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Discursos constituem parte do recurso com que as pessoas posicionam-se num relacionamento umas com as outras, cooperando entre si, mantendo-se separadas, competindo ou dominando. Quando interagimos em determinado contexto, representamos o mundo, desenvolvemos papéis sociais, estabelecemos identidades. Nessa interação, utilizamos a linguagem para

produzir significados e, por meio da análise lingüística, podemos evidenciar as relações de poder presentes na interação entre os interactantes, bem como o grau de adesão ao que dizem e, para descortinar essas relações estabelecidas entre as pessoas, podemos analisar quais interactantes têm vez e voz, é agente principal; se argumentam, como se posicionam; se contradizem o dito; se desafiam ou não o instituído. Enfim, como representam os outros, o mundo e a si mesmo.

Uma das maneiras de se realizar esta análise é olhar para o texto como representação (FAIRCLOUGH, 2003a). Dessa perspectiva, os discursos são postos e articulados dentro dos textos e estes podem mesclar diferentes discursos por meio da interdiscursividade. Dentro dos limites desta pesquisa, analisaremos o significado representacional nos textos através da categoria da interdiscursividade, de acordo com os excertos selecionados e conforme o modo como as representações forem se apresentando nestes textos.

Ressaltamos que os significados foram dispostos separadamente somente para fins de análise, pois estes se relacionam nos textos; operam juntos. Assim, por vezes nos reportaremos a seção 4.1 deste capítulo, mencionando algumas análises do significado acional, e faremos referência às categorias utilizadas na análise do significado identificacional (seção 4.3), idem. 4.2.1 Análise da reportagem/perfil 1 (Rp1)

Podemos perceber a interdiscursividades nos excertos (1), (2), (3), (4), (5) e (6) da Seção 4.1.1, deste capítulo que compõem a reportagem/perfil 1. Nesses fragmentos são mesclados discursos diferentes, que competem entre si. Um deles é o discurso conservador em (1) “Digo sempre que o meu marido foi a sorte grande da minha vida”, pois, o casamento pode, nesse caso, significar uma realização pessoal bem como a única forma da sociedade legitimar a união entre os sexos. Enfim, o ponto de vista da entrevistada, expresso nesse enunciado, pode influir na construção de Artur como marido, pai e companheiro, que valoriza a mulher, pois tudo leva a crer que a farmacêutica tem em seu marido um modelo de homem.

Embora a entrevistada inicie seu texto com articulação desse discurso, notamos que há uma relação de conflito entre o discurso conservador

- que prega a supremacia masculina em detrimento da submissão feminina - e o restante da reportagem. Nesse sentido, é possível afirmar que o discurso conservador está em relação de conflito, sobretudo, com o discurso da realização pessoal presente em

(2) “Gosto muito de dançar e até hoje freqüento serestas e outras festas com o meu marido. Todas as sextas-feiras vamos ao baile do Clube Jaguarema”.

O discurso da realização pessoal aqui se justifica pela identificação dos desejos da entrevistada em dançar e sair em companhia do marido. O relacionamento feliz do casal, exemplificado com a participação assídua em festas é ressaltado pela narradora que, age de forma a garantir a realização de suas vontades na relação conjugal. Em (3) “O trabalho desenvolvido pela farmacêutica é tão relevante para a sociedade que na semana passada a Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China no Maranhão enviou três dos seus medicamentos para a China, com a esperança de uma possível cura para a pneumonia asiática” o discurso articulado pela enunciadora/repórter é o discurso da profissionalização.

Aqui, a enunciadora faz uma avaliação do trabalho da entrevistada na primeira linha “O trabalho desenvolvido pela farmacêutica é tão relevante para a sociedade [...]”. Essa avaliação está voltada para ressaltar a importância do trabalho da pesquisadora, desenvolvido a partir do estudo dos vegetais, que poderá trazer a cura da pneumonia asiática. Com essa avaliação, a enunciadora constrói uma imagem positiva da entrevistada como profissional de sucesso que tem reconhecimento internacional. Esse discurso influi na construção dessa entrevistada como uma “profissional modelo”, uma vez que a enunciadora enfatiza a relevância do seu trabalho para a sociedade, na cura de doenças graves como o câncer e a AIDS.

