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Multiplier les mécènes en hybridant philanthropie et démocratie culturelle

Os grupos sociais se legitimam e se estabelecem através do seu lugar institucional. Este lugar é o que vai estabelecer o sentido dos eventos vividos, condicionando um discurso ativo sobre a história. Estes mecanismos criam uma conduta que fomenta uma práxis, funcional, em larga medida, aos interesses vinculados às mídias. O Outro pode parecer não contemplado no discurso, mas está subjacente/oculto, caracterizado de uma forma inferiorizada. A cultura histórica veiculada na grande mídia produz o silêncio daqueles que estão em uma posição subalterna ou mesmo de não existência dentro da ordem que se tem interesse que seja mantida. Essa produção de inexistência se dá em função da não adequação de determinado grupo social às diretrizes do lugar social hegemônico, constituídas pela lógica econômica mencionada acima. As notícias que fazem parte do cotidiano da imprensa, se constituem em uma consciência histórica, com todas as consequências que isso implica e com o seu lugar social repleto de condicionamentos que constrangem a produção dos discursos veiculados. Tais discursos são produtos de instituições vinculadas a certas demandas sociais reivindicadas por determinados grupos que influem na forma como o conhecimento histórico é produzido. Muitas destas concepções são escancaradamente tendenciosas, grosseiras e parciais, não deixando de ser, por isso, também exemplares de determinada cultura histórica.

Não nos enganemos: a imagem que fazemos de outros povos está associada à história que nos ensinaram [...] Ela nos marca pelo resto da vida. Sobre essa representação, que é para cada um de nós uma descoberta do mundo e do passado das sociedades, enxertam-se depois opiniões, idéias fugazes ou duradouras como um amor... mas permanecem indeléveis as marcas das nossas primeiras curiosidades (IDEM, 1983, p.11).

Esta referência a Marc Ferro nos remete com propriedade à questão do lugar social no qual estamos inseridos, que é marcado pelo intensivo bombardeio dos meios de comunicação de massa, veiculadores de informações que compõem a visão de mundo que nos é particular e constroem nossas percepções a respeito do mundo. Estes meios formam a opinião pública e produzem intensos significados históricos. A mídia, expressa nos seus mais diversos veículos, é uma parte de fundamental importância na vida das pessoas. O tempo que as pessoas investem, sintonizados a rádios, tvs, jornais, revistas, internet ou em simples conversas na rua ou nos bares, acerca do que estes veículos nos transmitem, produzem significados em nossas vidas e nos remetem a uma determinada práxis.

Nosso objetivo foi descortinar as intencionalidades subjacentes aos mecanismos de veiculação de uma cultura histórica que prioriza um modelo de civilização calcado em um projeto ocidentalista, realça os valores e as demandas de um certo lugar geográfico do mundo e os veicula como sendo um dado natural, algo evidente por si mesmo e auto-legitimante, justificando os interesses imperiais na medida em que estes se voltam para o fortalecimento de uma racionalidade econômica, atrelada ao capitalismo. Esta se configurou em um modelo de progresso e crescimento engendrado desde os primórdios da modernidade, e que, com algumas variações sofridas ao longo do tempo, mantém certas continuidades até a nossa época, conservando, pois, um padrão instrumental e utilitário na medida em que a finalidade econômica de troca se torna mais relevante do que as consequências humanas desse modelo de sociedade..

A indústria cultural é a mola propulsora dos veículos midiáticos em suas relações com o poder econômico, pois torna possível a adequação dos meios de comunicação de massa às estruturas mercadológicas que imperam nas sociedades

