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João Batista Libanio, ao longo de sua trajetória como teólogo e docente na área de Teologia Fundamental, diante dos desafios não se permitiu enclausurar numa ótica teologal fechada. No seu primeiro manual de Teologia Fundamental, Teologia da Revelação a partir

da modernidade, Libanio procurou responder ao que chamou de “dupla modernidade”. Por

dupla modernidade, o teólogo mineiro entende que acontecem duas abordagens da modernidade: a primeira ligada ao mundo europeu, ou dos países desenvolvidos, cujos questionamentos ocorrem no patamar da razão científica e da subjetividade; a segunda modernidade ou ilustração é aquela ligada aos povos subdesenvolvidos, que, ainda são chamados (apesar de que essa nomenclatura esteja em constante revisão) de “terceiro mundo”. Na segunda ilustração, o acento não é mais da razão científica, mas sim, da situação sociopolítica em que os povos da periferia do mundo viviam.296

Mais tarde, passados quase 10 anos, em 2000, Libanio reformulou seu método, escrevendo um novo manual, um novo tratado. O livro chamado Eu creio, nós cremos:

tratado da fé apresenta uma reformulação da Teologia Fundamental, a partir da irrupção da

chamada pós-modernidade. Ainda seguindo o método da Teologia da Libertação, Libanio nesse tratado permaneceu partindo da realidade. No entanto, ao invés de partir da realidade da revelação objetiva, Libanio preferiu partir da fé. Neste tratado, Libanio procura analisar o fenômeno da subjetividade, filha da pós-modernidade para, posteriormente, apontar em direção à fé eclesial, comunitária, libertadora.

295 LIBANIO, 1992, p. 84. 296 LIBANIO, 2012b, p. 20.

O ideal não mudou, mudou apenas a abordagem metodológica. Isto porque a Teologia Fundamental trabalha os fundamentos da fé. Estes fundamentos são oriundos da revelação e, portanto, por mais que possam ser reinterpretados, não podem ser mudados.

Libanio formulou, já em seu primeiro tratado de teologia fundamental, onze características da revelação na perspectiva latino-americana. E manteve-se fiel a estas características até o fim da vida. Isso pode ser afirmado sem medo de equívoco porque, no livro que foi publicado pouco tempo depois de sua morte e que Libanio revisou poucos dias antes de partir para a eternidade, intitulado Introdução à Teologia Fundamental, as onze características foram mantidas sem que houvesse nenhuma alteração na sua formulação. Estas características sintetizam os enfoques da revelação a partir da abordagem latino-americana.

A primeira característica da revelação foi formulada por Libanio assim: “antes como uma autocomunicação de Deus feita aos pobres e, a partir deles, entendida em relação aos outros que indiscriminadamente feita a todos”.297 Quando, ao longo do presente texto

abordou-se a opção preferencial de Deus pelos pobres já se trouxe à luz essa dimensão da revelação. O pobre mediatiza a revelação divina a todos os homens. Não é uma opção excludente, mas preferencial, em que Deus institui o pobre como sacramento de salvação para toda a humanidade.

A segunda característica da revelação presente no pensamento libaniano é o entendimento da revelação “antes como interpelação de Deus que ensinamento”.298 A Dei Verbum já sinalizava tal ideia. É fundamental ter clareza de que a revelação não consiste em

um conjunto de doutrinas, mas sim, em uma abordagem de Deus à história. Deus estabelece um diálogo com o ser humano. Deus se revela salvando a humanidade e a salva revelando-se. A revelação, por sua vez, é uma proposta, por isso, exige uma resposta por parte do homem. Essa resposta é a fé, como acolhida do projeto salvífico de Deus.299

Uma terceira característica da revelação em chave libertadora é que ela se constitui “antes como práxis libertadora que moral intimista”.300 Não se observa a revelação a partir de

uma experiência subjetiva de Deus, mas sim, a partir da manifestação de Deus enquanto libertador do povo. A práxis libertadora de Deus move a comunidade dos crentes à prática da libertação de todos aqueles que vivem sob o jugo da opressão.

297 LIBANIO, 1992, p. 452. 298 LIBANIO, 1992, p. 452. 299 LIBANIO, 2000, p. 14. 300 LIBANIO, 1992, p. 452.

A quarta característica desta abordagem da revelação entende-a “antes em vista da transformação do futuro que da guarda do passado”.301 O momento fundante ou constitutivo

da revelação chegou à sua plenitude em Jesus Cristo. No entanto, a Igreja, ao longo dos séculos continua se aprofundando no mistério da revelação divina. E mais. A comunidade capta que Deus continua se revelando na história. Destarte, a revelação, mais do que um “depósito” é um projeto. O Deus que se revela na história entregou à comunidade dos crentes os instrumentais necessários para que esta pudesse reconhecer a sua presença salvífica que acompanha a história.

A revelação também é entendida “antes como conversão comprometida com a realidade que transformação do coração individual”.302 Por muito tempo a Igreja acentuou a

dimensão pessoal da conversão: salva animam tuam! E com sinceridade acreditou que com a conversão pessoal se pudessem aliviar os sofrimentos humanos. A Teologia da Libertação trouxe nova perspectiva. Não basta uma conversão de indivíduos sem que aconteça a transformação de toda a realidade geradora de morte. Isso fica claro com o reinado absoluto do neoliberalismo. O projeto de Deus para a humanidade é coletivo: que as pessoas possam viver em fraternidade, com justiça e dignidade.303 A revelação exige uma tomada de atitude

conjunta, onde se desmontem as lógicas de dominação, estabelecendo a justiça que floresça na tão desejada paz.

