Esta seção, por fim, deverá destacar alguma percepção inicial acerca da estruturação dos coletivos na contemporaneidade. Presente no próximo capítulo, mais especificamente acerca da organização dos sindicatos no Brasil a partir da década de 1990 – ou melhor, sua reestruturação interna –, tem-se que se mostra viável já delinearmos um caminho possível de ser adotado pelos movimentos coletivos sob a racionalidade neoliberal e sob as demais composições político- econômicas características de fins do século XX e do início do século XXI.
Como já delineado, emersa em uma composição do mercado de trabalho globalizado, ademais informatizado, o que torna maior a volubilidade e as possibilidades de demanda de força de trabalho por parte das empresas, percebe-se a instauração de uma dinâmica de individualização sobre a população. Os grupos característicos a movimentos políticos, como os partidos, coletivos e, não menos afins, os movimentos dos trabalhadores e de sindicatos, sofrem mediante a infrutuosidade econômica relativa às reivindicações propostas e ao próprio existir. É dizer que se deixam de lado as diferenças, as demandas sociais e os laços de solidariedade para abrir caminho às possibilidades de ascensão auferidas pela profissionalização, pelo “empreendimento de si”, por um enclausuramento da solidariedade ao âmbito do individual. A cidadania, assim, torna-se sinônimo de capacidades ao nível individual, passando a ser considerado cidadão não aquele que reivindica pelos direitos e se manifesta publicamente, mas aquele que trabalha e que garante seu sustento com o próprio suor; que mantem a ordem no espaço privado e que não atrapalha o “fluxo” de pessoas ou de mercadorias, tornando-se, assim, alheio ao “público” – um “cidadão em documento”, portanto. Sobre este escopo, Dardot e Laval (2016, p.9) resumem da seguinte forma:
Além dos fatores sociológicos e políticos, os próprios móbeis subjetivos da mobilização são enfraquecidos pelo sistema neoliberal: a ação coletiva se tornou mais difícil, porque os indivíduos são submetidos a um regime de concorrência em todos os níveis. As formas de gestão na empresa, o desemprego e a precariedade, a dívida e a avaliação, são poderosas alavancas de concorrência interindividual e definem novos modos de subjetivação. A polarização entre os que desistem e os que são bem- sucedidos mina a solidaridade e a cidadania. Abstenção eleitoral, dessindicalização, racismo, tudo parece conduzir à destruição das condições do coletivo e, por consequência, ao enfraquecimento da capacidade de agir contra o neoliberalismo. Como apontam os autores, tornam-se cada vez mais claras as manifestações da quebra de alguma solidariedade ao nível da coletividade. Desde as constantes observações e concorrências silenciosas ou mascaradas dentro do espaço de trabalho às manifestações de repúdio contra grupos específicos nas principais economias do mundo, como bem deixam claros os casos de xenofobia, o estranhamento provocado crescentemente entre os indivíduos é intensificado dadas as condições cada vez mais precárias do mercado de trabalho e as possibilidades cada vez mais exíguas de alguma estabilidade econômica.
Em relação à quebra das solidariedades expostas principalmente sob a racionalidade neoliberal, mostra-se importante destacar, para seu entendimento, tanto o prisma salientado por Konder (2009) quanto um resgate às concepções de noopolítica e do gerencialismo. Assim, poderá per percebido que a quebra das solidariedades se dá para além do esfacelamento dos coletivos, sendo igualmente “anterior” e “posterior”.
Konder (2009) esclarece essa visualização sobre o distanciamento do indivíduo às manifestações coletivas, ademais, à política nacional, a partir do prisma marxista. Assim, adota o autor para análise e como pedra angular ao desencadeamento de tais comportamentos e desvinculações com o social, com o público, a emergência da alienação do trabalho marxiana, bem como a composição histórica da sociedade pela via do trabalho. Sendo a política uma dimensão da atividade humana e, com isso, de importância à organização social, esclarece Konder (2009, p.183) de forma simples que “tanto as ações como as omissões dos indivíduos repercutem sobre as pessoas que os conhecem e com as quais eles lidam”.
Com foco sobre o apoliticismo evidenciado sobremaneira na contemporaneidade, pergunta-se o autor sobre a origem do comportamento de desprezo ao público, ao social e ao sociável, para logo em seguida responder que sua origem se dá a partir da alienação – mas também com o caráter da divisão do trabalho. Adota-se, com isso, a ótica de que as transformações do mundo de trabalho adquirem maiores horizontes ao influenciar o comportamento social. Localizará o autor que:
Cindindo a atividade humana em duas esferas aparentemente autônomas e frequentemente contraditórias – a esfera da vida pública e a esfera da vida privada – a alienação possibilitou o aparecimento desta ilusão [do apoliticismo] segundo a qual a atividade do indivíduo na esfera de sua vida particular permitiria um abandono das suas responsabilidades como cidadão. (KONDER, 2009, p.183)
Por conseguinte, passa-se a entender que a vida pública, em contradição à vida privada, já se dá nas comunicações necessárias (e indispensáveis) do cotidiano, como são as comunicações necessárias dentro do espaço do trabalho, mesmo que por vias informatizadas, e nas utilizações das estruturas e serviços públicos, devendo responsabilizar-se pela “coisa pública” apenas os reconhecidamente alocados para tal, como os políticos e demais funcionários públicos.
