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Millî Mücadele Döneminde Posta ve Haberleşme Alanında Yapılan Diğer Çalışmalar

POST, TELEGRAPH AND TELEPHONE (PTT) ORGANIZATION FROM THE WAR OF

B. Millî Mücadele Döneminde Posta ve Haberleşme Alanında Yapılan Diğer Çalışmalar

As principais narrativas baré já foram sistematizadas e apresentadas por uma gama de pesquisadores -- Stradelli ([1857], 2009), Amorim ([1893], 1987), Bruzzi ([1947], 2004), Bráz França, (1999), Andrello e Buchillet (Sem data), Melo (2009), Maia Figueiredo (2009), entre outros. A ideia aqui não é reproduzir essas narrativas ponto a ponto, mas entender como os Baré contemporâneos relacionam-se com elas.

Dessa maneira, partindo das narrativas coletadas durante a pesquisa de campo, apresento, de forma sintética as perspectivas dos Baré quanto a sua compreensão do mundo e das relações entre pessoas. Portanto, neste tópico procuro apresentar os sentidos e a posição baré em relação aos seus mundos e delinear a dinâmica das relações que as pessoas do rio Preto mantêm com os diferentes tipos de “gente” e “agência”.

O mundo para o Baré não se restringe apenas ao plano terreno. O mundo terreno se limita com mais outros dois mundos92: o celestial e o aquático. Os processos de socialidade não se limitam a apenas um tipo de “gente” do plano terreno, os humanos, mas envolve uma série de “gentes” consideradas “invisíveis”, “gente-peixe”, “gente- boto”, “cobra espíritos”, caraiu, o patrão encantado, bichos do mato, como por exemplo, o curupira, o mapinguari, o mati -- estes não se humanizaram, porém continuam sendo “gente” que procura manter contatos com os humanos numa relação ambígua e perigosa. O cosmos para os Baré demonstra uma amplitude que está em conexão com todas as coisas dos “mundos”, desde o tempo primordial quando

92 Para os Baniwa, grupo Arawak vizinhos dos Baré, o universo consiste em quatro níveis: 1) Wapinakwa (o lugar dos nossos ossos); 2) Hekwapi (este mundo); 3) Apekwa Hekwapi (o nosso mundo) e 4) Apakwa (o outro céu). O primeiro mundo corresponde ao mundo dos mortos; o segundo o centro do mundo, onde o mundo começou; o terceiro onde habitam os espíritos dos pássaros, onde surgiram os pajés na busca de almas perdidas e o quarto, lugar de pura transformação. (WRIGHT, 1996, p.81)

Purominaridesenhou o mundo. Na mitologia baré, existe um “Deus” – Purominari93 - que deu origem ao universo e ao povo baré. Purominari é o responsável pela criação de “gentes”, pela diversidade de animais e vegetais e o criador do sol, da chuva e do vento. Overing (1999) refere-se a uma concepção dos índios Piaroa da Amazônia venezuelana que diz respeito à existência de muitos outros mundos, além daquele da existência humana: “uma miríade de outros que habitam esses mundos (e tempo) compõem o pano de fundo sobre o qual são formulados todos os juízos e considerações acerca da vida humana nesta terra” (OVERING, 1999, p 84). Reichel-Dolmatoff (2001) diz que os Desana, povo tukano oriental, compartilham da mesma perspectiva quanto ao criador do cosmos e das coisas dos mundos (plantas, animais, gente, entre outras).

The creator was the sunfather, an anthropomorphic god who designed a three-layered cosmos consisting of a flat Earth, a celestial vault, and a place of bliss situated under the earth. (…) In other words, the creation of the Tukano universe was not conceived as an all- embracing or expanding system, but was a limited, well-defined proposition with finite and restricted resources. (REICHEL- DOLMATOFF, 2001, p. 309)

Slater (2001) em “Festa do boto: transformação e desencanto na imaginação amazônica” sintetizou muito bem essa questão:

O cosmo se fraciona e o mundo é representado em diferentes domínios inter-relacionados: (1) terrestre, cujo espaço está dividido entre a floresta, a comunidade e a cidade, onde humanos, animais e “caboclinhos” (ou entidades da floresta) convivem; (2) o aquático, onde está o “povo do fundo” ou encantados que vivem no encante uma cidade submersa; (3) o celeste, onde estão os santos – responsáveis pela intermediação entre os homens e Deus. Existe uma hierarquia entre esses domínios e seres: o céu o primeiro mundo; as águas o segundo mundo, e o terceiro, o da terra, onde esses diversos grupos interagem (SLATER, 2001, p.121).

