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AÇOUGUES MODERNOS.

NOS BALCANS

A guerra entre a Grecia , a Servia e a Rumania contra a Bulgária, foi iniciada com tanta ou mais violencia do que a dos aliados contra a Turquia.

Apenas romperam as hostilidades e já se contam mais de 30.0000 homens mortos e 50.000 feridos.

Varias cidades teem sido saqueadas e devoradas pelo incendio.

Estre estas cidades conta se a de Ceres que, segundo um telegrama, foi incendiada pelo irregulares gregos. Empenhados em completar a sua obra patriotica, os irregulares gregos massacraram 200 soldados bulgaros e grande numero de velhos, mulheres e crianças.

Atenas vai em progresso. Em lustros não remotos, quando cultivou as letras, as artes, as sciencias e a filosofia, brilhou pela sua civilisação; nos lustros contemporaneos em que cultiva o civismo e a moral do Estado, brilha pela sua barbarie.

NA CIRENAICA

O canhão papalino não cessou de anunciar a civilização cristã nos áridos campos da Cirenaica.

Os exercitos italianos continuam a avançar exterminando os habitantes do pais. As ultimas noticias dizem que uma coluna italiana travou combate com um grupo de beduinos, o qual durou tres horas.

Houve grande numero de mortos e feridos, de ambos os lados. Outra coluna atacou “El Gaffe” bombardeando o campo beduino.

Tudo se explica, menos a participação da mocidade italiana nessa empresa de morte, de desolação e exterminio, onde os proletarios vão sacrificar a sua vida ou saude, representando o papel de assassinos, para beneficiar os financeiros da peninsula. EM MARROCOS

As legiões francesa e espenhola em Marrocos tambem não perdem tempo. Os capitalistas como Montero Rios, Romanones e outros, que são a honra e gloria nacional, vêem aumentados os seus capitais e possessões, ao passo que as familias dos soldados andam errantes e com faces cadavéricas, pedindo de porta em porta um pedaço de pão.

Uns morrem na guerra de pilhagem e outros, desamparados, morrem por falta dos seus unicos sustentáculos que vão expor a vida em defeza da patria...

São assim os açougues modernos.238

Fábio Luz239 em seu opúsculo A internacional negra teceu reflexões nesta mesma linha de raciocínio. Em suas ponderações, a igreja católica se voltou à questão social rendida pelos protestos e organização dos trabalhadores. Visando opor-se às tendências revolucionárias do movimento operário, a igreja inicia uma abordagem da questão social visando manter domínio. Fábio Luz sustentou que a religiosidade deveria ser livre. Contudo, o objetivo da igreja católica é reestabelecer um império mundial tendo na figura do papa um novo imperador. Com este objetivo, ela se transmuta em diversas formas de acordo com a situação para alcançar suas finalidades. É assim que compôs com os poderes gonvernamentais e, ao mesmo tempo, procurou intervir no movimento dos trabalhadores, procurando disseminar postulados de resignação, obediência e esperança.

Dentro desta temática crítica da religião, José Martins240 escreveu rebatendo a idéia

propagada por alguns religiosos resumindo a questão social a uma questão religiosa. Neste seu escrito assinalou a proveniência religiosa das soluções apresentadas por governantes, como de pretendentes à governança. Abarcou, nesta sua crítica à religião, as mais diversas correntes doutrinárias e espiritualistas: maçonaria, espiritismo, budismo, confucionismo, catolicismo, protestantismo.

Em seu modo de ver, nenhuma destas expressões espiritualistas tocou no tema da desigualdade social. Suas ponderações em torno dos problemas sociais excluíam qualquer questionamento em torno da exploração do trabalhador pelas classes dominantes. No geral, estas

238 AÇOUGUES MODERNOS. Germinal! São Paulo, ano 1, n. 18, p. 2, 20 jul. 1913.

239 LUZ, Fábio. A internacional negra – Distribuição gratuita da Liga Anti-Clerical do Rio de Janeiro. Rio de

Janeiro: Officinas Graphicas da Revista Comercial, 1919.

correntes espiritualistas procuravam estabelecer uma harmonia entre trabalhadores e o patronato, algo que lhe pareceia totalmente inócuo. Na conclusão deste escrito, José Martins procurou refletir acerca do princípio de autoridade. Dentro de uma preocupação comum a muitos estudiosos do período, buscou traçar uma trajetória deste princípio partindo de sua suposta origem histórica, ulteriores desdobramentos e, por fim, seu natural fenecimento.

