O estudo foi desenvolvido em dois locais: Comunidade do Dendê (idosos) e no Centro de Saúde da Família (CSF) Mattos Dourado (idosos e profissionais de saúde), localizado no Bairro Edson Queiroz, em Fortaleza-Ceará, conforme pode ser visto nas figuras 2 e 4 (anexo A e C). A Capital cearense é um município brasileiro de 313,8 km² de área, e foi dividida em seis secretarias executivas regionais, podendo ser visto nas Figuras 3 e 4 (anexo B e C). Para evitar equívocos, é importante saber que existem a Comunidade do Dendê, inserida no bairro Edson Queiroz, na Secretaria Executiva Regional VI (SER VI), a qual será abordada neste trabalho; e o bairro Dendê (ver figura 5 – anexo D), que faz parte da Secretaria Executiva Regional IV (SER IV) de Fortaleza, que abrange 19 bairros (UECE, 2011).
De acordo com o Censo 2010, Fortaleza é uma das cidades mais populosas do País, possuindo adicionalmente a maior densidade demográfica (7.786,52) dentre as capitais do Brasil. Em 2010, possuía a 5ª maior população residente entre as capitais, com 2.452.185 habitantes (IPECE, 2012, p.17). Em relação aos grupos etários, o do idoso foi o que percentualmente mais aumentou sua participação nos últimos dez anos. Esse envelhecimento populacional evidencia-se nas últimas décadas, tendo como um dos aspectos observados nessas transformações demográficas, a queda nas taxas de fecundidade e aumento da expectativa de vida (IPECE, 2012). O crescimento populacional de Fortaleza traz o traço mais marcante da sociedade brasileira, que é a desigualdade, caracterizada por contrastes sociais alarmantes – de um lado, pessoas abastadas, com bom nível educacional, morando em casas ou apartamentos de luxo; do outro, pessoas vivendo em favelas, a maior parte a fracas expensas da economia informal, ou sobrevivendo de salário-mínimo.
É neste lado carente e discriminado que está situada a realidade da pesquisa: a Comunidade do Dendê, no bairro Edson Queiroz. Sua localização privilegiada é um exemplo de uma metrópole que nos bairros comporta internamente desigualdades sociais, contrastes e tensões, onde ricos e pobres moram na mesma unidade censitária. Essa desigualdade é percebida também dentro do Dendê, onde há áreas mais favorecidas e outras por demais carentes, como na baixada, uma área de mangue. O Dendê é limitado ao norte pela região de mangue do rio Cocó, ao sul pela área da Fazenda Colosso, ao leste pela Cidade Ecológica e ao oeste pela Avenida Hill Moraes. Esta Comunidade margeia o rio Cocó, caracterizando-se como um assentamento subnormal.
Em relação ao bairro Edson Queiroz, o Censo Populacional 2000, segundo Cidrack (2003), registrou uma população de 20.291 pessoas, sendo 1.146 idosos. No Censo 2010, o bairro Edson Queiroz exibiu uma população de 22.210 habitantes, sendo 1.640 longevos (IBGE, 2010). A Comunidade do Dendê, pertencente a esse bairro, no período de novembro de 1996 a janeiro de 1998, foi avaliada em um inquérito epidemiológico, onde foram visitadas 1.935 famílias, com uma população estimada de 9.500 habitantes (PORDEUS et al, 1999). Segundo Moura et al (2010), a população cadastrada do Dendê era de cerca de 11 mil habitantes, correspondendo, portanto, a quase a metade da população do bairro Edson Queiroz. Segundo esse estudo, dez anos após o ensaio de Pordeus et al, observou-se um crescimento residencial de 44,79% e populacional de 17,82%, crescimento superior à média municipal, que, na última década, foi estimada em 1,2%. A situação geográfica privilegiada
do Dendê parece pressionar o aumento populacional na área, principalmente pelas facilidades de empregabilidade.
No Quadro 2, há trechos dos versos do poeta Antônio José, contanto um pouco da difícil história de formação dessa comunidade.