Esta última formulação pode ser integralmente aplicada ao caso baré. O segundo mundo é o local onde as pessoas que não se “transformaram” vão morar quando falecerem, aquelas que não viraram botos, cobras, peixes, entre outros seres. No terceiro mundo, as “pessoas”, quando perecerem vão morar junto com os santos, em um local parecido com o do tempo primordial, quando foi criado por Purominari, onde não se precisa trabalhar para fazer roça, os animais se comunicam com os humanos na mesma língua, onde as coisas são bem mais fáceis e as “pessoas” não fazem feitiçaria e

93Ramos (2013) cita Napirikuri como o

“Deus” primordial dos Baré. Napirikuri é descrito por Wright (1996; 1999) como um herói primordial dos Baniwa. Continuarei grafando Purominari pelo fato dos Baré do rio Preto fazerem essa menção.

“fuxico”. Essa alusão é, em muito, marcada pela influência do catolicismo que prega a salvação da alma e a passagem para o paraíso.

Nesse contexto, os Baré afirmam que, antigamente, os velhos que não conheciam bem a religião católica preferiam se transformar para continuar vivendo no mundo intermediário, ou terreno. Eles afirmam que os bichos visagentos94 e as mulheres encantadas que vagam pelas praias e florestas são os próprios parentes que preferiram se transformar em bicho do mato, encantados para passar mais um tempo neste mundo (o terreno) juntos com seus entes. Porém, quando passam pelo processo de transformação, esquecem muitas das coisas do mundo antes vivido e por isso atacam os próprios parentes, como acontecia nos tempos de Purominari95, quando netos matavam avós, tios matavam sobrinhos:

Meu bisavô sempre contava para o meu pai, que os velhos de antigamente sabiam viver mais neste mundo do que os velhos de hoje. Ele dizia que muitos velhos não morriam, porque eles sabiam o jeito para se transformar em outra gente, gente do mato, sabe, era porque eles não queriam deixar esse mundo não, eles gostavam daqui e para eles era melhor morar aqui que no outro mundo. Aprenderam com os antigos. Os Padres diziam que é melhor morar no céu, mas eles não queriam saber disso não, queria mesmo era tá aqui na mata, perto dos rios, perto dos animais, perto donde nasceu. Aqui nós temos o costume de enterrar o umbigo das crianças quando nascem; então o senhor sabe né! Não desgruda mais desta terra. (Firmino Baré, 71 anos de idade, comunidade Canafé, margem direita do rio Negro, setembro de 2013).

Firmino, assim como outros Baré que procurei, não soube explicar como se dá o transformar. No entanto, afirmou que quando a pessoa está viva ela aprende muitas coisas no mato, o pajé faz trabalho, ele ensina o “jeito de ser gente”, passa remédio, mostra coisas nos sonhos. Ele diz que não são todas as pessoas que se transformam, mas principalmente as pessoas idosas, que não querem deixar o povo acabar, que querem continuar pitando seu cigarro, bicando sua cachaça, fazendo seu moqueado e outras coisas mais, que só aqui em nosso mundo é permitido. Essa situação é análoga ao mito narrado por Ramos (2013), uma pesquisadora baré, que narra a situação de transformação dos irmãos primordiais Napirikuri, Coidaré e Mathinai, que protagonizaram as mortes dos seus próprios avós:

94 Para Galvão (1955, p. 07), santos e “bichos visagentos” são entidades de um mesmo universo.

95 No mito narrado por Ramos (2013), Napirikuri, o “Deus” criador, habitava o mundo somente com mais dois irmãos, Coidaré e Mathinai. Esses dois são constantemente ameaçados pelo avô que acaba morrendo em sua própria armadilha. A avó morre depois de ver a sua roça destruída pelos netos.