A Qúestão Social e o Anarquismo.* II

(CONCLUSÃO)

SUMARIO: Historia do principio de autoridade: sua origem, desenvolvimento

histórico, decadencia e desaparecimento final, – Algumas objeções ao Anarquismo. – Refutação.

______________

E’ lei universalmente e geralmente hoje admitida por todos os que se entregam a estudos sérios, como sejam biologia, fisiologia, psicologia e demais acabadas em “gia”, que as mesmas causas produzem sempre idénticos efeitos. Ora, partindo desse principio, claro está que desde o momento em que se elimine uma causa, não ha a menor duvida de que o efeito desaparecerá.

Apliquemos esse axioma ao têma que vimos desenvolvendo.

Desde a formação das primeiras sociedades humanas, vemos que a Humanidade vem sofrendo de uma dupla tirania politico-religiosa; mas como não tem consciencia das verdadeiras causas que lhe produzem o sofrimento, e crendo, por outro lado, que a culpa é dos homens e não das instituições, ela derruba imperios, desmembra reinos, depõe e assassina satrapas, troca de deuses e de amos, muda de bonzos, forma monarquias constitucionais, que ao dia seguinte as substitue por repúblicas, derrama emfim sangue a torrentes, e quando acaba reconhece por fim que gira num circulo vicioso, do qual urge sair.

Hoje, que já tém alguma consciencia de si mesma, ainda pergunta-se indignada entre o mêdo do futuro e as desilusões do passado.

_ “Mas de que me serviram todas as formas governamentais por mim adoptadas? de que todas as religiões a que dei crédito e todas as filosofias que abracei?

De nada, absolutamente!

Actualmente, trabalhada e dividida, a Humanidade vive aturdida por mil seitas politicas, religiosas e filosoficas, que constantemente lhe gritam:

_ “Vem, que eu te salvo, – diz-lhe uma, – mas tem que obedecer-me.”

“Vem, que eu te farei feliz, – inculca-lhe uma segunda; – mas has de respeitar- me.”

“Vem, que eu farei cessar todos os teus sofrimentos, – insinua-lhe uma terceira; – mas preciso é que faças tudo o que eu te ordenar.”

E assim, todas essas seitas teem por principio a astucia, por meio a exploração e por fim – e isto é o mais importante – a salvaguarda do capital e do principio de autoridade – os dois melhores instrumentos de dominio. (1).

- - - -,241 o escopo principal de todas as seitas politicas e religiosas é manter a

Humanidade sempre agrilhoada aos pés da autoridade e obediente aos possuidores do dinheiro; dividida em mandões e mandados, ricos e pobres, ladrões e roubados; e como está demonstrado por uma experiencia de mais de 30 seculos, que emquanto houver govêrnos e governados, ricos e pobres, amos e escravos jámais reinará a paz entre os homens, conclúe-se daí logicamente que para resolver a Questão Social, que toda consiste nisso, todos os esforços reunidos de todas as seitas religiosas ou politicas serão baldados.

Gerando as desigualdades sociais, os privilegios e as castas, bases de todo o mal estar que acabrunha á Humanidade, fica claramente estabelecido que o principio da outoridade é o mal de todos os males.

Mas, como apareceu tal principio? Dificil, na verdade, é determina-lo.

Mas, á luz dos documentos históricos que possuimos vamos tenta-lo. *

* *

“Provavelmente – diz Pellicer – a autoridade se implantou nas primeiras agrupações humanas á maneira como rege nas especies simias, cujas hordas são governadas pelos individuos mais fortes (o grifo é cá do gasto). Demais, si se observam essas tribus africanas e australianas ainda subsistentes, a probabilidade converte-se em realidade.” (Análisis de la Questión de la Vida ó Conferencias Populares de Sociologia. pag. 54 e seg.)

Cantú, referindo-se ás tribus e ao principio de autoridade, diz o que se segue: _ “Algumas vezes (as tribus) brigavam: a que vencia dominava as outras e apoiava na

força a desigualdade de direitos.” (Hist. Univ., tom. 1, liv. II, pag. 475) (2). Emfim, escutemos o que ensina Faure acerca do mesmo assunto.

_ “... Da guerra com os animais ferozes e com outros grupos humanos, surgiu em cada tribu ou colonia a autoridade absoluta que os mais fortes se atribuiram com o nome de chefes, os quais se arrogaram o direito de mandar e de fazer trabalhar aos mais debeis em proveito exclusivamente deles; com a cumplicidade, pois, dos legisladores e sacerdotes, estes chefes fôram consolidando pouco a pouco o seu poder e supremacia com leis e preceitos religiosos.” (El Dolor Universal, ed. hesp. de Sempere y C., tomo II, pag. 6)

Posteriormente, o principio de autoridade alcançou tal onipotencia, que os reis e imperadores foram considerados deuses ou semi-deuses.