Indo mais em específico às contribuições marxianas, Konder localizará no poder historicamente concedido às classes na conformação da realidade material às suas necessidades o meio sobre o qual recairá um afastamento das camadas menos abastadas na influência e na gestão da vida pública. Desta maneira, “a consciência alienada é, por vezes, levada a supor que é a desigualdade natural dos indivíduos que determina a desigualdade da influência política de que dispõem” (KONDER, β009, p.184). Aos trabalhadores, portanto, incidiriam os frutos provenientes de políticas esboçadas pelas camadas mais altas que, em verdade, são construídas ao próprio prazer e à conformação de um ciclo ininterrupto de relações entre a camada mais vulnerável e o Estado, visando a manutenção da dependência; enfim, do status quo. Apesar da possibilidade de ascensão dos trabalhadores ao poder, sua manutenção seria instável, dada a
dominação dos recursos que auxiliam na preservação do poder pela camada mais alta, como os recursos propagandísticos e a imprensa de forma geral. Conforme realça:
Monta-se, com o advento da sociedade dividida em classes, um aparelho destinado a controlar a vida social, a garantir o estatuto vigente de propriedade contra as competições entre os proprietários e contra os não proprietários: o Estado. Este aparelho se organiza, se diversifica, se estende e, com o capitalismo, torna-se extraordinariamente complexo: mobiliza todo um exército de burocratas e exige, para o seu bom funcionamento, a participação em sua direção de especialistas, técnicos em administração. A formação de tais especialistas é difícil, custosa. A instrução é cara; a instrução de nível superior exige tempo, dedicação. As duras condições de luta pela vida impostas aos trabalhadores excluem-nos, via de regra, da participação no aparelho do Estado como técnicos, administradores. (KONDER, 2009, p.184-185) A participação nas decisões da esfera pública adota para si mesma o caráter de especialização do trabalho ao qual recai o desenvolvimento de toda a sociedade. Desta maneira, garante-se, por meio do caráter da necessidade de especialização no entendimento e manejo da “máquina” pública, que haja o afastamento e a criação de um abismo entre os assim ditos cidadãos e a possibilidade de participação na política, gerando, desta maneira, um ciclo de apoliticismo inacabável. Um último trecho de sua análise aponta especificamente este caminho, senão vejamos:
Para melhor surtir os seus efeitos, o apoliticismo vale-se da situação criada pela alienação. Sob as condições de divisão da sociedade em classes, o trabalho humano se dividiu e subdividiu em profissões e especializações limitadas, às quais os indivíduos são virtualmente atrelados; com isso, criam-se, como dissemos, atividades privadas do indivíduo que são, na prática, desprovidas de consequências políticas. E, na própria esfera da atividade pública, criam-se certas especializações das quais toda significação política parece ter sido banida. Além disso, a própria atividade política, deixando de aparecer como uma dimensão da atividade humana em geral, apresenta- se como uma especialização, uma carreira, um ramo para especialistas. A perspectiva acumpliciada com a alienação se serve desses dados históricos, transformando-os em manifestações das características essenciais da atividade humana em si, isto é, de uma mítica atividade humana sem condicionamento histórico. (KONDER, 2009, p.186) Acerca deste abandono com o qual passa a ser tratada a esfera pública, social, bem como a constituição e o “motivo de ser” das coletividades, é que Mendes (β01β) aponta que na contemporaneidade a “coletividade” que passa a ganhar mais importância e se estabelece enquanto principal ilustração de tal se encontra no mercado financeiro, cujo processo de financeirização que o contorna passa a servir de “‘dispositivo de agregação dos processos de individualização’, um tipo de ‘comunismo do capital’ em que o capital financeiro passa a ser o representante coletivo dos múltiplos trabalhadores/investidores que fazem parte da ‘sociedade civil’” (MENDES, 2012, p.73). Baseando-se no pensamento de Marazzi (2010), enfatiza o autor: “a financeirização define a esfera pública do capital” (MENDES, β01β, p.7γ); assim, o
Em retorno aos aspectos mais detidos ao âmbito laboral, mas que não deixam de ter seu conteúdo político com os movimentos dos trabalhadores, tem-se que o apoliticismo analisado por Konder, proveniente historicamente do espaço e da divisão do trabalho, em muito influencia no desarraigamento da concepção de coletividade ou de classe, provendo este pensamento de um ciclo que perpassa tanto a seara do trabalho quanto a do âmbito público (envolvendo, como evidencia, a relação com o próprio espaço de existência da sociedade, como as comunidades, as cidades e as estruturas que os conformam). Nestes termos, importante se torna referenciar novamente, sem nos estendermos nestas, as discussões sobre a noopolítca e o gerencialismo.