(...) O Deus dos Baré, [Napirikuri] assim chamado porque transformava todas as coisas. Os três irmãos eram cuidados pela avó e viviam na serra do Coidaré, no rio Cubate. (...) No dia seguinte, os três irmãos fizeram desaparecer da roça da sua avó as espécies de maniva que transformaram em uma só espécie de capuiru (uma mata). Quando a avó foi para a roça e viu a desgraça, seus olhos foram ficando brancos, caiu e morreu. Os netos arrastaram o corpo dela até o igarapé e a pintaram com tabatinga (argila) e jogaram no igarapé e a transformaram em paca (...). (RAMOS, 2013, p. 63)

Fazendo menção aos bichos do mato ou pessoas que se transformaram, Firmino afirma que não é muito bom o encontro com parentes, pois parece que os ataques são mais agressivos. Ele cita o exemplo do frequente aparecimento de uma mulher bonita encantada que aparece nas praias seduzindo os homens em época de verão. Firmino enfatiza: “ela não gosta de encontrar com parentes”. Eu pergunto: Mas uma das finalidades da transformação não é ficar próximo dos parentes? Então porque atacá-los? Firmino responde que a “mulher encantada” vem atrás de fazer relações sexuais e na lei dos baré isso não é permitido com os parentes. Mesmo que a pessoa se transforme, ainda mantém laços com os parentes96.

As outras “gentes” gostam de nós, porque senão elas não apareceriam mais por aqui. Só que como eu já falei elas ficam desmanteladas da cabeça, às vezes não reconhecem os próprios parentes, né, o senhor sabe que quando a gente vai ficando com mais idade, a gente vai esquecendo um pouco as coisas. Você já viu um encantado moço? Uma criança encantada? Não, são tudo mais de idade. Por isso ficam atacando as pessoas porque eles sentem muita falta da vida daqui. (Firmino, 71 anos de idade, comunidade Canafé, margem direita do rio Negro).

Porém, existem casos em que o encante não agride ninguém, ele vem mesmo só porque gosta da vida no mundo terreno. Por exemplo, onças encantadas denominadas de caricawara97 que se amansam para tomar cachaça com os fregueses piaçabeiros, dentro dos piaçabais. Neste caso, é a necessidade do convívio que faz o ente retornar. Há outros casos em que uma pessoa desaparece sem deixar sinal de vida. É o caso do xamã tuyuka Xibui, que depois de deixar de ser freguês piaçabeiro, passou a morar na comunidade de Campinas do Rio Preto. Ele desapareceu e ninguém mais soube notícias

96

Os Baré do rio Preto fazem menção à “mulher encantada” como se fosse uma moça que foi reprimida pelos pais que não permitiam que ela se casasse, porque eles temiam que ela pudesse deixar a comunidade para morar longe deles. Então, a moça pediu para que o encante viesse buscá-la. Um dia foi para a roça sozinha e nunca mais retornou para a comunidade.

dele. Então as pessoas acreditam que o xamã havia se transformado em bicho do mato, porque ele já estava muito idoso e não queria passar para o outro mundo, para o mundo celestial, onde não há interação entre humanos e não-humanos, pois no mundo celestial o não-humano, principalmente animais ferozes, são amansados, não confrontam com ninguém, são do mesmo lado. No mundo celestial, a intermediação entre pessoas se dá por conta dos santos.

Moço! Você precisava ter conhecido seu Xibui, era um velho sabedor tuyuka que vivia por aqui, trabalhava nos piaçabais, era freguês brabo. Depois que ele deixou de ser freguês passou a residir aqui no rio Preto. Ele tinha mais de noventa anos. Um dia ele estava tão fraco que fez necessidades na roupa. Ele ficou com muita vergonha, chorou muito. Falou que ia embora, ganhou o rumo do rio Negro. Ninguém soube mais notícias de Xibui. As pessoas contam que ele havia se transformado, virado bicho do mato ou os encantados levaram para o fundo. Os amigos dele do piaçabal dizem que ele aparece de vez enquanto por lá, toma sua cachaça e depois vaga pelo mato, do jeito como ele era quando gente humana. Moço, pessoas boas não que ir não, pessoas que aprenderam a sabedoria desse mundo não pode ir embora não e, seu Xibui era um homem muito sabedor, quem sabe não foi ele mesmo que quis fazer essa transformação? Ele sabia de muitas coisas, era índios tuyuka dos velhos, sabe! Daqueles que foi ensinado mesmo pelos mais antigos. Ele não mexia com ninguém e era um bom prestador. (Antônio Buyawaçu Baré, comunidade de Campinas do Rio Preto, agosto de 2014)

