros, se levavam a cabo, principalmente, os interesses de recriação de uma sociedade expansiva, hierárquica e baseada na manutenção de cadeias de dependência pessoal entre os novos moradores” (p. 37). O degredo representava assim um modelo de reinserção social na hierarquia da sociedade (PONTAROLO, 2012). Deste modo, fica evidente que além do binômio latifúndio e minifúndio e da guerra aos indígenas, como relatado, o povoamento estimulado pela Coroa portuguesa na região Centro-Sul do Paraná é marcado pela diferenciação, violência e inclusão em redes de dependência pessoal. Estas características de formação da sociedade são essenciais ao entendimento da Questão Agrária e da luta pela terra desencadeada nesta região e os processos em voga atualmente.
A guerra aos indígenas pronunciada pela Carta Régia de 1808 e as políticas de povoamento direcionadas para a região Centro-sul do Paraná imputaram aos indígenas o aldeamento, recolhendo-os dos campos. Fato este que propiciou a ação dos fazendeiros na ocupação dos campos “vazios”. Soma-se o papel conferido pela Coroa à igreja na “civilização”, ou melhor, na dominação através da catequização dos “bárbaros” povos indígenas que habitavam o território Centro-Sul paranaense (ABREU, 1981).
É importante pontuar ainda que a suspensão da concessão de sesmarias, pela Resolução de 17 de julho de 1822, não afetou a estrutura agrária desigual que se formava na região, pois a ocupação ilegal da terra passou a ser considerado modo legítimo de aquisição de domínios e assumiu proporções consideráveis. “As terras passaram então a ser adquiridas através das posses ou ocupação, estabelecendo-se latifúndios maiores que os formados pelas sesmarias” (ABREU, 1981, p. 53). Esta mesma autora destaca ainda que no início do século XX, houve, por parte do Estado, a concessão de grandes áreas á empresas e pessoas influentes junto ao governo, visando o aproveitamento econômico, regulamentação das terras devolutas e griladas e a fixação de colonos nacionais e estrangeiros. Entretanto, esta política acirrou a assimetria da estrutura fundiária, pois o resultado foi a formação de novos latifúndios aumentando as barreiras da desigualdade do acesso a terra, tornando-as, quase intransponíveis.
Assim, assentado numa sociedade latifundiária e escravocrata foi se consolidando o processo de “ocupação” do Centro-Sul do Paraná. A “ocupação” e o povoamento da região pelos não índios se deu de Leste para Oeste, ou seja, as frentes de ocupação se deslocavam das áreas já incorporadas de Curitiba e dos Campos Gerais em direção ao interior do estado. Embora não preponderante este fato se relaciona com o aproveitamento econômico do relevo da região, já que à Leste, região de Guarapuava, a região é marcada pela existência de imensas áreas planas, os quais formavam enormes campos naturais. Já a Oeste ocorre presença de áreas de topografia ondulada e fortemente ondulada, onde predominavam formações florestais. Destarte, inicialmente foram os campos de Guarapuava e Palmas os pilhados dos indígenas devido ao aproveitamento das vastas áreas de campos naturais para atividade pecuária das fazendas.
A atividade pecuária praticada era de caráter extensivo, cuja densidade não atingia uma cabeça de gado por alqueire (ABREU, 1981), assentada na grande propriedade de terra e no trabalho escravo. O aproveitamento das terras de vegetação campestre para a pecuária marcou o avanço da “frente pioneira” e tornou-se a principal atividade econômica da região. Além disso, com a abertura de um caminho para passagem dos tropeiros e suas tropas ligando
Guarapuava e Palmas ao Rio Grande do Sul, o “caminho das missões”, os campos do Centro- Sul paranaense passaram a serem utilizados como pastagem natural para invernagem, descanso e engorda das tropas que partiam das regiões de criação do Rio Grande do Sul em direção a feira de Sorocaba no final do século XVIII e início do século XIX. (ABREU, 1981; SILVA, 2005).
As atividades comerciais derivadas da pecuária e o tropeirismo integraram o Centro-Sul paranaense no contexto econômico brasileiro e se constituíram no setor econômico de maior rentabilidade da região até meados do século XIX. De acordo com Abreu (1981, p. 129), foram os capitais acumulados com a invernada de gado e outras atividades subjacentes ao tropeirismo que permitiram, por exemplo, o estabelecimento de grandes firmas comerciais como a Sá-Virmond & Cia, em 1860, dentre outras.
A partir de meados do século XIX até o início do século XX, a extração e o beneficiamento da erva mate (Ilex paraguariensis), despontou como uma das principais atividades econômicas da região. Trata-se de uma espécie arbórea nativa que era encontrada em boa parte do atual território paranaense, sobretudo, e de forma abundante, em meio às florestas de Araucária da região Centro-Sul do estado. Assim, a pecuária, somada à exploração da erva-mate e de uma agricultura camponesa desenvolvida por uma parcela da população marcou a incorporação da região ao contexto econômico nacional.
