A protagonista de uma história é a que tem maior participação no enredo, pois, em torno dela, giram as cenas que compõem a trama. Seu destaque, quando em um texto escrito, pode se dar de diferentes maneiras, entre elas na construção da subjetividade pelo uso de recursos específicos disponibilizados pela língua, mais especialmente quando se trata de uma narrativa em primeira pessoa, ou, ainda, em narrativas na 3ª pessoa, pela referenciação na voz de um enunciador.
A personagem Francesco (Queco), além de narrar a história em primeira pessoa, é também a personagem principal, o que justifica o destaque que lhe é dado. Para transpor a voz dele, os diferentes enunciadores se utilizaram de 26 formas verbais variadas, de um total de 191 verbos.
Nos fragmentos seguintes, algumas passagens23 em que a responsabilidade enunciativa foi atribuída a Queco através de diferentes verbos dicendi. Em destaque, os verbos e seus complementos, objetos diretos24, representados por orações subordinadas ou por palavras ou expressões.
23 Para tornar mais clara a exemplificação, optamos por identificá-la por letras, quando se trata de cada uma das
personagens.
24 Em geral, o complemento verbal foi apenas um objeto direto, mas há exceções como na seguinte passagem em
R18: “... um dos seus adversários propôs a sua exclusão do concurso, mas o outro pediu para falar e convenceu o
a) “Durante as reuniões Francesco estava morrendo de ciumes de vitorio e Julia eles trocavam olhares apaixonados, ele com ciumes discordava de tudo. Nas ultimas reuniões todos achavam que Capitu não tinha traido só francesco que achava que ela tinha traido de proposito até que Francesco inventou uma carta falsa dizendo que machado de assis todos ficaram sabendo.” (R1, L.19 a 23);
b) “Chegou o dia do julgamento em Santo Inácio, o local em que ocorreria o evento estava lotado e Queco no fundo estava arrependido. Os outros convidados se apresentaram e chegou a sua vez. Na hora ele mudou o discurso, disse toda a verdade e mudou de idéia, pois defendeu a opinião que Capitu não traiu. Além disso disse o que sentia por Júlia a abraçando.” (R5, L 21 a 24);
c) “Todos acreditaram e definiram que com uma prova igual aquela eles iriam ganhar, chegou o dia do julgamento e Francesco foi representar a sua escola, havia duas escolas para competir com ele eram escola de Santo Inácio o Gremio e Roimão oswaldo chegou a vez dele falar e arrependido afirmou que não ia apresentar aquele Fraude e disse que tinha sido um doente de ciúme, encantou a platéia e os jurados, a escola Zé Fernandes saiu ganhadora e o que não podemos esquecer é que um bom livro é aquele que o leitor se espelha.” (R7, L. 36 a 41);
d) “Francesco quando começou a ler o livro para debater com o grupo, começou a se identificar com Bentinho personagem principal do livro e Queco também como bentinho começou a ter ciúme de Júlia, sua namorada, nas reuniões Queco “observa” e não gosta das trocas de olhares de Júlia e Vitório, chegando a pensar que estava sendo traído, como bentinho achava que Capitu teria te traído com Escobar.” (R14, L. 8 a 13);
e) “... com apenas Queco dizendo que Capitu traiu, ele começou a inventar falsos documentos contra Capitu e contrariar o grupo, mas para isso investiu bastante e não revelou a seus amigos que havia inventado tudo.” (R63, L. 37 a 39);
f) “Certo dia, Jaime resolvel fazer uma surpresa para os alunos, levaria um livro novo, que dizia ser muito bom. Estava num dia chuvoso e Queco implorava a sua mãe para ir para a aula mesmo estando gripado.” (R34, L. 5 a 8);
g) “Foram selecionados para descutir o julgamento que ocorreria em santo Inácio, o quarteto: Queco, Vitório, Nanda e Júlia (namorada de Queco). Após lerem o livro, inicialmente eram dois contra dois, ao reler, todos estavam contra queco, pois ele era o único que palpitava que
Capitu traíra Bento. Ele levava em consideração, a semelhança entre a história do livro e a sua vida.” (R43, L. 11 a 15).
Como é possível perceber pelos exemplos, há uma grande variedade verbal25. O verbo dizer, mais comum ao relato, predominou em 73 de um total de 141 ocorrências em que o complemento verbal foi uma oração subordinada, representando 51,77% do total. Seguido de falar, com 20 ocorrências, 14,18%. Os demais, 22 verbos variados, totalizaram 48 ocorrências, representando 34,04% do total, conforme gráfico 2.
Gráfico 2 - Variação dos verbos dicendi
No quadro 4, constam todos os verbos, transcritos das redações que constituem o
corpus, bem como o número de ocorrências quando da atribuição da responsabilidade
enunciativa a Queco. Esse quadro permite a constatação da variedade de formas verbais em que predominam os verbos mais comuns a um simples relato, o que confirma a atuação da personagem no livro fonte, ou seja, ele é o narrador no livro-fonte.
