Por não se tratar do foco deste trabalho, as funções de rendimento (11) e (12) estimadas não são analisadas em detalhes. Os resultados dessas regressões estão retratados no Anexo, Tabelas A1 e A2. Segundo a Tabela 2, estima-se que, da renda familiar média observada, cerca de 82% é de caráter permanente. Ou seja, na média, as famílias estão
incorrendo em ganhos transitórios em sua renda. No componente de renda do trabalho, o ganho transitório sobre a parte permanente chega a quase 30% (1,293573 na Tabela 2). No componente de remuneração de ativos, porém, o valor esperado é 17% maior que o valor observado (1/0,853115).
Tab. 2 – Estatística das rendas anuais permanente e transitório estimadas das famílias
Variável média erro padrão renda permanente do trabalho 11250.84 167.76 desvio transitório da renda trabalho 1.293573 0.008718 renda permanente de ativos 3734.24 93.86 desvio transitório da renda de ativos 0.853115 0.100825 renda familiar permanente 17773.70 232.65 desvio transitório da renda familiar permanente 1.226271 0.008180 Número de observações 47407 Número de estratos 443 Tamanho da população 47329693 Número de UPAs 3992
Design df 3549
Fonte: elaboração própria a partir de dados da POF 2002-2003.
Com os componentes permanente e transitório das rendas definidos por família, as regressões correspondentes à função de consumo (18) são estimadas, ver Tabela 3. Em todas as regressões quantílicas, identifica-se que β2q (referente ao logaritmo da renda permanente) é significativamente maior que β3q (referente ao logaritmo do desvio transitório). Ou seja, apesar de não ser pleno, com β2q =1 e β3q =0, de acordo com os testes na Tabela 3, as
famílias seguem, em média, um comportamento de suavização de seu consumo, com uma maior propensão à gastar sua renda esperada e poupar ganhos transitórios.
As funções centradas nos quantis de 10%, 30%, 50% e 70% mostraram uma sensibilidade muito semelhante a ambos componentes da renda familiar. Em termos gerais, verifica-se que as famílias gerenciam, em parte, a incerteza na sua renda com medidas de caráter ex-ante, por meio de uma poupança de precaução, e de caráter ex-post, na antecipação do choque transitório. De acordo com essas regressões, nos quatro primeiros quantis, a elasticidade do consumo à renda permanente é de aproximadamente 0,8, enquanto a elasticidade ao desvio transitório é em torno de 0,62, nos quantis 0,1 e 0,7, e em torno de 0,65, nos quantis 0,3 e 0,5. No entanto, é justamente no quantil mais elevado (90%) que as famílias possuem maior propensão à poupança de precaução, com elasticidade do consumo ao ganho esperado de 0,74, sendo ainda menos sensíveis a choques, com elasticidade estimada de 0,54.
Tab. 3 – Resultados das regressões quantílicas da função log-linear do consumo das famílias
Coeficientes
Covariantes Quantil 10% Quantil 30% Quantil 50% Quantil 70% Quantil 90% Log da renda permanente (1) 0.808513 0.810142 0.804884 0.794431 0.741198 Log do desvio transitório (2) 0.622363 0.651527 0.641967 0.617786 0.544591 n. de membros da família 0.096430 0.071676 0.054581 0.037352 0.062739 n. quadrático de membros -0.011178 -0.008613 -0.006786 -0.004816 -0.009786 n. cúbico de membros 0.000365 0.000296 0.000273 0.000192 0.000427 Proporção na família de homens
entre 6 e 10 anos de idade 0.034778 0.023372 -0.037234 -0.058207 -0.034690 entre 11 e 14 anos de idade 0.102205 0.091518 0.047884 0.027008 0.058777 entre 15 e 19 anos de idade 0.077689 0.106949 0.044842 0.019033 0.138706 entre 20 e 34 anos de idade -0.002168 -0.048293 -0.064456 -0.098826 0.010259 entre 35 e 49 anos de idade -0.146693 -0.112686 -0.172880 -0.193771 -0.052369 entre 50 e 59 anos de idade -0.143196 -0.093304 -0.172407 -0.204218 -0.111242 mais de 60 anos de idade -0.072794 -0.070265 -0.096396 -0.140724 -0.090378 Proporção na família de mulheres