Em relação ao mundo aquático, os Baré acreditam ser este o mais perigoso, porque as pessoas desse mundo um dia podem se tornar dominadoras do mundo terreno, eles poderão se transformar em patrão. Afirmam que existe uma cidade submersa no rio Negro, onde habitam “gentes” que invejam e ao mesmo tempo admiram os Baré. Este mundo é dominado pela “cobra-grande”, por “gente-peixe” e por “gente-boto”, que vivem praticando constantes ataques às “gentes de cima”. Quando uma pessoa morre afogada, por exemplo, costuma-se dizer que foi um ataque de “gente do fundo”, no entanto, para eles, a pessoa não morre de fato, pois ela é levada para “baixo” para ajudar o povo ou para pagar alguma dívida que fora contraída pela própria pessoa ou por algum membro de sua família. Um exemplo de dívida seria matar peixes demasiadamente; “gente do fundo” vem cobrar ou penalizar. Às vezes, as pessoas são atacadas por seres do rio e da mata, mas conseguem sobreviver e continuar a conviver em nosso mundo, porém de forma desequilibrada sempre acompanhada pelos encantes. Essas pessoas teriam feito uma passagem rápida pelo “mundo de baixo” para pagar dívidas próprias ou da família, mas não ficaram por lá definitivamente.

Em Campinas do Rio Preto, há um garoto que passou um mês em coma profundo. Os moradores locais afirmam que os “bichos do fundo” carregaram o garoto para que pudesse pagar uma dívida que contraiu. Antes de entrar em coma, o garoto acordava todas as manhãs no verão para acabar com os ovos de irapucas98 em uma praia próxima à comunidade. Ele não deixava nenhum ovo e por conta disso, os “donos do fundo” se revoltaram contra ele:

Ninguém acreditava que o Pingo [apelido do garoto] ia sobreviver. Veio pajé de fora, veio enfermeira, médico e nada dele acordar. Aqui na comunidade as pessoas sabiam que ele havia sido levado pelos encantes, porque havia transgredido as normas de usar as coisas e os ‘donos’ vieram lhe cobrar. Ele era muito predador, malino, acabava com os ovos das irapucas, não deixava um se quer. Os bichos do fundo vieram cobrar dele e quase o levaram. Ele acordou depois de mais de um mês, mas está sob a guarda dos bichos do fundo. Ele não fala mais direito, a fala dele mudou moço, a gente quase não entende o que ele fala, ele tem a cabeça desmantelada. Agora ele é um bom pescador e vive boa parte do tempo dele dentro da mata ou nos igarapés pescando sozinho. Ele não tem medo de nada nesse mundo. Ela agora anda de amizade com os bichos do fundo. Dizem aqui que agora ele é encante, parece mesmo. (Antonio Buyawaçu, comunidade de Campinas do Rio Preto, setembro de 2014)

A enfermidade do garoto, considerada como ataque dos donos do fundo transformou o garoto, que passou a um convívio mais intenso com gente do fundo. Também, neste caso, o ataque significou a cobrança de uma dívida e a quebra de normas para o manejo das coisas do mundo. Rodriguez et al (1990), analisando um caso similar na Amazônia colombiana, explicita que:

La ruptura de las normas establecidas para el manejo de los recursos genera problemas en los individuos y comunidades que los ocasionan y se vinculan directamente con la presencia de enfermedades y muerte que son vistas como cobro de los dueños de tales recursos para recircular la energía; por esta razón el control en la explotación de los recursos es un referente continuo para las comunidades indígenas, las cual aún en el caso de encontrarse desintegradas mantienen un control sobre la cantidad de los recursos a explotar, y recrean la importancia cotidianos de su nivel simbólico individual y colectivo. (RODRIGUEZ et al, 1990, pp. 140-141) Quando os Baré comentam sobre a questão da “transformação”, desvendam, através das suas narrativas, as possibilidades criativas que perpassam seus mundos.

Demonstram uma capacidade supostamente ilimitada para assumir diferentes formas e para adaptar-se aos novos contextos. A exemplo disso podemos citar as relações com os donos de lugares, o surgimento de “patrões encantados”, de “fregueses cativos”, de “mulher loira encantada”, dos caraiu, que passam a fazer parte do repertório das suas narrativas. Essas narrativas podem nos facilitar a compreensão das relações entre patrões e fregueses desde seu ponto de vista. Dessa maneira, o propósito é demonstrar, nos tópicos seguintes e nos próximos capítulos, como os Baré do rio Preto tratam dessa questão.