Outro discurso articulado pela entrevistada é o discurso da qualidade de vida, atualizado em (4) “Eles dizem que eu trabalho muito e não tenho tempo para descansar nem para cuidar da minha saúde, mas nunca deixam de me dar apoio”. A falta de tempo para cuidar da saúde é representada como conseqüência do excesso de atividades desempenhadas pela farmacêutica. Podemos notar que articulação do discurso da qualidade de vida, embora naturalize as restrições que a mulher enfrenta ao trabalhar fora de casa,

representa uma crítica no sentido de que se percebe em „eu trabalho muito‟ se não a origem do problema ao menos seu agravamento.

A solução do problema é vista como de responsabilidade da farmacêutica; cabe a ela disciplinar-se para controlar o excesso de trabalho. Entretanto, a articulação deste discurso também dissimula o acúmulo de papéis a que a mulher está sujeita na sociedade atual. Em (5) “Quero que o país acorde e se sensibilize para essa riqueza que é a flora medicinal do Brasil. Que a gente consiga uma lei de patentes docente, para que não tenhamos de competir com as multinacionais e que, estudando os vegetais, se chegue à erradicação dessas doenças que ainda não possuem cura, como o câncer e a AIDS”. Nesse excerto, o discurso articulado é o discurso da esfera pública14. Aqui, a entrevistada clama por providências, da parte do poder público e delibera propondo alternativas. Ela atribui, paralelamente, ao Estado a responsabilidade pela continuidade de doenças como o câncer e a AIDS em nossa sociedade, bem como o dever de erradicá-las.

Nas duas primeiras linhas do excerto (5) „Quero que o país acorde e se sensibilize para essa riqueza que é a flora medicinal do Brasil‟, ao propor sensibilidade por parte do governo, a entrevistada critica as autoridades brasileiras pela falta de políticas públicas voltadas para a valorização da flora medicinal, vista por ela como uma possibilidade de cura para muitas doenças e de melhoria da saúde do povo brasileiro. Já nas ultimas linhas, „Que a gente consiga uma lei de patentes docente, para que não tenhamos de competir com as multinacionais e que, estudando os vegetais, se chegue à erradicação dessas doenças que ainda não possuem cura, como o câncer e a AIDS‟ a entrevistada ilustra sua proposta de solução para o problema: valorização e reconhecimento dos benefícios gerados pela fitoterapia; criação e regulamentação de „uma lei de patentes docente‟ evitando, assim, competir com as multinacionais.

No último excerto da reportagem/perfil em análise, o discurso articulado pela entrevistada é o discurso da realização profissional atualizado na formulação de (6) “O meu trabalho é o meu oxigênio. No dia em que não puder ficar perto das plantas, não vou mais ter o que fazer por aqui”. Esse

14o conceito de “esfera pública” remete à deliberação de indivíduos, como cidadãos, sobre questões sociais e políticas (RESENDE; RAMALHO, 2006)

discurso, aqui, se legitima pela identificação da farmacêutica com o trabalho que desenvolve com as plantas. Essa realização no trabalho é construída pela entrevistada como uma relação indispensável, vital comparada ao oxigênio que respira: „O meu trabalho é o meu oxigênio‟. Com essa avaliação, a farmacêutica constrói uma imagem positiva da relação mulher X trabalho, que se sustenta na dedicação, na competência e na profissionalização.

Por fim, o modo de entender da entrevistada, atualizado nesse excerto, pode influir na construção do trabalho com a fitoterapia como fundamental, prazeroso e que dignifica a mulher, pois nos parece que a entrevistada vê em seu trabalho um modelo de profissão. Embora a farmacêutica finalize seu texto com a articulação deste discurso, notamos que há uma relação de conflito entre o discurso da realização profissional - que prega a busca do prazer no trabalho, auto-realização - e o discurso da qualidade de vida, atualizado em (4) “Eles dizem que eu trabalho muito e, mas nunca deixam de me dar apoio”.

Podemos notar que, nesse exemplo, a entrevistada não apenas atribui ao trabalho o motivo que a impede de cuidar da saúde como também o representa como “um fardo pesado”; excesso de atividades („eu trabalho muito‟), uma vez que enfatiza a sua falta de tempo para cuidar da saúde („não tenho tempo para descansar nem para cuidar da minha saúde‟). Esse discurso entra em conflito com o discurso da realização profissional, visto que neste ultimo o trabalho é fundamental („O meu trabalho é o meu oxigênio‟), já no discurso da qualidade de vida passa a ser o algoz.

