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KAVRAMSAL ÇERÇEVE

2.2. Modern Dövme

É necessário explorar um pouco sobre o tema família, para que se possa contextualizar melhor a temática da violência contra crianças e adolescentes. Tal exposição fornecerá subsídios reflexivos relevantes para a compreensão macro da temática vigente.

A palavra família é de origem latina, “famulus”, que significa servo, escravo e sugere que a família era um conjunto de escravos que pertenciam a uma pessoa. Para Osório (2002), a etimologia da palavra remete à natureza possessiva das relações primitivas, em que a mulher deveria obedecer ao marido, e os filhos eram de domínio dos pais, que tinham total direito sobre eles.

Não existe um conceito único para a palavra família. Pode-se afirmar que não há definições claras, mas descrições das várias estruturas ou modalidades assumidas por elas através dos tempos. A estrutura família não está ligada a uma instituição fixa, padronizada, imutável, ela vai adotando formas, mecanismos e configurações distintas, variando de acordo com fatores econômicos, políticos e religiosos, situados em uma época e local específico.

Na operacionalização desta tese, considera-se família como “grupos de parentes (incluindo-se as filiações biológicas e as alianças conjugais) que se relacionam com alguma regularidade e intensidade, portanto não são limitados pelas fronteiras dos domicílios” (Medeiros & Otávio, 2002, p.14).

Para Meira e Centa (2003), a família é um sistema complexo, inserido em um contexto social e histórico, e cujas estruturas sofrem influências de fatores como a economia, o progresso tecnológico, a globalização, entre outros, que provocam mudanças de valores e de comportamento nos mais diversos aspectos.

A instituição familiar é o primeiro grupo social, primeira escola, primeira comunidade e a primeira experiência de cidadania de qualquer indivíduo, que desempenha um papel fundamental e determinante na trajetória de vida de qualquer pessoa por toda a sua vida.

Kaloustian (2002) afirma que a instituição família é absolutamente necessária para garantir a sobrevivência, o desenvolvimento e a proteção integral dos membros e que “é um espaço privilegiado de socialização, de prática de tolerância e divisão de responsabilidades, de busca coletiva de estratégias de sobrevivência e lugar inicial para o exercício da cidadania sob o parâmetro de igualdade e respeito e dos direitos humanos” (p.11). O autor ainda enfatiza a família como um espaço onde são absorvidos os valores éticos, culturais, humanitários e enfatiza o papel afetivo desse suporte familiar.

Segundo Ariés (1981), na Idade Média, a família desconhecia a afetividade e tinha papel e responsabilidade de transmitir a vida, os bens e os nomes. Os laços de sangue constituíam um único grupo, e sua realidade era social e moral. Foi a partir do Século XVIII que o aspecto sentimental passou a ser valorizado pela família e reconhecido pela força da emoção. Embora Day et al. (2003) pensam mais além, quando afirmam que, só no Século XIX, o filho passa a ser objeto de investigação afetivo, econômico, educativo e existencial e passa a ocupar uma posição central no meio familiar.

No Brasil, a concepção de família surgiu no Século XIX, época da revolução industrial na Europa, que influenciou com transformações dos setores de produção, em que a família se fechou numa unidade - pai, mãe e filhos. Como afirma Dias (1992, P.97), “o fechamento dentro da família nuclear acabou propiciando um confronto emocional maior entre pais e filhos. A responsabilidade sobre a educação dos filhos foi transferida aos pais...”

Segundo Ribeiro e Martins (2005), no Brasil, a temática família passou a ser objeto de reflexão como instituição social fundamental para o entendimento da natureza da sociedade há pouco tempo, apesar de ter papel fundamental desde o início da colonização.

Ao longo dos tempos, a família foi sendo caracterizada como responsável por propiciar condições afetivas, materiais e morais necessárias para o desenvolvimento dos membros, mesmo cada grupo primário tendo sua cultura, com identidades e regras próprias. As normas sociais cobram dessa instituição um “compromisso” para com seus componentes e a sociedade. Azevedo e Guerra (2000) afirmam que as famílias contemporâneas estão com dificuldades de cumprir sua tarefa como formadoras.

Nas últimas décadas do século passado, verificam-se mudanças significativas na dinâmica familiar, em consequência das rápidas transformações políticas, econômicas e sociais. Essa transição afeta as famílias nos seus costumes e valores (Ribeiro & Martins, 2005).

As mudanças no seio familiar estão ocorrendo em grande parte do mundo e, como referem Rizzini, Rizzini, Naiff e Baptista (2007), algumas mudanças foram: as famílias ficaram menores; as mulheres passaram a chefiar em maior percentual e atuar mais no mercado de trabalho, o que provoca uma estruturação na criação dos filhos; crianças permanecem mais tempo sem a presença dos pais, e a dinâmica dos papéis parentais e de gênero estão se modificando em diversas sociedades.

