2.3. Türkiye’de Bölgesel Turizm Potansiyeli
2.3.2. Güllük Körfezi’nin Turizm Kaynakları
2.3.2.3. Milas Körfezi’nin Turizm Çeşitleri
2.1- Os conteúdos do mundo
A
ntes de adentrarmos na discussão específica do espaço e do tempo, gostaríamos, mesmo que brevemente, de discutir algumas características mais gerais que, no nosso entender, atuariam na construção de uma percepção distinta da realidade existente no sujeito medieval. Isso, em contraposição a nós, sujeitos modernos. Logicamente, não temos a pretensão de esgotar o assunto. Simplesmente tentaremos evidenciar uma compreensão da realidade que, no homem medieval, fez-se embebida pelos a prioris do saber religioso, que davam livre força para o trânsito do invisível, do imensurável, do não findado no empírico. Para tanto, começaremos a discussão recorrendo a uma obra de caráter literário.Século XII. Nele, o personagem Baudolino, do romance homônimo de Umberto Eco, segue, nos confins do Oriente, a sua busca pelo Reino de Preste João14. A natureza, na narração do autor, é composta enquanto um imenso quadro do imaginário da época e, quanto mais Baudolino e seus outros companheiros parecem se aproximar do referido reino, mais a distância entre o real e este imaginário parece diminuir. No Capítulo Vinte e Nove (Baudolino chega a
Pndapetzim), temos uma das cenas mais inusitadas referentes ao afrouxamento desta distância:
O relevo, todavia, era um horizonte interminável, e naquela planície os cavalos seguiam com dificuldade porque crescia por toda parte uma vegetação exuberante, como um interminável campo de trigo maduro [...]. Atravessando uma clareira, praticamente uma ilha naquele mar, viram que de longe, e num só ponto, a superfície não se movia mais de modo uniformemente ondulado, mas agitava-se irregularmente, como se um animal, uma lebre enorme, sulcasse as
14 A crença na existência deste reino cristão em pleno Oriente foi reacesa, segundo Carvalho (1994), no ano de 1165
através de carta apócrifa, que foi atribuída a Prestes João, que foi endereçada ao imperador bizantino de Roma e ao rei da França. Segundo a autora, a sobrevivência de tal reino imaginário se estendeu até 1573, nos mapas holandeses, que então situavam tal reino na Abssínia.
ervas, mas se era uma lebre movia-se em curvas sinuosíssimas e não em linha reta, a uma velocidade superior à de qualquer lebre [...]. Nos confins da clareira, as ervas finalmente se abriram e apareceu-lhes uma criatura que as afastava com suas mãos, como se fossem um cortinado. Deviam ser aquelas mãos e braços do ser que vinha em sua direção. De resto, possuía uma perna, mas era a única. Não que fosse perneta, porque aliás aquela perna ligava-se naturalmente ao corpo como se nunca tivesse havido lugar para a outra, e com o único pé daquela única perna aquele ser corria com muita desenvoltura, como se desde o nascimento estivesse acostumado a mover-se daquele modo [...]. Quando o ser parou diante deles, viram que o seu único pé era maior do que o dobro de um pé humano, mas bem formado, com unhas quadradas, e cinco dedos que pareciam todos dedões, gordos e robustos [...]. Baudolino e seus amigos reconheceram-no logo, por ter lido e ouvido falar tantas vezes a respeito: era um ciápode [...] (ECO, 2001, p. 319-320).
Além do ciápode15, outras criaturas habitavam o imaginário europeu na Idade Média: unicórnios, dragões, grifos, cinecéfalos... (ver Ilustração 2, que mostra a figura maravilhosa do unicórnio). Os espaços vazios, que assim o eram pela falta de um verdadeiro conhecimento do seu conteúdo, eram preenchidos pelo caos, por uma natureza fantástica, por seres monstruosos. Faltava-lhes a consagração, o pertencimento ao cotidiano. O espaço externo, profano, ganha, nesta perspectiva, o sentido do disforme, da heterogeneidade, do fragmento, pois o sagrado, como destaca Eliade (s.d.), funda o mundo, fixando o limite e estabelecendo a ordem cósmica. Tais espaços, em vias de consagração, estavam também, em vias de adjetivação, associando o estranho, o maravilhoso ao desconhecido e, simultaneamente, à possibilidade de volta para a unidade perdida – leia-se unidade cristã – expressa pelos próprios fragmentos de cristianismo que tal maravilhoso contém.
