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B. Yasama Organı

4. Millet Meclisi’nin Yetkileri

Quando se pensa em “mundo do crime” ou “universo do crime” ou apenas “o

crime”, o que mecanicamente vem às cabeças? Quase sem exceção, surgem imagens mentais

de agentes da criminalidade favelada empunhando fuzis; posicionando-se estrategicamente

em morros e vielas labirínticas de alguma periferia brasileira para defender seus territórios e

bocadas; disparando tiros contra a polícia e grupos rivais; transacionando armas e drogas;

assaltando transeuntes, veículos, estabelecimentos comerciais, residências particulares... Toda

uma estética cinematográfica lugar-comum à la Cidade de Deus ou Tropa de Elite entra em

cena e produz símbolos contra as classes populares – que passam a ser vistas como “classes

perigosas” – a partir de expressões aparentemente anódinas: “mundo do crime” e seus

correlatos, como por exemplo “violência urbana”.

E se abandonássemos a expressão “mundo do crime” ao analisar esse objeto de

estudo? E se, assim como se problematizaram as interpretações semióticas de “violência

urbana”, se fizesse o mesmo com “mundo do crime”? E se pontuássemos que essa expressão

tem mais colaborado para reificar a criminalidade em certos tipos sociais do que qualquer

outro efeito? Não há um “mundo do crime”, ainda que os próprios agentes da criminalidade

das favelas falem como se este “mundo” tivesse vida própria, fosse uma entidade à parte, um

cosmo em suspensão, mas no qual eles estão inseridos. Na verdade, o que existe na

organização societal do Brasil é um sistema de relações sociais do crime: dotado de um

nomos, uma racionalidade objetiva, ele se constitui enquanto um complexo reticular prenhe de

ramificações e capilaridades que nascem nos agenciamentos situacionais encampados em

infindáveis contextos configuracionais, atravessando todos os segmentos socioeconômicos,

dos mais vulneráveis aos muito privilegiados.

O sistema de relações sociais do crime tem injunções de duplo vínculo (Bateson,

2000[1972]. Ao tempo em que ele é rizomático, no sentido empregado por Deleuze e Guattari

(1995a[1980]), e então surge como erva daninha em qualquer território ou lugar moral, ele

também é arborescente, uma vez que tem no estatismo e nas agências empresariais

hegemônicas não apenas suas raízes, mas as copas de suas árvores, onde aquelas (agências

estatais e organizações privadas) aninham-se e reproduzem-se, e assim lutam para manter seus

lugares atávicos de prestígio e poder. Há uma tessitura reticular na qual os agentes pobres que

encampam a criminalidade na favela e os “empresários” e “políticos” envolvidos em crimes

de “colarinho branco” estão enredados, mas fundamentalmente em condições bastante

dessemelhantes no que concerne aos métodos, instrumentos e tecnologias para desenvolver

suas práticas criminais, uma vez que aos agentes pobres “mais restrita será a escala de opções

na conexão entre fins, acesso aos meios e risco, e maior será a probabilidade que lhe restem

riscos maiores, meios mais violentos e fins limitados por recursos em círculo vicioso” (Misse,

2011[2006], p. 24).

Nesse sistema relacional duplamente vinculado, se de um lado há antidisciplina

(em alguns dos agenciamentos da criminalidade das favelas), de outro há hierarquia (nas

próprias interrelações endógenas à criminalidade pobre e desta em relação ao estatismo e às

organizações privadas mafiosas). O sistema de relações sociais do crime percorre um circuito

de trocas assimétricas e injunções coercitivas que tanto pode iniciar nas favelas e alcançar as

mais elevadas instâncias estatais e empresariais, mas via de regra a trajetória é inversa: é um

caminho piramidal pensado em termos dominantes de cima para baixo. Dialogando com

Foote Whyte, diria que “‘peixes graúdos’, os intermediários e os ‘peixes miúdos’ constituem

uma hierarquia de relações pessoais baseadas num sistema de obrigações recíprocas”

(2005[1943], p. 275).