I
... EM MEADOS DE 70 JÁ EXISTIA MORADOR,
MAS FOI EM 72 QUE MUITA GENTE CHEGOU
ENTÃO DA NOITE PRO DIA O GRANDE SÍTIO ÁGUA FRIA
NUMA FAVELA VIROU,
III
ESSAS FAMÍLIAS CARENTES SEM TER ONDE MORAR DOS BAIRROS ERAM DESPEJADAS
E JOGADAS À DEUS DARÁ. COMO ÚLTIMA OPÇÃO SEM A MÍNIMA ORGANIZAÇÃO
VINHAM CORRENDO PRA CÁ. II
VEIO GENTE DA VERDES MARES, CERVEJARIA BRAHMA E DOM LUIZ,
CIDADE 2000, PRAIA DO MEIRELES É ISSO QUE A HISTÓRIA DIZ HOSPITAL GERAL DE FORTALEZA
TODA GAMA DE POBREZA VEIO AQUI FINCAR RAIZ.
IV
ENQUANTO A FAVELA CRESCIA AUMENTAVA A POPULAÇÃO TODA FONTE DE PROBLEMA
ERA FEIA A SITUAÇÃO A COISA FICAVA SÉRIA DESEMPREGO, FOME E MISÉRIA
E MUITA DESNUTRIÇÃO...
Quadro 2 – Versos da Cartilha Comemorativa dos 35 anos do bairro Edson Queiroz. Fortaleza-CE, 2005
Fonte: Ferreira (2005).
Veras et al (1987), citados por Pordéus et al (1999), dizem que em relação à composição familiar na Comunidade do Dendê, um estudo de 1987 apresentava 5,6 pessoas por moradia. Outro estudo realizado em 1999 apontou de 4 a 5 pessoas por casa, sendo que um terço das inquiridas podia ser caracterizado como conglomerados numerosos, tendo 6 ou mais membros (PORDEUS et al, 1999). Em 2010, para Moura et al, dos 10.879 moradores avaliados, a média, por domicílio, foi de 3,74 pessoas. Pode-se observar na Figura 6 (anexo E) a pirâmide populacional do Dendê.
No Dendê, os imóveis são predominantemente residenciais com um nível de aglomeração domiciliar inferior àqueles observados na década passada, mas um quarto dos domicílios registra vários núcleos familiares ou pessoas agregadas às famílias. Para Moura et al (2010), essa aglomeração intradomiciliar pode ser considerada precária, considerando o pequeno número de cômodos por casas. (MOURA et al., 2010).
Essa comunidade conserva um jeito bucólico de cidade do interior, pois, no fim da tarde, quando o sol esfria, os homens vão para papear, jogar dominó, beber em bares ou mercearias, enquanto, ao anoitecer, as mulheres vão conversar com as vizinhas na calçada, cena cada vez mais rara, pois a comunidade convive também com o comércio de drogas ilícitas, como a maconha e o crack, tendo áreas de domínio dos traficantes, onde as pessoas de “bem” não têm acesso. Segundo Cidrack (2003), o medo e a violência imperam de maneira incontrolável. É um lugar de muita solidariedade e muita violência, de grandes amizades e de enormes ódios. Todas as emoções são exacerbadas pela miséria reinante e pelas necessidades elementares não satisfeitas.
A Comunidade do Dendê possui ruas principais, asfaltadas, onde estão fincadas diversas lojas, padarias, mercearias e casas reformadas. Existem algumas ruas largas, outras estreitas, mas encontramos ruelas desalinhadas, escuras, com pouca ventilação. Em algumas, há esgotos a céu aberto, água empoçada e nenhuma forma de saneamento básico. Muitas casas são pequenas e apertadas. Existe uma igreja católica sem um padre residente, porém, para ali vai nas grandes comemorações católicas. Há grande diversidade de religiões, crenças e atividades religiosas, tais como: evangélicos, espíritas, umbandistas, quimbandistas etc. A cultura popular é muito forte, com curandeiros, parteiras e rezadeiras. O fator cultural ainda faz com que algumas pessoas procurem rezadeiras e benzedeiras, quando necessitam de alguma assistência à saúde. Para se divertirem, os idosos vão dançar no Forró do Aluísio ou participam do Grupo de Idosos da Terceira Idade, onde se sentem rejuvenescidos e valorizados, seja desenvolvendo habilidades culinárias e decorativas ou como instrutores de bordados, crochet, pinturas e outras atividades. Neste espaço, cada um tem o seu valor e seu lugar assegurado (CIDRACK, 2003).