15 Kimble (2000) destaca que criaturas como o ciápode (Scyapodae), raças de homens cujo único pé era tão grande
que podia ser usado como sombrinha, se referem ao tipo de influência que as mitologias grega e romana exerceram sobre o imaginário medieval, popular e culto, transfigurando-se, também, na cartografia fabulosa produzida neste período. Na referida obra de Umberto Eco, os ciápodes, os blêmios, os pigmeus e os gigantes, entre outras criaturas do maravilhoso, realizavam entre si inúmeras contendas teológicas, demonstrando o nível de diluição de tais mitos na expansão do mundo, do saber cristão, bem como o tipo de reducionismo que a perspectiva monoteísta sobrepõe sobre tal mitologia, como defende Le Goff (1990).
Ilustração 2. A dama e o unicórnio. Peça de tapeçaria do final do século
XV. Fonte: Magee (2001, p.61).
Onde nós, modernos, vemos uma categoria
do espírito, da literatura, os homens medievais viam um universo de
objetos, mais uma coleção do que uma categoria, uma visibilidade que
independe da função específica da retina, da supremacia do olho sobre a
mente, sobre a imaginação. O que fora lido, contado, detinha um tipo
peculiar de funcionalidade, incutindo uma veracidade que independe da
comprovação exigida pelos critérios de experiência moderna.
No ambiente culto da Idade Média, usava-se mirabilis no lugar do maravilhoso, de acordo com Le Goff (1990). Tal palavra detinha, em sua raiz, algo de visível, (miror, mirari), relacionando-se, desta maneira, com um imaginário construindo-se em certa relação com o sentido da vista16 (LE GOFF, 1990). Desta maneira, onde nós, modernos, vemos uma categoria do espírito, da literatura, os homens medievais viam um universo de objetos, mais uma coleção do que uma categoria, uma visibilidade que independe da função específica da retina, da supremacia do olho sobre a mente, sobre a imaginação. O que fora lido, contado, detinha um tipo peculiar de funcionalidade, incutindo uma veracidade que independe da comprovação exigida pelos critérios de experiência moderna.
Se houvesse o predomínio do tipo de observação que Francis Bacon, no Novum Organum defendeu, amparada nos percursos determinados pelo método indutivo, na experiência procedida
de acordo com leis seguras, de forma gradual e constante (p.79), na mente, despida dos ídolos
que animam os fatos particulares com as similitudes, com os erros da fantasia, o ciápode apareceria, como o é para nós, mais uma lenda ou um rico objeto de estudos – científicos – sobre cultura popular. Os descobrimentos marítimos, que conduzem Bacon a comparar a Idade Média com a geografia regional, perdida em meio à grandeza do mundo, deveriam, segundo o chanceler, permitir o conhecimento cada vez maior dos fatos particulares, experenciados pelo sujeito através do reconhecimento da alteridade existente entre pensamento e realidade. Nessa alteridade, o ciápode desapareceria, pois de nada bastaria o apenas ler e ouvir falar.
Quando o cientista prussiano Humboldt disse em seus Quadros da Natureza, relatando sua viagem à América ocorrida na transição do século XVIII para o XIX, que [...] não
conhecemos senão uma parte insignificante dos numerosos tesouros esparramados sobre a terra
(1950, p.53), realizou, em certa medida, este afã baconiano, ou pelo menos expressou a sua angústia. O adjetivo tesouro implica no papel que a natureza passará a ter no movimento de reprodução do capital no modo de produção vigente e a alusão à parte insignificante implica, fundamentalmente, no tipo de necessidade que o próprio chanceler destacou de afirmação dos
16 Boorstin (1989) discute etimologicamente a questão dos monstros: as raças monstruosas eram assim chamadas do
latim monstrum (de monere, advertir) que significava um presságio divino. A concordância já era menor quanto ao que esse augúrio significava. Como toda a humanidade descendera de Adão no Jardim do Éden, a diferença física da norma feliz preservada na Europa tinha de ser explicada por degenerescência, decadência ou castigo de pecado (p.565).
fatos particulares e de ruptura frente ao pensamento pouco condicionado a inventariar,
indutivamente, a diversidade da existência17. Assim, teria sido, a geografia regional da Idade
Média, bastante distante do nominalismo da ciência moderna, esta aberta a um novo mundo também aberto, rico em diversidade e complexidade.
