DALY = YLL (Mortality Burden) + YLD (Morbidity Burden)
Chapter 7 Health Care Facilities andFacilities and
A CODEBAR teve como atividade prioritária o deslocamento dos moradores das áreas destinadas a este núcleo urbano. Um documento da CODEBAR, com título
Relatório da Administração, expõe as finalidades essenciais da empresa: executar e
administrar as obras e serviços de urbanização na área destinada ao assentamento humano de apoio à instalação e funcionamento do Complexo Industrial de Barcarena, no Estado do Pará, decorrente de obrigações assumidas pelo Governo Brasileiro
no acordo internacional de cooperação econômica, firmado com o Governo do Japão em 1976, visando à exploração industrial das reservas de bauxita na Amazônia
para a produção de alumina e alumínio, através do Complexo ALBRAS/ALUNORTE. No Relatório Final da Doce Engenharia e Planejamento S.A Projeto Alumínio (1977), já havia a recomendação para o núcleo urbano, a formação de uma sociedade de economia mista ou a formação de uma fundação encarregada do desenvolvimento, pelo menos nas suas primeiras décadas. E ainda completa afirmando que:
O que se pretende é que a empresa consiga dirigir a implantação das estruturas urbanas de acordo com as conveniências locais e do complexo do Projeto Alumínio, com a facilidade de tomada de decisão e relativa independência que assegure um desenvolvimento racional, eficiente e econômico do complexo urbanístico em pauta. (DOCE ENGENHARIA E PLANEJAMENTO S.A PROJETO ALUMÍNIO ,1977, p. 82).
As definições das áreas e todos os condicionantes espaciais estavam sendo discutidos desde 1976. Passados três anos, a empresa Arquiteto Joaquim Guedes Associados entregou os volumes do plano urbanístico para a Sudam, que foram editados em 1980. O Volume 3 possui as propostas institucionais, legislações, etapas de implantação e os elementos constitutivos da Companhia de Desenvolvimento de Barcarena - CODEBAR.
espaço planejado desde 1977, que foi posteriormente desenhado no plano urbanístico. Objetivava promover a execução e a administração de obras e serviços de urbanização em área destinada ao assentamento humano de apoio à instalação e funcionamento do Complexo Industrial.
O documento Complexo de Alumínio ALBRÁS/ALUNORTE (BRASIL, p. 2-3) assegura que para a execução de seus objetivos, competirá a CODEBAR a aquisição, alienação, locação e arrendamento de imóveis destinados à habitação, comércio, indústria, serviços e preservação de recursos naturais. Representava o agente de desenvolvimento e a presença do Estado em nível local, que, por meio de ações e instrumentos violentos, impôs uma lógica urbana inacabada, que excluiu outras possibilidades de existência na área que se constituiu o núcleo urbano.
De acordo com o Plano Urbanístico de Barcarena, o núcleo básico da Vila dos Cabanos, composto pelo bairro Pioneiro e pelo bairro de Operações, deveria ser implantado em cinco etapas durante nove anos. Após, teria uma sexta etapa a qual seria realizada ao longo de seis anos, com obras na área de expansão para receber o número de 17.735 habitantes (TOURINHO, 1991, p. 77). Segundo o parecer do Ministério do Interior (1979, p. 9-10), foi assinado um contrato com a consultora Joaquim Guedes, para essa primeira fase de implantação do novo núcleo, o bairro Pioneiro. Em setembro de 1979, foram realizadas tomadas de preço e o levantamento topográfico da área. Nos comentários finais do parecer (BRASIL, 1979) se faz referência à necessidade da instalação da CODEBAR, visto que o projeto de instalação do bairro Pioneiro não havia sido ativado devidamente.
O bairro Pioneiro deveria ser provisório, destinado como acampamento dos operários das empreiteiras responsáveis pela construção das instalações do complexo de mineração. Era composto por uma parte central, que seria o centro de triagem de mão de obra, hospital, rodoviária, caixa d’água; e por uma parte residencial, que estaria composta por habitações para 1.201 famílias com escolas, creche, comércio e serviços. Havia ainda alojamentos para 8.400 operários solteiros e um clube.
O Plano Urbanístico de Barcarena (1980, p. 232) descreve esta unidade: O bairro Pioneiro terá intencionalmente um aspecto de acampamento de obra mais ou menos definitivo, com aparência relativamente precária: casas mais simples, ruas sem asfalto.
Sua localização isolada da construção da parte ao norte do lago preserva o bairro de ficar no meio do movimento, do barulho, da poeira da obra, o que pioraria sensivelmente as condições de vida nele. O afastamento vai dar a sensação de que mora em cidade calma e organizada.
