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Explanations for Chapter 2

Chapter 3 Morbidity

O documento de registro de imóvel referido no Livro nº 2-D Registro Geral – 1º ofício de Registro de Imóveis, ano 1977, folha 240, determina que o “Patrimônio de São João Batista do Conde” estava sob a posse e domínio da Prelazia de Abaeté de Tocantins. Segundo o documento, o território compreendia uma área total de 4.356 ha, limitando a frente com a baía do Marajó, de um lado com terras da Freguesia de São Miguel de Beja (pelo rio Araenga), de outro lado com a posse de Felipe Angélico de Sousa, e pelos fundos com as “cabeceiras” do rio Araenga.

No final da década de 1970, este território foi expropriado da Prelazia de Abaeté de Tocantins, por meio de uma desapropriação amigável à CDI- Companhia de

Administração e Desenvolvimento de Áreas e Distritos Industriais do Pará. Mas

esse território era ocupado por famílias de agricultores e pescadores descendentes da missão Mortigura, que pagavam para os padres da Prelazia de Abaetetuba o uso e a posse das terras. Apesar dos efeitos destruidores causados pelo surgimento do progresso industrial do Complexo de Mineração, resistem em suas territorialidades específicas.

Entre os moradores das comunidades tradicionais do Conde há uma memória de sua origem indígena. No Laudo Técnico nº 001/2016, organizado pelo Ministério Público Federal (2016, p. 9-11), há várias narrativas sobre esta origem indígena feita pelos moradores do Curuperé, Acuí, Maricá, D. Manoel e Arienga:

[...]A memória da origem indígena, especificamente dos murtiguras, ainda está presente não só no Curuperé como nos demais grupos sociais tradicionais em questão. Trata-se de uma memória que atravessou o momento inicial da colonização e persistiu ao longo dos séculos seguintes passando, no século XIX, pela era das grandes revoltas populares denominadas posteriormente de Cabanagem, e prosseguindo até a memória genealógica mais distante, alcançada pelos mais idosos e preservada nas famílias tradicionais hoje. (MPF, 2016, p. 9).

Em 1970 o município de Barcarena possuía núcleos urbanos pequenos e a vila do Conde possuía 578 habitantes, tinha uma ocupação restrita em torno da Igreja de São João Batista, sendo uma vila tradicional de pequenos agricultores, caçadores e pescadores. A partir de 1977, com o início do processo de implantação do Distrito Industrial, planejado pela CDI, ela sofreu um acrescimento populacional e sua população atingiu em 1980 o número de 965 habitantes (IBGE, 1980). Nesta fase de

instalação do complexo de Mineração ALBRÁS-ALUNORTE e da construção do porto de Conde, a vila recebeu uma “onda” migratória com a chegada de operários e trabalhadores para os canteiros de obras. Neste período a vila ficou conhecida como hospedeira de casas noturnas e prostíbulos (BARROS, 2009, p. 27).

No ano de 1977 a CDI começou a desapropriação do Distrito do Murucupi para instalação do complexo de mineração Albrás-Alunorte, do Porto da Vila do Conde, da Subestação da Eletronorte e da Vila dos Cabanos. Barros (2007, p. 183) afirma que houve resistência das comunidades tradicionais à desapropriação organizada pela CDI e discordância em relação aos valores pagos pelos lotes de terra.

O Laudo Técnico nº 001/2016-Seap, elaborado por Raphael Frederico Acioli Moreira da Silva, analista do MPU/Perícia/Antropologia, afirma que as formas de desapropriações dos grupos sociais de nativos possuem diferentes períodos:

[…]divisão por diferentes períodos, tipos de empresas que se instalaram, formas de desapropriações e os impactos socioambientais vividos: 1) nas décadas de 1970/80, a instalação do complexo da Albrás/Alunorte, o porto de Vila do Conde e o núcleo urbano; 2) nas décadas de 1990/2000, os conflitos envolvendo a criação da Vila dos Cabanos, a chegada da indústria do caulim e o processo de diversificação de empresas no Distrito Industrial, e mais recentemente, a expansão de projetos portuários entre Itupanema e Caripi, e a ênfase nos empreendimentos do ramo logístico. (MPF, 2016, p. 3).