Na Idade Média, temos, de acordo com Lenoble (s.d.), citando Brunschvicg, uma clara oposição ao tipo moderno de construção do pensamento e abstração da realidade. Nós, modernos, estabelecemos um tipo de relação horizontal com o mundo, em que, por meio de efeitos e causas equivalentes, situadas no mesmo nível que o dado empírico, abstraímos a alteridade das coisas da realidade através, como ressalta também Santos (2002), da própria alteridade em que se constitui o pensamento. Por seu turno, o homem medieval oferecia a esta mesma realidade uma explicação vertical, que ligava os efeitos visíveis – ou os narrados, os lidos, os transcritos - a causas transcendentes.
Neste contexto, temos que
É manifesto o elo entre os dois tipos de explicação e as estruturas sociais de que são contemporâneos: a explicação vertical prevaleceu nas sociedades hierárquicas da Grécia do Século V e nas monarquias da Idade Média; a explicação horizontal é a das democracias em que prevalece a lei do número, princípio da equivalência (da igualdade) dos componentes do grupo, lei e princípios relativos eles mesmos a uma técnica de medida, do número, da estatística e a uma utilização de massas anônimas (LENOBLE, s.d., p.206).
No mundo da técnica, segundo Lenoble, o indivíduo se perde em uma multidão anônima, edificada sob a égide da lei do número e, neste sentido, todos nós deixamos de estar encerrados pela presença qualitativa das pessoas – pelo menos daquelas que estão mais distantes de nós. Giddens (1991), discutindo a questão dos sistemas peritos nas sociedades modernas, bem exemplifica este tipo de relação.
17 Nesta mesma obra, Humboldt, que percorreu boa parte do continente americano – exceção principal feita com
relação ao Brasil – , buscando auxiliar no desenvolvimento da botânica classificando as plantas aqui encontradas no padrão estabelecido por Lineu do binômio gênero/espécie, chegou a levantar as seguintes indagações: 1a.) Qual é o
número de plantas já descritas nas obras impressas?2) Qual é, das plantas descobertas, ou colocadas nos herbários, que ainda não está descrita? Em que cifra se pode avaliar aproximadamente o número de todos os vegetais espalhados na superfície do globo? (HUMBOLDT, 1950, p.35).
Assim, por exemplo, habitamos uma construção revestida de sistemas que nos permitem subir escadas, ligar torneiras, usar utensílios elétricos sem que seja necessário um conhecimento profundo sobre os mecanismos de construção da escada, de encanamento, da técnica de invenção dos utensílios domésticos. Apenas confiamos na perícia de alguém que sobre tais mecanismos se debruçou e que, em certa medida, fantasmagoricamente, faz parte de nosso espaço, acelerando, digamos, nosso tempo, permitindo uma limpeza, um cozinhar mais rápido, mais eficiente.
Onde vemos quantidade, a transcendência do pensamento abstrato, o homem medieval via qualidades (Lenoble, s.d.). Não havia o tipo de transcendência ou mesmo de participação fantasmagórica de sistemas peritos que tornam possível um tipo de relação à distância, medida sob o prisma da quantidade – o tempo que posso “otimizar” no amparo tecnológico dos novos sistemas -, da racionalidade que tende a segmentar e tornar operativa cada parcela de uma realidade ela mesma tomada enquanto grande abstração, caminho do número. O habitar era ele próprio uma espécie de consagração do mundo, não um mero recorte funcional, racionalizado para o ciclo de reprodução do capital nas cidades industriais, como bem ressalta Lefebvre (1991).
No período medieval, alude Lenoble (s.d.), a mercadoria que o homem compra – quando não a troca por outra coisa feita por ele próprio - e a ferramenta que emprega no seu trabalho não estão padronizadas em um bazar. Ambas – mercadoria e ferramenta - são obra de alguém conhecido. A partir da coisa, o nosso pensamento e a nossa afetividade reportam-se, de imediato, ao operário que a produziu. O chefe está lá, ali perto, chefe cuja cara gorda ou macilenta, cuja
fealdade ou graça, humores, virtudes, defeitos ele conhece (p.205).
Assim, na Idade Média e na Época Clássica, segundo Robert Lenoble (s.d.), naquele tipo de relação vertical em que a finitude é vista somente enquanto chave para compreensão de um significado que a transcende, a hierarquia cósmica e social é temperada pelo sentimento profundo do valor próprio, particular.