Esse “sistema relacional” opera homologamente à estrutura objetiva na qual se

insere; na verdade, ele é o próprio funcionamento geral da ordem: os agentes com maiores

recursos de poder simbólico – que dominam com exclusividade uma criminalidade de fraudes

milionárias – estão no topo dessa arborescência, enquanto aqueles com menores recursos

materiais e fontes de poder são acionados como “linhas de frente” e bodes-expiatórios nessas

relações piramidais, por meio de políticas públicas – como as da “guerra às drogas”, da

militarização ostensiva, do encarceramento em massa etc. – bem como por negociatas

privadas entre empresários, setores do Estado e agentes criminais faccionados nas periferias e,

principalmente, em presídios. Logo, o esquema direito-polícia-prisão-mídia-delinquência é a

razão de existir do sistema de relações sociais do crime.

Ao trazer à baila o conceito de sistema de relações sociais do crime pretendo

desnaturalizar a reificação do fenômeno “crime” em apenas um lugar moral da rede societal,

dando-lhe um caráter processual e de continuum reticular. O sistema de relações sociais do

crime é uma proposição teórico-empírica que busca estabelecer uma implicação inescapável

entre a criminalidade pobre, a de colarinho-branco e o modus operandi do estatismo. Vou

desenhar um exemplo basilar: ao se analisar o tráfico varejista que ocorre nas favelas

brasileiras, o sistema de relações sociais do crime incita por correlato a se pensar na mesma

medida acerca das políticas estatais proibicionistas para substâncias psicoativas, a chamada

“guerra às drogas”, que tem como efeito mais devastador o aprisionamento massivo de

centenas de milhares de jovens varejistas ilegais das classes populares

87

. Como já nos ensinou

Foucault (2013a[1975]; 2013b[1981]), há uma função social nesse encarceramento, e esta

funcionalidade não se apresenta sob uma perspectiva humanitária, mas econômica e de

controle. Assim, mostra-se incontornável pensar o tráfico de drogas varejista nas comunidades

pauperizadas sem associar sua relação direta com o funcionamento coercitivo do estatismo.

Quero dizer, portanto, que há uma anuência cínica das agências estatais com o tráfico

varejista porque o estatismo precisa dessa complacência para operar seus jogos econômicos e

sua semiótica do poder, embora na oratória das autoridades públicas haja uma verborragia que

tergiversa para encobrir esse cinismo hipócrita.

James Scott (2003[1990]) sublinhou que grande parte do poder dos grupos

dominantes reside exatamente na capacidade de imposição de um discurso público que muitas

vezes oculta e dissimula acerca dos seus reais interesses. Dialogando com Scott, Guy Debord

ressalta que o discurso da sociedade espetacular, no qual reina a mentira inconsequente, não

abre brechas para ser refutado. A narrativa dominante faz calar tudo o que não lhe é

87 De acordo com o delegado da polícia civil do Rio de Janeiro e pesquisador, Orlando Zaccone D’Ellia Filho, “o

atual modelo bélico de repressão às substâncias psicoativas proibidas cumpre assim uma função: o encarceramento das populações excluídas do mercado consumidor. Tal processo é desencadeado pelas agências executivas do sistema penal, onde se inclui a polícia, o Ministério Público, o Poder Judiciário, o sistema penitenciário, e mesmo os veículos de comunicação” (2015[2007], p. 130).

conveniente. Para Debord, o espetáculo fez triunfar tudo o que é secreto: “O segredo domina

este mundo, antes de tudo como segredo da dominação” (1997[1967], p. 214)

88

. Coadunando

com estas ideias, Deleuze e Guattari (1995b[1980]) advertem que o discurso hegemônico, que

eles chamam de “palavra de ordem”, não existe para que se acredite nele, mas para que seja

cegamente obedecido.

Noutra leitura desse sistema de relações, ao se observar o tráfico varejista das

favelas, também implica analisar os grandes “barões das drogas”, estes pertencentes às elites

socioeconômicas que lavam anualmente centenas de bilhões de dólares desse comércio ilícito

no sistema financeiro de paraísos fiscais (Zaccone, 2015[2007]) e também de megalópoles

mundiais como Nova Iorque e Londres (Saviano, 2014[2013]). Quero pontuar que há um fio

reticular que liga: (i). a comemoração com fogos de artifício, churrasco, cerveja e futebol

quando da chegada de drogas e armas na favela; (ii). aos jantares em mansões luxuosas

regados a Veuve Clicquot, caviar, foie gras e charutos cubanos, onde se comemora o sucesso

nos “negócios” ilícitos do mercado mundial de drogas, posto que “a atual política criminal de

‘combate’ às drogas, longe de eliminar o comércio de substâncias consideradas entorpecentes,

acaba por reforçar e concentrar o grande negócio do tráfico nas mãos dos grandes grupos

econômicos e financeiros” (D’Ellia Filho, 2015[2007], p. 25).

