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1.2.1-EHL-İ SÜNNET KELAM EKOLLERİNİN İNSAN KUDRETİ HAKKINDAKİ GÖRÜŞLERİ

Fundamentaremos esse estudo da crônica de Carlos Drummond de Andrade em Paul Ricoeur (1989, p. 141), que se apóia na concepção de Dilthey para explicitar duas atitudes diante do texto: “explicar” e “interpretar”. A leitura hermenêutica da crônica é um exercício de reflexão sobre o texto e para Dilthey a explicação é o modelo de inteligibilidade recebido das ciências da natureza e alargado às ciências históricas, enquanto a interpretação é uma forma derivada da compreensão, na qual se vê a atitude fundamental das ciências do espírito. Dilthey propõe duas atitudes na relação com o texto: que se explique à maneira do sábio naturalista, ou se interprete à maneira do historiador. O teórico reconhece uma estreita complementaridade e reciprocidade entre explicação e interpretação.

Cabe, por isso, destacar o argumento de Ricoeur (1989, p. 143): “O texto produz, assim, uma dupla ocultação do leitor e do escritor; é deste modo que ele toma o lugar da relação de diálogo que liga, imediatamente, a voz de um ao ouvido do outro”.

No diálogo da voz do autor com o ouvido do leitor ocorre “uma profunda reviravolta” na relação leitor/autor, relação singular com o autor na obra e pela sua obra. Há também a complexidade da leitura do autor vivo ou do autor morto, pois quando o autor está morto a leitura se dá em plenitude porque o mesmo já não responde as perquirições do leitor.

Ricoeur (1989, p. 200) recomenda-nos também que: “O problema da compreensão exata já não pode ser resolvido por simples retorno à alegada intenção do autor”.

Propõe o autor um exercício de exploração da pluralidade das “camadas de significação” do texto. Sabemos também, conforme Ricoeur, que a explicação e a compreensão acontecem em dois estágios diferentes de um único “arco hermenêutico”26. Na escuta do texto se dá: “uma afinidade específica entre o leitor e a espécie da coisa de que fala o texto” (RICOEUR, 1989, p. 208). Esta “espécie da

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Arco hermenêutico: para Ricoeur é o trabalho dialético sobre o texto que compreende dois momentos: explicação e compreensão. O arco hermenêutico marca assim, a relação dialética entre o momento objetivo da explicação e aquele da compreensão.

coisa de que fala o texto” se expressa na semântica profunda que o texto evidencia, portanto Ricoeur sinaliza que devemos destacar o que está diante do texto, mas não algo escondido no texto. Assim a compreensão do texto propõe “um mundo possível” e como “mundo possível” temos a transposição para mundos que as referências textuais apontam.

Outra categoria relevante na compreensão e na explicação do texto é a semântica profunda que consiste não no que o autor quis dizer, mas aquilo de que trata o texto. Então da compreensão temos: “A compreensão tem, menos que nunca, a ver com o autor e a situação. Compreender um texto é seguir seu movimento do sentido para a referência, daquilo que ele diz para aquilo de que fala” (RICOUER, 1989, p. 209).

A compreensão aqui será vinculada à semântica profunda, que não se apóia na apreensão intuitiva da intenção subjacente ao texto, mas está baseada na concepção do sentido do texto como um novo modo de ver as coisas. A compreensão confere ao texto o poder de desenvolver um mundo.

John B. Thompson (2002, p. 362) nos traz uma contribuição para a leitura hermenêutica da crônica quando afirma:

Por isso “explanação” e “interpretação” não devem ser vistas, como são muitas vezes como termos mutuamente exclusivos ou radicalmente antitéticos; antes, podem ser tratados como momentos complementares dentro de uma teoria compreensiva interpretativa.

A leitura então se dá no sentido de explorar a obra do autor através de uma reflexão em profundidade, motivo pelo qual a concepção de Thompson discorda em parte do entendimento de Ricoeur sobre hermenêutica de profundidade, porque Thompson valoriza as condições sócio-históricas e Ricoeur, ao contrário, atribui ênfase à autonomia semântica do texto.

Thompson apresenta-nos para o entendimento da hermenêutica de profundidade três fases ou procedimentos que são: análise sócio-histórica, análise formal ou discursiva e a interpretação/re-interpretação. A análise sócio-histórica tem como objetivo reconstruir as condições sociais e históricas de produção, circulação e recepção das formas simbólicas, a reconstrução do ambiente e dos locais específicos e especiais que são fundamentais na análise sócio-histórica. A análise formal ou discursiva procura ocupar-se do sentido de uma mensagem, como o

sentido é construído e transmitido, as formas cotidianas do discurso também são parte dessa análise. A interpretação/re-interpretação implica um movimento novo de pensamento, ocorre por síntese, por construção criativa de possíveis significados. A construção criativa do significado é uma explicação interpretativa do que está representado ou do que é dito.

