3. BULGULAR
3.6. Mikrobiyolojik Parametreler
O sistema capitalista conviveu, neste século, com a sua mais profunda e prolongada crise. O término da Primeira Guerra Mundial “atirou na lona” as nações hegemônicas nas relações capitalistas internacionais. As novas nações em ascensão, por sua vez, encontraram-se incapazes de liderar um novo concerto internacional entre nações.
A instabilidade econômica foi uma característica marcante deste período. A indústria e a agricultura dos Estados Unidos, por exemplo, conheceram uma superexpansão das suas capacidades produtivas, alimentando o esforço de guerra e os mercados europeus, palco central do conflito. Com o término do conflito, em que pese a revolução de consumo norte-americana, a estrutura produtiva não encontrava mercados suficientes para a realização dos excedentes gerados.
Na Europa, o quadro se apresentou mais agudo. O término do conflito revelou nações endividadas para com os Estados Unidos, como a Inglaterra e a França, nações sufocadas pelos prejuízos de guerra, como a Alemanha e a Itália, carência de excedentes, desemprego estrutural, radicalizações político-ideológicas e assim por diante. A conquista de mercados neocoloniais, segundo a forma do imperialismo do século XIX, tendeu a radicalizar-se à medida que a reconstrução européia foi sendo concluída e se reestabeleceu a produção do período imediatamente precedente ao início do conflito. As tensões sociais e econômicas foram agravadas através do crescimento do desemprego, da ascensão do movimento operário e do surgimento do fascismo, de um lado, e do desequilíbrio econômico estrutural, cuja manifestação paradigmática foi a geração de excedentes sem possibilidade de realização econômica, de outro.
A crise de 1929 representou o pico desse ciclo de retomada da expansão capitalista sob crise. Os Estados, ancorados em políticas econômicas liberais, reproduzindo velhos
princípios, como a regulação automática do mercado ou a alocação ótima de recursos, não se encontravam em condições de dar respostas rápidas e objetivas no sentido de moderar os efeitos da crise.
Teve início neste período a retomada da crítica do liberalismo econômico clássico. A teoria da concorrência e da anarquia da produção capitalista devida a Marx (1984, v. I, p. 26), e do desequilíbrio interdepartamental da economia nacional, cujo relativo equacionamento e expansão pressupunha a conquista de novas “fronteiras” para as relações de produção capitalista, encontrando-se ou não no interior do espaço nacional, devida a Luxemburgo (1985, p. 227-320), inspiraram ou influenciaram as novas teorias.
Formou-se a teoria da concorrência imperfeita através de Piero Sraffa, Joan Robinson e Edward Chamberlin e a teoria dos ciclos econômicos e o equacionamento das contradições deles advindos, através de Joseph Schumpeter, Michal Kalecki e John M. Keynes (Mantega, 1985, p. 25). Com base nestes diagnósticos e reflexões críticas sobre a economia de mercado capitalista, Keynes elabora uma teoria global da economia política - não da sua crítica.
Keynes (1985, p. 3-329) exerce uma influência especial neste período. Reconhece que o capitalismo havia ingressado numa fase em que as forças do mercado não poderiam mais ser deixadas sobre si mesmas, especialmente nos períodos de crise. Advogou a enorme presença do Estado na economia implementando e assumindo serviços sociais que barateassem os custos do capital variável das empresas - saúde, educação, moradia etc - financiando setores produtivos estratégicos para um desenvolvimento econômico equilibrado - energia, insumos industriais etc - e produzindo, quando os financiamentos que o setor público proporcionasse para o setor privado não fossem suficientes para suprir a demanda social por determinados produtos ou que este setor não estivesse em condições de assumir satisfatoriamente esta demanda. Advoga, ainda, o dirigismo econômico com o Estado, colocando-se como planejador econômico global, através de um aparato técnico-burocrático.
Os postulados de Keynes haviam de influenciar profundamente a intelectualidade latino-americana ocupada em buscar alternativas econômicas e sociais para a crise. Em países como Brasil, Argentina, Chile e México, que conviviam com um setor industrial expressivo, mas que encontravam-se dependentes do setor de mercado externo em crise, esta influência foi maior. A dominância do setor de mercado externo no conjunto das economias radicalizou crises sociais, econômicas e políticas e criou uma falta de perspectiva para estes Estados dentro da tradicional divisão internacional do trabalho, o que passou a exigir para muitos uma intervenção estatal organizada.
