2. Diğer Tasavvufî Kavramlar
1.1. Nüshaların Değerlendirilmesi
O que seria o processo penal senão uma fórmula redutora de complexidade, ou aquilo que Salo de Carvalho chama de método de despedaçamento?257
Senão vejamos: (a) através de um procedimento inquisitorial (inquérito), procura-se averiguar a existência ou não de um crime (materialidade e autoria); que (b), em caso positivo, será remetido ao Ministério Público – que (c), por sua vez, reduzirá a termo o que lhe disseram, denunciando o então investigado, que passará à qualidade de acusado; e, (d) através de um exercício coletivo de rememorização (do qual participam as testemunhas, a vítima e o acusado), cada um participando no momento apropriado, pré-estabelecido pela lei, na tentativa de se demonstrar àqueles que não presenciaram o evento (juiz, promotor e advogado) o que, de fato, aconteceu no passado, para que possam se manifestar e participar dentro de suas limitações; para (e), ao final, o juiz, legitimado pelo Poder Público para decidir o entrave, a partir de uma visão geral sobre todas as partes trazidas ao processo, proferir a sua sentença. Neste momento, o juiz irá expor as suas razões fundamentadamente, mostrando que entendeu todas as pequenas partes do processo, decidindo a causa. É a aplicação perfeita do método cartesiano ao procedimento inquisitorial. Ou seja: o que mudou, pode-se dizer, foi tão-somente a linguagem e os termos atribuídos aos atos processuais. O procedimento, as justificativas, a finalidade e, principalmente, a crença, continuam as mesmas.
255 Conferir nota n. 62.
256 Conferir as notas n. 71 a 77.
Quanto se fala em rememorização dos eventos, trata-se de evidenciar a função da memória, que é chamada ao processo (penal) para que resgate o que “sobrou” do fato e tente reconstruí-lo no presente. E quanto maior o número de testemunhas, mais fidedigna restará a recomposição do fato (e mais tranqüilo ficará o julgador ao sentenciar).
Nesse sentido, resgata-se a noção de espaço e tempo absolutos: acreditando ser possível abarcar perfeitamente um fragmento do passado (que circunscreve o delito), o juiz procura descobrir o que aconteceu, quem foi o autor do crime e qual foi o dano produzido, através do questionamento às testemunhas (e, às vezes, à própria vítima), exatamente como ocorria no inquérito relatado por Foucault.
Não é novidade que, com o passar do tempo, a memória vai deixando para trás alguns detalhes do que fora anteriormente presenciado. De fato, “podemos, inconscientemente, alocar uma série de informações sobre o outro que não se relacionam aos seus atos, mas sim a um olhar que acabamos consolidando sobre tudo aquilo que pressupomos que o outro seja.”258
De acordo com António Damásio, toda vez que lembramos de “um dado objecto, um rosto ou uma cena, não obtemos uma reprodução exacta, mas antes uma interpretação, uma nova versão reconstruída do original. Mais ainda, à medida que a nossa idade e experiência se modificam, as versões da mesma coisa evoluem”.259 Segue o neurologista português dizendo que
a negação de fotos permanentes do que quer que seja possam existir no cérebro tem de ser reconciliada com a sensação, que todos nós partilhamos, de que podemos evocar, nos olhos ou ouvidos da nossa mente, imagens aproximadas do que experienciámos anteriormente. O facto de estas aproximações não serem exactas, ou de serem menos vívidas que as imagens que tencionam reproduzir, não é uma contradição.”260
258
VASCONCELLOS, Silvio José Lemos; GAUER, Gabriel José Chittó. Contribuições da Psicologia Cognitiva para a compreensão dos diferentes olhares direcionados ao comportamento delitivo., p. 134.
259 DAMÁSIO, António. O erro de Descartes, p. 116. 260 DAMÁSIO, António. O erro de Descartes, pp. 116-117.
Tais imagens poderiam ser, então,
construções momentâneas, tentativas de réplica, de padrões que já foram experienciados pelo menos uma vez e para os quais a probabilidade de se obter uma réplica exacta é baixa, sendo de notar que a probabilidade de ocorrer uma réplica substancial pode ser superior ou inferior, dependendo das circunstâncias em que as imagens foram assimiladas e estão a ser acedidas. Estas imagens evocadas tendem a ser retidas na consciência apenas de forma passageira, e, embora possa parecer que constituem boas réplicas, são frequentemente imprecisas ou incompletas.261
A partir de então, é natural que a memória preencha esses espaços de esquecimento com outras informações (in)conscientemente construídas, muitas vezes sem qualquer relação com o que de fato ocorreu. Pelas palavras de Rui Cunha Martins, “a memória, ou a sua reprodução na consciência, é passível de revisão”, mas parece persistir, “colado à memória, um aviso de não mexer, ou de agitar com cuidado. Críptico, inconfessado, um tabu instalado em torno da memória dá mostras de resistir.”262 De acordo com François Ost, “Não há memorização sem triagem seletiva, não há comemoração sem invenção retrospectiva.”263
Henri Bergson, no final do século XIX, antecipava o que veio a ser comprovado pelos neurocirurgiões às vésperas do século XXI, conforme visto acima: “O que você tem a explicar, portanto, não é como a percepção nasce, mas como ela se limita, já que ela seria, de direito, a imagem do todo, e ela se reduz, de fato, àquilo, que interessa a você.”264
O mecanismo de verificação da lembrança das testemunhas e vítimas do evento delitivo durante a instrução criminal encontra-se completamente defasado frente às novas concepções de tempo, espaço, velocidade, memória, etc., oriundas da sociedade contemporânea. Como se situaria, então, o direito – em especial, o direito processual penal – nesse contexto de crise das condições de possibilidade da própria ciência moderna? Com um tempo reconhecidamente diferente daquele do modelo newtoniano, uma memória indubitavelmente falível (e, justamente por isso, demasiado humana) e uma impossibilidade de apreender por completo um fato pretérito (no caso, o fato-crime), o processo penal teria
261
DAMÁSIO, António. O erro de Descartes, p. 117.
262 MARTINS, Rui Cunha. O nome da alma: “memória”, por hipótese, pp. 22 e 23. 263 OST, François. O Tempo do Direito, p. 63.
como manter sua proposta de reconstituir o fato e buscar o que realmente ocorreu – em uma linguagem jurídica, a tão visada “verdade real”?
Para além de quaisquer considerações acerca da (in)viabilidade de concretização dessa crença, vale lembrar o que diz Aury Lopes Jr.: “A verdade absoluta é sempre intolerante, sob pena de perder seu caráter ‘absoluto’.”265
A exposição das limitações do processo penal, desde a sua lógica inquisitorial de presentificação do delito,266 procuram demonstrar a sua (in)capacidade para lidar com fenômenos complexos, uma vez que fundado em bases epistemológicas ultrapassadas e, portanto, inaptas para comportar uma “resposta” satisfatória aos delitos. E os novos modelos de gestão de conflitos em sede criminal, não podem simplesmente ser apresentados como solucionadores dessa crise, mas também necessitam ser exaustivamente questionados se, como possíveis substitutos do processo penal, poderão ser, de fato, mais eficazes do que o processo penal.