4.2.2 Análise da reportagem-perfil (2) - (Rp2)

Podemos identificar a interdiscursividade nos excertos (7), (8), (9), (10), (11) e (12) da Seção 4.1.2, deste Capítulo, que compõem a (Rp2) de

Marilea Campos dos Santos Costa. Nessa reportagem, mesclam-se quatro discursos diferentes, os quais foram denominados de: discurso conservador, discurso da esfera pública, discurso da maternidade e discurso das conquistas pessoais.

O discurso conservador é articulado em (7) “Minha mãe trabalhava na Petrobras, mas resolveu deixar o emprego para cuidar da família e nunca

esboçou arrependimento”, pois a mãe, neste caso, deixa o emprego para dedicar-se aos cuidados da família e do lar. Com esse enunciado, a entrevistada exemplifica como o discurso conservador inserido no contexto do sistema patriarcal - que pregava a necessidade da presença da mãe no lar para cuidar dos filhos, o que justificava, dessa forma, que a função materna deveria ter horário integral -, ainda persiste nos dias atuais. O discurso conservador também é articulado em (11) Responsável e dedicada ao lar, a promotora de Justiça aproveita as primeiras horas do dia e o início da noite para organizar a casa do jeito que gosta. Para acompanhar o desenvolvimento da filha, ela faz questão de acordar por volta das 5h30 e prepará-la para a escola, uma vez que a entrevistada é representada como „responsável e dedicada ao lar‟, papéis historicamente construídos como pertencentes ao universo feminino, dessa forma, a enunciadora/repórter constrói uma imagem negativa da mulher.

Percebemos que a articulação desse discurso conservador embora naturalize os papéis femininos socialmente determinados, representa um posicionamento crítico no sentido de que observamos em („a promotora de Justiça aproveita as primeiras horas do dia e o início da noite para organizar a casa do jeito que gosta. Para acompanhar o desenvolvimento da filha, ela faz questão de acordar por volta das 5h30 e prepará-la para a escola‟), ao menos uma reflexão sobre o acúmulo de papéis que a entrevistada é obrigada a realizar. Esse discurso sinaliza, ainda, para representação da mulher do século XXI, ocupando cargos antes exclusivamente masculinos, neste caso, uma promotora de justiça, contudo, dissimula as restrições que a mulher sofre ao assumir novos papéis na sociedade atual.

Osterne (2008) nos alerta justamente para essas questões acerca daquilo que deve ser considerado como público e privado, tendo em vista que a família, ao ser tomada como um âmbito privado relega ao espaço fechado do lar aquilo que ocorre entre homens e mulheres. Essas discussões, portanto, acabam por não figurarem no espaço de debate para políticas públicas resultando na tomada de medidas sociais e políticas que configurem o quadro social que diz respeito às relações de gênero.

O importante é compreender que o público e privado não são categorias estruturalmente contraditórias. Sua pseudocontradição é, antes, uma formulação ideológica conveniente à manutenção das

relações sociais hegemônicas excessivamente alicerçadas na hierarquização do gênero, classe/etnia (OSTERNE, 2008, p.72). Embora a promotora de justiça inicie seu texto com a articulação do discurso conservador, notamos que há uma relação de tensão entre esse discurso e o discurso da esfera pública presente em (8) Para a promotora, os pais têm que tomar a responsabilidade dos seus filhos e não deixar para o Estado fazê-lo. E ainda desenvolver nas crianças o amor pelo trabalho, além de sua auto-estima. “A família tem que ser respeitada porque é a primeira formação do cidadão. Quando trabalhava no interior, proferi várias palestras sobre esse tema e acredito que a solução para os problemas de hoje está na união, cada um fazendo sua parte”.

Foram classificados como atualização do discurso da esfera pública os trechos no excerto (8), em que a entrevistada reclama por providências da parte dos pais e discute propondo alternativas. Ela atribui aos pais a responsabilidade pela falta de melhor assistência aos filhos, durante o seu crescimento, ao tempo em que aponta o dever de acompanhá-los. Nas primeiras linhas do excerto (8) em análise („os pais têm que tomar a responsabilidade dos seus filhos e não deixar para o Estado fazê-lo‟), ilustram a representação do problema: a falta de acompanhamento das crianças pelos pais, enquanto em que as duas linhas seguintes („E ainda desenvolver nas crianças o amor pelo trabalho, além de sua auto-estima‟), figuram como a sua solução.

