Gréve na fabrica de tecidos de Nemi Jafet.
Os trabalhadores desta fábrica, situada no Ipiranga, acham-se em gréve. Porque?
O jornalismo burgues já forneceu as melhores informações favoráveis ao patrão. Vejamos as nossas:
Obrigado pelas circunstancias o patrão resolveu suprimir a turma de meninos que trabalham á noite.
Meninos de 8 anos trabalhavam mais horas de noite do que anos teem de vida: desde as 6 horas da tarde até as 6 horas da manhã, por um formidavel salario de 400 a 600 reis, que seguramente sobra para tomar um coupo de agua.
Esta turma passou a trabalhar de dia mas o patrão achou que os meninos iam fazer a America em pouco tempo e resolveu reduzir-lhe o salario.
Em consequencia os meninos disseram-lhe que nessas condições fize-se ele o serviço.
A negativa dos menores foi tomada pelo burgues como falta de educação e tratioude forçal-os a trabalhar a tiro.
Os operarios calmaram com a sua digna atitude a furira do heroe, pelo que no dia 22 quando voltaram ao trabalho encontraram a fabrica cercada pela policia, a qual não permitia a entrada a nenhum operario e ameaçava a todo o mundo com as suas armas de
boa gente.
A fabrica não tornaria a abrir-se emquanto os menores não aceitassem as condições patronais.
Em vista disso os operraios apresentaram uma tabela de salarios exigindo o aumento de 20 ojo sobre os atuais salarios e o horário de 10 horas de trabalho.
A policia, para manter a ordem, espancou, sem motivo, o operario Francisco Trubillano Garcia e outro, que protestou contra o espancamento dos meninos.
No dia 24 os miliciantes prenderam e maltrataram brutalmente 3 operarias. Não existe os suplícios que anteriormente se aplicavam aos escravos. Simplesmente os instrumentos de torturas estão modernizados.192
Graco, ao elaborar reflexões demolidoras sobre o caráter violento, classista e explorador do Estado e de instituições afins, abordou outras questões relacionadas. Iniciou o artigo demonstrando o papel da imprensa comercial na manutenção e reprodução das relações sociais de domínio e exploração. À imprensa burguesa caberia o papel de formadora da opinião pública, apresentando alguns assuntos de maneira favorável às classes dirigentes e, simultaneamente, relegando ao esquecimento certos assuntos, sempre de acordo com os interesses em jogo.
Abordou também o tema das leis sociais ou protetoras, apresentando-as enquanto instrumentos de controle, manipulação e acomodação dos trabalhadores. Isto porque significaria um campo de esperanças sobre o qual o proletariado, acreditando em sua eficácia e validade, adotaria posturas resignadas, na esperança de uma mudança futura. Enfim, a lição do artigo aponta para a nulidade da lei uma vez que, entre o que ela determina e sua aplicação, existe uma distância astronômica. Apontou, por fim, o papel subserviente da imprensa comercial, para a nocividade do Estado e de instituições convergentes com a intenção de governar a população. Ao mesmo tempo os destinos dos trabalhadores foram afirmados como estando unicamente nas mãos dos próprios trabalhadores.
Conducta do govêrno
e do Patronato Agricola. ____
A “Gazeta” e outros jornais diarios, andam com olofotes em procura de argumentos para defender a conducta do govêrno e do Patronato Agricola; e nesse trabalho desempenham-se afanosamente, porque cada aparente composição
192 GUERRA social – Gréve na fabrica de tecidos de Nemi Jafet. Edição especial do “Germinal!” e da “Barricata”
declamatoria das virtudes governamentais vale varias libras esterlinas. O serviço é feito por empreitada e, por isso, á falta de argumentos, de cada disparate fazem uma “luminosa” inspiração para o seu postulado, negociado no mercado da consciencia e da dignidade.