O cristianismo deu a cada alma, um valor infinito e quer também que a matéria participe, à sua maneira, da vida mística (o batismo que consagra o corpo, que consagra o pão e o vinho)
(Lenoble, s.d.). O receptor de luz não era o olho posto a desbravar a verdadeira grafia do mundo; mas cada ser particular, divinizado na realização do seu ser diante do conjunto, era iluminado: o rei da Hungria recebe a coroa de Santo Estevão, o rei da França, cura os escrófulas e São Jorge cuida da Inglaterra (LENOBLE, s.d.).
A percepção visual não é ainda abstrata e, portanto, a perspectiva é uma desconhecida. Na pintura, cada pormenor da cena fica no espírito que a contempla (Lenoble, s.d.). De acordo com Grimme (1968), a pintura medieval seria a expressão de um conhecimento religioso que busca, nas suas representações artísticas, uma forma correspondente à verdade revelada. Uniria-se, a palavra divina, à imaginação do artista, exegeta e intérprete do texto sagrado, como a Ilustração 3, pintura do mestre Bertram de Minden (1367-1415), bem demonstra. Assim, a pintura medieval indicaria aos homens um caminho que os conduziria dos fenômenos visíveis aos mistérios ocultos no mundo aparente. A supremacia do olho sobre a mente, que faz da identificação do subjetivo uma possibilidade de apreensão – dentro dos limites de nosso espírito – objetiva da alteridade do mundo ainda não se faz presente. Como destaca Crosby (1999), o principal canal de autoridade do período medieval era o ouvido, sempre atento, inclinado, à recitação das Escrituras, dos mitos e poemas épicos.
Ilustração 3. Pintura Castigo de Adão e Eva, do final da Idade
Média, de autoria Mestre Bertram de Minden, presente no Altar de Grabow, Alemanha. As palavras de Grimm (1968), de onde extraímos tal pintura, ilustram bem a perspectiva de uma pintura vinculada à interpretação e pregação do texto bíblico:
assim,
Kunsthalle de Hamburgo conserva um exemplo de uma tal
individualidade artística que pode seguir-se, de 1367 a 1415, no
Altar de Grabow, do mestre Bertram de Mindem, o mais antigo
dos pintores e escultores alemães cujo nome, vida e obras nos são
conhecidos, e cujos quadros são como sermões em imagens. Deus
Pai increpa, com a mão erguida e ameaçadora, o infeliz Adão, que
num gesto inequívoco transfere a culpara para a Eva, a qual, com
uma galanteria bem feminina e mesclada de receio, acusa a
serpente: (p.67) (GRIMM, 1968).
Seria, a percepção medieval da realidade, qualitativa, adjetivada pelas expectativas que as verdades da fé despertariam no sujeito, fazendo do próprio corpo do mundo uma continuidade das expressões e necessidades avultadas no plano subjetivo pela doutrina das Escrituras, pelas imagens saltantes da pintura, da arquitetura, que pareciam enredar o homem medieval à trama divina, ao drama da salvação. Assim
Onde pomos uma geometria, os homens da Idade Média e do Renascimento viam valores. A natureza não é, para eles, um sistema de quantidades, mas uma hierarquia de qualidades. A sua técnica, mesmo a do cálculo, continua a ser de tal maneira rudimentar que nem sequer lhes permitia medir comodamente. A utilização de algarismos árabes não se expande antes dos primeiros anos do século XVII e, quando o leitor se serve dos algarismos romanos, veja lá se é cômodo multiplicar XXIII por XV (LENOBLE, s.d., p.208)18.
O referido autor ressalta que os homens medievais não se achavam, nesta perspectiva, desprovidos nem de nossa física, nem de nossa técnica e, mesmo que o seu mundo fosse menor em dimensões– a geografia regional de Francis Bacon – e menos abastecido em espécies vivas e substâncias químicas catalogadas– os tesouros de Humboldt - a natureza era repleta de valores e presenças que preenchiam a sua afetividade. Os ciápodes, os dragões e os unicórnios, se não eram vistos, reconhecidos na particularidade de seu ser, faziam, assim mesmo, parte de um tipo de maravilhoso que parecia escapar ao mundo cotidiano dos homens, estimulando-o.