entre 6 e 10 anos de idade 0.021445 0.022801 -0.021269 -0.069300 0.047474 entre 11 e 14 anos de idade 0.113844 0.053709 0.032377 0.064704 0.146161 entre 15 e 19 anos de idade 0.220601 0.157909 0.131180 0.068677 0.163182 entre 20 e 34 anos de idade 0.250564 0.200060 0.103755 -0.027334 0.012593 entre 35 e 49 anos de idade 0.179082 0.142107 0.098698 -0.005578 0.017717 entre 50 e 59 anos de idade 0.123003 0.096596 0.030890 -0.073469 -0.064843 mais de 60 anos de idade -0.080725 -0.034257 -0.107096 -0.215518 -0.159722 Constante 0.861666 1.276000 1.645598 2.084348 2.857096 Soma de desvios da linha 14378.48 28831.27 33733.89 30048.52 15531.57 sobre 8.21010 8.83453 9.27648 9.75756 10.48825 Soma de desvios mínima 8548.176 16127.560 18364.820 16160.580 8474.442 Pseudo R2 0.4055 0.4406 0.4556 0.4622 0.4544 Testes (Prob > F) beta(1)=1 e beta(2)=0 0.0000 0.0000 0.0000 0.0000 0.0000 beta(1)=1 0.0000 0.0000 0.0000 0.0000 0.0000 beta(2)=0 0.0000 0.0000 0.0000 0.0000 0.0000 beta(1)=beta(2) 0.0000 0.0000 0.0000 0.0000 0.0000 Número de observações 47407 47407 47407 47407 47407 Tamanho da população 47329693 47329693 47329693 47329693 47329693 Nota: coeficientes significativos a 1% em negrito e a 5% em itálico.
Fonte: elaboração própria a partir de dados da POF 2002-2003.
Em relação ao efeito de composição das famílias sobre o consumo autônomo da renda, identifica-se que o nascimento de um filho aumenta o consumo autônomo das famílias, em média, entre 3% e 7%, dependendo do quantil centrado, considerando que o tamanho médio das famílias é de 3,63 membros. Importante salientar que a função de consumo em relação ao tamanho da família possui formato côncavo, em escalas menores, e convexo, em escalas maiores, com exceção da função centrada no quantil 0,7. Ou seja, o consumo autônomo aumenta com o acréscimo de membros a taxas decrescentes até determinada escala. Em famílias maiores, com mais de oito ou nove integrantes, essas taxas são crescentes.
Com as regressões quantílicas apresentando alguma distinção em seus resultados, tanto em termos de gerenciamento do risco quanto de consumo autônomo, a tipologia das famílias é definida de acordo com sua proximidade observada às regressões plotadas, conforme a expressão (19). A Tabela 4 sumariza as estatísticas de consumo estimadas para cada tipo de família.
Tab. 4 – Estatística dos gastos equivalentes estimados com consumo, padronizados pela linha
de pobreza unitária, e desvios transitórios por tipo de família
média
Variável tipo q=0.1 tipo q=0.3 tipo q=0.5 tipo q=0.7 tipo q=0.9 gasto equivalente com consumo estimado 1.63599 2.20325 3.04026 4.28154 5.67950 gasto equivalente com consumo permanente 1.50779 2.03268 2.82847 3.97384 5.15883 desvio transitório do consumo 1.09233 1.09439 1.08735 1.08796 1.07891 desvio transitório da renda 1.25574 1.20960 1.20405 1.21511 1.25562 Número de observações 9279 10031 9805 9977 8315 Tamanho da população 8597494 10161953 9958083 10090778 8521386 Fonte: elaboração própria a partir de dados da POF 2002-2003 e Rocha (2003).
Pela Tabela 4, verifica-se que o consumo equivalente permanente aumenta, em média, junto com o consumo equivalente total estimado, havendo uma grande diferença entre os tipos de famílias. Em termos transitórios, apesar de muito próximos, três grupos são identificados envolvendo os tipos 0,1 e 0,3, os tipos 0,5 e 0,7 e o tipo 0,9. No primeiro, o desvio transitório no consumo é próximo a 9,3%; no segundo, esse desvio está em torno de 8,7%; e no terceiro grupo, o desvio é de 7,9%. Apesar de serem atribuídas elasticidades distintas, a semelhança entre alguns tipos nos desvios transitórios do consumo ocorre porque a renda transitória é relativamente maior onde a sensibilidade a ela é menor.
Cabe salientar ainda que, levando em consideração as respostas das famílias à incerteza em sua renda, o desvio transitório do consumo é significativamente menor que o desvio transitório da renda para todos os tipos de famílias. A conseqüência disso será uma vulnerabilidade de consumo de caráter mais permanente do que de risco, em relação a uma medida pautada somente na renda.