A comunidade tradicional Ponta da Montanha estava localizada às margens do rio Pará, próximo à Praia Grande, e em 1993 deslocou-se para a comunidade do Curuperé, quando a empresa Pará Pigmentos S.A (PPSA) instalou o porto. Segundo Carmo (2010), esta comunidade tem sua origem na família Rodrigues, de um senhor chamado Raimundo Miranda Rodrigues, fundador da comunidade por volta de 1800, o qual teve sete filhos, dos quais apenas a sua filha Ricarda Messias Miranda permaneceu na Montanha e casou com um português, Gualfredo Rodrigues Lisboa. Tiveram sete filhos e somente o mais velho ficou na comunidade, o José Miranda Dias, que casou com Antônia Dias Moreira (nascida em Barcarena e filha de índio), [de cuja união nasceram] os filhos, Teófilo Dias Rodrigues, Raimundo Dias Rodrigues, Izídio Dias Rodrigues e Luiz Dias Rodrigues.

O pesquisador Eunápio Dutra do Carmo estuda as estratégias de resistência da Comunidade Nova Vida diante da expansão Industrial de Barcarena. O autor fez um histórico sobre a comunidade, desde a época em que os moradores vivam na Ponta da Montanha. Efetuou um levantamento dos moradores da Montanha em 1993 e concluiu que havia 77 pessoas na comunidade que viviam sobre laços de

parentesco, primos, sobrinhos, netos e cunhados de José Miranda Rodrigues […] a

formação das famílias era baseada nas redes de parentesco que conseguia concentrar os casamentos e “viver juntos” entre os parentes de 1o, 2o e 3o graus (CARMO,2010, p. 87).

Quadro 1 - Relação das Famílias da Comunidade da Ponta da Montanha.

Fonte: Carmo (2010, p. 87).

As relações de parentesco determinavam a ordem e a liderança da comunidade. Carmo (2010) estuda a organização da comunidade e a solidariedade nas atividades de roça e pesca. Expõe a importância da liderança entre os parentes e agregados, quando afirma ser o líder quem autorizava o ingresso de um membro na comunidade, e resolvia a divisão das terras para o cultivo, assim como as situações de conflitos pelo uso dos recursos naturais, quando ocorria.

Segundo as narrativas e memórias dos moradores, antes da instalação das empresas a comunidade da montanha tinha uma íntima relação com o Rio-Mar, com a terra e com a floresta. Cleonice Rodrigues Coelho, filha do senhor Teófilo Dias Rodrigues, narra como era a vida na Ponta da Montanha:

Entendido, a minha história do, assim que eu me entendo né, desde que eu nasci foi na Montanha uma área assim que hoje a gente lembra como o cartão-postal que era né, e uma área de muita fartura e muita pobreza ao mesmo tempo né, muita fartura devido o peixe que tinha, camarão e a pobreza devido nós não sabermos trabalhar com isso as plantas que hoje nós temos conhecimento como fazer uma agricultura né, como trabalhar com agricultura, a piscicultura mesmo né, e antigamente nós não sabíamos como lidar com isso, inclusive nós tínhamos terras grandes partes de terra né, e não se tinha um plantio devido o, a falta de conhecimento né, mas então é,

com o passar do tempo as empresas começaram a recorrer a essas terras né, querendo, visando um bem-estar pra eles né, e não olhando as pessoas que moravam, os nativos que moravam né[...].

- Vocês eram pescadores?

_Era pescadores, todo mundo pescador e alguns eram agricultores, trabalhavam em pequenas roças né. (nformação verbal).

A principal atividade dos moradores da Montanha era a pesca. A sua localização em frente à praia facilitava o fascínio por essa atividade. Cleonice narra a dificuldade que tinha para lidar com a terra. A família de pescadores sabia montar embarcações, conhecia os ventos e marés, previa a vinda de tempestade, bem como sabia lançar rede ao mar, fazer a linhada de peixe (esperar de uma a três horas na água) ou fazer a estacada (passar o dia na espera) e conhecia o local certo onde está o peixe (CARMO, 2010). A agricultura representava uma atividade secundária e complementar.

