GEREÇ VE YÖNTEMLER
MUTASYON TESPİT EDİLMEYEN GEN NOKTALAR
Ao prever o dever de informação, a própria Lei Maior encarregou-se de
estabelecer limites explícitos ao acesso (potencial) a informações referentes aos
“atos do governo”: ressalvou as informações protegidas por sigilo e determinou
observância da privacidade (art. 37, §3º, II).
Assim, para investigar a possibilidade de publicação nominal, à luz do texto
constitucional, impõe-se ao intérprete determinar em que medida o âmbito de
proteção do direito à privacidade dos agentes públicos seria efetivamente reduzido
em virtude da natureza da fonte pagadora.
Uma leitura sistematizada da Constituição Federal - que não deve ser jamais
interpretada “em tiras, aos pedaços”
208– permite afirmar, com suficiente segurança,
que a privacidade de todo aquele que recebe, administra e/ou destina recursos
públicos efetivamente não é, notadamente nos mais variados aspectos de sua
relação com a coisa pública, idêntica à de quem não mantém relação com a
atividade estatal
209.
Essa constatação decorre não apenas do direito à informação, mas,
também, das inúmeras disposições constitucionais e infraconstitucionais que tratam
que o órgão deve atuar nos estreitos limites de seu poder regulamentar: [...] II - No exercício de suas atribuições administrativas, encontra-se o poder de ‘expedir atos regulamentares’. Esses, por sua vez, são atos de comando abstrato que dirigem aos seus destinatários comandos e obrigações, desde que inseridos na esfera de competência do órgão. III - O Conselho Nacional de Justiça pode, no lídimo exercício de suas funções, regulamentar condutas e impor a toda magistratura nacional o cumprimento de obrigações de essência puramente administrativa.[...] (MS 27621, Relator(a): Min. CÁRMEN LÚCIA, Relator(a) p/ Acórdão: Min. RICARDO LEWANDOWSKI, Tribunal Pleno, julgado em 07/12/2011, ACÓRDÃO ELETRÔNICO DJe-092 DIVULG 10-05-2012 PUBLIC 11-05-2012)
208 GRAU, Eros. A Ordem Econômica na Constituição de 1988. 10ed. São Paulo: Malheiros, 2004,
p.166.
209 A respeito, já afirmava William Prosser, em digressão que se aplica à situação das figuras públicas
também no Brasil: “Such public figures are held to have lost, to some extent at least, their right of privacy. Three reasons are given, more or less indiscriminately, in the decisions: that they have sought publicity and consented to it, and so cannot complain of it; that their personalities and their affairs already have become public, and can no longer be regarded as their own private business; and that the press has a privilege, guaranteed by the Constitution, to inform the public about those who have become legitimate matters of public interest.” PROSSER, William. Privacy. Op. cit., p. 411.
– de forma analítica, inclusive – da atividade administrativa, das quais se pode
extrair especial preocupação com a destinação dos recursos públicos.
210Veja-se, por exemplo, dentre outros apontamentos que poderiam ser feitos a
respeito, que os agentes públicos têm a especial obrigação, como requisito para
posse e exercício, de apresentar declaração de bens e valores que compõem seu
patrimônio privado. Igualmente, quando do exercício da função pública, devem
possibilitar acesso, pelo Tribunal de Contas, às declarações de renda entregues
anualmente à Receita Federal (art. 13, “caput”, da Lei n.º 8.429/92 e Lei n.º
8.730/93).
Pois bem, mesmo que se parta da premissa de que a privacidade do agente
público realmente pode sofrer, em alguns aspectos, por conta de duas funções,
restrições maiores do que a dos demais cidadãos, daí não decorre, ipso facto, a
possibilidade, ainda que a pretexto de efetivar o dever constitucional de informar, de
esvaziar por completo seu direito à privacidade.
211É evidente que, em um estado que se qualifique como democrático, serão
de interesse de todos, como decorrência lógica e indissociável do direito à
informação sobre os atos estatais, informações sobre quanto um determinado órgão
gasta com a remuneração de pessoal; quantas pessoas exercem suas atividades
naquele órgão, a que título e desde quando; qual a média remuneratória; quais as
vantagens que competem ao cargo, emprego ou função; dentre outras tantas
informações possíveis.