Os países mais desenvolvidos da América Latina conheceram um surto de urbanização e industrialização no final do século XIX e primeiras décadas do século XX, de tal forma que um conjunto de novos grupos e relações sociais originavam-se no universo da antiga sociedade. A reorganização capitalista das atividades do setor de mercado externo, segundo os impulsos do capital financeiro internacional, concorreram para conformar um mercado local, uma força de trabalho disponível e uma infra-estrutura básica necessários para a expansão das relações de produção capitalista. A crise de intercâmbio no mercado mundial a partir de 29 e o subsequüente abalo da hegemonia oligárquica na América Latina - no Brasil este processo ocorreu através da Revolução de 1930, com a subseqüente incorporação subalternizada no bloco no poder da fração da classe dominante vinculado ao setor de mercado externo - fortaleceu a convicção de vários grupos sociais de que era necessário uma ação política do Estado, seja para atenuar a crise, seja para recorrer à industrialização como única alternativa econômica possível para a superação da crise.
O confronto estabelecido entre as classes e grupos sociais identificadas com as transformações urbano-industriais e as classes e grupos identificadas com a manutenção das estruturas dominantes da agro-exportação estendeu-se para o interior do meio intelectual, que se ocupava em pensar o país e/ou propor projetos sociais. Respectivamente, as formulações
keynesianistas e o liberalismo clássico transformaram-se em instrumentais teóricos do referido confronto.
A conformação de uma vertente interpretativa, que realçasse o papel do Estado na economia e que a integrasse em um modelo teórico explicativo do desenvolvimento, era mais do que provável. No Brasil, Roberto Simonsen (1978, p. 33) defendeu o intervencionismo estatal como estratégia necessária para assegurar o processo de industrialização e modernização da sociedade. Advogou a proteção da indústria nacional frente à concorrência externa e as inversões estatais na construção de uma infra-estrutura e insumos industriais, sob um projeto de desenvolvimento planejado e coordenado pelo Estado.
As proposições de inspiração keynesiana confrontam-se com aquelas advogadas por Eugênio Gudin. Este conservou-se ancorado no liberalismo econômico clássico, especialmente na teoria das vantagens comparativas, legitimadora de um padrão econômico agro-exportador e do discurso da vocação agrícola brasileira. Advogou, ainda, o afastamento do Estado do mercado e o abandono de qualquer política protecionista em favor da indústria nacional (Mantega, 1985, p. 12).
3.1-O Pensamento Cepalino
A compreensão do desenvolvimento sócio-econômico brasileiro, suas contradições e suas crises, impõe-nos uma apreciação do pensamento da Comissão Econômica Para a América Latina-CEPAL. Composta por intelectuais como Raúl Prebisch, Gunnar Myrdal, Celso Furtado e Ignácio Rangel, entre outros, constituiu-se na base da economia política latino-americana e brasileira. Até então, os cientistas econômicos e demais estudiosos das estruturas de reprodução material da sociedade latino-americana e brasileira limitaram-se a aplicação automática de modelos teóricos desenvolvidos nos países de capitalismo cêntrico, como defesa ou como crítica - a teoria econômica clássica, a teoria econômica marxista etc.
No plano nacional o pensamento econômico da CEPAL fez “escola”. Influenciou profundamente todas as correntes políticas e científicas que se orientaram, ora pela construção de uma teoria interpretativa da realidade nacional, ora pela elaboração de um projeto nacional de desenvolvimento econômico e social.
Para os propósitos desta dissertação, a abordagem desta vertente do pensamento econômico latino-americano e brasileiro ocupou grande importância na medida que as contradições e as crises, estruturais ou não, dos ciclos econômicos do período pós-30, foram interpretadas de uma determinada forma pelos cepalinos. A influência dessas interpretações revelou-se na historiografia sobre o tema como diálogo explícito ou não com a CEPAL através de vários conceitos, categorias ou teses interpretativas cepalinas, em especial no diagnóstico das contradições e crises do capitalismo.