O reino do algoritmo matemático, que precisa as particularidades em um nível de abstração que substantifica toda a estrutura horizontal do mundo, fazendo, como fez Descartes (DURANT, 2000), do pensamento o único símbolo possível para expressar o significado de Deus, era algo distante na Idade Média. O mundo, dessacralizado parcialmente para o domínio via trabalho, era ainda animado, desconhecido e, simultaneamente, adornado por uma geografia fabulosa.
18 Uma interessante discussão acerca dos usos da matemática na Idade Média é feita por Crosby (1999). A seguinte
frase, extraída de seu livro A mensuração da realidade, sintetiza bem o cenário da época no que tange à quantificação: Além de um pendor para o genérico e o impressionista, os europeus ocidentais, especialmente os que viveram no que chamamos Idade Média, sofriam de uma alta de meios claros e simples de expressão matemática. Não dispunham de sinais de soma, subtração ou divisão, nem dos sinais de igual ou raiz quadrada. Quando precisavam da clareza das equações algébricas, produziam, tal como os antigos, frases longas e embrulhadas, quase proustianas. Seu sistema de expressão numérica, herdado do Império Romano, era suficiente para a feira semanal ou a coleta local de impostos, mas não para coisas mais grandiosas (p.50).
A natureza, dessacralizada em certa medida para que o homem cumprisse o castigo da Queda, ainda falava ao homem o significado da Criação. Amigável no possibilitar da vida; inimiga na atuação enquanto sujeito que requer uma reação do homem após a maldição do solo. Cada coisa realiza um fim, de acordo com Santo Tomás de Aquino, condizente com o tipo de derivação que possui do Absoluto, tomado enquanto ato puro que dispensa o recorte da potência, enquanto perfeição suprema que espalha suas graduações pelo mundo.
Y no puede ocurrir que la existencia sea causada por la própria forma ou quididad de la cosa, quiero decir como si ella fuera sua causa eficiente, porque en este caso la cosa sería causa de sí mesma y se daría la existencia a sí mesma, lo cual es impossible. Por lo cual es necesario que toda cosa cuya existencia sea distinta de su naturaleza, tenga la existencia por otro. Y puesto que todo lo que existe por otro se reduce a lo que existe por sí mismo, como a una causa primera, es necessario, por conseguinte, que haya alguna cosa que sea causa del ser de todas las cosas, porque ella misma es sólo existencia; de otro modo habría que recurrir a una seria infinita de causas, ya que toda cosa que no es sólo existencia tiene una causa de su existencia, como se ha dicho. Es manifiesto, por tanto, que la inteligencia es forma y existencia y que recibe su existencia de un primer ser, el cual es sólo existencia y ésta es la causa primera que es Dios (AQUINO, 1963, p.62-3).
Em Aristóteles, como ressalta Abrantes (1998), o movimento natural se faz por uma modelagem da matéria pela forma, sendo esta – a alma - imanente, potencial em todo o ser, negando a atuação de um Demiurgo, de um agente externo, de um criador, dada a própria eternidade do mundo. Entretanto, em São Tomás de Aquino (1225-1274)19, principal cristianizador deste aristotelismo, a hierarquia do universo se dá em um tipo de relação vertical em que a perfeição de Deus distribui-se desigualmente, qualitativamente fornecendo ao mundo, na distinção das diferentes potências, um arranjo quase que orgânico, dinamicamente assentado
19 É importante de se ressaltar que São Tomás de Aquino deu um importante passo para a separação entre o Livro de Deus e o da natureza, apartando teologia e filosofia. Há, como ressalta o próprio São Tomás de Aquino, em seu O Ente e a Essência, a possibilidade de conjunção entre acidente e sujeito, sendo o primeiro totalmente dependente da existência do segundo. Assim, os atributos masculinos e femininos não permaneceriam nos animais se deles retirarmos a forma animal. Desta impossibilidade de unidade, como ocorre na confluência entre forma e matéria que constitui a essência dos seres – mesmo daqueles em que o perecer faz morrer com eles esta essência – resulta que no acidente não há, na hierarquia que constitui o universo tomista, a intervenção ou uma graduação derivativa de Deus. Existe, mesmo que vinculada a uma concepção hierárquica de universo que toma na diferença graus relativos de derivação do Absoluto, um livre jogo na natureza, que pode causar o mal no qual Deus, pelo menos diretamente, não sobrepõe a Sua vontade.
nestas diferentes derivações do Absoluto. O mundo é criado e cada criatura toma emprestada de