Foucault [ 1988] , em sua trilogia História da sexualidade, dedica capítulo à importante questão da dietética, reportando-se à Grécia antiga, e discute a compreensão dos regimes dietéticos segundo duas narrativas, a de Hipócrates [ 460-377 a.C.] e a de Platão [ 428-347 a.C.] . Para o primeiro, a medicina surgiu a partir de uma preocupação essencial para com o regime. No processo de diferenciação do regime alimentar, a humanidade teria se separado da vida animal e procurado uma dieta mais adaptada à sua natureza. Da mesma forma, a dieta passou a ser diferenciada entre aquela voltada às pessoas em bom estado de saúde e outra voltada aos doentes, de onde deriva a medicina. Ela teria se formado, então, a partir da evolução da dieta própria aos doentes e de uma interrogação fundamental sobre o regime específico que lhes convém. Platão, pelo contrário, pensava que a preocupação com o regime surgiu de uma modificação das práticas medicinais. A dietética tornou-se um prolongamento da arte de curar no momento em que o regime, como maneira de viver pela qual os homens se alimentavam e se exercitavam, separou-se da natureza.
Em todo caso, quer se faça da dietética uma arte primitiva ou se veja nela uma derivação
39 LÉVI-STRAUSS, Claude. “Introdução à obra de Marcel Mauss”. In: MAUSS, M. Sociologia e antropologia. Vol 1. São Paulo: EPU/Edusp, 1974, p. 10.
ulterior, é claro que a própria 'dieta', o regime, é uma categoria fundamental através da qual pode-se pensar a conduta humana; ela caracteriza a maneira pela qual se conduz a própria existência, e permite fixar um conjunto de regras para a conduta; um modo de
problematização do comportamento que se faz em função de uma natureza que é preciso preservar e à qual convém conformar-se. O regime é toda uma arte de viver. [ ...] Em suma, a prática do regime enquanto arte de viver é bem outra coisa do que um conjunto de precauções destinadas a evitar as doenças ou terminar de curá-las. É toda uma maneira de se constituir como um sujeito que tem por seu corpo o cuidado justo, necessário e
suficiente. Cuidado que atravessa a vida cotidiana; que faz das atividades maiores ou rotineiras da existência uma questão ao mesmo tempo de saúde e de moral; que define entre o corpo e os elementos que o envolvem uma estratégia circunstancial; e que, enfim, visa armar o próprio indivíduo com uma conduta racional 40.
Depreende-se dessas observações de Foucault que a dietética, em suas relações com a prática da medicina, corresponde aos princípios aristotélicos da doutrina do meio-termo como forma de aperfeiçoamento das virtudes no homem. Para Aristóteles [ 384-322 a.C] a excelência moral é produto do hábito, e em se tratando da dietética como arte de viver, os hábitos a conformam e manifestam. Em tese, podemos conceber que a medicina que vigora até nossos dias ideologicamente respeita as mesmas premissas dos pensadores da antiguidade. Todo critério de valor que concerne às práticas de boa medida ou de bom senso na formação dos médicos e na aplicação da medicina moderna está fundamentado nos mesmos princípios, que logicamente condenam as ações extremas e excessos. Os cuidados que aproximam saúde e moral, como bem salienta Foucault, observam-se até nossos dias, quando os especialistas ostentam um saber sobre a dietética dos pacientes que adquire caráter autoritário e imperativo.
Entretanto, não é somente pelo viés das disposições nobres produzidas pelos hábitos e cuidados sanitários que se reveste o saber medicinal. As relações que desde cedo se estabeleceram entre a medicina e o uso de plantas, em infusões e extratos, as conseqüentes pesquisas da alquimia, da química e da farmacologia, colocam em jogo a dicotomia da vida e da morte na perspectiva das substâncias e da sua utilização clínica. As substâncias adquiriram interesse ao longo do tempo por seus efeitos e viraram objetos de domínio privilegiado. O saber decorrente do uso adequado dos fármacos passou a ser a chave para a inteligência nas questões dietéticas, no tratamento de doenças e no alívio do sofrimento para diferentes casos. Sem adentrar no campo da história da medicina, é digno de nota que, a partir da revolução científica, com o
40FOUCAULT, Michel. História da sexualidade 2. O uso dos prazeres. Rio de Janeiro: Graal, 1988, pp. 91-
recrudescimento das análises químicas nos séculos XVI I I e XI X, a civilização foi introduzida à era moderna da farmacologia e das ciências biológicas.