Cerca de tres seculos e meio antes da nossa era, Alexandre Magno já se havia feito passar, entre os gregos, por um semi-deus, filho de uma mulher que permanecêra virgem depois de da-lo á luz; muitos dos imperadores romanos, mesmo em vida, tambem fizeram-se adorar como deuses, o que tambem não impediu que muitos d’eles fôssem violentamente mortos pelas sublevações das tropas; mas, quem indubitavelmente mais consolidou o principio de autoridade, impondo aos pôvos como um principio verdadeiramente divino, foi o cristianismo.

Esta religião atros e sanguinaria ensinou aos pôvos que desobedecer á autoridade era resistir ao proprio Deus. Dinastias europeias, cujos primeiros ascendentes fôram ladrões, assassinos ou magarefes (3), fôram impostas aos pôvos como de origem divina. _ “Os soberanos – diz Faure – são seres sobrenaturais com certa aureola de divindade. Os individuos lhes pertencem como as suas proprias riquezas. Por cima das cabeças coroadas, o sucessor de S. Pedro distribúe as suas bênçãos ou anatemas. A Igreja fala arrogantemente aos monarcas e estes curvam as cabeças. Seus ministros vestem sotaninàs; os tribunais compõem-se de frades; o crime mais abominavel é o cisma ou a heresia, e as fogueiras acendem se para o atrevido que duvidar ou negar.

“Mas para que tal estado de cousas se mantenha o mais tempo possivel, – conclúe Faure, – é preciso que a base não seja discutida; por conseguinte, é proibido pensar, reflexionar, discutir ou criticar. Não obstante, apesar de tudo isso, a

Humanidade prôcura o seu caminho; a necessidade de - - - - - - -242 inventa a imprensa, multiplica os livros, vulgarisa as idéas novas; emfim,

produz-se um movimento de opinião tão colossal, que arrasta o mundo baseado no direito divino.” (Obr. Cit., tom. II, pag. 11-12).

Com efeito, no seculo XII, o principio de autoridade havia alcançado o seu maior apogeu nas pessoas dos papas; mas o desacato feito a Bonifacio VIII, esbofeteado pelos representantes de Filipe o Belo, no começo do século XIV, mostrou aos reis e aos póvos que os papas não eram delegados de Deus na Terra.

Desde esse momento, o principio de autoridade começa a perder terreno. Lutero e Calvino vibram formidaveis golpes na autoridade semi-divina dos papas; proclama-se o livre exame; investigam-se as origens do papismo e da realeza, dando em resultado que o primeiro teve por base a astúcia e a violencia. Elabóra-se a Enciclopedia, difundem-se as luzes, faz-se a Revolução, e a cabeça de um déspota – Luis XVI – rola por terra! (4).

Então aprendem os povos que os reis não são de direito divino nem inviolaveis, mas simples homens como os outros! Entretanto, a Revolução prosegue, invadindo a Europa e fazendo ruir tronos, sem exceptuar o do proprio representante de Deus na Terra; os reis, tremendo de mêdo, fazem concessões; delegam os seus outrora absolutos poderes em câmaras ou parlamentos; alguns desaparecem, como os da França, do Mexico, do Brasil e de Portugal; outros estão prestes a isso; emfim, em toda a parte evidencia-se claramente que á medida que a liberdade avança um passo, a autoridade recúa outro, e assim, ora recuando, ora vergonhosamente fugindo á aproximação da liberdade, a autoridade caminha a passos agigantados para as bordas do abismo que em dias não longinquos ha de fatalmente traga-la.

[...] _____________

(*) No artigo passado escaparam alguns erros de composição.

(1) Allan Kardek, ao terminar o seu Resumo do Ensino dos Espiritos, inserto na Memoria

Historias do Espiritismo, ediç. da F. C. B, do Rio de Janeiro, exclama – “Incredulos! Dizei se uma doutrina que ensina semelhantes cousas é irrosoria...!

Encarando-a unicamente sob o ponto de vista da ordem social, dizei se es homens que a praticassem seriam felizes ou desgraçados, melhores ou peiores!” (Mem. Hit. do Espir., p. 102).

Este burguês hipócrita compreendia a necessidade de manter o povo na obediencia aos bandidos como eles e para prolongar o dominio da autoridade e do dinheiro, forjou ou codificou uma nova superstição: o Espiritismo.