Mas parece perfeitamente possível proceder à divulgação de tais dados sem
que, com isso, tenha-se de divulgar, em lista, os vencimentos dos agentes públicos,
com os respectivos nomes, e, como já se viu em inúmeros casos, com a indicação,
além de descontos legais, de descontos de natureza pessoal (como pensões ou
empréstimos bancários).
Na primeira decisão do Supremo Tribunal Federal sobre o tema, ainda antes
da legislação atual, o Ministro Ayres Britto chegou a afirmar que a publicação
210 Cite-se, apenas a título exemplificativo, as normas constitucionais que tratam dos princípios da
Administração Pública (previstos no artigo37, “caput”, dentre outros artigos), bem como as regulam os orçamentos (artigo165 e seguintes).
211 "[...] Princípio da concordância prática ou da harmonização: os bens constitucionalmente
protegidos, em caso de conflito ou concorrência, devem ser tratados de maneira que a afirmação de um não implique o sacrifício do outro, o que só se alcança na aplicação ou na prática do texto." COELHO, Inocêncio Mártires. Repensando a interpretação constitucional. Revista Diálogo Jurídico, Salvador, CAJ - Centro de Atualização Jurídica, v. I, no. 5, agosto, 2001. Disponível em: <http://www.direitopublico.com.br>. Acesso em: 28 de Maio de 2013.
nominal “poderia ensejar risco à segurança física ou corporal dos servidores”. Mas,
segundo o ministro, seria um “preço que se paga pela opção por uma carreira
pública” (SS 3.902-Agr, DJE 03/10/2011).
Em que pese o respeito que mereça a decisão, o exercício de uma função
pública não implica, de forma alguma, tão grave conclusão
212.
Os “preços” que devem ser “pagos” em virtude do ingresso na carreira
pública estão devidamente descritos na Constituição Federal (art. 37 e seguintes) e
nas leis de regência de cada categoria. Dentre eles, não está, evidentemente, o de
ser exposto desnecessariamente – seja sob o enfoque da privacidade, seja o
enfoque da segurança pessoal e familiar.
213De modo semelhante, em outro precedente (SL 689), o Ministro Joaquim
Barbosa referiu:
[...] o ingresso no serviço público traz consigo a sujeição a um regime jurídico próprio, no qual se insere o encargo de respeitar de forma ampla o princípio da publicidade, inclusive no que se refere aos detalhes de sua condição remuneratória.
A propósito, pode-se afirmar, com segurança, que nenhum dos agentes
públicos tinha conhecimento (e nem poderia razoavelmente prever), quando de seu
ingresso no serviço público, que poderia vir a ter seus vencimentos nominalmente
publicados, porquanto
214a construção de que o regime jurídico público dos agentes
públicos implica essa possibilidade decorre de compreensão recentíssima e, como
se sustenta neste trabalho, equivocada, de lei há pouco tempo vigente.
Seja como for, e muito embora se pretenda mais bem avaliar a
desproporção da medida quando da abordagem da proporcionalidade, pode-se
adiantar que é por demais conhecida a lição de interpretação constitucional no
212 “[...] Entre las interpretaciones posibles debe descartarse aquélla (o aquéllas, en su caso) que
llevarían a que la aplicación de la norma así interpretada produjera consecuencias marcadamente absurdas o claramente contraintuitivas, contrarias, pues, al elemental sentido común o a la "naturaleza de las cosas", en el sentido menos metafísico de la expresión. No hay espacio aquí para extenderse más sobre esta nueva regla o sobre otras similares que se podrían traer a colación." GARCÍA Amado, Juan Antonio. Interpretar, Argumentar, Decidir. Revista Virtual de Filosofia Jurídica e Teoria Constitucional. Salvador, n.º 02, 2008. Disponível na internet: <http://www.direitopublico.com.br>. Acesso em 28 de Maio de 2013.
213 Os efeitos negativos da publicação nominal serão mais bem abordados no próximo ponto, ao
exame da proporcionalidade em sentido estrito.