Conseqüente aos avanços tecnológicos que caracterizam as análises clínicas e aos recursos químico-farmacológicos na atualidade, houve um aumento considerável de descobertas científicas relacionadas à complexidade do organismo e de sua constituição neurológica, além dos modos de prevenção e tratamento. Encontra-se extensa variedade de fórmulas e marcas registradas de substâncias para todo o tipo de doença que esteja sob o abrigo do saber medicinal, além daquelas que estão sob constante pesquisa relacionadas a doenças epidemiológicas e de difícil remissão. Agrega-se, com pertinência, que as substâncias químicas e a indústria farmacêutica conquistaram vastos territórios por sua aplicação à esfera da higiene, da indústria de cosméticos, da estética e dietética, e por extensão, na mais recente medicina esportiva. Basta que lembremos do grande número de produtos ligados à assepsia dos poros, orifícios e cavidades corporais, cremes de hidratação e rejuvenescimento da pele, dos cabelos, além de compostos vitamínicos, pomadas, hormônios sintéticos e anabolizantes.
O conhecimento que concerne à medicina e que é divulgado como paradigma universal nos dias de hoje está fundamentado em procedimentos metodológicos incontestáveis do ponto de vista do discurso científico. Deriva disso que o saber medicinal fundamenta e alimenta a dimensão de poder que lhe convém. Na imbricação do racionalismo científico ao pragmatismo da atualidade, pesquisas relacionadas às substâncias diversas da natureza e dos corpos circunscreveram novas realidades no domínio da saúde, dotando os recursos médicos sob medida das tecnologias informatizadas e do esquadro bioquímico. Cada vez mais é possível experimentar bem-estar induzido pelo uso racional de fármacos, através da moderna farmacologia e da medicina, associando dietética e prevenção, adequando princípios higiênicos e morais às culturas globalizadas. Não estaria exposto o principal efeito iatrogênico do saber medicinal? Ao estimular a ordenação do bem-estar segundo critérios absolutamente científicos de legitimação, sua doutrina sugere que podemos adquirir homogêneo poder sobre qualidade de vida e consciência, vislumbrando o aperfeiçoamento da espécie.
Em vista do empenho levado às últimas conseqüências para aplacar sofrimentos diversos e para garantir ideais sanitaristas, cria-se difusa expectativa de que a neuroquímica do SNC responde pelo estatuto da felicidade. Essa contingência, permeada por diferentes modos de consumo, introduz como efeito certa disposição ou interesse por viver medicado de modo adaptativo, drogado de modo transgressivo - estase da existência – ou por resistir parcialmente aos impulsos farmacotímicos. Logicamente, sem levar a conclusões absolutas, essa indagação também
introduz questões éticas, na medida em que determinadas categorias da sociedade detêm o domínio sobre a síntese laboratorial, produção industrial, prescrição e divulgação das substâncias. A disposição medicatriz, então, desse ponto de vista deveria estar subordinada ao controle das categorias e dos dispositivos legais de cada governo, o que remete a uma discussão mais ampla sobre a ética e o domínio da sanidade mental nas sociedades.
Os procedimentos consolidados pela medicina de modo geral respondem bem à demanda pela contenção da insanidade mental e das manifestações delirantes na modernidade. Diversas condutas buscam estabilizar esses traços de desregramento social, seja pelas intervenções clínicas no seio das crises familiares ou através de estratégias preventivas, como métodos de disciplina e controle. Essa doutrina de contenção das formas de loucura, entretanto, se revelou através da história a partir de grandes mudanças ocorridas há alguns séculos atrás, quando do advento da medicina moderna. Foucault [ 1978] trabalha extensivamente em A história da loucura na Idade Clássica sobre os efeitos de uma ampla transformação ideológica e ética em relação à questão da saúde mental, ocorrida após o Renascimento nas sociedades européias, que culminou na delimitação irreversível entre razão e desatino para a concepção moderna de normalidade.
Segundo Foucault, essa grande mudança representou o momento em que a loucura foi percebida no horizonte social da pobreza, da incapacidade para o trabalho, da impossibilidade de integrar-se no grupo. Para o autor, as novas significações atribuídas à pobreza, a importância dada à obrigação de trabalho e todos os valores éticos a ele associados determinaram e modificaram o sentido da experiência da loucura. A grande internação dos insanos, doentes, libertinos, mendigos e outros párias excluídos da ascendente razão social burguesa, ocorrida a partir do século XVI I em vários pontos da Europa, estruturou o que o autor chama de mundo correcional. A partir disso, a observação dos valores morais, preceitos higiênicos e estratégias disciplinares, muito associadas às práticas sexuais e religiosas e às novas formas de organização no trabalho, adquiriram dimensão coercitiva no universo das relações humanas.