industriais. Para se levar adiante tal projeto, se instala o espetáculo como prática usual dos meios de comunicação nas sociedades capitalistas. O espetáculo se constitui na criação de uma ilusão que se passa por realidade, uma reviravolta de ponta cabeça no mundo em que vivemos, esvaziando o mundo da vida em favor do efêmero. O espetáculo adquire sua força ao mostrar competencia por mobilizar os seus meios de comunicação para a fabricação e manipulação da consciência. Cria-se uma ilusão que adquire força para possuir uma objetivação no mundo. Essa prática faz com que inexista uma diferenciação entre aquilo que pode ser encarado como espetáculo e a efetiva atividade social, tendo em vista que é o próprio espetáculo, com seus jogos de manipulação e sedução, que forma as práticas sociais, provocando, desta maneira, uma aceitação passiva do que podemos chamar de monopólio da aparência. Isso é criado ao se confrontar as pessoas diante do comportamento hipnótico dos meios de comunicação de massa. Cria-se uma representação do mundo que, em larga medida, adquire um grande teor de autonomia sobre este. A parte que, separada pela espetacularização, se torna maior que o próprio mundo. Essa é a forma de dominação mais eficaz criada pelo homem, que teve seu engendramento já nos primórdios da modernidade6.

O modo de produção diz muito sobre as formas de espetacularização, pois constitui-se em seu combustível. O espetáculo é algo diretamente dependente da hipertrofia da racionalidade técnica e econômica desenvolvida na modernidade e que torna decrépita a vida concreta das pessoas. Isso faz dos mecanismos de espetacularização algo de fundamental importância nas sociedades onde funciona a economia de mercado:

Como demonstração geral da racionalidade do sistema, e como setor econômico avançado que molda diretamente uma multidão crescente de imagens-objetos, o espetáculo é a principal produção da sociedade atual (DÉBORD, 1997.p.17).

Estas reflexões nos impelem a observar quão reificante se torna a vida no mundo dominado pelos meios de comunicação de massa. A partir das demandas que surgem em torno da socialização do conhecimento, se tem sinal verde para a

6 Esse parágrafo foi desenvolvido tomando-se como base as idéias do Guy Débord em seu livro A Sociedade do Espetáculo.

massificação das mídias, que são estrategicamente absorvidas pelo mercado e passam a ser diretamente dependentes dele. O controle da informação por parte das instituições detentoras do poder é algo que reforça e naturaliza esse poder. Ideologias dominantes são incutidas nas mentes das pessoas, engendrando uma cultura que sirva a determinados interesses. Os meios de comunicação de massa, representantes da cultura dominante, engendram mecanismos de domesticação e organização da cultura de forma a atender os anseios de tal cultura e os seus interesses. O controle sobre a informação é uma ferramenta fundamental para a organização da cultura, e a disputa pela manutenção do poder sobre as mídias é algo de fundamental importância para a manutenção de certos valores funcionais ao status quo. Esta tentativa de imposição de interesses hegemônicos encontra pontos de resistência e aceitação por parte dos indivíduos. Sabemos que o campo da cultura é uma arena de conflitos que reflete toda a complexidade da vida em sociedade. Também estamos cientes de que a massa não é amorfa, as pessoas possuem suas vivências particulares que as levam a receber tais idéias de uma maneira particular. O contra-discurso diz respeito à capacidade do consumidor dos discursos de criticar aquilo que é hegemonicamente veiculado. Mas o foco de nossas reflexões neste trabalho está assentado na maneira como a cultura dominante, vinculada aos desígnios do padrão ocidental de racionalidade econômica, produz uma cultura histórica que está imersa nas teias do capital financeiro multinacional. Entendemos que quem detém a hegemonia política e financeira, possui uma forte vantagem no que diz respeito à defesa de seus interesses na socialização de uma determinada cultura histórica.

Os apelos sensacionalistas e os fetiches são aquilo que de mais refinado se produziu no que diz respeito aos modos de industrialização da mídia, que atende às demandas da indústria cultural. Esta se realiza na futilidade e na superficialidade, algo que reproduz certos estereótipos clássicos e os molda em um formato jornalístico para que este tenha aceitação das massas. Esta é uma fórmula já descoberta nos anos quarenta pelo filósofo Theodor Adorno, que, ao analisar as manifestações da indústria cultural, certificou-se que esta é criadora de uma linguagem própria, nivelada por baixo, onde nada aparece sem as marcas do jargão e dos estereótipos (ADORNO, 2002, p.18). A grande mídia possui como objetivo promover uma larga intensificação da ressonância daqueles aparatos simbólicos que são produzidos pela sociedade. O exagero e o apelo emotivo no uso das palavras e das imagens compõem o aspecto espetacular das notícias