Na primeira etapa prevê-se ainda o represamento do Rio Murucupi, com a formação do lago e a construção da ponte que ligará as partes norte e sul do lago.
O bairro de Operações teria uma estrutura urbana mais consolidada, onde seriam localizados os centros administrativos, escolas de ensino médio e centro cultural. Correspondia ao local destinado aos trabalhadores das fábricas, o que hoje é denominado Vila dos Cabanos.
O Bairro do Laranjal trata-se de uma área onde foram traçados lotes de 6x30m e 9x30m destinados às famílias desapropriadas pela CODEBAR, moradores dos sítios localizados nas áreas onde foi implantado o projeto Albrás/Alunorte. Mas esta área destinada ao Laranjal fazia parte do território da comunidade de São Lourenço. Esses moradores possuem, como dito anteriormente, o Título de Legitimação de Posse nº 27 em nome do Senhor Manoel Joaquim dos Santos, expedido pelo Governo da Província do Pará em 28 de março de 1838, legitimado pelo ITERPA em documento em 27 de Janeiro de 1982, em resposta ao pedido de Certidão das terras requerido pelo senhor Joaquim Manito dos Santos104.
O bairro do Laranjal não recebeu a mesma infraestrutura que as demais áreas, apesar do comprometimento da CODEBAR em realizar obras de saneamento, esgoto e asfalto. Ele constitui uma periferia do núcleo urbano, contrariando a concepção de que o núcleo urbano seria formado por cidades planejadas - as “Company Towns” -, base de seus territórios autossuficientes (TRINDADE JUNIOR, 2015, não paginado)105. Na sua implantação foi criado um bolsão de pobreza, em contraste com
as ruas urbanizadas e planejadas da Vila dos Cabanos (VASCONCELOS, 1996, p. 46). Os moradores do Laranjal, por meio do centro comunitário e de ações coletivas, requeriam da CODEBAR as obras estruturais prometidas na época das desapropriações e da propaganda do progresso e desenvolvimento.
O chefe de planejamento urbano da CODEBAR que participou da equipe do Programa Especial de Desenvolvimento Regional e infraestrutura do Complexo de Alumínio da SUDAM, em sua entrevista106, fez considerações de como foi arrecadada
104 Joaquim Manito dos Santos é descendente do senhor Manoel Joaquim dos Santos, nomeado
inventariante pelos moradores para buscar a certidão da terra e formalizar a titularidade desta entre os herdeiros.
105TRINDADE JUNIOR. Saint-Clair Cordeiro. Vila dos Cabanos: gestão urbana e desenvolvimento local
na Amazônia Brasileira. Disponível em http:// observatoriogeograficoamericalatina.org.mx/ egal8/Geografiasocioeconomica/Geografiaurbana/13.pdf. Acessado em 25.04.2015.
e planejada a área de atuação da CODEBAR.
O Laranjal foi desapropriado na época pela CDI, porque aquela área corresponde ao bairro Pioneiro [...] localizou em uma parte extrema da cidade, no limite da cidade em direção a São Francisco [...] é uma população que hoje vive à prestação de serviços, ela às vezes não tem nem qualificação dentro das próprias empreiteiras, vai trabalhar de subemprego ou emprego direto. [...] a área foi entregue pela CDI, simplesmente nós estruturamos. A CDI não chegou a deslocar o pessoal, desapropriou e pagou. [...] a CODEBAR só apareceu lá depois de quatro anos.
No Laranjal tem área que foge hoje do desenho implantado, foge da área estruturada, ainda tem gente morando lá, que tem população que estão ocupando e são os moradores antigos.
A área já foi toda desapropriada, toda a área dos Cabanos pertence à CODEBAR. [...] se houve necessidade do crescimento do bairro do Laranjal, tinha que remexê-lo, mas não há nenhuma previsão agora. (informação verbal).
Figura 11- O Núcleo Urbano e Setores de Implantação107.
Fonte: Tourinho (1991).
A promessa foi de implantar uma cidade-empresa e moderna, inserida ao mercado, com boa qualidade de vida para as pessoas e a racionalização dos espaços. Cidade de livre acesso aos profissionais e trabalhadores que iriam prestar serviços para as empresas mineradoras de forma planejada e otimizada, mas aos poucos foi mostrando a exclusão e a desagregação, como demonstra a breve narrativa do senhor Jose Vieira da Silva108, morador do sítio Livramento nas margens do rio Murucupi, que
foi deslocado para o Laranjal:
107 Retirado de TOURINHO, Helena Lúcia Zagury. Repercussões Sócio-econômicas[?] do Complexo
Industrial ALBRÁS/ALUNORTE em sua área de influência. Instituto do Desenvolvimento Econômico- Social do Pará. Belém, 1991. p. 77.