Esse desatino do qual o pensamento do século XVI tinha feito o ponto dialético de inversão da razão, no itinerário de seu discurso, recebe com isso um conteúdo secreto. Esse desatino se vê ligado a todo um reajustamento ético onde o que está em jogo é o sentido da
sexualidade, a divisão do amor, a profanação e os limites do sagrado, da pertinência da verdade à moral 41.
Esse estudo de Foucault revela afinidades com o tema aqui proposto, e é digno de nota que ele nos apresenta importantes dados históricos referentes aos critérios de exclusão e às terapêuticas adotadas para com os excluídos. Coloca-nos a par de uma estreita cumplicidade da medicina para com as medidas de correção moral, ou punitivas, orientadas a princípio por um sentido de purificação religiosa. A internação, contenção e medicação da loucura nos fazem supor que existia outra ordem de ruptura, fundamentalmente associada aos paradigmas da moralidade, onde os indivíduos sob tratamento carregavam o estigma de um sentido oculto como nos é apontado por Foucault. As motivações e regras que amplamente deram fundamento ao mundo correcional sustentavam-se em mecanismos sociais diretamente ligados à nova ordem econômica da burguesia. Dentro do mercantilismo vigente, a exclusão dos elementos nocivos, inativos ou inoportunos, veio organizar e imputar normas privilegiadas de integração social. A medicina teve importante participação na definição dos excluídos ou dos a-sociais [ designação do autor] .
Este parentesco entre as penas da loucura e a punição da devassidão não é um vestígio de arcaísmo na consciência européia. Pelo contrário, ele se definiu no limiar do mundo
moderno, dado que foi o século XVI I que praticamente o descobriu. Ao inventar, na
geometria imaginária de sua moral, o espaço do internamento, a época clássica acabava de encontrar ao mesmo tempo uma pátria e um lugar de redenção comum aos pecados contra a carne e às faltas contra a razão. A loucura começa a avizinhar-se com o pecado, e é talvez aí que se estabelecerá, por séculos, esse parentesco entre o desatino e a culpabilidade que o alienado experimenta hoje, como sendo um destino, e que o médico descobre como verdade da natureza. [ ...] É estranho que tenha sido justamente o racionalismo quem autorizou essa confusão entre o castigo e remédio, esta quase-identidade entre o gesto que pune e o gesto que cura. Ele supõe um certo tratamento que, na articulação precisa entre a medicina e a moral, será ao mesmo tempo uma antecipação sobre os castigos eternos e um esforço na direção do restabelecimento da saúde. [ ...] A repressão adquire assim uma dupla eficácia, na cura dos corpos e na purificação das almas 42.
Por esse viés, entendemos que a significação da loucura e do seu tratamento nos dias de hoje [ século XXI] se mantém permeada por critérios de valor e de exclusão que construíram a história da internação e que aproximam toda forma de desatino [ loucura] ou delírio aos estigmas sociais. A responsabilidade sobre os atos insanos, segundo autoridade clínica disciplinar, recai nos ombros das famílias e do indivíduo, em suas diferenças constitutivas para com um sentido consensual de normalidade e moderação no âmbito da sociedade produtiva. Ao tratarmos dos modos como o discurso orientador da medicina se transmite na atualidade, precisamos levar em consideração também essa ambigüidade, que a noção de doença se expandiu
a ponto de introduzir vários distúrbios comportamentais no plano das categorias nosológicas dos manuais de psiquiatria. Sob viés científico, então, as famílias e os indivíduos não são mais considerados responsáveis perante suas doenças, e são convidados a confiar seus próprios saberes aos cuidados medicinais. Porém, ainda restam na dimensão temporal os resíduos históricos recalcados, sentidos obscuros e valores morais apontados por Foucault.
São essas servidões que, sem dúvida, explicam a estranha fidelidade temporal da loucura. Há gestos obsessivos que soam hoje como velhos rituais mágicos, conjuntos delirantes que são colocados sob a mesma luz das antigas iluminuras religiosas; numa cultura da qual desapareceu há muito tempo a presença do sagrado, encontra-se por vezes um apego mórbido à profanação. Esta persistência parece interrogar-nos sobre a obscura memória que acompanha a loucura, condena suas invenções a serem apenas retornos e designa-a freqüentemente como a arqueologia espontânea das culturas 43.