Considerando que o que é dito em um texto está em oposição ao que não é dito, mas tomado como dado (FAIRCLOUGH, 2003a), podemos inferir nesse excerto uma crítica aos pais por omissão de suas responsabilidades com seus filhos, gerando pouco ou nenhum envolvimento destes com o trabalho, além de baixa auto-estima. Por outro lado, essa representação feita pela entrevistada encerra um apagamento das responsabilidades do Estado („os pais têm que tomar a responsabilidade dos seus filhos e não deixar para o Estado fazê-lo‟). Assim, por meio de sua vinculação lógica de aparência, o texto dissimula a existência de um grave problema social que é a situação de criança de rua. O excerto acentua a exclusão dessa parcela da população e preconceitos cristalizados na sociedade, filiando-se ao discurso neoliberal segundo o qual cada um deve ser

responsabilizado por sua „imposição‟ social, de sua desqualificação profissional, de sua inempregabilidade crônica (RESENDE, 2008). Dessa forma, justificam-se a demissão do Estado15 e a falta de implantação de mais políticas públicas voltadas para essas crianças.

Outro discurso articulado pela entrevistada é o discurso da maternidade materializado em (9) Um dos momentos de maior felicidade da promotora de Justiça Marilea Campos foi a adoção de Maria Valéria Campos, de 6 anos, em 1997. Depois de ter tentado por duas vezes a inseminação artificial, por apresentar dificuldade de engravidar, a promotora viu em Maria Valéria a oportunidade de descobrir o verdadeiro sentido da maternidade. O discurso da maternidade nesse trecho é justificado pela identificação dos sentimentos e emoções da promotora ao realizar a adoção de sua filha, após duas tentativas frustradas de inseminação artificial. A entrevistada constrói uma imagem positiva da adoção, que segundo ela, foi „a oportunidade de descobrir o verdadeiro sentido da maternidade‟. Ainda como parte do discurso da maternidade, a promotora de justiça reafirma o seu ponto de vista no excerto (10) Marilea sentia que, para completar a sua felicidade, só faltava ser mãe. A felicidade incompleta é representada como conseqüência da impossibilidade da entrevistada de ser mãe. Podemos notar que a articulação do discurso da maternidade, embora naturalize as dificuldades que a mulher enfrenta ao decidir ser mãe, representa uma postura crítica no sentido em que percebemos em („Marilea sentia que, para completar a sua felicidade, só faltava ser mãe‟) se não a origem do problema ao menos o seu agravante. A solução do problema é vista como responsabilidade da promotora, cabe a ela encontrar uma alternativa para se tornar mãe.

No último excerto da (Rp2), o discurso articulado é o discurso das conquistas pessoais, atualizado em (12) “Independente da classe a que você pertence, o importante é você ser uma pessoa que realmente busca o que há de melhor para si”. Esse discurso, aqui, é legitimado pela identificação de uma postura de resistência da promotora, ao enfatizar a persistência da mulher na busca de novos espaços sociais. Esse discurso pode, ainda, representar um

15A expressão “demissão do Estado” foi utilizada por Bourdieu (1997, p.216) ao afirmar que a conversão coletiva à visão neoliberal foi acompanhada pela demolição da idéia de serviço público (RESENDE; RAMALHO, 2006)

efeito de denúncia no sentido de que podemos notar em („Independente da classe a que você pertence‟) a diferença de condições econômica e social que pode restringir o aceso das mulheres ao mercado de trabalho, cada vez mais exigente no novo século.

4.2.3 Análise da reportagem-perfil (3) - (Rp3)

Podemos identificar a interdiscursividade nos fragmentos (13), (14) e (15), Seção 4.1.3, deste Capítulo, que compõem a Reportagem sobre a desembargadora Maria dos Remédios Buna. Nesse perfil, reúnem-se diversos discursos. Um deles é o discurso da superação realizado em (13) “Assim que começou a trabalhar, fez serviços de babá e lavadeira e confessa não se envergonhar deste seu passado de luta. Estudou a vida toda em escola pública, assim como seus outros irmãos”. A enunciadora / repórter traz para o texto a voz da entrevistada, quando esta adota o discurso da superação no excerto acima, pois as lutas enfrentadas no passado pela desembargadora poderão ter sido determinantes na superação de obstáculos até alcançar uma carreira profissional de sucesso.