Ha muito tempo que o govêrno rouba dinheiro ao pôvô, aos escravos que aqui vegetam e morrem de fome, ou se suicidam por falta de trabalho, e com o fruto desse roubo subvenciona as companhias de navegação, para estimular a negociata, a falcatrua, e conduzir para aqui milhares de familias de escravos brancos e entrega-las aos fazendeiros, para que as explorem miseravelmente.
Se os fazendeiros fazem actualmente um pedido de 9000 familias é porque a maioria das que, iludidas, caem nas fazendas, tratam de fugir rapidamente para salvar a pele.
O Patronato Agricola foi creado para favorecer os fazendeiros em suas explorações contra os colonos.
Pouco importa que, pela Lei Federal n. 6.487 de 27 de março de 1907 torna-se privilegiada a divida proveniente de salarios de operarios rurais, e esta lei e o Decreto Estadual n. 1.299-A, de 27 de dezembro de 1911, traçasem a orbita das diferentes atribuições dessa nova instituição burocrática.
A lei é um pretexto para organizar comanditas de individuos cuja obra é obrigar os pobres a fazer o que convem aos interesses dos ricos.
Os legisladores fazem a lei, e os encarregados de executa-la fazem o que muito bem entendem, ou o que os argentarios lhes mandam fazer.
As leis protectoras são mais um insulto atirado á face dos trabalhadores.
As atribuições do Patronato eram, entre outras, “intentar e patrocinar causas para cobranças de salarios agricolas e para o fiel cumprimento dos contractos segundo a legislação vigente”.
A’ “Gazeta” não lhe consta que em Ribeirão Preto os “lavradores” – que lavradores! – se negassem a retribuir os serviços dos colonos.
Até no Polo Norte se sabe que os 140 colonos ha pouco expatriados, não receberam os seus salarios. Só receberam dos “lavradores” a promessa de que sómente depois da colheita se trataria disso.
A única verdade publicada pela “Gazeta” é que o “Patronato Agricola” se conduziu rigorosamente de acôrdo com as regras extruturais e os moldes genesíacos que presidiram á sua organização.
Esta é a única verdade, porque os contratos são totalmente desfavoraveis aos colonos. O conjunto das bases do contrato resume-se, para os contratados em DEVERES, OBRIGAÇÕES E MULTAS.
Os moldes genesíacos da organização do Patronato são os mesmos do regime capitalista, e teen por fim intensificar a exploração e coagir os trabalhadores rurais, como as sociedades patronais das cidades teem por fim extender a exploração e oprimir os operarios.
Os trabalhadores do campo e nós tambem, temos no Patronato Agricola mais uma instituição escravista a combater e destruir.193
Massena, partindo da narração de um episódio em que um juiz proibira a crianças o exercício da profissão de cantores com a justificativa de ser esta atividade exaustiva e de, principalmente, ser uma atividade imoral, teceu críticas a esta postura do magistrado. Nesta direção, problematizou estes posicionamentos apresentando como crítica o fato da existência da
superexploração do trabalho infantil nas fábricas e oficinas se dar com a total anuência e tolerância das autoridades. Mais que tolerar, as autoridades se empenhavam na conservação da situação de violência e exploração infligida às crianças. Através de um diálogo fictício, o articulista levou aos limites a lógica proibicionista dos magistrados, por ser, de um lado, insensível e, de outro lado, preconceituosa. A moral convencional oferece o material para o estabelecimento destes convencionalismos.
DÙVIDAS. ___
Tambem nòs somos inimigos irreductivèis daqueles que, em proveito proprio, exploram a infancia, obrigando a a trabalhos excessivos ou visivelmente imoraes. E assim, o acto do “digno” promotor publico, tentando impedir que duas creanças continuem a cantar no Politeama, mereceria todos os nossos aplausos, si não nos assaltassem algumas dùvidas que desejamos ver esclarecidas pelos competentes:
- Póde a justiça social impedir que os menores exerçam uma profissão qualquer, sob o pretexto de que essa profissão é antiigienica, exaustiva e imoral?