Assaltado pelos temores de uma reivindicação social do proletariado, o mesmo diz o não menos hipocríta e burguês espirita J. Bouvirg. Veja o seu livro El Espiritismo y la Anarquia. (cap. XV).

(2) Nosso companheiro e mestre P. Kropotki ao nega abertamente a teoria ou hipotese de Pollicer, Faure e Cantú relativa ás tribus primitivas em guerras entre si, e todavia fala de “minorias guerreiras” (La Ciência Moderna y el Anarquismo, p. 75). Respeitando as idéas do mestre a outra ordem de factos posteriormente desenrolados, declaramos por nossa parte que aceitamos inteiramente as teorias expostas por aqueles eruditos escritores, porque sem estas não se poderia explicar a origem das desigualdades entre os homens e menos ainda a escravidão.

(3) “Hugo Capeto, o fundador da disnatia dos Capetos, em França, cujo ultimo descendente foi Luis XVI; - Hugo Capeto foi aprendiz de magarefe; os Hapsburgos, dinastia austríaca são descendentes de um espadachim; e os Romanoff, da Russia, até nem é bom falar, porque o historiador mais perspicaz jámais poderá dizer quem foi o pai de qualquer dos filhos de Catarina II.” (Max Nordeau, Mentiras Convencionais, tom. 1, fgs. 101-102).

(4) Cumpre-nos advertir que, 140 anos antes da Revolução Francesa, os ingleses já haviam feito a sua, si bem que com caracter religioso. As comunas declararam que o oficio de rei era inutil e periogoso para a liberdade, e em consequencia disso, Carlos I, foi sentenciado e seguidamente decapitado ( 30 de janeiro de 1649) (Cantú, Hist. Univ., vol. XV, pgs. 247-48.) 243

242 Palavras ilegíveis.

Em que pese às limitações próprias da abordagem evolucionista adotada pelo autor, destacando a necessidade de se conhecer as origens históricas dos fenômenos ou instituições sociais como condição para seu entendimento contemporâneo, o seu mérito reside no fato de ter assinalado a dominação na configuração da questão social. A exploração econômica surge, nesta perspectiva, enquanto resultado da hierarquia, do domínio, sagrado, de alguns segmentos sociais sobre os produtores.

Outra constatação radical do autor diz respeito à proveniência religiosa do princípio de autoridade. Mesmo existindo em diversos agrupamentos humanos, o dinamismo societário fundado na relação mando-obediência, tomou com o cristianismo contornos nunca antes existido, evidenciando a realização de um processo social estabelecendo nas individualidades a naturalização de relações sociais reprodutoras e legitimadoras da hierarquia.

No encerramento deste escrito refutou, como objeção apresentada ao anarquismo, a concepção de homem lobo do homem. Esta objeção às idéias anarquistas de abolição do princípio de autoridade, condiciona existência social à autoridade, submetendo a primeira à segunda. Esta objeção consiste numa atualização da concepção cristã de queda, do pecado original.

A Qúestão Social e o Anarquismo.* II

(CONCLUSÃO)

[...]

“E então? – perguntam os ultimos bastardos da actual desordem e despotismo agonizantes com ares de triunfo: - que ha de ser da Humanidade sem governo e sem leis estabelecidas?

Jà prevemos – continuam – que nos comeremos uns aos outros; porque não havendo um superior a quem respeitar nem leis a que obedecer, o mundo seria fatalmente uma desordem.”

Tão esfarrapados argumentos nem siquer merecem a honra de refutação seria. Ora, partindo do principio de que a existencia de uma cousa implica ordem nessa mesma cousa, segue-se logicamente que, destruidos os mandarins e continuando a existir a Humanidade, a bem da sua propria existencia, ha de ser forçosamente ordeira, por que a destruição da autoridade não implica a da Humanidade. Ora bem. Se observarmos, por outro làdo, os conflictos sociais, vemos que todos são derivados do antagonismo de interesses. Harmonizados estes, e dando-se a cada homem segundo as

suas necessidades em troca de um labor conforme as suas aptidões e forças, suprimem- se dum só golpe todos os conflictos sociais, que, como acima afirmamos, todos teem a sua causa directa no antagonismo de interesses; demais, um homem, bem instruido, bem alimentado e com vestuarios e casa garantidos, que necessidade teria de ser ladrão, assassino ou vicioso?

