curiosidade; tampouco estarão completas se não forem confrontadas com os relatos das imagens internas da artista. A experiência pretendida pela criadora da obra, para além da fotograia, está na tentativa de responder e lançar uma provocação: o que você, paulistano,
encontra quando procura locais do seu passado? Nessa ação de tentar responder a essa pergunta por ela própria colocada – munida de câmera fotográica, papel e caneta – a artista catalisa uma experiência: evoca memórias pessoais, depara-se com seus medos, engaja percepções internas do tempo, da sua cidade e da sua vida.
No entanto, o simples fato de expor as “imagens fotográicas externas” ao lado das suas “fotograias internas” parecia-lhe não envolver o público, suicientemente, em uma experiência completa. Era inevitável, para a artista, pensar em uma outra forma de apresentação da obra, para fora do espaço expositivo. Como ela poderia extrapolar os limites da área protegida de uma sala de exposição e/ ou livro de arte, e, assim, gerar uma experiência no campo da realidade? O objetivo era encontrar um meio de efetuar um gesto no âmbito do real, deixando claro o convite para que o público investigasse suas próprias memórias e, assim, torná-lo mais que um espectador, mas um participador.
Foi, então, em um momento fortuito da vida cotidiana – não me recordo bem quando, onde e como – que um objeto apareceu para mim como uma possível solução: o cartão-postal. O cartão-postal reúne em si, naturalmente, a dupla operação imagem fotográica/ relato pessoal, pois, se de um lado temos a foto da vista externa de uma cidade, no verso, lemos a narração de uma experiência subjetiva relativa àquela paisagem. Pude sentir que havia encontrado uma possibilidade de junção das duas instâncias – imagem do visível e relato do invisível – em um único artefato, sendo ele próprio um objeto A experiência proposta, portanto, pretende reviver espaços que estão sendo destruídos, ao lembrar que eles já tiveram identidade, que já foram ocupados e vividos. Tentando, assim, tornar visível os laços que atam os cidadãos paulistanos à cidade que habitam. Ou, ainda, observando, se há alguma possível ligação afetiva entre cidade-homem, na atual conjuntura urbana que vivemos. Como airma Michel de Certau “‘Estamos ligados a este lugar pelas lembranças... É pessoal, isto não interessaria a ninguém, mas enim é isso que faz o espírito de um bairro’. Só há lugar quando freqüentado por espíritos múltiplos, ali escondidos em silêncio, e que se pode ‘evocar’ ou não. Só se pode morar num lugar assim povoado de lembranças (...)” (Michel de Certeau, 1994, p.175)
92
simbólico de criação, armazenamento e compartilhamento de memória pessoal. Assim, a concepção de um cartão-postal como suporte para a obra pareceu- me uma solução, ainal ele é um objeto criado para ser um meio de trocas de experiências, fragmentos de memória e ilustrações imagética de paisagens.
(Mais uma vez detenho o luxo temporal dos fatos e brinco de máquina do tempo: alguns meses depois de escrever as linhas acima, enquanto revisava minha a dissertação, reencontrei no capítulo 2 a descrição da obra de Stephen Shore, para a qual ele confeccionou cartões-postais com suas fotograias da cidade de Amarillo, Texas. Percebi, na ocasião, que a solução por mim encontrada não era tão casual assim, mas, pelo contrário, era inspirada – ainda que inconscientemente – no trabalho conceitual de Shore.)
A confecção de uma série de cartões-postais com fotograias de empreendimentos imobiliários e relatos pessoais de narrativas afetivas referentes àqueles espaços destruídos, foi, portanto, uma solução concisa que pode contribuir para três aspectos fundamentais da experiência proposta pela artista: 1. salientar a fricção entre a intimidade e subjetividade de acumulação de memórias pessoais e a destruição fria e constante dos espaços da cidade de São Paulo; 2. inserir a obra no campo do cotidiano, podendo ser colocada em circulação fora do ambiente protegido e restrito das artes; 3. propor naturalmente uma troca de correspondências, em que o interlocutor se vê convidado a contribuir com um relato pessoal próprio.
O próximo desaio seria, então, o de descobrir de que forma colocar em circulação a série de postais criada. Duas atitudes poderiam ser tomadas: uma primeira possibilidade seria a de colocar em diversos pontos da cidade – como bancas de revista, lojas de museus e pontos de informação turística – um distribuidor de cartões-postais com a série – neste caso, o breve relato da artista se tornaria o título da imagem vista na “capa” do cartão e, dessa forma, sobraria no verso um espaço para que a pessoa que o adquirisse escrevesse o seu relato; uma outra possibilidade, talvez mais direta, seria a de enviar diversos cartões indiscriminadamente para várias residências, esperando que os desconhecidos pudessem responder com cartas/ fotos/ cartões narrando suas próprias histórias de memória e destruição.
No entanto, a segunda opção – apesar de instigar mais a correspondência, troca de relatos e, portanto, a colaboração de diversas pessoas com a obra – parece um pouco arriscada, dada à minha experiência anterior durante o desenvolvimento de ConTe-Me, em que pude observar a falta de interesse do público em geral em contribuir deliberadamente com um trabalho artístico. Assim, a escolha de suporte para a obra foi feito, mas, por outro lado, a forma de inserí-la no circuito cotidiano da vida/ realidade, ainda não foi escolhido.
93