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3.4. Ampirik Uygulama

3.4.3. Model ve Veri Seti

 

Segundo Hannah Arendt, os estado autoritários estruturam-se na forma de cebola, de maneira a manter o segredo no centro, protegido contra os choques exteriores. O segredo, entretanto, não é um artifício que caracteriza exclusivamente os estados totalitários. Com efeito, o recurso ao segredo permeia todas as formas de organização política em maior ou menor grau, sob a égide do discurso da razão de estado.

Assim, estados autoritários e até mesmo estados democráticos, também se utilizam amplamente desse recurso. A história é farta em exemplos nesse sentido. O caso de Eduard Snowden é paradigmático ao sinalizar que mesmo em estados democráticos os

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Idem, p. 21.

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RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas: Editora Unicamp, 2007. p. 294.

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Fukuyama assinala “qualquer grupo social que tenha desenvolvido uma capacidade cognitiva ligeiramente melhor de usar e interpretar a linguagem e, portanto, para detectar a mentira, conseguiu vantagens sobre os concorrentes”. FUKUYAMA, Francis. The Origins of Political Order.London: Profile Books, 2012, p.35.

dilemas entre a verdade e o segredo são inquietantes. O ex-agente de inteligência americana trouxe a público o monitoramento de todo o fluxo de informações a nível global, realizado pelos Estados Unidos, contando com o apoio de outros países. Revela assim duas facetas do dilema em torno do direito à informação: o fato de as mensagens estarem sendo monitoradas de forma sigilosa, sem qualquer mecanismo de controle do poder estatal e o direito à privacidade dos indivíduos, países e entidades monitorados.

Outro exemplo do dilema entre verdade e segredo consiste na não abertura dos arquivos referentes ao período da ditadura militar no Brasil para as investigações da Comissão Nacional da Verdade. A obstacularização do acesso aos arquivos coloca sérios entraves ao cumprimento das obrigações de direitos humanos por parte do estado. O fenômeno de manutenção do sigilo dos documentos militares revela-se como uma problemática frequente. A mesma dificuldade foi enfrentada pela CAVR em Timor-Leste, a quem foi negado o aceso aos arquivos dos militares indonésios. Solução diametralmente oposta foi adotada na Alemanha, onde todos os arquivos dos antigos órgãos de repressão e investigação foram abertos ao público.

De maneira que mesmo nos estados democráticos, o segredo é utilizado como ferramenta de política de estado.Com efeito, há certas esferas de decisão que para serem tomadas, ou para serem efetivas, primeiro devem passar por um processo de deliberação de alguma forma excludente do conhecimento de toda a população. Entretanto, tais temas devem ser reduzidos somente ao estritamente necessário. Nesse sentido, não se pode presumir a necessidade de sigilo, devendo ela ser muito bem fundamentada, sob o risco de tornar-se abusivo. A esse respeito assinala Sisella Bok:

[Referida] tendência de ampliação do segredo administrativo aumenta as chances de abuso, sobretudo entre os funcionários com um elevado senso de encargo e de estar acima das considerações morais comuns. Quando um governo desenvolve poderes de polícia secreta ou de controle sobre a censura, os riscos são ainda maiores. O sigilo pode, então, tornar-se um fim em si mesmo, criando mudanças sutis naqueles que o exercem, na forma como eles vêm a si mesmos, e na sua propensão em manipular e coagir a fim de manter o segredo e, assim, proteger-se. Ao utilizarem o véu do segredo para cometer os crimes, buscam por uma proteção cada vez mais abrangente.130

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“Such a tendency for administrative secrecy to spread increases the chances of abuse, especially among officials with a strong sense of mission and of being above ordinary moral considerations. When a government develops secret police powers or control over censorship, the risks are even greater. Secrecy can then become an end in itself, creating subtle changes in those who exercise it, in how they see themselves, and in their willingness to manipulate and coerce in order to uphold secrecy and thus shield themselves. To the extent that they have used the cover of secrecy to commit crimes, they reach out for ever greater

Ainda que em algumas situações o segredo de estado seja imprescindível à manutenção da própria soberania, é pertinente indagar a respeito dos limites desse segredo. Conforme apontado, não se pode presumir a legitimidade da manutenção do sigilo. Ao contrário, em princípio todas as decisões tomadas em nome do estado devem ser públicas para que se submetam ao escrutínio da população. Especialmente quando se tratam de violações de direitos humanos, a manutenção do sigilo mostra-se inadmissível, porque incompatível com as obrigações e funções do próprio estado de assegurar tais direitos.

Com efeito, a segurança e a manutenção da soberania do estado não são suficientes para justificar o segredo em relação a violações de direitos humanos. É certo que em casos de estado de sítio e emergência revele-se necessária a restrição parcial de determinadas liberdades fundamentais. Entretanto, tais situações não justificam por si só a violação massiva de direitos humanos, nem tampouco sua ocultação.

A dicotomia entre segredo e verdade coloca questões morais às escolhas políticas, assim como o dilema entre verdade e mentira. O segredo não se confunde com a mentira, pois erige barreiras, diferenciando o grupo seleto que possui acesso à informação. Por outro lado, a mentira se caracteriza pelo desvirtuamento deliberado da verdade. A mentira, assim como o segredo, também é utilizada como forma de dominação e de manutenção do poder. A respeito da utilização da mentira assinala Celso Lafer:

Ora, a mentira, nos sistemas políticos tradicionais, era limitada porque, sendo limitada a participação política, ela não implicava normalmente em auto-ilusão. Entretanto, no mundo contemporâneo, estas distinções tendem a desaparecer porque a novas técnicas de comunicação somadas à incorporação das massas nos sistema políticos levaram a novas modalidades de manipulação da opinião131

É certo que os novos meios de comunicação inauguram uma nova fase na relação entre estado e indivíduos, colocando novos métodos de manipulação das verdades, mas também abrindo caminho para o maior acesso à informação. De maneira que a internet, e a televisão ao mesmo tempo em que podem servir como instrumento de ilusão que favorecem ideologias e elementos do autoritarismo, podem também servir em favor de uma maior fiscalização da atuação estatal.

protection”. BOK, Sissela. Secrets – On the Ethics of Concealment and Revelation.New York: Vintage Books, 1989. p. 177, tradução livre.

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Assim, os limites a serem traçados entre a publicização de informações, a preservação da privacidade e os interesses de estado colocam questões éticas em torno das quais é necessário refletir. Mas, o que é certo é que antagonismo entre direito à verdade e a mentira ou direito à verdade e segredo, fundados na razão de estado, não são suficientes para justificar o mascaramento de violações de direitos humanos.

Não obstante, a realidade revela que frequentemente a escala de valores entre direitos humanos e razão de estado é invertida. Diante de tal fenômeno, o fortalecimento de instancias de fiscalização, de mobilização da sociedade civil e de mecanismos internacionais de proteção dos direitos humanos são essenciais para assegurar o respeito aos direitos humanos por parte dos estados e o amplo acesso à informação.

3. A COMISSÃO DE ACOLHIMENTO, VERDADE E

Benzer Belgeler