Na Montanha, havia uma expressão muito comum entre os sujeitos: “viver da pesca”. O que também implicava em um modo de viver baseado na praia e no mar. Outros depoimentos, como o de Ozéias, afirmaram que se tornou pescador para ajudar a família. Muitos passavam o dia na praia e brincavam nela todos os dias: “[...] Eu era muito agarrado com a praia. A praia me

convidava e eu ia”. Como também foram encontradas pessoas que

trabalharam por vários anos na pesca, daí a razão da expressão: “a pesca

está no sangue”. Algumas imagens da praia hoje, e que faziam parte do local

da Montanha. (CARMO, 2010, p. 101).

De outubro de 1993 a 1 de janeiro de 1994, as famílias da ponta da Montanha deixaram a sua comunidade e foram para Curuperé morar nas casas construídas pela Empresa Pará Pigmentos. Com base nos dados sobre a população do Curuperé, no momento do deslocamento das famílias de Montanha, e de acordo com os relatos e narrativas dos entrevistados por Carmo (2010), constata-se que havia cinco famílias, totalizando 30 pessoas. Foram deslocadas da Montanha 11 famílias, 68 pessoas. Havia os chamados agregados que se casaram, contabilizando 10 famílias e 42 pessoas. A comunidade do Curuperé possuía, a partir de 1994 (após todos os remanejamentos), um total de 23 famílias.

Quadro 2- Famílias do Curuperé, no momento do ingresso das famílias da Montanha.

Fonte: Carmo (2010, p. 133).

Os moradores da Ponta da Montanha foram deslocados para Curuperé, onde tinham amigos e parentes, mas não tinham acesso à praia, da qual eles retiravam os peixes para a sua sobrevivência. Sobre os moradores do Curuperé, parentes e amigos da Montanha, é narrado um fato por Maria de Fátima Dias dos Anjos65, que fala

também sobre a vida em Curuperé:

Foi, a Usipar foi assim, era uma área, a nossa terra onde a Usipar hoje tá implantada, o nosso terreno, o terreno do meu pai, que a gente fala nosso, as pessoas dizem como nosso, a nossa família, porque a região que nós morávamos era só, eram seis famílias, eram seis famílias aquele região do Curuperé dois, Curuperé que ele tinha uma coisinha agora depois de velho, que ele tinha uma picuinha, um era muito melhor do que a outra, seis famílias, era meu pai, dona Benvinda, seu Virgílio, dona Dalva, quem era mais é, eu sei que eram seis famílias ali instaladas ali naquela área, o que acontece, eles tinham muita terra vamos dizer, muita terra assim, o meu pai tinha aquele terreno lá não era o meu pai, aquele terreno da minha mãe, da minha vó, da minha bisavó, aquele terreno lá tinha quarenta hectares de terra e era o terreno da minha mãe, então nós morávamos naquela área ali dava pra fazer roça, a minha vó brigava com que tirava, tinha uma área de reserva que era área da, que era uma área que a gente diz assim, madeira de lei, deixado pra reserva esse aí não pode tocar, falava não pode mexer porque cultura a gente vai precisar de uma madeira boa a gente ainda tem essa ponta de mato, aí

tá, quando foi nós trabalhamos um projeto lá dentro da área da nossa área tinha quarenta famílias trabalhando nesse projeto, a gente juntou o pessoal da montanha que vieram que foram ficaram no Canaã ali naquela comunidade se instalaram lá, junto com a nossa família lá, a gente começamos um projeto meu pai, meu irmão, foi quarenta famílias que instalaram aí pra fazer o projeto Canaã, eles determinaram o nome Canaã né, aí lá eles plantaram tinha abacaxi, tava assim uma média de uns dez mil pé de abacaxi, tinha abacaxi, tinha coqueiro, tinha aquelas macaxeira, aquelas coisas assim mais rápida de dá e tinha aquela coisa pra mais, pra longo prazo né?. (Fatima Dias dos Anjos, 07 de março de 2014). (nformação verbal).

As famílias tradicionais da Ponta da Montanha foram remanejadas para Curuperé, para a área que eles chamaram de Vila Nova Canaã. À medida que as empresas foram se instalando, a comunidade de Curuperé foi recebendo mais famílias expropriadas ou provenientes de migrações, de sorte que surgiram novas áreas no seu território, a saber: Maricá, Nova Canaã e D. Manoel (que era conhecida como Cabeceira do Curuperé).