As expressões, ‟fez serviços de babá e lavadeira‟, „não se envergonhar deste seu passado de luta‟ e „estudou a vida toda em escola pública, assim como seus outros irmãos‟, embasam uma representação positiva da entrevistada, posicionada como sendo a imagem de uma mulher vencedora, mesmo tendo que enfrentar muitas dificuldades financeiras da família. Nessa recontextualização, a articulação do discurso da superação embora naturalize as lutas concretas da mulher que hoje ocupa novos espaços sociais, representa um efeito de denúncia ao dar visibilidade social às lutas da mulher em relação ao trabalho. Entretanto, podemos notar que a articulação desse discurso dissimula outras questões mais complexas que estão por trás da situação de mulheres oriundas da classe menos favorecida.

Nesse sentido, as expressões ‟fez serviços de babá e lavadeira‟ e, „não se envergonhar deste seu passado de luta‟, dissimulam as causas estruturais do problema, nos termos de Thompson (2005), uma vez que não apreendem a relevância da exclusão sócio-econômica das famílias na origem do problema. O segundo discurso articulado na reportagem em análise é o

discurso do acúmulo de papéis femininos atualizado em (14) “Meu dia-a-dia era muito corrido, pois, além de estudar, tinha que trabalhar para ajudar em casa. Sempre que arranjava um namoradinho, terminávamos, porque não lhe dava a atenção necessária e ele acabava interessando-se por outra garota”, pois a entrevistada representa sua vida cotidiana intensa, associada ao estudo e ao trabalho: („além de estudar, tinha que trabalhar para ajudar em casa‟). Com essa representação, cria uma imagem positiva de si como mulher lutadora que teve que estudar e trabalhar fora de casa para ajudar no sustento da família. Isso, certamente, agrada às leitoras, o que pode ser uma tentativa por parte da entrevistada de apresentar-se como uma mulher que exalta a força das mulheres nas lutas diárias que tem que enfrentar, visando a ocupar novos espaços sociais.

A articulação do discurso do acúmulo de papéis femininos, nesse excerto, por um lado ativa o senso comum segundo o qual a mulher é vista como capaz de desempenhar várias funções na sociedade, por outro, representa um posicionamento crítico, no sentido de que observamos em („além de estudar, tinha que trabalhar para ajudar em casa‟) uma fala reflexiva da entrevistada sobre as condições econômicas e sociais desfavoráveis que vivenciou, como indicativo de desigualdades sociais que fazem parte de uma sociedade excludente como a nossa.

No último excerto da reportagem, o discurso articulado pela entrevistada é o discurso da realização profissional como podemos observar em (15) “Depois de ter passado por tantas dificuldades na vida e ter percorrido caminhos longos e árduos para conseguir ser alguém, é muito gratificante fechar o círculo da profissão que escolhi. É majestoso. Hoje, me sinto uma rainha”. Esse discurso, aqui, justifica-se pela identificação da desembargadora com o trabalho que hoje realiza no Tribunal de Justiça do Maranhão.

A realização no trabalho é constituída pela entrevistada como indispensável, fundamental para a transformação de sua vida, antes envolta a muitas dificuldades financeiras („depois de ter passado por tantas dificuldades na vida e ter percorrido caminhos longos e árduos para conseguir ser alguém‟), para uma posição de status e prestígio social („hoje, me sinto uma rainha‟). Com essa representação, a desembargadora constrói uma imagem positiva da

relação mulher x trabalho, que se ancora na determinação, na competência e no profissionalismo.

Enfim, o ponto de vista da entrevistada, atualizado no excerto (15), pode influir na construção do cargo de desembargador(a) como de superior prestígio social, comparado a „uma rainha‟, fazendo, com isso, uma pessoa chegar a „ser alguém‟, pois tudo leva a crer que a entrevistada vê em seu trabalho um modelo singular de profissão.

4.2.4 Análise da reportagem-perfil (4) - (Rp4)

A interdiscursividade pode ser identificada nos excertos (16), (17), (18), (19), (20), (21) e (22), Seção 4.1.4, deste Capitulo, que compõem o perfil da professora e escritora Sônia Maria Pereira de Almeida, que foram denominados de: discurso da educação, discurso do lazer e diversão, discurso

Benzer Belgeler