Meira e Centa (2003) apresentaram alguns fatores que influenciaram diretamente no modo de educar e cuidar dos filhos no novo formato das famílias contemporâneas, em que as mulheres estão cada vez mais envolvidas no mercado de trabalho, os pais assumem os afazeres domésticos, o número de divórcios aumenta, novos casamentos, pais solteiros e famílias de homossexuais.

Não existe um modelo padrão de família. Afirma Kaloustian (2000) que, na atualidade, é difícil identificar um modelo de família, pois elas se manifestam a partir de suas individualidades, criando suas organizações domiciliares peculiares. Existem multiplicidades de modelos familiares. Ribeiro e Martins (2006, p.53), apontam que “a família conserva sua função de“útero social”, como um espaço privilegiado de convivência, acolhimento, afeto, educação...”, embora também enfatizem que não existe família ideal, pois, em geral, apresentam conflitos e desentendimentos entre os membros.

Para Rizzini et al. (2007), a família é vista como um lugar privilegiado de proteção e pertencimento e, mesmo persistindo uma tendência de família ideal, assinala-se um espaço com conflitos e contradições. “Essa constatação nada traz de novo, porém revela-se de forma mais acentuada nos últimos anos, devido ao amplo interesse mundial na questão da violência doméstica ou intrafamiliar, em particular, o abuso sexual” ( p.36).

Venturini, Bazon e Biasoli-Alves (2004) investigaram como crianças e adolescentes vitimados e não vitimados percebiam a família e concluíram que, em geral, a família era percebida como algo preponderantemente positivo, no entanto um subgrupo dos participantes da investigação descreveu a instituição família ancorado em aspectos concretos, sem valoração positiva ou negativa. Também verificaram que os vitimados de violência que se encontravam abrigados conceituaram a família com respostas evasivas e associando-a a bens materiais, o que explica que muitos casos de abrigamento estão relacionados a dificuldades financeiras como também no sentido de negação pelo afastamento da família.

Na pesquisa, “Voz da adolescência” (UNICEF, 2002), verificou-se que a família é a referência principal para 95% dos adolescentes. Nesse espaço, onde relatam que se sentem felizes e protegidos, é também o local onde sofrem mais quando algo de errado acontece.

Como agente socializador, a família tem, no amor e no apoio mútuo do casal, o principal determinante para a educação dos filhos, pois é através desses fatores que os pais podem desempenhar a importante tarefa de formar hábitos, atitudes e valores. Como aponta Machado (2001), a família é uma instituição mediadora, que oferece categorias explicativas e reguladoras para os sujeitos e os direciona à ação em busca de ajuda quando se sentem desamparados. O modelo tradicional de educar os filhos, pelo menos aparentemente, parecia ser menos complexo, pois cada membro da família - pai, mãe e filhos - tinha seus papéis definidos e inquestionáveis.

No Brasil, pode-se observar que, além do já mencionado, existem outros fatores que interferem na educação das crianças, como aumento da pobreza, da marginalidade, da violência, da falta de acesso à educação, saúde, moradia. Isso faz com que os pais, muitas vezes, não consigam educar seus filhos de forma adequada e sentem-se obrigados a mudar hábitos, a aceitar situações adversas e a enfrentar problemas para os quais não se sentem preparados.

Gianneti (1994) assevera que o enfraquecimento da família intacta vem tendo efeitos negativos sobre seus elos mais fracos. Mais do que a escola, a família é a principal responsável pela transmissão social de um sentido de valores que induza os mais jovens a desenvolverem suas capacidades morais e cognitivas, nada substitui a presença dos pais, portanto, a família é a primeira, a menor e a mais importante escola.

Ao analisar as particularidades das famílias contemporâneas, Savietto (2010) abordou a questão do valor que a história dos pais assume na história dos filhos, em que contemplam a possível existência de elementos traumáticos não elaborados. Segundo Azevedo e Guerra (2000), crianças que crescem num ambiente violento se tornam adultos violentos, o que se torna um ciclo de violência, que vai passando de geração a geração.

Para Duarte (2005), qualquer família pode vivenciar situações de violência, seja estrutural ou doméstica, e como as crianças e os adolescentes tendem a ser os mais “fracos”, nas relações de poder, sofrem as consequências negativas. Assim, a atenção deve voltar-se para esse grupo.

É sabido que crianças e adolescentes que sofrem ou sofreram algum tipo de violência doméstica apresentam comprometimentos nas mais diversas esferas do desenvolvimento. Um estudo realizado por Aber, Allen, Carlson e Cichetti (1989) comparou crianças vitimadas e não vitimadas com idades entre quatro e oito anos, com o objetivo de verificar os efeitos dos maus-tratos no processo de desenvolvimento dessas crianças. Eles verificaram que não havia diferença significativa entre os grupos. Já Venturini et al.(2004) verificaram exatamente o contrário - que crianças e adolescentes que sofreram algum tipo de violência apresentam um comprometimento significativo em seus desenvolvimentos cognitivo e moral. Partindo dessa constatação, observa-se a influência do contexto violento sobre o processo de desenvolvimento humano que envolve os aspectos físico, psíquico e social.