A Vila do Conde cresceu rápido com a presença de pessoas deslocadas e migrantes buscando novas oportunidades, tornando-se o lugar principal, a partir do qual a ocupação progressiva do Distrito Industrial se organizou. Enquanto o governo estadual, por meio da CDI, tentava avançar com a desocupação, deslocando determinadas comunidades dos “lotes” (termo introduzido para poder dividir e vender as áreas) vendidos a empresas, ao mesmo tempo, novas áreas foram ocupadas e novas comunidades surgiram, como o Bairro Industrial, Novo Canaã e Dom Manoel. O que deveria ser um processo de zoneamento, ocupação e apropriação planejada e controlada, de fato, mostra a sua contradição e sua dialética, pois a cada desocupação, aparentemente se inicia um processo de reocupação, mesmo não sendo no mesmo lugar e nem pelas mesmas pessoas. (HAZEU, 2015, 238).

Em meados da década de 1980, a comunidade Curuperé ocupava praticamente toda a área do Distrito Industrial entre o rio Dendê, Baía do Marajó (rio Pará), rio Arienga e PA-163, dividindo a área com as comunidades da Montanha, Acuí e Arienga (HAZEU, 2015, p. 237). Essas comunidades são tradicionais, porque foram completamente afetadas pelo Grande Projeto de Mineração.

O local onde essas comunidades estão, hoje, é denominado Distrito Industrial. Após a instalação das fábricas de Caulim, foi mais intenso o processo migratório, o que provocou o crescimento populacional no bairro e na Vila do Conde. A territorialidade específica das comunidades tradicionais foi atingida, pois as comunidades do Curuperé, Acuí e Arienga perderam suas partes no território e sofreram agressões ambientais nos recursos naturais, principalmente nas águas do rio Dendê e Curuperé.

MPU/Perícia/ Antropologia para a elaboração do Laudo Técnico nº 001/2016-Seap, são referenciadas a origem e a identidade tradicional das comunidades de Curuperé, Acuí, Maricá, ilha de São João, D. Manoel, região do rio Arienga, Pramajó/Peteca, Canaã e Bairro Industrial. Nessas comunidades são revelados os laços de parentesco entre elas, bem como suas interlocuções para com as famílias tradicionais provenientes de outros locais de Barcarena, ou fora do município, percebidas nas histórias de vidas de pessoas que migraram para o município em busca do progresso. Nas atividades ocorridas em Curuperé e Acuí, os participantes ressaltaram a persistência dos grupos familiares tradicionais, apesar das restrições territoriais e dos danos ambientais que estão dificultando suas práticas produtivas e até mesmo provocando a saída de algumas famílias. Vale destacar inclusive a ocorrência de um sentimento de consciência e afirmação cultural indígena, que está dando sentido à compreensão de sua própria história na mobilização por seus direitos territoriais. A persistência de grupos tradicionais também foi percebida na região do Arienga, onde grupos familiares ainda estão presentes, a despeito das intervenções sobre o território desde a década de 1970.

Já em Maricá, Ilha São João, Pramajó/Peteca e Dom Manoel, os trabalhos de campo apontaram um contexto em que os grupos tradicionais enfatizaram a inclusão, em suas redes de parentesco e de relações, tanto de grupos expropriados em outros pontos do território tradicional, quanto de migrantes de outras regiões do Pará e do Brasil. (MPF, 2016, 37).

A região da atual comunidade de Canaã e do Bairro Industrial teve sua ocupação heterogênea, recente e com uma população numerosa, composta por pessoas oriundas de outras comunidades tradicionais de Barcarena e de pessoas de fora do município, as quais vinham trabalhar nas fábricas e não possuíam condições de pagar o aluguel na Vila do Conde. Assim, ocuparam a área e sofreram grandes pressões da CDI para se retirarem do local. Essas duas localidades são consideradas tradicionais pelo Laudo Técnico nº 001/2016-Seap, pois conseguiu construir a percepção da origem e identidade tradicional na história de vida das pessoas e concluiu que, em condições adequadas, ainda podem retomar, “de maneira

autônoma, as bases de sua reprodução sociocultural como camponeses” (MPF, 2016,

p. 38).

2.6 As narrativas sobre modo de viver nos sítios: a roça, a colheita dos frutos e