Em conversa com Camaleão, 31 anos, que trabalha com o comércio de drogas no

GTN, ele ajuda a ilustrar com precisão a análise: “Eu sou avião. Bote aí que eu sou avião [diz

ele, apontando para o diário de campo]. Sou traficante não. Traficante é aquele que nem pega

na droga”. É justamente sob esse contexto que Antonio Rafael Barbosa (2016) afirma que não

existe um “tráfico de drogas” operado unicamente pelos varejistas das camadas populares,

reificados sob a pecha de “crime organizado”. Segundo este autor, esses muitos tráficos são

redes segmentárias que se conectam:

Le commerce des drogues à Rio fonctionne en réseaux (segmentés) qui se connectent entre eux. Il n’existe pas un “trafic de drogue” au sens où le répètent les discours médiatiques qui alimentent un état d’urgence social sur le “crime organisé”. Schématiquement, trois grands réseaux recouvrent la ville: celui du commerce de détail des drogues dans les communautés pauvres; celui qui se pratique dans les rues et ne passe pas par les favelas; celui qui utilise les ports et les aéroports pour fournir les marchés de consommateurs étrangers. Ils comportent plusieurs points de contact [...] (Barbosa, 2016, n.p.).

88 Ainda de acordo com Debord, uma das funções inerentes à ordem é cortinar o seu funcionamento, se valendo

de suas “agências da organização do silêncio”, posto que “o espetáculo organiza com habilidade a ignorância do que acontece e, logo a seguir, o esquecimento do que, apesar de tudo, conseguiu ser conhecido. O mais importante é o mais oculto” (1997[1967], p. 177).

O tráfico de drogas internacional, este escoado pelos portos e aeroportos em todo

o planeta, é provavelmente a atividade mais lucrativa do mundo. No livro Zero, Zero, Zero,

referência à farinha de trigo mais pura da Itália e uma alusão óbvia ao pó da cocaína, o

escritor Roberto Saviano (2014[2013]), autor de Gomorra, no qual detalha o modus operandi

da máfia napolitana, que o faz viver há quase uma década sob forte vigilância em endereço

desconhecido, diz que um quilo de coca pura sai por 1,5 mil dólares da Colômbia, país que

produz a droga, e chega a custar até 77 mil dólares no Reino Unido, uma valorização de mais

de cinquenta vezes. Segundo Saviano, Nova Iorque e Londres são hoje as duas maiores

lavanderias do mundo, atuando com complexos sistemas de lavagem de dinheiro, que

envolvem compra de ações, empréstimos interbancários, emissão de títulos eletrônicos, entre

outras modalidades do ramo financeiro. Ou seja, se impõe como axioma que os lucros mais

vultosos do tráfico de drogas não estão nas favelas, mas nas veias irrigadas a dinheiro sujo do

sistema financeiro internacional, por onde transita uma desenvolvida e diversificada economia

da corrupção. Já analisei esse enredamento entre Estado e máfia numa reportagem:

Não obstante o fracasso no discurso, há muitos interesses poderosos envolvidos na chamada “guerra às drogas”. Países inteiros estão sob a influência dos grandes narcotraficantes. É uma falsa dicotomia tentar opor o Estado às grandes máfias de drogas. Não são rivais, pelo contrário, estão muito bem situados, são cúmplices, se locupletam o tempo todo, ao ponto das máfias de drogas e armas assumirem grande importância nos setores burocrático, governamental, imobiliário, nos bancos, nos negócios do Estado, na alta política, e nas indústrias do entretenimento espetacular: televisão, cinema, internet, jornais, revistas (Pires, 2015a, p. 10).

Em janeiro de 1988, no auge de seu poderio, mas também de sua demonização

pela mídia, pela opinião pública e pelas agências do estatismo, os cartéis de drogas

colombianos, num rompante de extrema sinceridade, publicaram um comunicado no qual

sublinhavam que não eram a única organização criminosa do país: “‘Nós não pertencemos à

máfia burocrática e política, nem à dos banqueiros e financistas, nem à dos milionários, nem à

dos altíssimos contratos fraudulentos, nem à dos monopólios ou à do petróleo, nem à dos

grandes meios de comunicação’” (Debord, 1997, p. 217). Considero que a maior pretensão

monopólica do Estado não é a da violência em si mesma, mas a da atividade mafiosa, com

seus gradientes violentos intrínsecos. A máfia estatista está incrustada em todas as searas,

instâncias e departamentos do Estado-nação contemporâneo. Este somente funciona porque é

alimentado por sua máfia interna que estabelece relações com as atividades mafiosas

exógenas, perfazendo um circuito estatal-empresarial. A burocracia estatal é o sangue por

meio do qual a máfia se espalha feito metástase em todos os órgãos do estatismo.

