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3.2-MU’TEZİLE KELAM EKOLÜNÜN RIZIK ANLAYIŞ

Machado de Assis descobre as possibilidades e as potencialidades do folhetim no texto publicado em 30 de outubro de 1859. Nas palavras do cronista temos:

O folhetinista é a fusão admirável do útil e do fútil, o parto curioso e singular do sério, consorciado com o frívolo. Esses dois elementos, arredados como pólos, heterogêneos como água e fogo, casam-se perfeitamente na organização do novo animal.

Brayner (1992, p. 409) destaca duas imagens que o jovem Machado empresta ao folhetinista e ao folhetim: o folhetinista será um “colibri” pela rapidez, leveza e qualidade especial de dominar os assuntos sem esgotar sua “seiva”; “o confeito literário sem horizontes vastos” que define bem a sua técnica de degustação agradável e amena.

Segundo Stein (2004, p. 105), os textos, nas ciências humanas, são produzidos através de procedimentos metódicos misturados com uma certa ametodicidade, pois esta fusão de método e não-método resulta na criatividade e na potencialidade do folhetinista.

O folhetim de matriz francesa desponta no século XIX no La Presse e Le Siècle que, conforme Arnold Hauser (2003, p. 742), a obra literária converte-se em mercadoria e é lida por vários segmentos da sociedade, como, por exemplo, a aristocracia e a burguesia, a sociedade polida e a inteligentsia, jovens e velhos, homens e mulheres, patrões e criados.

Retomando mais uma vez as metáforas construídas por Machado de Assis para o folhetinista e o folhetim apoiados em uma reflexão de Ricoeur (1983, p. 140) que nos diz:

A palavra tem uma significação em estado isolado, mas permanece uma parte da frase, que apenas pode ser compreendida em relação à frase real ou possível. A significação explícita de uma palavra é a sua designação; a sua significação implícita, a sua conotação. Pode-se dizer de tal discurso que comporta simultaneamente um nível primário de significação e um nível secundário de significação, que tem um sentido múltiplo: jogo de palavras, subentendidos, metáfora, ironia, são casos particulares desta polissemia.

Assim a maneira machadiana de correr a pena sugere uma leveza ao folhetinista quando o associa ao colibri (beija-flor) que, com suavidade e equilíbrio, circula entre as flores em busca do néctar. Então a função social do folhetinista é, através da sua criação textual, emprestar um sabor diferenciado ao cotidiano. Na acepção de confeito literário, podemos inferir que o doce pode possuir uma aparência que não possua essência, ou, em outras palavras, pode ser um convite a correr os olhos no texto, mas sem conteúdo para uma maior reflexão. Contudo, mesmo na despretensão do relato cotidiano, podemos encontrar, considerando o jogo de palavras de Machado enquanto autor, acrescido das pontuações de Ricoeur, uma proposição de mundo, ou uma cosmovisão.

Machado reforça a origem francesa do folhetim e a sociedade carioca em seus salões e demais espaços de convívio social que pretendem ser uma cópia tropical do modo de viver europeu, e por isso o autor afirma:

Em geral o folhetinista aqui é todo parisiense; torce-se a um estilo estranho, e esquece-se, nas suas divagações sobre o boulevard e café Tortoni, de que está sobre um mac-adam lamacento e com uma grossa tenda lírica no meio de um deserto. Escrever folhetim e ficar brasileiro é na verdade difícil. (MACHADO DE ASSIS, 1944, p. 35).

O cronista reconhece durante todo o texto da crônica a influência européia imposta ao folhetinista que chega ao extremo de esquecer sua condição de cidadão dos trópicos, porém há um ambiente favorável a essa tendência. Isto é, vive-se no Brasil com os olhos, o comportamento e a linguagem do Velho Mundo.

Observa-se um comportamento afrancesado no Rio de Janeiro, procurando reproduzir uma segunda Paris ou Londres, mas o Brasil estava no Segundo Reinado, desprovido de recursos para tal, porém a alta sociedade imita com esforço o esplendor do Segundo Império francês.

Machado ainda nos explica que o folhetim originou-se a partir do jornal, bem como o folhetinista é a conseqüência do jornalista.

É peculiar a introdução da flora e da fauna nas comparações urdidas por Machado referindo-se ao folhetinista e ao folhetim.

Logo na abertura da crônica o autor comenta: “Uma das plantas européias que dificilmente se têm aclimatado entre nós, é o folhetinista” (MACHADO DE ASSIS, 1944, p. 35).