Quadro 4 – Síntese dos verbos usados26.
Verbos Nº Verbos Nº Verbos Nº Verbos Nº
Achar 4 Avisar 1 Falar 20 Questionar afirmando 1
Acreditar 1 Confessar 3 Implorar 1 Reconhecer 1
Acrescentar 1 Confirmar 1 Inventar 3 Revelar 1
Admitir 1 Contar 5 Palpitar 1 Saber dizer 1
Afirmar 8 Declarar 1 Pensar 2 Ter escrito 1
Alegar 1 Defender 2 Perceber 4
Assumir 1 Dizer 73 Perguntar 2 Total de ocorrências 141
A fala da personagem principal, Queco, foi introduzida, predominantemente, através do uso de verbos dicendi, seguidos de uma oração subordinada27. No entanto, em 50 ocorrências o complemento verbal, objeto direto, foi apenas um termo, não uma oração28. Conforme exemplos, nos quais, em destaque, os verbos e seus complementos. Nesse caso, predominou o verbo contar em 44% do total, falar em 22% e dizer em 14%, conforme gráfico 3, seguido de exemplos.
Gráfico 3 - Verbo contar, predominância sobre os demais
26 Os verbos estão agrupados em ordem alfabética.
27 No anexo A, quadro 2 a/b, consta a indicação das redações e linhas de onde foram transcritos todos os
verbos.
28 Conforme anexo A, quadros 3 a/ b, em que constam os verbos e a indicação das redações e linhas de onde
a) “Com esse às na mánga eles foram ao julgamento, a notícia ja tinha vazado. Chegou sua vez, todos anciosos ate que ele decidiu contar a verdade. Confessou que era tudo falso e que não sabia se Capitu traiu ou não, mas, ele falou como a história repercutiu em sua vida.” (R7, L. 29 a 31);
b) “Proseguia com a mentira, um dia antes do julgamento um homem ligou para Queco e disse se ele proseguir com a mentira teria de da metade do prêmio a ele, no dia lá estava o homem, para não dividir o prêmio ele contou a verdade que a carta era falsa e falou à plateia e ao juri o que o livro Dom Camosmurro tinha mexido com ele, e suas conclusões.” (R15, L. 12 a 15).
c) “No grande dia do concurso os pais dele, amigos, professores estavam presentes, ele começou bem mas logo confessou o erro disse que amava Julia e ele foi o ganhador. Ele no final se casou com Julia e teve um filho.” (R1, L.24 a 26);
d) “Se sentindo sozinho e em desvantagem “Queco” fala sobre uma prova que poderia derrubar todos os argumentos dos seus colegas, é aí que ele faucifica uma carta em nome do própio Machado de Assis, que afirmava que “Captu” havia traído bentinho. Mas chegando no julgamento ele se arrepende e comfessa o feito e fala sobre seu pensamentos em que pede a Júlia pedão por achar que ela havia o traído, e acaba vencendo o julgamento por ter vivida e comparado a história a si mesmo tão intensamente”. (R54, L. 21 a 26).
A predominância do verbo contar sobre os demais se justifica, pois nas passagens em que foi utilizado, os enunciadores relatam o momento em que a personagem Queco, arrependida do erro que cometera, resolve contar que havia mentido e revelar um segredo que mudaria o percurso da história. A escolha se justifica pela carga semântica desse verbo, que se aproxima do sentido que o enunciador pretende construir. Como exemplos, letras a e b.
Ao complementarem o verbo transitivo (transitividade é uma característica dos verbos dicendi), em uma sequência como nos exemplos a, b, c e d29: “...ele decidiu contar a verdade. Confessou que era tudo falso...”, “... ele contou a verdade que a carta era falsa...”, “... confessou o erro...”, “...comfessa o feito...”, não são necessárias mais explicações ao coenunciador, pois essa informação de que Queco falsificara um documento já é, supostamente, do conhecimento do leitor. A intenção do enunciador é esclarecer que havia um segredo, no caso uma atitude errada, a ser revelado pela personagem principal. Até mesmo
29 No anexo A, quadro 5, a relação dos verbos em que a responsabilidade enunciativa foi atribuída a Queco,
pela definição daquilo que diz, ao usar o artigo definido ( o feito, o erro, a verdade), o enunciador leva o leitor a perceber que havia mesmo algo a ser confessado.
A atuação da personagem Queco se deu predominantemente através de verbos
dicendi. Em 191 ocorrências verbais a responsabilidade enunciativa foi atribuída a Queco.
Os verbos dizer, contar e falar, juntos, representam 72,25% de todos os verbos utilizados. O gráfico quatro facilita a comparação do uso desses verbos.
Gráfico 4 - Predominância do verbo dizer sobre os demais