Analisando a esfera criminal em seu estudo sobre a pistolagem nos sertões

nordestinos, César Barreira (1998) verificou que há criminosos implacáveis, mandantes de

assassinatos de desafetos, entre latifundiários, empresários, industriosos e políticos cearenses.

Nesses tipos de ações criminosas, há uma notável desigualdade de capitais simbólicos entre

quem encomenda o crime e quem o executa. Estes agentes estão conectados pelo sistema de

relações sociais do crime, mas aos primeiros cabe a discrição, o anonimato, e a insuspeição

generalizada, ao passo que a força punitiva das leis seleciona apenas os “pistoleiros” para

sofrerem as consequências penais. Desse modo, queda evidente que a atividade criminal não é

exclusiva a nenhum setor social, ela se esparrama indistintamente entre diversos grupos,

territórios e regiões morais, mas que, atuando como racionalidade objetiva e instrumental, há

um “sistema” que opera lutas sociais por poder e privilégios, conservando assim as

assimetrias materiais e de representação entre os agentes e seus respectivos segmentos sociais.

Vou contar um caso emblemático que exemplifica as dissimetrias piramidais do

sistema de relações sociais do crime. Pango, traficante de armas e drogas e “patrão” de um

território do GTN, foi “convidado” para realizar um roubo de cargas, avaliadas entre 500 mil

e um milhão de reais. Sua missão era montar uma equipe de ladrões, e financiar os carros e as

armas para o evento.

Um caminhão já “copiado” seria interceptado em um local

estrategicamente favorável à ação e toda sua carga surrupiada. Os “ladrões” que trabalhariam

nessa empreitada

para Pango são seus “funcionários”, subordinados econômica e

simbolicamente à sua liderança. Mas a escada hierárquica desse roubo não finda em Pango.

Na verdade, ele está na base desse jogo de troca de favores recíprocos e interpessoais. O

convite para Pango veio de empresários sócios de um lava-jato na Cidade dos Funcionários,

bairro classe-mediano vizinho ao GTN. Pergunto-lhe sobre essa modalidade de roubo.

Dá dinheiro... e tem uns cara que já é vivido nisso, e já é de muito tempo... conheço os cara! Tu é doido, os cara empresário, bichão mesmo, que tem [faz o gesto clássico do dinheiro: dedo médio esfregando no polegar]. Ninguém nem imagina. Bichão mesmo! Eu quero que tu veja os cara mah!

[Mora nas Aldeota, Meireles? – cito dois bairros das elites econômicas da cidade] Por ali. Beira-Mar, Parque Del Sol, tudo...

[E como é que tu teve contato com eles?]

Eles viram o pivete aqui, que é correria meu, aí ele citou meu nome.. aí eles disseram “macho, eu conheço esse cara, já ouvi falar muito dele, traz esse cara aí, ele comanda lá, né... pra ver se ele tem uma equipe boa”. Aí eu fui lá né...

[Foi lá aonde?]

Ali num escritório deles, num lava-jato que eles têm ali. [Na Cidade dos Funcionários?]

Na Cidade dos Funcionários. Aí nós fomo lá e conversemo lá no escritório dele. Tu é doido, mah, eles quebraram foi as Casas Bahia... de roubo de muito mah... [Então tem um informante dentro das Casas Bahia, né?]

Tem... e tem carga de fora também. E eles já têm comprador, pra outros mais bichão

do que eles. Eu já roubo pra eles, e eles já têm um comprador mais alto do que eles, aí eles manda minha comissão. Eu também num pergunto quem é, mas o negócio deles lá é de ganhar muito dinheiro.