Em relação ao primeiro, Hur (2013, p.211) aponta que a noopolítica, enquanto estabelecimento de um controle e uma nova forma de ser e de subjetivação que, conforme esclarecido na última seção, é determinado a partir da exploração da memória e da atenção, faz com que o neoliberalismo e sua axiomática se tornem, assim, “o ‘funcionamento correto’ de pensar, sentir, viver e agir, sendo o imperativo da noopolítica”. Dessarte, “os sujeitos passam a pensar e afetar-se de maneira neoliberal todas as esferas da vida, afastando suas preocupações da política, gerando coletivos despolitizados e vorazes por dinheiro” (HUR, β01γ, p.β11). Sobre o âmbito da memória, torna-se diluída a motivação de filiação aos sindicatos e a importância historicamente concedida aos mesmos, ao passo que quase desconhecida e afastada dos mais jovens – nascidos, criados e educados sob a racionalidade neoliberal – qualquer estabelecimento de ligação com os coletivos e suas potencialidades dentro ou fora do trabalho (ALVES, 2011a). Sobre o segundo, o gerencialismo, de acordo com o constructo de Gaulejac (2007), a impulsão da coletividade dentro do espaço de trabalho se dá com o intuito de se alcançar os objetivos da empresa e enquanto atendimento às demandas da mesma, visando a manutenção do posto de trabalho. Assim, como tantas vezes salienta Gaulejac em sua obra, trata-se atualmente no campo do trabalho não mais de uma luta de classes, mas de uma “luta de lugares”, que em si conota a ideia de fragmentação das coletividades no espaço de trabalho. Desta forma: O poder gerencialista é profundamente individualista. Ele enfraquece a constituição de coletivos duráveis. Celebra o trabalho em equipe com a condição de que seja totalmente consagrado a atingir objetivos fixados pela empresa. A adesão de fachada à ideologia gerencialista dissimula também uma submissão pragmática a suas exigências, condição mínima para esperar conservar seu lugar. Nesse contexto, ninguém assume o risco de contestar as orientações da direção. A des-sindicalização, no seio da empresa gerencial, é o sintoma de uma situação na qual cada empregado está mais preocupado em melhorar sua situação pessoal ou de salvar seu lugar do que em desenvolver solidariedades coletivas contra um poder inatingível. Estas, de fato, desenvolvem-se apenas em situações de crise, diante de demissões em massa ou de fechamentos de estabelecimentos, em um momento em que as decisões já foram tomadas. Frequentemente é demasiado tarde para criar uma relação de força que leve as direções a rever sua estratégia. (GAULEJAC, 2007, p.144)
A ideia sobre um “privatismo” no campo laboral (GAULEJAC, β007) passa a dominar a subjetividade dos novos sujeitos na contemporaneidade. Ademais, sob uma divisão porosa, conforme expõe o autor, entre os tempos e espaços de trabalho e de não trabalho, as ideias constituídas em um âmbito acabam por transbordar aos demais, oferecendo à realidade, ou melhor, ao cuidado para com o outro e para com o público, o caráter cíclico anteriormente definido. Gaulejac (2007, p.268) bem expõe esta ligação, estabelecendo que, em verdade, a sobreposição do econômico em relação ao político acaba por conformar novos caracteres à personalidade dos indivíduos. Como expressa:
A ideologia gerencialista leva a inverter os valores entre a política e a economia. A política, longe de suscitar o amor e a consideração, tornou-se o lugar do cálculo. Pagar impostos é sentido como cargo e até como tara, escapar à fiscalização é sinal de inteligência e de tino. A imagem do empreendedor que se comprometia para defender o bem público é substituída pelo modelo do estratego que sabe valorizar seus interesses privados. A política é percebida como se colocar a serviço dos interesses dos especuladores. A coisa pública é desvalorizada. Essa inversão das relações entre o econômico e o político é a causa profunda do descrédito que atinge esse último. Mais grave ainda: a economia, que é um dos motores essenciais do desenvolvimento social, contribui para destruí-lo. “A economia, entregue a seu próprio movimento, agora joga contra a sociedade” (Perret e Roustang, 2001).
Passamos a adentrar, seguindo principalmente as perspectivas do sindicalismo, ao escopo das resistências, nas quais os sindicatos e demais movimentos dos trabalhadores se mostram os mais característicos em termos de embate contra o capital. Cremos que, como evidenciados os passos nos quais se encontram as coletividades, outras contribuições nesta seção deverão apenas intensificar o desenho concedido a estas, mas tornando fatigante nossa contribuição, em geral, a este aspecto. Desta maneira, iniciaremos uma análise sobre a resistência e as formas percebidas atualmente que condizem com as dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores e com os fatores agregados neste capítulo. Visaremos tornar palpável um entendimento, afinal, das estratégias de contorno do controle gerado pelos trabalhadores oferecido, conforme tratamos no decorrer deste trabalho, pela dinâmica bioeconômica.