P. Depois que indenizaram, eles construíram essa casa ou foi o senhor que teve que construir?
- Eles deram o resto, nós ajudamos na mão de obra só. Os tijolos nós é que fabricávamos, numa fábrica aí, eles davam o material e nós construíamos os tijolos.
P.E o senhor foi viver de que quando veio pra cá?
- Depois que eu vim pra cá, passou um mês e eu me empreguei. Na NORTOP, trabalhei uns meses e depois fui pra uma firma na CODEBAR e aí depois eu me empreguei na TRANSJUTA aí em São Francisco. Passei três anos lá, depois trabalhei mais um pouco e depois parei, quando foi em 89 eu não trabalhei mais. Aí foi que eu comecei a trabalhar de bico, limpar quintal, fazer poço, até hoje a gente faz isso, limpar quintal e poço, constrói casa também.
P. O senhor paga INSS?
- Olha, tá esses anos todinhos que eu não pago, desde 1989. P. E o senhor tem quantos filhos, senhor José?
- Com minha mulher tenho só quatro, e só mora um aqui comigo, os outros moram por aí alugado. (nformação verbal).
O que o senhor José Vieira da Silva expressou em suas narrativas reforça a tese levantada por (CORREA, 1987, p. 62) de que as company towns, no contexto amazônico, representam uma implantação moderna introduzindo uma nova paisagem e um novo estilo de vida, que muito pouco ou nada tem a ver com a paisagem regional, principalmente aqueles que foram deslocados, tiveram que reestruturar suas vidas, e também construir uma nova compreensão das suas reais condições de existência (VASCONCELOS, 1996, p. 33).
A política desenvolvimentista adotada pela CODEBAR foi responsável pela instalação em Barcarena do contexto de injustiça, exclusão e conflitos para com as comunidades tradicionais. Nas entrevistas dos técnicos da CODEBAR sobre o processo de indenização e deslocamento dessas comunidades eles discursavam que essa ação violenta foi a única saída para aquela “pobre população conhecer o progresso”.
Segundo Nahum (2008, p. 65-84): .
O Estado, na condução dos processos de desapropriação, sustentou “a ação da lei” em oposição à legitimidade de usufruto da terra pelos colonos, exigindo deles as escrituras das propriedades. Por isso, nos processos de desapropriação e de indenização, houve subvalorização das unidades familiares, pois aos olhos do poder estatal e empresarial os colonos eram posseiros e não proprietários legais.
De outro lado, o fabuloso discurso do aumento do número de empregos diretos “parecia”, durante a implantação do projeto, dinamizar a economia municipal e assim justificar as desapropriações. Enormes contingentes de mão-de-obra, de distintas qualificações, foram recrutados pelas empreiteiras ligadas ao setor da construção civil. Segundo um diretor do departamento de recursos humanos da Albrás, “durante a construção da Albrás chegamos a ter cerca de 5.000 trabalhadores no canteiro de obras e mais uns 1.000 na construção da Vila dos Cabanos”.
Esse intrusamento altera radicalmente a paisagem dos quilombolas, quilombolas indígenas e demais comunidades tradicionais que tiveram seu modo de existência retirado violentamente e lhes foi imposto um cenário urbano que para eles foi destinado, a periferia, o lixão (bota fora), o trabalho temporário, o desemprego, a depressão e o suicídio.
Na primeira fase de instalação do Complexo Albrás-Alunorte, nos anos de 1970 e 1980, os sitiantes foram deslocados das áreas que foram ocupadas pelo Porto da Vila do Conde, Eletronorte, Albrás, Alunorte e Núcleo Urbano. Segundo os dados da ADEBAR, foram aproximadamente 494 famílias desapropriadas do Murucupi, Burajuba, Tauá, Cabeceira Grande, Guajará, Santo Antônio e Paramajó. Essas pessoas foram deslocadas para o Laranjal, Vila Nova e Colônia Agrícola do Bacuri, Barcarena Sede, Vila do Conde, Belém e outros (MOURA; MAIA, 1989).
Tabela 5- Número de deslocados por localidade.
Origem das famílias Quantidade Percentual
Tauá 73 14.7 Cabeceira Grande 60 12.2 Murucupi 56 11.3 Ponta Grossa 52 10.5 Conde 39 07.9 Paramajó 28 05.6 Bacuri 27 05.5 Burajuba 26 05.3 Santo Antônio 25 05.1 São Francisco 23 04.6 São José 22 04.5 Guajará 19 03.8
Vila São Francisco 18 03.6
São Joaquim 17 03.4
São Lourenço 07 01.4
Itupanema 02 00.4
Total 494 100
Figura 12- Localidades das famílias desapropriadas para a instalação do complexo ALBRÁS-
ALUNORTE.
Fonte: Tourinho (1991, p. 53).