Pango, momentaneamente, declinou do convite. “Quis não, porque tu tem que tá

focado ali naquilo, e é muita coisa pra mim resolver mah, e eu botei os menino [para

resolver], mas os menino num deram de conta não... eu tenho que tá na frente, aí eu me saí

mais, [mas] num deixei quieto não, é só por enquanto”. Nesse episódio, exemplificado

sinteticamente nas falas “eu já roubo pra eles, e eles já têm um comprador mais alto do que

eles”, que é “mais bichão do que eles”, podemos perceber como um evento aparentemente

encampado de maneira exclusiva por agentes de um setor socioecônômico envolve cinco

patamares distintos na escala do sistema de relações sociais do crime: i. Os “ladrões” de

Pango estão na base do sistema, são os “linhas de frente”, os bodes-expiatórios, aqueles que,

pelos contextos situacionais, precisam recorrer aos métodos mais violentos e por isso estão

expostos aos maiores perigos de um possível enfrentamento com os aparatos policiais, bem

como, inversamente proporcional aos riscos intrínsecos de sua atividade, são os que

amealham as menores quantias do lucro do roubo; ii. Pango vem logo em seguida nessa

cadeia hierárquica, já que materialmente financiaria os carros e as armas para a empreitada e

simbolicamente carrega a áurea de “patrão” da localidade, mas está submetido aos demais

planejadores do assalto; iii. acima de Pango nesse gradiente escalonado está a “fonte” de

dentro da empresa que será roubada, que forneceu aos empresários os detalhes do volume das

cargas, horários e datas em que elas estariam em trânsito; iv. na sequência dessa escada

criminal, estão os empresários donos do lava-jato, que convidaram Pango para uma conversa

aos conchavos em seu escritório já com as informações repassadas por seu “informante”; v. o

“comprador mais alto do que eles”, nesse contexto, é supostamente o topo dessa pirâmide

criminal. A ele, que sequer aparece anteriormente em toda a transação, são destinadas as mais

vultosas montas do lucro obtido.

É provável – infiro como hipótese – que esse comprador “mais bichão do que

eles” estabeleça negócios com os altos setores do Estado nas formas “legais” de parcerias

público-privadas, bem como na ilegalidade da economia da corrupção (contratos fraudulentos,

obras superfaturadas, sonegação de impostos, evasões fiscais etc.). O evento que me foi

narrado por Pango somente ocorre porque funciona como pano de fundo a engrenagem do

sistema de relações sociais do crime, esse complexo que conecta uma rede de agentes que,

não fosse pelas atividades criminais, muito provavelmente não estabeleceriam interrelações

pessoais: “Nem são apenas os jovens pobres que transgridem as leis. Seus crimes dificilmente

existiriam, na escala que os caracteriza, não fosse a ação dos criminosos de colarinho branco”

(Athayde et al., 2005, p. 124).

Sendo esse fenômeno reticular um “sistema”, ele portanto está passível às

injunções contínuas de qualquer sistema social, ou seja, a tensões, contradições, rupturas,

mudanças, transformações, fluxos, etc. visto que não é uma configuração a-histórica. Suas

regularidades e padrões estão sempre, paradoxalmente, abrindo espaço às irregularidades

sistêmicas e infinitas dos agenciamentos. Cada variável possibilita a criação de um novo

agenciamento, gerando um conflito permanente no sistema entre estados de conservação e de

renovação.

Todavia, certos sistemas sociais logram relativa estabilidade funcional não

obstante os conflitos e distúrbios endógenos a que estão continuamente expostos. Eis aqui,

talvez, a caixa de pandora do mecanismo de dominação do sistema de relações sociais do

crime. Seria este

um “sistema social repetitivo”? De acordo com Max Gluckman

(2010[1958]), o sistema social repetitivo seria aquele no qual há uma resolução integral dos

conflitos e a cooperação é inteiramente obtida dentro da configuração. Percebe-se que o autor

construiu um tipo-ideal analítico de sistema social que não tem aplicação concreta em

qualquer realidade empiricamente observada, uma vez que é inverossímil uma estrutura em

que os conflitos são resolvidos em sua totalidade e a cooperação, por sua vez, é atingida em

absoluto. A repetição ou mimese, à minha ótica, ainda que pareça hegemônica e

instransponível, está imiscuída em um mais abrangente e complexo sistema social em

transformação e mudança. Ainda segundo o antropólogo, mesmo que ocorram trocas de

cargos e posições entre os membros dos grupos, estas vicissitudes não alteram o padrão do

sistema.

Em contraposição, Gluckman propôs um modelo antinômico ao repetitivo: o

“sistema social em transformação”, no qual os conflitos seriam solucionados parcial ou