Martín-Barbero, a partir do texto De los medios a las mediaciones (1987), percebe a comunicação a partir da cultura popular e dos conteúdos de massa e propõem a revisão do processo de comunicação tradicional desde o lado da recepção. Esta perspectiva abarca todo o processo de comunicação e não somente o processo de recepção (RONSINI, 2010). O autor propôs o deslocamento da análise da comunicação para onde o sentido é produzido, ou seja, para o âmbito dos usos sociais (JACKS, 2008). A consideração de que o receptor é também produtor foi a principal mudança trazida para este enfoque da comunicação.
As mediações aparecem em Martín-Barbero como o lugar onde se estabelece a relação entre os receptores e os meios65, é um instância cultural a partir do qual o público produz e se apropria do significado e do sentido do processo comunicativo (SIFUENTES, 2010, p.20). As mediações:
São esse lugar a partir do qual é possível compreender a interação entre o espaço da produção e o da recepção: o que se produz na televisão não atende unicamente às necessidades do sistema industrial e às estratégias comerciais, mas também a exigências que vêm da trama cultural e dos modos de ver (MARTÍN-BARBERO apud PAULINO, 2001, p.20).
A partir disso, Paulino (2001) mostra que a televisão não funciona sem assumir, e por consequência legitimar, as demandas dos grupos receptores. Ao legitimá-las, os significados são ressignificados em função do discurso hegemônico. Os meios de comunicação, dessa forma, são uma das principais mediações. O conhecimento que temos do mundo, desde o cotidiano até situações de lugares distantes, está mediado pela mídia. Nesta pesquisa isso nos interessa no sentido de pensar as mediações como múltiplas, que reciprocamente se influenciam. A percepção é tanto influenciada pela idade, classe, escolaridade, como pelos meios e as instituições.
65 Segundo Gomes (2004) a linha de fundo que liga os Estudos Culturais aos interesses do autor é a que “entende o massivo como trabalhando desde dentro do popular”. Considerando a preocupação do autor com a articulação entre práticas comunicacionais e os movimentos sociais, ideia que não discutiremos neste trabalho, o campo das mediações pode ser visto como um lugar de relação de “enfrentamento” entre meios e receptores. (GOMES, 2004, p. 206).
Em De los medios a las mediaciones, Martín-Barbero propõem um mapa (das Mediações Culturais da Comunicação) que dê conta da complexidade nas relações constitutivas da comunicação na cultura, e na década seguinte apresenta uma atualização do seu trabalho, um “novo mapa66” (MARTÍN- BARBERO, 2008, p.16), que utilizamos neste trabalho, o das Mediações Comunicativas da Cultura67.
Este novo mapa proposto por Martín-Barbero (Figura 1) “move-se” em dois eixos: Um chamado de sincrônico, constituído entre as Lógicas de Produção(LP) em sua relação com as Competências de Recepção e Consumo(CR); e o outro diacrônico, histórico de longa duração, entre as Matrizes Culturais(MC) e os Formatos Industriais(FI). Compõem as mediações comunicativas da cultura a socialidade(que medeia as matrizes culturais e as competências de recepção e consumo), ritualidade (medeia os formatos industriais e as competências de recepção e consumo) , tecnicidade (medeia as lógicas de produção e os formatos industriais) e institucionalidade (medeia matrizes culturais e lógicas de produção).
Figura 1 Mapa das Mediações Comunicativas da Cultura, de Martín-Barbero (2008 p.16).
66 O mapa foi publicado em 1998 no prefácio da 5º edição espanhola do texto De los medios a las
mediaciones. Utilizamos neste trabalho a 5º edição em português, datada de 2008.
67 Segundo Jacks; Menezes; Piedras (2008, p.39), a passagem do modelo das mediações culturais da comunicação para o das mediações comunicativas da cultura recoloca a necessidade de trabalhar os meios e os recursos que os rodeiam de forma mais enfática para entender a cultura, sem deixar de considerar os elementos da estrutura sociocultural que configuram a relação das pessoas com os meios de comunicação.
Além das dimensões de mediação (socialidade, ritualidade, tecnicidade e institucionalidade), Martín-Barbero aponta três lugares onde as mediações acontecem: Cotidianidade familiar, temporalidade social e as competências culturais.