O pensamento cepalino, formado através dos confrontos teóricos e científicos com os pensamentos neoclássico e marxista, de um lado, e da busca por desdobramentos conseqüentes às transformações modernizadoras em curso, de outro, orientou-se para a conformação de um projeto global de desenvolvimento para a América Latina. Duas características encontravam-se subjacentes a este propósito: diagnosticar a origem do subdesenvolvimento e a convicção de que há um ponto de chegada para os países subdesenvolvidos, qual seja o pleno desenvolvimento.
Os obstáculos para a superação do atraso eram considerados em termos internos e externos à sociedade nacional. Prebisch (Apud Mantega, 1985, p. 36) reconheceu, internamente às sociedades latino-americanas, a carência de integração econômica. Esta realidade era considerada o primeiro grande obstáculo para o pleno desenvolvimento, à medida que gerava uma descontinuidade entre regiões modernas e atrasadas. Esta descontinuidade comprometia, segundo o autor, a mútua transferência de estímulos econômicos.
Para os cepalinos, o caráter econômico tradicional do setor agropecuário, identificado basicamente com o mundo rural camponês sob economia de subsistência e com o latifúndio “improdutivo”, comprometia a geração de uma expressiva renda nacional. A pouca participação do setor agropecuário na geração da renda nacional impedia condições internas ideais para assegurar a geração da poupança necessária para a modernização do país. Argumentavam ainda que a conformação de um importante mercado para a grande quantidade dos produtos gerados pelo espaço urbano-industrial encontrava-se prejudicado, à medida que tal realidade concorreria para inviabilizar a otimização das escalas de produção conquistadas (Furtado, 1961, p. 38). Estas regiões tampouco ofereceriam a quantidade de víveres e matérias- primas necessárias para o barateamento dos custos de produção das atividades urbano- industriais, devido ao atraso das técnicas de produção.
A pouca participação do setor agropecuário na geração da renda nacional, a carência de demanda para o setor urbano-industrial e a baixa geração de excedentes, frutos do atraso do setor agropecuário, concorreriam para comprometer o dinamismo econômico do setor urbano- industrial. Segundo Rangel (Apud Mantega, 1985, p. 102-103), o atraso do setor agropecuário e as conseqüências macroeconômicas dele decorridas desencadeariam conseqüências secundárias, mas não menos importantes. A inflação brasileira, por exemplo, encontrar-se-ia grandemente determinada pelas características da estrutura agrária tradicional brasileira.
A carência de poupança interna representaria outro importante obstáculo para o desenvolvimento. Atribuída ao atraso do setor agropecuário, incapaz de gerar grandes massas de excedentes, devido à persistência de formas tradicionais produção, ao intercâmbio comercial internacional desfavorável aos países periféricos, que transferia para fora seus impulsos produtivos, e ao eixo econômico de expansão não mais voltado para fora, que inibia a geração de divisas externas, a carência de poupança imporia limites para a implantação de novos ramos produtivos, como também para a própria modernização dos ramos produtivos instalados.
A contenção das remunerações da classe operária, a incidência de impostos sobre o consumo de bens de elevada composição de valor por parte dos grupos privilegiados, a entrada de capital externo para as atividades produtivas e/ou seu financiamento e a mobilização de recursos públicos para financiar investimentos econômicos compôs o receituário cepalino. Sob um pragmatismo econômico, autores, como Prebisch (1987, p. 63-115), orientavam-se pela conquista de condições adequadas para a continuidade do desenvolvimento sob condições adversas.
A carência de demanda interna que concorreria para inibir a capacidade produtiva do setor industrial não se restringia ao atraso do setor agropecuário e pouca integração entre as atividades agrárias e as atividades urbano-industriais. A carência de demanda era concebida ainda como decorrente de uma renda socialmente concentrada herdada do passado colonial e estruturalmente realimentada devido ao atraso político e organizativo dos trabalhadores, de um lado, e da drenagem de excedentes nacionais, fruto do consumo por parte dos setores privilegiados de bens importados e de elevada composição de valor no âmbito do comércio internacional, cujos termos de troca eram favoráveis aos países desenvolvidos, por outro. Raúl Prebisch, provavelmente quem primeiramente realizou esta abordagem, conservou-se coerente com ela até o final da sua vida (Prebish, 1987, p. 25-63).
