ÜÇÜNCÜ BÖLÜM
3.11. Dövme Sildirme ve Dövme Kapatma
Segundo Strey e Werba (2001), o gênero é visto como um elemento constitutivo das relações sociais e históricas fundadas sobre diferenças percebidas entre os dois sexos, mas que não são conseqüências diretas nem da biologia, nem da fisiologia e que explicam persistentes desigualdades de todos os tipos entre homens e mulheres. Ainda
segundo as autoras, a violência de gênero envolve ações ou circunstâncias que submetem unidirecionalmente física ou emocionalmente, visível ou invisivelmente as pessoas em função do sexo.
Nesta perspectiva, para D’Oliveira (2000), enquanto o sexo indica uma diferença anatomofisiológica presente no corpo, o gênero refere-se à construção social, material e simbólica, e, é a partir desta construção que se transformam de distintas maneiras, bebês em homens e mulheres.
O conceito de Scott (1995) em relação a gênero, baseia-se na relação entre duas propostas: o gênero como elemento constitutivo das relações sociais, baseado nas diferenças entre os sexos e o gênero como a primeira forma de representar as relações de poder. Desta forma, de acordo com D’Oliveira (2000), o masculino e o feminino são construções sociais fundamentadas nas relações de poder.
No que tange à violência, a condição de mulher construída socialmente, implica em aspectos de vulnerabilidade a um tipo específico de violência: a de gênero. Esta é determinada pelas condições sócio-históricas do que é ser homem ou ser mulher, e assim, as RS com ancoragens sociais nas funções das relações de poder, reforçando a subordinação feminina. Neste sentido, conforme ressalta Giffin (1994), esta condição de gênero determina a existência desse tipo de violência, que ocorre mais frequentemente no espaço socialmente estabelecido para as mulheres: o espaço privado, a família e o domicílio.
A violência praticada contra as pessoas do sexo feminino, simplesmente pela condição de ser mulher, é construída socialmente através dos costumes, educação e meios de comunicação (Portela, 2000), criando assim espaço na sociedade para a dominação masculina e a submissão feminina. De acordo com Rodrigues (2007), este discurso
vitimizador da mulher ao longo da história pode se tornar um obstáculo na luta contra este tipo de violência, perpetuando a situação de desigualdade.
Compreende-se a violência de gênero na direção de Saffioti e Almeida (1995), a qual envolve um eixo de dominação masculina nas mais variadas formas de violência contra a mulher, desde as mais sutis, como ironia, até o homicídio.
Para uma melhor compreensão da violência ancorada nas relações de gênero, é no contexto da violência simbólica (Boourdieu, 1998) que se pode falar na contribuição de mulheres para a produção da violência de gênero, no qual elucida que as relações de dominação não pressupõem a coerção física, sendo exercida em parte, com o consentimento de quem sofre.
Para Bourdieu (1998), a raiz da violência simbólica estaria presente nos símbolos e signos culturais, especialmente no reconhecimento tácito da autoridade exercida por certos grupos. Deste modo, a violência simbólica nem é percebida como violência, mas sim como uma espécie de interdição desenvolvida com base em um respeito que "naturalmente" se exerce de um para outro, como exemplo, a dominação do homem ao longo dos tempos. Segundo o autor, esta dominação se dá pela ação das forças sociais e pela estrutura das normas internas do campo do mundo social em que os indivíduos se inserem, e que de certa maneira se incorporam em seus habitus.
Em outro sentido, para Saffioti (2001) “a própria dominação constitui, por si só, uma violência” (p.04), a qual impregna corpo e alma das categorias sociais dominadas. Trata-se de fenômeno situado aquém da consciência, o que exclui a possibilidade de se pensar em cumplicidade feminina com o homem. Assim, o poder masculino atravessa todas as relações sociais, transforma-se em algo objetivo, traduzindo-se em estruturas hierarquizadas, em objetos, em senso comum. Não obstante, para a autora, nem todo
conhecimento é determinado pelas lentes do gênero, graças a isto, mulheres podem oferecer resistência ao processo de exploração-dominação que sobre elas se abate.
Scott (1995) aponta um outro ângulo analítico para se pensar sobre a violência de gênero, não só sob a ótica da dominação masculina, mas também para além dela. Neste sentido, esta autora leva em conta suas três principais características da violência contra a mulher: dimensão relacional, construção social das diferenças percebidas entre os sexos e o campo primordial, onde o poder se articula, levando em conta seu caráter relacional e histórico. Para o desenvolvimento deste conceito, recorre-se à noção de poder de Foucault (1981), como um poder in fluxo (nem fixo nem localizado numa pessoa ou instituição) que se organiza segundo o “campo de forças”. Desta forma, é preciso examinar as formas pelas quais as identidades generificadas são construídas e relacionar seus achados com toda uma série de atividades, organizações e representações sociais historicamente específicas.
Neste contexto, se o poder se articula segundo o "campo de forças", e se homens e mulheres detêm parcelas de poder, embora de forma desigual, cada um lança mão das suas estratégias de poder, dominação e submissão (Araújo, 2008; Saffioti, 2001). Portanto, pode-se dizer que a violência contra a mulher não é um fenômeno único e não acontece da mesma forma nos diferentes contextos, ela tem aspectos semelhantes mas também diferentes em função da singularidade dos sujeitos envolvidos.
Apesar da desigualdade de poder nas relações de gênero, cada situação tem uma dinâmica própria. Por isso, na análise e compreensão da violência contra a mulher, é fundamental levar em conta aspectos universais e particulares de forma a apreender a diversidade do fenômeno.