O consumo da erva-mate que já era bastante difundido entre os indígenas na América pré-colonial, principalmente, “pelos índios Guarani, que habitavam o vale dos rios Paraná, Uruguai e Paraguai” (LINHARES, 1969, p. 23), foi apropriada pelos Padres Jesuítas como mercadoria para exportação, passando a ser consumida pelos colonizadores europeus (MAFRA, 2008). Ainda segundo Mafra (2008), a erva-mate era um produto que alcançava alto preço no mercado externo e a sua exportação era monopólio dos Jesuítas até meados do século XVIII. Contudo, os altos lucros auferidos pela venda desta matéria-prima podem ter contribuído com a saída forçada da Companhia de Jesus das terras americanas em 1768, pondo fim ao monopólio destes sobre o comércio ervateiro. “Nesse caso, a erva-mate estava no centro de um conflito entre a Companhia de Jesus e os governos da Espanha e de Portugal”. (MAFRA, 2008, p. 28).
Após um período de retração nas exportações de erva-mate, com a desorganização do monopólio comercial dos Jesuítas, é a partir de 1850 que a exportação desta matéria-prima volta a adquirir expressividade, se caracterizando na principal atividade econômica do Paraná. Segundo Mafra (2008, p. 32), “[...] o Paraná, se transformou na terra do mate, chegando esse produto a representar 85% do montante da exportação da Província”. O ciclo econômico da
erva-mate inseriu o Paraná no mercado internacional. A lucratividade alcançada com a extração, preparação, beneficiamento, transporte e exportação foram responsáveis pela atração de investimentos em infraestrutura para mecanização e industrialização da produção (BONDARIK; KOVALESKI; PILATTI, 2006). Além da implantação da indústria no estado, tanto voltada ao beneficiamento da erva-mate quanto de suporte a esta, a atividade ervateira ocasionou a intensificação dos meios de transporte e circulação através da abertura de estradas, construção de ferrovias e a navegação fluvial nos rios Iguaçu e Paraná. A erva-mate financiou, inclusive, a emancipação política da província do Paraná em 1853 (LINHARES, 1969; MAFRA, 2008). Portanto, a erva-mate garantiu, além do poder econômico, poder político àqueles que a detinham.
A importância econômica adquirida pela exportação da erva-mate é caracterizada ainda pela concessão de áreas para exploração desta às grandes companhias nacionais e estrangeiras, que atuavam de forma monopolista. O Estado, atendendo aos interesses da elite empresarial em ascensão e visando a arrecadação de tributos provenientes da exportação de erva-mate, cedeu enormes áreas cobertas por ervais a empresas de grande porte, ocasionando a expulsão de grande contingente de camponeses posseiros que habitavam estas terras.
Note-se que a organização histórica do espaço da região em estudo foi marcada pelo conflito, inicialmente com os indígenas que ocupavam este território e, posteriormente, com os camponeses que ali estabeleceram suas posses. A desigualdade social, decorrente, sobretudo, da estrutura fundiária concentrada, é outra característica evidente no processo de incorporação do Centro-Sul ao contexto econômico nacional e internacional. A organização econômica da região esteve, desde sua origem, assentada na expropriação dos recursos naturais, exploração dos habitantes nativos e da mão de obra escrava, sempre vinculada a atividades de caráter extensivo e extrativo concentradas na exploração das vastas áreas de campos naturais e de florestas nativas. Esta dinâmica se manteve inalterada com a ascensão e expansão do ciclo econômico da madeira, sobretudo, a exploração do Pinheiro do Paraná (Araucaria angustifolia). A existência de amplas e densas áreas cobertas com florestas nativas, sobretudo, do Bioma Mata Atlântica, cobrindo originalmente 83,41% do território paranaense, no qual se enquadram as florestas de Araucária espraiadas por 49,8% das terras do estado (IPARDES, 2006; PARANÁ, 2009; 2010), estimulou a atividade comercial madeireira deste a segunda metade do século XIX. É nesse período, mais precisamente em 1871, que surge a iniciativa para o primeiro grande investimento madeireiro no Paraná, com a organização da Companhia Florestal Paranaense (CARVALHO, 2010). Entretanto, este
empreendimento fracassou devido à concorrência estrangeira, principalmente, a importação do pinheiro-de-riga e as dificuldades de escoamento da madeira (CARVALHO, 2010).
À progressão extraordinária da indústria madeireira no Paraná, só foi propulsionada com o início da primeira Guerra Mundial (1914-1918). O conflito instaurado impossibilitou a importação de madeira estrangeira, passando o Paraná a abastecer o mercado madeireiro interno e externo, principalmente, com a Araucária (CARVALHO, 2010). Durante este período a exportação do pinho se transformou na atividade economicamente pujante no estado, respondendo por grande parte da arrecadação de divisas (CARVALHO, 2010). No bojo deste processo as serrarias se multiplicaram, especialmente no Centro-Sul e, conforme se esgotavam as reservas desta região, avançava-se para outras regiões do estado, como o Oeste e Sudoeste (HAUER, 2010; GUBERT FILHO, 2010).