A carência de excedentes restringiria a poupança interna mobilizável. Tornava-se difícil suprir a instalação dos novos ramos produtivos necessários para um crescimento auto- sustentável. Quando instalados através de poupança interna ou mesmo externa, os ramos produtivos passariam a conviver com a insuficiência de demanda interna (Furtado, 1961, p. 39).
A deterioração dos termos de troca ou de intercâmbio assumiu um papel central no diagnóstico da perpetuação do subdesenvolvimento na teoria cepalina. A teoria clássica advogava que o livre comércio e a especialização nas atividades primárias conduziriam à propagação do progresso técnico e à difusão do desenvolvimento para toda a comunidade
internacional. A especialização nas atividades primárias permitiria aos países atrasados beneficiarem-se através da absorção do “diferencial de produtividade”, crescentemente ampliado graças ao constante avanço tecnológico dos países desenvolvidos. A elevação de produtividade e a conseqüente diminuição dos custos de produção dos países de capitalismo cêntrico aliviariam as relações de trocas para os países atrasados, mesmo sob baixa eficiência produtiva (Mantega, 1985, p. 12).
A filiação a esta teoria por parte de correntes econômicas dos países periféricos advogando, como no Brasil, a “vocação agrícola”, contribuia para a manutenção de uma divisão internacional do trabalho garantidora do subdesenvolvimento, segundo os cepalinos. Os cepalinos reconheciam na “teoria das vantagens comparativas” um engodo para os países subdesenvolvidos. Não possuindo uma economia integrada e nem tampouco um elevado dinamismo econômico, estes países teriam drenados para fora os seus excedentes devido à diferença dos custos de produção apresentar-se amplamente favorável aos países desenvolvidos. Para Prebisch (1987, p. 75-93), o balanço comercial lhes seria desfavorável ainda graças ao aumento da demanda por produtos industrializados típicos da nova vida urbana e responsável por criar constantemente novas necessidades. A elevação da demanda por produtos primários encontraria, por sua vez, um obstáculo “natural” à sua expansão: o limite do estômago dos trabalhadores dos países desenvolvidos, sob moderado crescimento demográfico (Mantega, 1985, p. 37).
A questão da produtividade assumiria um papel fundamental na deterioração dos termos de troca. Para os cepalinos, os países desenvolvidos possuíam uma economia integrada, os diversos setores industriais instalados e uma base tecnológica e científica consolidada. Beneficiar-se-iam, ainda, de um fator responsável para assegurar o avanço constante das bases tecnológicas e a superação de qualquer tendência à estagnação ou ao desenvolvimento lento das suas forças produtivas: a luta de classes. A luta operária por melhores salários e condições de
vida ameaçaria a lucratividade média do capitalista, visto que os seus ganhos representariam maiores gastos em termos de capital variável, reduzindo a distância entre capital constante e capital variável na composição orgânica do capital, determinante na conformação do “excedente”. Para Prebisch (Apud Mantega, 1985, p. 34-39) e Furtado (1964, p. 65-66), a única saída para o capitalista preservar a taxa média de lucro seria ampliar o capital constante na forma de tecnologia, matérias-primas etc, ou seja, elevando produtividade e diminuir custos. Com as novas lutas operárias, estimuladas pelas novas necessidades da própria vida urbana, o processo reiniciaria. As lutas operárias assegurariam, ainda, a distribuição dos excedentes socialmente gerados.
O mesmo não seria possível nos países subdesenvolvidos. Vários destes não se encontrariam em regimes democráticos e/ou não possuiriam uma classe operária organizada e combativa, o que inibiria a elevação do capital variável no interior da composição orgânica do capital ameaçando a lucratividade média do capital. A isto se somaria o excesso de mão-de-obra, de terras e de demais recursos naturais, de um lado, e a carência estrutural de demanda, de outro, o que também concorreria para inibir a busca pelo aprimoramento tecnológico e pela elevação de produtividade, tanto nas atividades agrárias quanto nas atividades urbano-industriais.
Para a CEPAL, portanto, uma estrutura interna - economia agrária tradicional e ineficiente, baixa integração econômica entre os setores produtivos, exército industrial de reserva gigantesco com desemprego estrutural, baixo nível de organização político-sindical e elevada concentração de rendas - e uma estrutura externa - relações comerciais internacionais desfavoráveis aos países subdesenvolvidos, porque não apresentariam o mesmo avanço das forças produtivas e integração econômica dos países desenvolvidos - representariam obstáculos para a superação do subdesenvolvimento. Conjugadamente, ocorreriam poucos ganhos de produtividade nos países subdesenvolvidos e estes, por sua vez, tenderiam a ser drenados para fora.