A socialidade é a mediação que está entre o âmbito das matrizes culturais e as competências de recepção e consumo, “engendrando uma urdidura para a produção de sentido. Figurando como uma amalgama que vincula a tradição cultural como o modo de os receptores se relacionarem com a cultura massiva” (GOMES, 2008, p.36). A socialidade, gerada na trama da vida cotidiana, é “lugar de ancoragem da práxis comunicativa e resulta dos modos e usos coletivos de comunicação, isto é, de interpelação/constituição dos atores sociais e de suas relações (hegemonia/ contra-hegemonia).” (MARTÍN-BARBERO, 2008, p. 17).
Sifuentes (2010) mostra a maneira como Martín-Barbero define a socialidade como aquilo que excede à razão institucional na sociedade, “é a trama formada pelos sujeitos e atores em suas lutas para redesenhar a ordem, mas também suas negociações cotidianas com o poder e as instituições”.
Em Gomes (2008, p.36), vemos que a socialidade permite analisar o cenário onde os receptores atuam e interaturam, onde exercem suas práticas e seus habitus, onde a subjetividade e as identidades constroem-se e reconstroem-se com o fim de entender o que passa no mundo da recepção e do consumo, ou seja, no mundo dos atores sociais e suas vinculações com o mundo social. Da socialidade dos sujeitos fazem parte instituições como gênero, geração, família, escola, classe social.
A ritualidade é responsável pelos nexos simbólicos que configuram a relação da audiência com os meios, ou seja, o processo comunicativo. Pela ritualidade é mobilizada a memória dos receptores (seus ritmos e formas, os cenários de interação e repetição), constituindo uma gramática de ação nas relações que estabelece com os formatos industriais68 utilizados (GOMES, 2008). A ritualidade se refere aos diferentes usos sociais dos meios e aos diferentes trajetos de leitura, que estão estreitamente associados à qualidade da educação, aos saberes constituídos em memória étnica, de classe ou de
gênero, e aos costumes familiares de convivência com a cultura letrada oral ou audiovisual.
A mediação da institucionalidade só foi apresentada no segundo mapa de Martín-Barbero. Surge para dar conta de maneira mais concreta e específica ao âmbito dos meios, ou seja, dos discursos públicos, carregados de interesses e poderes contraditórios, mas que tendem à homogeneidade.
A institucionalidade é o cenário que constrói a relação mais próxima entre produção e recepção. Esta mediação é transformada pelos contextos das lógicas de produção e das matrizes culturais.
Já a tecnicidade nos remete à construção de novas práticas através das diferentes linguagens midiáticas. Pensar em termos de tecnicidade significa um esforço em compreender a complexidade dos discursos (das relações de poder e do contexto histórico que os constituem). Alem disso, a tecnicidade aponta para os modos como a tecnologia vai moldar a cultura e as práticas sociais. Em Gomes (2008, p.38) vemos a tecnicidade como configuradora de fenômenos que extrapolam os meios, a autora coloca que em Martín-Barbero a técnica, mais do que aparelho, é uma questão de formato de novas práticas, mais do que destreza é linguagem, sendo a mediação da tecnicidade a que aponta para o novo estatuto social da técnica, à rediscussão do sentido do discurso e da práxis política, ao novo estatuto da cultura, e aos avatares da estética.
Martín-Barbero (2008, p.19) diz que, na sua relação com os formatos industriais, as ritualidades constituem gramáticas de ação do olhar, do escutar, do ler, que regulam a interação entre os espaços e tempos da vida cotidiana e os espaços e tempos que conformam os meios. E vistas a partir das competências de recepção e consumo, as ritualidades remetem aos diferentes usos dos meios e às múltiplas trajetórias de leitura.
Enfim, para os estudos de comunicação latino-americanos, Martín- Barbero é um dos mais importantes nomes. Porém, as dificuldades do uso das mediações para a pesquisa empírica favorecem trabalhos como os de Guillermo Orozco, que são fortemente influenciado pela teoria das mediações de Martín-Barbero, como vemos a seguir.
3.2 ENFOQUE INTEGRAL DA AUDIÊNCIA POR GUILLERMO