Diante desse panorama, onde se fundem fatores históricos, científicos e morais na prática da medicina, buscamos os parâmetros intelectivos que caracterizam a dependência de substâncias psicoativas. Consideramos que o consumo de psicoativos e seus efeitos aleatórios jogam e provocam com questões semelhantes a essas apontadas por Foucault, não somente no âmbito da saúde, mas também na esfera da sexualidade e da ética vigente entre grupos sociais. A indústria farmacêutica na atualidade encontra-se subordinada às regras de economia e mercado mundiais, conformando fabricação e distribuição de substâncias sob monopólio de grandes laboratórios. A relação que estes têm com o universo da publicidade e das mídias repercute em diferentes esferas de prescrição e consumo via medicina. Bermudez [ 1995] estudou a política de medicamentos no processo histórico brasileiro e destacou a importância dos interesses empresariais sobre a população carente do país.
Na conjuntura dramática que é a realidade do país, com enormes contingentes populacionais discriminados e marginalizados, o desempenho da indústria farmacêutica opõe a ela interesses conflitantes e antagônicos, permeando uma polarização entre situar a política de medicamentos como política de saúde ou considerá-la apenas uma política industrial. É importante assinalar que um segmento industrial altamente diferenciado como é o farmacêutico, dependente de capital transnacional e que abrange em sua verticalização, tanto a produção de matérias-primas como a sua transformação, encontra um campo
propício para o florescimento de seus interesses econômico-financeiros em um país como o Brasil 44.
Por outro lado, laboratórios clandestinos sintetizam e fabricam várias outras substâncias que, a rigor, funcionam como medicamentos para determinados indivíduos, mas que por serem ilícitas, caracterizam o grupo das chamadas drogas. O complexo efeito iatrogênico do consumo desregrado de medicamentos e de substâncias psicoativas, por extensão, revela que não existe conformidade social às determinações sanitárias. Algo escapa à ordenação dos deveres e prescrições medicinais. O que a sabedoria medicinal da vida moderna traz de insólito é que os indivíduos não se adaptam a qualquer normalidade asséptica, em virtude de suas satisfações no panorama dos consumos, o que os leva em várias situações a sofrer diferentes formas de exclusão.
O corpo como micro-laboratório é suposto estar em sintonia com as orientações equilibradas dos profissionais da saúde; porém, também, carrega o amargo traço da subordinação às regras que regem esses saberes. Pacientes se rebelam em relação a várias ordenações clínicas, como se observam normalmente em hospitais, exigindo a manutenção de hábitos pessoais, como fumar, ou recusando procedimentos técnicos imprescindíveis. O controle sobre os medicamentos e suas doses específicas recebe necessariamente atenção redobrada por parte dos auxiliares de enfermagem, especialmente nas clínicas psiquiátricas, pois lidam com vários psicoativos. Alguns remédios que produzem efeitos prazerosos são roubados das enfermarias, nesses lugares, tanto por pacientes como por funcionários. De fato, as substâncias exercem poder de atração e criam fortes hábitos de difícil superação. No limite, levam às dependências químicas, tomadas aqui com referência aos manuais de medicina. A síndrome de dependência [ dependência química] é caracterizada por uma soma de fatores a serem observados nos pacientes, segundo a Classificação I nternacional de Doenças [ CI D] .
F10-F19.2 Síndrome de dependência.
Conjunto de fenômenos comportamentais, cognitivos e fisiológicos que se desenvolvem após repetido consumo de uma substância psicoativa, tipicamente associado ao forte desejo de tomar a droga, à dificuldade de controlar o consumo, à utilização persistente apesar de suas conseqüências nefastas, a uma maior prioridade dada ao uso da droga em detrimento de outras atividades e obrigações, a um aumento da tolerância à droga e por vezes a um estado de abstinência física. A síndrome de dependência pode dizer respeito a uma substância psicoativa específica [ por exemplo, o fumo, o álcool ou o diazepam] , a uma
44 BERMUDEZ, Jorge Antônio Zepeda. Indústria farmacêutica, estado e sociedade. São Paulo:
categoria de substâncias psicoativas [ por exemplo, substâncias opiáceas] ou a um conjunto mais vasto de substâncias farmacologicamente diferentes 45.