Para a CEPAL estes limites estruturais ameaçavam uma estratégia de desenvolvimento em curso, fundamentalmente voltada “para dentro”. Estava estabelecido, portanto, um círculo vicioso que tendia a perpetuar o subdesenvolvimento e a dependência.
Mediante o reconhecimento de tais obstáculos e estando informada pela busca da superação do subdesenvolvimento através da industrialização e integração econômica nacional, a CEPAL procurou elaborar respostas. Nurkse (Apud Mantega, 1985, p. 48-53) propôs a conjugação de uma dupla iniciativa de natureza eminentemente econômica. Era necessário realizar “ondas recorrentes de progresso industrial”, ou seja, conduzir investimentos sucessivos em diversos setores industriais, criando demanda para aqueles não beneficiados diretamente pelos investimentos. Dessa forma, a carência estrutural de demanda seria em parte contornada pela demanda criada nos períodos de expansão econômica. Para que tal iniciativa fosse viável seria necessário recorrer à “poupança externa”, visto ser insuficiente a “poupança interna”, pública e privada, para provocar as referidas “ondas recorrentes de progresso industrial”. O Estado assumiria a coordenação e planificação desse processo de expansão em ondas que culminariam no desenvolvimento industrial auto-sustentável.
Para Myrdal (Apud Mantega, 1985, p. 53-57), social-democrata sueco, preocupado com o fenômeno do subdesenvolvimento, a saída do círculo vicioso do subdesenvolvimento era fundamentalmente política. Propunha a mobilização da sociedade nacional sobre bases nacionalistas buscando conquistar condições internas - a conformação da poupança pública através de impostos recolhidos, a disposição da sociedade em aguardar as melhoras sociais num futuro incerto - e externas - negociar com as nações desenvolvidas, sob bases políticas firmes, termos mais favoráveis para o acesso a capitais e tecnologia - para romper com o subdesenvolvimento. Tratava-se, segundo Myrdal, de um nacionalismo fundado no equilíbrio e na racionalidade, não um nacionalismo de cunho confrontativo.
Myrdal propunha, ainda, um regime democrático como “estratégia” complementar para a ruptura do círculo vicioso do subdesenvolvimento. Para este autor, a sociedade democrática seria a sociedade ideal para todas as classes e grupos sociais defenderem seus interesses e perspectivas, impondo a busca pela racionalidade produtiva. Especialmente importante seriam as demandas operárias, capazes de ameaçar a taxa média de lucro do capital, obrigando o capitalista a recorrer a novas aplicações de capital para conquistar novos índices de produtividade, custos inferiores e ampliar o seu mercado através da atribuição de menores preços aos seus produtos. A modernização capitalista, portanto, se explicaria através da preservação da lucratividade média do capital sob a crescente pressão operária. Para Myrdal, todos ganhariam com a expansão econômica sob uma sociedade democrática.
Mais recentemente e igualmente identificado com as concepções históricas da CEPAL, Prebisch (1985, p. 48-63) conceberia uma conjugação de iniciativas econômicas e políticas para a conservação da expansão econômica e para a ruptura do círculo vicioso do subdesenvolvimento. Propunha um pacto político entre a classe trabalhadora e a elite econômica e a concentração do excedente socialmente produzido nas mãos da elite econômica, de forma a criar condições para o desenvolvimento. Tal pacto somente seria possível nos quadros de uma negociação política, no qual as elites se dispusessem a conter o seu consumo excessivo e conservar seus capitais no país e a classe trabalhadora estivesse disposta a adiar a luta por remunerações e projetá-las para a participação nos novos excedentes gerados, ou seja, o sobretrabalho que excedesse a reiteração produtiva e a continuidade de novas e necessárias inversões. Para tanto, o populismo ou qualquer outra forma de regime político ou governo “distributivista” teria que ser enterrado e o Estado reestruturado assumiria a direção econômica do processo.
Estas iniciativas deveriam integrar uma negociação com os países desenvolvidos no sentido de superar as restrições criadas no comércio internacional aos países “em