veiculadas na mídia. Utiliza-se tais recursos como forma de se criar um apelo comercial para garantir a venda da informação, colocando o jornalismo dentro do âmbito da indústria cultural, sujeitando a imprensa às propriedades caracterizantes da mercadoria. Na disputa por leitores compradores de informação, os meios de comunicação distorcem a sua ética jornalística em função dos interesses do mercado, pois a exploração do sensacionalismo resulta em vendas. Através do sensacionalismo, faz-se apelo a reações baseadas na emoção, simplificando polêmicas em vez de fornecer elementos que permitam pensar, compreender, formar opinião. E, neste contexto, não interessa só aquilo que o veículo diz, mas também o modo como se diz. Nas pretensões e nos jogos de controle levados a cabo pelas mídias, a informação e a interpretação sobre os acontecimentos são vistos de acordo com as conveniencias dos que investem nestas mídias. Muito do que se chama de opinião pública, diz respeito apenas à opinião publicada pelo conselho editorial do veículo de comunicação. Este é um forte instrumento de dominação nas sociedades ditas democráticas, pois investe contra o espírito e não contra o corpo físico, disfarçando o seu caráter imensuravelmente autoritário. Na verdade, a mídia forma, informa e enforma a opinião pública

Os processos tradicionais de transmissão cultural vêm tendo o seu centro deslocado, a família e a escola perdem cada vez mais espaço em favor dos meios de comunicação de massa. A tecnologia, aprimorada com o desenvolvimento do capitalismo, é um fator de primordial importância para o processo de massificação cultural. Com o aperfeiçoamento da tecnologia, os aparelhos midiáticos se tornam muito mais eficientes, potencializam sua capacidade de influência. O progresso econômico traz à tona o desenvolvimento tecnológico, que, por sua vez, enseja um maior poder comunicacional, assim se constituindo a indústria cultural. Como proporcionadora de uma atividade educativa, a grande mídia é deliberadamente deficiente. Isso é útil para gerar a alienação da sociedade, algo necessário aos beneficiados com o sistema promovido pelo capital. A materialidade técnica desenvolvida acaba se convertendo em sinônimo de potencial comunicacional, em que se busca a hegemonia ideológica. Certos modos de vida particulares são universalizados por conta da influência midiática na vida das pessoas, nos mais variados recônditos do mundo. É uma forte arma do capital multinacional, que se vale do projeto moderno/ocidental de civilização para promover sua expansão. Quanto mais influência o capital possui sobre as mídias, mais adequação e receptividade ele pode adquirir nestes meios. Então, ele estende os seus tentáculos e

busca apoio ideológico nos mais diversos lugares onde é seu intuito criar uma opinião pública favorável aos grupos detentores do grande capital (MARTIN-BARBERO, 2008, p.20-60).

O grande herdeiro atual do projeto ocidental moderno de civilização são os EUA, que possuem pretensões universalizantes que tomam suas particularidades por universais, o que legitima as intervenções ao redor do mundo para que sejam aceitos os valores que julgam superiores. Aqueles que não se alinham, são desqualificados e inferiorizados segundo o discurso hegemônico. A globalização é um movimento cultural e econômico de âmbito mundial, voltado para os interesses norte-americanos, que se colocam sob a égide do neoliberalismo. A imprensa liberal, de massas, foi estruturada em detrimento das imprensas locais, representantes de interesses divergentes do capitalismo hegemônico. Os padrões da cultura norte-americana são sistematicamente copiados ao redor do mundo. As idéias, imagens e textos com referências e apologias ao poderio estadunidense estão espalhados pelo globo. As pretensões de domínio dos EUA superam Roma, a Igreja Católica ou o Islã. O imperialismo econômico e cultural norte-americano é o que torna possível a universalização de valores ocidentais como democracia liberal e mercado.

Benzer Belgeler