Como rede de apoio à população do Dendê, podemos encontrar: Associação de Moradores; Grupo de Idosos da Terceira Idade; Grupo de Jovens; Conselho Comunitário; igreja católica; muitas igrejas evangélicas, três escolas de 1° grau, duas creches; Grupos de Alcoólatras Anônimos (AA); um Centro de Referência de Assistência Social - CRAS. Nas imediações da Comunidade do Dendê, também fazendo parte desse suporte, encontramos a Universidade de Fortaleza - UNIFOR, o Núcleo de Atenção Médica Integrada (NAMI/UNIFOR), a Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Dom Antônio de Almeida Lustosa e o Centro de Saúde da Família Maurício Matos Dourado.
No processo histórico de Atenção à Saúde da Comunidade do Dendê, o NAMI foi criado em 1978, pela UNIFOR, para realizar atendimento de natureza primária e preventiva
para a população residente perto do Campus. Atualmente, o NAMI reúne profissionais e estudantes em uma moderna e multidisciplinar estrutura, com uma área de 14 mil metros quadrados, atendendo desde consultas médicas, análises laboratoriais, imunização; desenvolvimento de pesquisas acadêmicas; presta serviços especializados em diagnósticos por imagem, Enfermagem, Nutrição, Psicologia, Fisioterapia, Fonoaudiologia, Serviço Social e Terapia Ocupacional, beneficiando milhares de pacientes. O NAMI foi integrado à Rede SUS e, no contexto atual, presta serviço de Atenção Secundária, realizando cerca de 500 mil atendimentos, entre consultas médicas, análises laboratoriais, vacinas e outros. Como o NAMI é anterior à criação do PSF (1994), há por parte da população um imenso reconhecimento da assistência que era prestada. Não é difícil ouvir alguém dizendo que preferia ser atendido no NAMI em vez de ser no CSF Mattos Dourado. Podemos ver a proximidade dessas instituições à Comunidade do Dendê na figura 7 (anexo F).
O Centro de Saúde da Família Mattos Dourado pertence à rede de Atenção Primária da SER VI. No início da pesquisa, a área do Dendê era coberta por 4 equipes do PSF, conforme figura 8 (anexo G). Atualmente, o CSF Mattos Dourado possui cinco equipes da Estratégia Saúde da Família, cada uma se responsabilizando por uma área adscrita da Comunidade do Dendê.
De acordo com dados de abril de 2013 do Consolidado Mensal da Saúde do Idoso, SER VI, referente as 4 equipes de PSF do CSF Mattos Dourado, a Comunidade do Dendê encontra-se com uma população de 1.011 idosos. Desse contingente demográfico com 60 anos ou mais, 453 são cadastrados em áreas cobertas pelos agentes comunitários de saúde – ACS. Dentre os idosos cadastrados, encontramos: 09 (1,9%) morando sozinhos; 22 (4,8%) acamados; 158 (34,8%) com cuidador; 46 (10,1%) participando de Grupo de Idosos; 105 (23%) hipertensos; 68 (15%) diabéticos; 02 (0,4%) com doença de Parkinson; 05 (1,1%) com mal de Alzheimer. Ainda, segundo os dados do CSF enviados à Prefeitura de Fortaleza, foram realizados 08 atendimentos na Saúde Bucal e 506 visitas domiciliares, sendo: 10 médicas, 16 de Enfermagem, 200 de auxiliares de Enfermagem e 280 de ACS.