Para o diagnóstico da síndrome de dependência, existem várias definições igualmente orientadas por um saber fundamentado na clínica médica. Schuckit [ 1991] apresenta outros aspectos de interesse clínico, mas procura isolar a subjetividade ou elementos de motivação psíquica do ponto de vista de sua utilização como componentes intrínsecos aos quadros de dependência.
A dependência, também chamada habituação ou uso compulsivo, implica uma ‘necessidade’ psicológica e/ ou física à droga.
1. A dependência psicológica é uma característica de todas as drogas de abuso e centra-se na necessidade da droga pelo usuário, de modo a atingir um nível máximo de funcionamento ou sentimento de bem-estar. Este é um item subjetivo quase impossível de quantificar objetivamente, sendo assim de utilidade limitada para chegar ao diagnóstico.
2. A dependência física indica que o corpo se adaptou fisiologicamente ao uso crônico da substância, com desenvolvimento de sintomas quando a droga é interrompida ou retirada. Embora inicialmente este conceito pareça ser relativamente simples, há evidências de que o condicionamento comportamental e os fatores psicológicos são importantes no que
usualmente é sentido como uma síndrome física de abstinência 46.
Pelo simples fato de produzirem efeitos que alteram o sistema percepção- consciência e decorrentes ações daqueles que as consomem, sejam esses prazerosos, excitantes, anestesiantes, irritantes ou perturbadores, os psicoativos induzem uma reordenação nos meios em que atuam. Podemos entender esses meios tanto no plano do indivíduo sob efeito, isto é, uma alteração endógena do sistema em particular, incidindo sobre a atividade do psiquismo, como no plano da interação com o meio ambiente e suas implicações sociais. Nesse aspecto dos produtos, não tão claramente alocados em suas relações com os meios, é que se introduz a dimensão enigmática de seu consumo. As substâncias psicoativas não somente subvertem o funcionamento orgânico das sociedades, na medida em que aparecem como representativas de uma reordenação causal suscetível de intervenção, como também apontam para a impossibilidade de controlar a particularidade dos que se interessam por seu consumo. Por esse motivo, elas provocam atitudes
45 Organização Mundial de Saúde [OMS]. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde [CID-10]. Volume I. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo [Edusp], 1996,
p. 313.
46 SCHUCKIT, Marc. Abuso de álcool e drogas: uma orientação clínica ao diagnóstico e tratamento. Porto
paradoxais e reações discriminatórias, ocupando lugar privilegiado dentre os desvios de conduta e estigmas sociais.
Sublinhamos desde já a dubiedade implícita que consiste introduzir qualquer substância em um organismo. Os próprios alimentos usualmente são questionáveis do ponto de vista de seus benefícios, o que se conhece através da discussão sobre as dietas nutricionais, alguns deles muitas vezes sendo contra-indicados por suas propriedades bioquímicas. Também observamos que a grande maioria dos medicamentos vendidos em farmácias e drogarias é indicada somente a partir de prescrições, não devendo ser administrados sem qualquer orientação médica. I sso demonstra que o mesmo potencial que uma substância pode ter no sentido de seus benefícios terapêuticos e nutritivos, quando de sua má aplicação, pode redundar em malefícios, o que caracteriza o risco que comporta todo o tipo de auto-medicação ou administração voluntária. Assim, podemos ampliar essa versão para toda e qualquer substância, desde que ela não esteja incluída no grupo daquelas altamente tóxicas ou letais para os seres vivos, como seria o caso dos combustíveis e agro-tóxicos.
Do que se trata, então, quando se incrimina ou se questiona o consumo de uma substância, não é senão sobre o prisma delicado da dosagem, da relação entre qualidade e quantidade; dos parâmetros do excesso, do abuso e de suas conseqüências. Há alguns anos, por exemplo, apareceu nos Estados Unidos e no Brasil o modismo das dietas de vitaminas, fazendo surgir no mercado grande quantidade de complexos polivitamínicos e produtos voltados para o rejuvenescimento e equilíbrio geral do organismo. Recentemente, através de pesquisas no campo da medicina, descobriu-se que houve um razoável exagero no que diz respeito ao benefício dessas dietas, devendo algumas vitaminas simplesmente prejudicar a saúde se tomadas em excesso ou sem o controle dosado entre outros elementos da alimentação 47. Esse episódio é paradigmático de como facilmente se podem construir crenças satisfatórias que se divulgam através das mídias e que vêm de encontro ao ímpeto pelo bem-estar e saúde da população. No entanto, isso não ocorre da mesma forma para todas as substâncias que têm certa aceitação e mercado de consumo, e é quando as diferenças entre elas se tornam motivo de indagação.