Em suma: um homem em tais condições, não teria interesse, não seria capaz de fazer mal algum aos seus semelhantes; e por isso concluimos, que o Anarquismo, garantindo a todos pão, liberdade, intrucção e trabalho, è em verdade uma doutrina filosofica e humanitaria e o seu triunfo impõem-se para o bem da Humanidade.

Trabalhadores: a vós compete realiza-lo!244

O autor, além de ter apontado a procedência cristã desta concepção de natureza humana má, comum a religiosos e governantes, desdenhou de sua validade por fácil demonstração de sua nulidade. Sustentou, finalmente, ser a existência de todo e qualquer fenômeno social uma evidência por si da existência de ordem e que, portanto, o fim da autoridade não implica no fim da humanidade, pois os fenômenos humanos são históricos.

A organização do movimento operário fora tema de debate em diversos artigos e questão da organização sindical frente ao anarquismo orientou muitos destes escritos. Na edição especial de Germinal!, alusiva ao primeiro de maio, Primitivo Soares245 publicou artigo apresentando suas

reflexões em torno da questão do neutralismo sindical contido no sindicalismo francês.

Soares analisou os princípios da C.G.T. francesa em comparação aos da Primeira Associação Internacional dos Trabalhadores. Para ele, as orientações dadas pela C.G.T. francesa, sobretudo no quesito da neutralidade das associações operárias, resultaram em evidente retrocesso para o movimento dos trabalhadores. Em seu entendimento, há que se assumir os postulados, fundamentos e intenções anarquistas no sindicato. Isso não apresentava nenhuma contradição com o movimento operário.

244 MARTINS, José. A Qúestão Social e o Anarquismo - II. Germinal! São Paulo, ano 1, n. 17, p. 2, 13 jul. 1913. 245 SOARES, Primitivo. Orientação proletária. Edição especial do “Germinal!” e da “Barricada”. São Paulo, p. 4,

O artigo escrito por Lucas Másculo246 colocou em evidência a situação de faccionamento

no movimento dos trabalhadores, particularmente dentro da expressão assumidamente revolucionária. Advertiu a todos os revolucionários para minimizarem a importância dada às divergências, privilegiando os pontos comuns para então poder configurar uma ação coletiva mais poderosa. O próprio título do artigo – Conciliação – anunciava de antemão as intenções do autor: apesar das diferenças existentes entre os revolucionários, estes deveriam evidenciar, em suas relações, em suas atuações e intervenções sociais, os aspectos que lhes fossem comuns e próximos, emprestando um valor menor às divergências.

As opiniões manifestas neste artigo delineiam posições dentro das propostas anarcossindicalista ou sindicalista revolucionária, caracterizadas, grosso modo, pelo enfoque racionalista e cientificista, pela concepção de organização dos trabalhadores por sindicatos de categorias e pelo estabelecimento do sindicato como centro de gravidade das relações sociais numa futura sociedade libertária. Também outra característica das propostas anarcossindicalistas diz respeito, de um lado, ao enfoque baseado numa linearidade temporal, e de outro, no estabelecimento da sociedade libertária enquanto projeto edênico, dissolvendo os conflitos sociais em prol de uma sociabilidade harmônica.

João Crispim criticou severamente o neutralismo sindical, apresentando o anarquismo enquanto fator de liberdade dentro das associações dos trabalhadores. O entendimento dos aderentes da neutralidade nas associações dos trabalhadores defendia o posicionamento segundo o qual não se poderia falar de anarquismo nos sindicatos sob pena de violentar a liberdade de pensamento e de expressão dos operários. Esta perspectiva se apresentava, na visão do articulista, como absolutamente insustentável.

Luta proletaria. ______ Métodos e tendencias.

A causa que determina o proletario a rebelar-se contra o patrão, contra a autoridade, que se interpõe na luta em favor do explorador, é a sua natural tendencia, o seu sentimento e aspiração de liberdade, quer no terreno ecónomico quer no terreno social. Ao associar se ele leva ao seio do sindicato, logar onde mais facilmente pode desafogar-se da sua indignação, um caudal de energia, expondo aos seus companheiros tudo quanto sente e pensa, indicando os males que ele e os seus camaradas padecem, e os meios que julga melhores para remedia-os.

Em nome de quem e com que direito se pode proibir nos sindicatos a liberdade de pensamento?

Se os trabalhadores, oprimidos pelo patronato, por todas as instituições sociais, vão ao sindicato ou sociedade operaria e não podem alí gozar da liberdade individual: o que é que vão ali fazer?

A conquistar um pedaço de pão em troca de uma nova tirania creada por eles mesmo, a tirania sindical?

A sociedade operaria que institue em seu seio a escravidão da consciencia,