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Ainda com o propósito de analisar os aspectos humanos e existenciais como partes integrantes1 da autoformação dos educadores transdisciplinares, apresento a subcategoria Formação Transdisciplinar, que foi formada pelas questões 3, 4, 5, 8, 19 e 20 das entrevistas realizadas com os formadores transdisciplinares.

Ao interrogar os entrevistados sobre que significados eles têm para considerar na formação dos educadores transdisciplinares, foram unânimes em seus depoimentos na possibilidade de articular visão e atitude na ação formativa; ora pelo “diálogo, busca pela essência, sensibilidade, intuição, criatividade, desejos, vontades e sonhos” que se mostram por inteiro, ora pelos “sentimentos, vontades, dificuldades e experiências”. Outro ponto foi a coerência com os princípios de “abertura, rigor e tolerância”, o que implica em um o formador com um olhar ampliado e luxuoso, olhar mais cuidadoso e envolvido numa rede disciplinar, interdisciplinar e transdisciplinar que se interconecta. O educador busca vivenciar vários princípios transdisciplinares para poder ser mediador de mudanças e inovações.

“Acredito que os aspectos humanos envolvidos nos educadores devem estar presentes em suas atitudes, ou seja, ser transdisciplinar é estar diante do saber, colaborar para o desenvolvimento humano e a ética. Por isso, é importante que deixe aflorar seu potencial existencial, quero dizer: sentimentos, desejos, sonhos, intuição. Esses aspectos são fundamentais para o desenvolvimento do ser humano. Pierre já dizia isso nas suas palestras de formação. Tínhamos que nos despir e ver a nossa essência. A nossa sociedade sempre nos reprimiu para aquilo que não tinha explicações científicas, mas, agora, temos que resgatar o tempo perdido e superar os obstáculos que nós mesmos construímos.”

Outra necessidade apontada pelos formadores foi a possibilidade de se repensar a formação do educador a partir da compreensão do conjunto de suas complexas interações com o seu ambiente de trabalho, com seu aprendizado, nas interações e nos diálogos entre as diversas possibilidades autoformativas: experiencial, didática e existencial.

Quando relaciono a palavra formação estou me referindo à formação pedagógica do educador. Explicitando melhor, trato aqui dessa palavra como um processo permanente de vir-a-ser-sendo que envolve questões muito complexas, na medida em que relaciono a esse tema não somente o período acadêmico, mas toda a vida profissional e pessoal do sujeito.

A formação transdisciplinar torna-se, então, função dos processos da evolução humana. Nessa dinâmica, o educador transdisciplinar torna-se autorreferencial, como refere um dos formadores entrevistados: “Privilegiar a co- formação e o processo de formação contínua, ou seja, ser transdisciplinar, é buscar a realização, porque, uma vez consciente, o ser humano torna-se não apenas capaz de compreender a realidade, mas consegue refletir sobre os fatos e as consequências de seus atos, palavras e pensamentos, e, também, consegue decidir sobre como manter ou transformar essa realidade da qual tomou conhecimento. Gosto muito de falar e entender sobre os níveis de realidade que podem estar presentes no ‘interior’ (conceitos e atitudes estabelecidos em nível psicológico) e o ‘exterior’ (conceitos e atitudes estabelecidos em nível social) da formação do educador.”

Nesse sentido, a autoformação desenvolve os processos de autoconhecimento, da busca do “conhece-te a ti mesmo”, na escuta dos sons e dos silêncios de nossa singularidade mais interna e externa. Na heteroformação, compreendem-se os processos de formação em tramas intersubjetivas mediante as heterogeneidades da cultura na dinâmica das relações sociais. Na ecoformação, então, vislumbra-se a formação que considera o local e o global, a parte e o todo, a imanência e a transcendência, que são assim compreendidos como aspectos visceralmente interligados e complementares, nos quais ser humano e natureza coexistem de modo dialógico e interdependente no vigor da fraternidade cósmica, da unitas multiplex. Assim, é viável a criação de espaços de convivência, de interação e de reflexão para que os educadores transdisciplinares interajam com o seu entorno, com seu meio de convivência e aprendizagem e reflitam sobre seu próprio processo de atuação.

Para uma formação transdisciplinar significativa, consistente e integral, ao longo da vida, por meio das múltiplas interações que nos ligam ao nosso contexto existencial, “é primordial a busca pela própria existência, favorecimento da vida, ou seja, buscar a humanidade que existe em cada um e colocar o homem como o centro do filosofar”. É preciso pensar, saber e ser, ter um olhar luxuoso sobre o educador. Uma atenção especial ao inteiro, “a vida sendo entendida como um holograma”.

Essas ideias retiradas das entrevistas estão relacionadas à “necessidade de discernimento, tolerância, respeito, alegria, simplicidade e clareza de nossos atos e desejos”. Para isso, temos que juntar o novo ao que já existe e, assim, transcendermos a tudo e nos percebermos como seres contextualizados no todo. “Isso é existencialidade e ter consciência da autoformação.”

Uma das possibilidades é a “conexão dos saberes”, como nos propôs a maioria dos entrevistados, quando afirmaram que “conectar os saberes é focar a existência que se constitui em um aprendizado diário, uma experiência para ser compartilhada, trabalho colaborativo com a ciência, as artes, a filosofia e as tradições sapienciais.” Os saberes dessas quatro áreas são trabalhados de forma conjunta, numa rede de autodesenvolvimento, vivenciado na espiritualidade do ser.

Assim, “a epistemologia transdisciplinar se faz na experiência: conforme o formador vai se abrindo para o novo, mais se sente capaz de proporcionar uma epistemologia transdisciplinar. Acho que, na verdade, não temos uma epistemologia transdisciplinar, mas ela se faz no caminho percorrido em cada experiência que temos, pelas atitudes que temos, com as vivências escolhidas. Acho que é isso!”

Para complementar essa questão, uso um poema de Antonio Machado (1973), que diz:

Caminhante, são tuas pegadas, caminho e nada mais; Caminhante, não há caminho, se faz o caminho ao andar.

Ao andar se faz o caminho,

e ao voltar a vista atrás, e vê a senda que nunca, se há de voltar a pisar.

Caminhante, não há caminho, somente marcas no mar

Esse poema imprime uma condição de procura e existencialidade, e o que se encontra no caminho são premissas que sinalizam as marcas do caminhar

transdisciplinar presentes nos depoimentos dos formadores transdisciplinares entrevistados (quadro 10).

Quadro 10: Premissas da autoformação do educador transdisciplinar

HISTÓRIA DE VIDA LÓGICA DO TERCEIRO

INCLUÍDO

Benzer Belgeler