As mídias refletem o saber medicinal, mas também refratam-no de diferentes perspectivas, deixando transparecer o que opera em relação ao gozo nos hábitos de consumo. A exemplo da indústria cultural da moda e do estilo, verdadeiros ideais de beleza e sucesso para muitos apaixonados, o uso de substâncias anorexígenas [ inibidores de apetite] extrapola o domínio
do bom-senso medicinal. Que essa escolha particular por ideais manifeste-se poderosa quanto às atitudes e disposições, isso indica como há outro domínio, onde ordenações opostas fogem ou excedem o campo da adestração bioquímica. Para introduzir e trabalhar sobre esse campo faz-se necessário reconhecer outras práticas diferentes da medicina. As mídias desorganizam essa lógica medicinal ao valorizar tendências de opinião e comportamento. Encontram-se diferentes ideais de expressão e formas que potencialmente apontam para uma inadequação dos desejos aos preceitos moderados. A exemplo das academias de ginástica aeróbica e musculação, o fisiculturismo atualmente dispõe de ampla gama de produtos químicos e sintéticos voltados para sua prática que foram desenvolvidos a partir de histórica efervescência estética, o que envolve modelos e ideais heróicos representados pela indústria cinematográfica. Melman [ 1992] faz importante relação entre o abuso das substâncias e produtos farmacêuticos, aproximando as estratégias de mercado a este que chamamos de efeito iatrogênico do saber medicinal.
O marketing antecipa a produção de modismos: televisão, walkman, jogging, fundados sobre uma incitação ao auto-erotismo. [ ...] Podemos notar ainda que a indução a uma
dependência em relação a um produto manufaturado é um ideal para toda empresa. Assim, quanto mais o valor do patronímico é abolido, mais um indivíduo se vestirá com estas griffes
que exalta como para afirmar uma identidade melhor assegurada. [ ...] A glória desta incitação à dependência reverte incontestavelmente para os laboratórios farmacêuticos. Os produtos de síntese, tais como os benzodiazepínicos, revelam-se perfeitamente eficazes contra a dor de existir. As reações salubres de um sujeito contra um real que não lhe deixava mais lugar: a revolta e a indignação, o desgosto ou a piedade, a depressão e a insônia podem ser assim tratados como sintomas mórbidos. A passividade assim obtida se fará ao preço de uma adição, desta vez legal e tida como um elemento favorável do
prognóstico na medida em que ele toma regularmente seus medicamentos. A suspeição ordinária do toxicômano, em relação à medicina, pode-se apoiar sobre o fato de que se o fantasma desta última supõe a panacéia, ele a encontrou e serve-se dela sem falsos
constrangimentos 48.
Como critério de validação dos hábitos e dos modos particulares, normalizando regimes e dietas medicamentosas, além de introduzir medidas comportamentais, as prescrições médicas deixam marcas na história das sociedades. Apesar de diversos aspectos disciplinares que envolvem o saber medicinal ser suscetível de interpretação pelos profissionais das mídias, com referência ao consumo de substâncias e dependências químicas, a discussão se desenha sobre o
48 MELMAN, Charles. Alcoolismo, delinqüência, toxicomania. Uma outra forma de gozar. São Paulo:
plano da ética. É no âmbito das condutas morais que a interpretação das mídias se faz presente, operando como baliza para os excessos da medicina ao deixar vislumbrar determinados pontos alheios à razão científico medicinal. Trata-se de um contraponto produzido pelo próprio discurso hegemônico, onde a aparente parceria de poder no seio de um sistema sanitarista revela fendas e incertezas sobre os parâmetros atuais de sanidade.