- Si, póde, porque deixa a justiça pùblica que milhares e milhares de menores lentamente se asfixiem e lentamente morram nas fabricas de tecidos, nas oficinas de costura, nas fundições, nas minas, nos armazéns, sob a carga excessiva de um trabalho implacavel?
- Ora, respondereis, essas profissões são apenas mortíferas, ao passo que o teatro é imoral! São os precalços da pobreza. Quem mandou nascerem pobres essas crianças? Pouco nos impota que elas morram nas fabricas, contanto que arrebentem de acordo com as regras de nossa infalivel e respeitabilissima Moral!
- Mas a moral è uma coisa relativa, muda com os logares e com os tempos; qual é pois a medida, qual o critério, qual o codigo da imoralidade? A nosso vèr, por exemplo, a profissão de cantor público nada tem de imoral, como julgais! Ainda hontem vimos no Politeama senhoras e cavalheiros respeitaveis que certamente lá não iriam si a profissão daquellas crianças tivesse alguma cousa de vergonhoso ou desonesto. E, digamos de passagem, achamos mais desonesto, mais dissolvente do carater popular, o pernicioso exemplo do tão aplaudido Geraldo, sujeito robusto, que podia ser util á humanidade e que no emtanto prefere, sem que ninguem proíba, viver suavemente cantando cançonetas brejeiras!
- Mas, tal profissão é exaustiva, retrucareis; imagine só isto de ficar uma criança até meia noite sem dormir!
- E’ suavissima, dizemos nós, comparada com o duro oficio dos tecelões, das lavandeiras, dos pedreiros, dos carregadores e tantos outros.
- Mas è uma exploração dos pais vadios, que não querem trabalhar!
- E tendes certeza de que as outras não o são? E achais que os pais não têm o direito de, aproveitando a aptidão especial, revelada pelos filhos, para uma carreira suave e rendosa, dastina-los desde cedo a esse oficio, preparando-lhes um futuro relativamente feliz?
- Fóra da moral não ha felicidade, direis.
- Pois bem, mas acaso o ambiente de uma fabrica é mais moral do que o de um teatro? Parece um paradoxo, lède porém as vivas descrições dos escritores naturalistas,
que procuram representar a vida tal qual ela é, e vereis que a horrível promiscuidade das fabricas, associada à ignorancia das crianças e á brutalidade e estupidez dos homens, gera ali os vicios mais baixos, mais precoces, mais assustadores que a humanidade jamais viu.
Consideramos o jornal como um campo neutro onde todas as opiniões livremente se debatem, para que desse mesmo conflicto possa surgir a rutilante Verdade; e assim não serà para extranhar que alguns dos nossos dignos colaboradores manifestem opiniões diametralmente opostas a estas. Mas é bem possivel que muitos desses nossos ilustres e amáveis letrados, os quais tão gentilmente se confrangem perante aquelas duas meninas que ganham a vida cantando, tenham passado indiferentes e felizes ao pé das horriveis fabricas, dos perfidos matadouros, onde, não duas, porèm milhares de crianças, transformadas em maquinas humanas, se estiolam e arrebentam sob o jugo, onde, não duas, porèm milhares de crianças, transformadas em maquinas humanas, se estiolam e arrebentam sob o jugo de um trabalho assassino!194
A situação dos trabalhadores das fazendas também era de extrema exploração e violência. Homens, mulheres e crianças viviam sob um domínio tão intenso quanto o da antiga escravidão negra. O tratamento dado aos reclames e protestos dos colonos era o mesmo dispensado aos escravos negros antes da abolição da escravatura. O articulista registrou a continuidade dos hábitos dos antigos negreiros explorando, controlando e punindo, com torturas ou assassinando os trabalhadores. Mesmo o trabalhador dócil e colaborador não escapava aos abusos e arbítrios dos fazendeiros.
GRÉVE DE COLONOS EM RIBEIRÃO PRETO