A sexta característica da revelação aponta para uma nova imagem de Deus. Faz parte da abordagem latino-americana da revelação perceber Deus “antes como um Deus envolvido com a luta dos homens que soberano juiz, ‘deus otiosus’”.304 A teologia latino-americana não

dá tanta atenção para os traços abstratos de Deus: sua onipotência, sua onisciência, sua onipresença ou onibenevolência. Na América Latina os teólogos olham para Deus da mesma forma que o povo olha: como o Deus dos pobres. O Deus dos pobres ouve o clamor dos filhos em opressão e não se escusa de vir em socorro dos mesmos. Na ótica da libertação, Deus não é impassível em relação ao sofrimento humano. Não. Ele sofre quando seus filhos sofrem. Ele se encontra totalmente envolvido na história dos homens.

Uma sétima característica no horizonte da libertação é perceber a revelação “antes como projeto libertador para toda a humanidade que patrimônio da Igreja”.305 A comunidade

cristã não é possuidora da revelação, mas sua servidora. A revelação não é uma posse 301 LIBANIO, 1992, p. 452. 302 LIBANIO, 1992, p. 452. 303 LIBANIO; MURAD, 2001, p. 172. 304 LIBANIO, 1992, p. 452. 305 LIBANIO, 1992, p. 452.

pertencente apenas à Igreja, mas sim uma manifestação divina a toda a humanidade. Nesta manifestação, Deus revela a si mesmo e o seu projeto de salvação. As libertações humanas que, ao longo dos séculos foram e continuam acontecendo, são a mediação da salvação. Quando a libertação ocorre, quando a dignidade da pessoa humana é restaurada, quando o pecado estrutural é desenraizado, aí acontece a revelação.

A oitava característica que Libanio enumera para que se entenda a revelação na perspectiva da América Latina, é a manifestação de Deus “antes como projeto a ser começado na história que a ser vivido já totalmente pronto na vida eterna”.306 Utopia e esperança

formam o eixo dessa ideia. A esperança cristã aponta para o horizonte escatológico. Mas a esperança se torna alienante se não capacita o homem a procurar estabelecer na realidade intra-histórica o Reino de Deus. Em termos sociológicos, entra em cena a utopia, mediação concreta da esperança e anseio humano pelo infinito. O cristão, iluminado pela esperança da vida plena na eternidade, precisa respirar a utopia de um mundo onde a justiça e a paz sejam sinais do Reino definitivo. Não é possível que o crente espere adentrar no Reino eterno, se não se dispôs a transformar a realidade sociopolítica atual.

A nona característica elencada pelo teólogo mineiro é a de entender e revelação “antes como um projeto a ser entendido em articulação com uma realidade socioanaliticamente analisada que em si mesmo”.307 O ser humano só tem acesso à revelação de Deus na história.

Destarte, sem instrumentos capazes de analisar a história, também fica impossibilitado de discernir a manifestação divina no seio da realidade concreta. Os teólogos, então, aproximam- se das ciências sociais para poder desvelar as estruturas de injustiça e dominação da realidade social.308 As mediações socioanalíticas, então, elaboram a ponte hermenêutica entre a

realidade social e a revelação. Tendo o resultado da análise crítica elaborada pelas ciências sociais, a Teologia da Revelação faz despontar novos enfoques do juízo de Deus sobre a história.

A décima característica da revelação no enfoque latino-americano é descobrir a revelação “antes como um projeto a ser realizado na história por ações propiciadas por análises sociais que restrito a obras já definidas anteriormente”.309 A fé sem obras é morta, já

enfatizava a Carta de São Tiago. No entanto que obras são exigidas da fé? A análise social realizada pelas ciências sociais descortina, em cada tempo e lugar, quais são os desafios ao projeto salvífico de Deus. O projeto libertador de Deus articula-se na história por meio de

306 LIBANIO, 1992, p. 452. 307 LIBANIO, 1992, p. 452.

308 LIBANIO; MURAD, 2001, p. 175. 309 LIBANIO, 1992, p. 452.

ações concretas que, precedentemente, tenham sido refletidas no interior das ciências sociais competentes. Deus, manifestando-se na história humana, nos processos e movimentos de libertação, capacita o homem a descortinar, por todos os meios racionais, o pecado social.

Por fim, a décima primeira característica da revelação dentro contexto teológico latino-americano é interpretá-la “antes como projeto a ser vivido dentro da conflitividade social até o martírio que uma mensagem de reconciliação por cima dos conflitos”.310 Os

cristãos, tocados pela revelação de Deus como Deus libertador, não podem contentar-se em tentar harmonizar a fé com um contexto social injusto. Os mártires latino-americanos são um grito que brada aos céus, um clamor por justiça. Homens, mulheres, jovens e crianças testemunharam a fé na América Latina e não temeram perder a vida por amor aos homens e por um acentuado senso ético de justiça, enfrentando, inclusive a justiça humana.311 Brilha no

horizonte, entre tantos outros, o reconhecimento do martírio do Beato Oscar Romero.

Libanio, nestas características, acentua o fundamental para uma releitura da revelação a partir da teologia latino-americana. Ao longo do presente texto tais características apareceram e foram desenvolvidas e sistematizadas de acordo as pegadas deixadas por Libanio em seus livros e artigos. O conjunto destas características também possui um proeminente caráter dialético. De tal feita que ter em vista estas características capacita o crente a permanecer aberto à constante manifestação de Deus na história.

4.4 A TEOLOGIA QUE SE LIBERTA DA ALIENAÇÃO: EM BUSCA DE UMA NOVA

Benzer Belgeler