Para a seguir afirmar que, através de suas considerações por escrito, o folhetinista obtém um público cativo: “Tem a sociedade diante de sua pena, o público para lê-lo, os ociosos para admirá-lo, e os bas-bleu para aplaudi-lo” (MACHADO DE ASSIS, 1944, p. 35).

Assim, há possibilidades de produção de três funções diferenciadas na recepção do texto do folhetinista: o público é o segmento que realmente lê, os ociosos revelam sua adesão e os literatos pedantes em conjunto organizam os aplausos. Não há aspiração maior para o folhetinista do que obter consenso de diversos segmentos simultaneamente.

Brayner (1992, p. 410-411) assegura sobre o folhetinista:

O folhetinista novato vai testar seus recursos de linguagem nessa faina constante, aprendendo a difícil arte de controlar um leitor de atenção arisca, a organizar transições contínuas entre assuntos díspares, a ser inteligente e sagaz sem aborrecer por impertinência.

Então Brayner adverte que, mesmo com sua produção agradável aos diversos apreciadores, o folhetinista novato deve cultivar a inteligência, a sagacidade procurando na “transição dos assuntos díspares” o filão de sua criatividade.

Outro dado importante revelado na narrativa do cronista é o desenvolvimento da função/da atividade do folhetinista articulada à expansão do jornal, que é tratado pelo autor com o seguinte epíteto: “o grande veículo do espírito moderno”.

Ricoeur (1989, p. 27) auxilia-nos na compreensão do mundo vivido e do mundo ficcional, este último onde se movimenta o folhetinista. Ele afirma: “Entre viver e contar estabelece-se um defasamento por menor que seja. A vida é vivida e a história é contada”.

Nas palavras do cronista temos:

Todos o amam, todos o admiram [...] Entretanto, apesar d’essa atenção pública, apesar de todas as vantagens de sua posição, nem todos os dias são tecidos de ouro para os folhetinistas. Há-os negros, com fios de bronze; à testa d’eles esta o dia [...] adivinhem? o dia de escrever! (MACHADO DE ASSIS, 1944, p. 35).

Então temos a idéia clara ou ainda: as duas faces da atividade do folhetinista, o glamour, a aclamação do público, e a própria motivação pela função cumprida, ou a torturante ausência da inspiração.

Machado e Alencar (1854, p. 39) pronunciaram-se a respeito do ofício como cronistas:

Obrigar um homem a percorrer todos os acontecimentos, a passar do gracejo ao assunto sério, do riso e do prazer às páginas douradas do seu álbum [...] Fazerem do escritor uma espécie de colibri a esvoaçar em ziguezague, e a sugar, com o mel das flores, a graça, o sal e o espírito que deve necessariamente descobrir no fato mais comezinho!

Contudo, quando a tarefa já foi realizada com resultado profícuo, ele (o folhetinista) diz: “Escritas, porém, as suas tiras de convenção, a primeira hora depois é consagrada ao prazer de desforrar-se de uma maçada que passou. N’aquela noite é fácil encontrá-lo no primeiro teatro ou baile” (MACHADO DE ASSIS, 1944, p. 36).

A matriz francesa do folhetinista já reconhecida pode ser confirmada na argumentação de Luciana Stegagno Picchio (1997, p. 277-278): “É um estilo de marca francesa, não há dúvida, em sua nervosa rapidez, na simplificação da sintaxe, e na escolha lexical”.

O cronista dá-nos uma impressão de escrita ao acaso e, apesar da influência estrangeira, desenvolve uma escritura estruturada através do conhecimento da linguagem em nível gramatical e vocabular.

Esta crônica desenvolve-se em torno do folhetinista, que possuindo matriz francesa, aclimatou-se nos trópicos.

Há algumas metáforas ao longo do texto para a descrição do ofício do folhetinista, ele é comparado ao colibri pela suavidade e pelo equilíbrio.

A origem do folhetim remonta a Europa do século XIX, que o transformou em mercadoria lida por várias camadas da sociedade como, por exemplo, a aristocracia, a burguesia, a sociedade polida e a inteligentsia, os jovens e os velhos, homens e mulheres, patrões e criados.

Uma peculiaridade do folhetinista é sua popularidade, seu glamour, mas se não consegue inspiração para a escrita sente-se torturado. Assim debruça-se na escrivaninha até produzir seu texto, para logo após refestelar-se no primeiro baile ou teatro.