Hans-Georg Gadamer (2002, p. 262) constrói com propriedade alguns questionamentos sobre a compreensão do texto comparando a literatura com a música:

Será que o sentido de todo o texto se realiza somente em sua recepção por quem o compreende? Será que compreender faz parte do acontecer de sentido de um texto - tal qual faz parte da música o fazer com que se torne audível?”Gadamer afirma ainda que a compreensão dos textos resulta na “retransformação do rastro do sentido morto, em sentido vivo.

Assim o autor posiciona-se sobre a compreensão nos seguintes termos: “Compreender o que alguém diz, é como já vimos, pôr-se de acordo sobre a coisa, não se deslocar para dentro do outro e reproduzir suas vivências” (GADAMER, 2002, p. 559).A compreensão para Gadamer acontece somente em torno do texto escrito, não importando as vivências do autor.

Na aplicação teórica-prática na crônica de Carlos Drummond de Andrade temos a relação entre a voz do autor e o ouvido do leitor na seguinte passagem:

Já estamos no dia 9 e ainda não me convenci de que este é o mês de maio, tão celebrado nas memórias que guardo do tempo da infância.

Faço um esforço generoso para sentir, no ar, o cheiro do incenso, misturado a um outro cheiro que não sei bem se será de flores cristãs ou de pensamentos cristãos - ambos suavísimos. Procuro ouvir os sinos que na tarde pura, sem o pecado de uma nuvem, chamavam as devotas de xale preto, os homens simples e graves, as crianças ambiciosas de cartuchos de amêndoas - para a festa da coroação.

O cronista transmite na sua voz as sensações do mês mariano (maio) para deleite dos ouvidos do leitor.

Observamos as “camadas de significação” do texto no seguinte fragmento:

Já perceberam que eu desenvolvi aqui a filosofia surradíssima do “Eclesiastes”: tudo é vaidade, tudo passa, nada vale nada. A vida e os seus programas foram organizados com muita antecedência e mediocridade. Há um minuto para dançar e outro minuto para ficar quieto. Os que são coxos,

como Lord Byron, podem trocar a dança pela equitação, por exemplo. O que não é possível nem razoável é bisar eternamente o tango que sabíamos curto, ou dançar disfarçado, como fazem alguns pares incorrigíveis.

O fragmento trata da dança, mas a própria vida em termos figurativos faz com que o homem dê passos de tango e outros ritmos, e vá reduzindo tudo ao niilismo (nada vale nada).

A compreensão confere ao texto poder de desenvolver um mundo. E Drummond desenvolve uma proposição de mundo no seguinte texto:

Que teriam elas ido procurar, na sombra e entre os sinos das velhas cidades mineiras, cujo orgulho maior são as festas magníficas da Semana Santa? Não sou dado a pesquisas psicológicas, mas parece que o gosto do pitoresco - do pitoresco até no misticismo - há de ter influído nessa evasão que não foi um fenômeno isolado, caso de duas ou três garotas da Capital, mas bastante generalizado para preocupar um cronista grave e mundano.

O cronista mundano interroga sobre a atitude incomum das jovens que preferiram o recolhimento na Semana Santa no interior de Minas Gerais. Percebemos que o autor não pretende uma análise psicológica das jovens, mas as próprias jovens distinguem-se das demais porque optaram pela reflexão religiosa, descartando os bolos de Páscoa e os bailes de Mi-Carême”.

Assim a compreensão do texto propõe “um mundo possível” e como “mundo possível” temos a transposição para mundos que as referências textuais apontam como, por exemplo:

Nunca poderei compreender porque é proibido fumar nos três primeiros bancos. Por que nos três primeiros bancos? A humanidade que se senta neles não é mais ilustre que a outra que se acomoda nos demais bancos. Portanto, não tem direitos especiais a não ser incomodada com a fumaça dos maus cigarros.

O autor prevê a possibilidade de um novo mundo, uma nova forma de convivência permeada pelo respeito mútuo, expressa também uma crítica contra os fumantes.

Na perspectiva da análise sócio-histórica de Thompson, que reconstrói as condições sociais e históricas de produção, circulação e recepção das formas simbólicas, selecionamos o texto que segue:

Habitantes da Cachoeirinha protestam contra as serenatas que o amor infeliz realiza ali todas as noites. A Cachoeirinha moderniza-se. Antigamente, eram os bairros aristocráticos que se queixavam dessa praga noturna, resíduo de velhos costumes sertanejos atuando na alma nova da cidade. Hoje são os bairros remotos, onde o traço urbano se confunde com a linha rural, que já não suportam os ais do amor não retribuído, os suspiros da ausência, os queixumes da ingratidão.

O cronista caracterizou e demonstrou as duas situações onde ocorrem as serenatas do ‘amor infeliz’, contrapondo o antigamente e o hoje com os traços que singularizam cada momento.

Para concluir destacamos uma inferência de Regina Souza Vieira (2002, p. 107):

A expectativa maior do cronista é, sem dúvida, atender ao leitor, esperando dele a aprovação ou a acusação contra os erros cometidos a fim de agradar ou, no mínimo, ir ao encontro daquilo que estava sendo pensado por quem o lê

5.4 INTRODUÇÃO À ANÁLISE DAS CRÔNICAS DE CARLOS DRUMMOND