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Hermelino Lopes Rodrigues aponta Juliano Moreira como seu grande mestre e sua principal influência, em vários planos. Teoricamente, Moreira o inspirou no estudo das idéias de Kraepelin e Bleuler, e também influenciou na sua decisão de se tornar professor de psiquiatria. Assistencialmente, a idéia de que a teoria deveria ter uma aplicação prática em termos de procedimentos não é, evidentemente, uma exclusividade das contribuições de Juliano Moreira. Porém, após um percurso de pesquisa é impossível deixar de enfatizar o quanto Moreira entusiasmava jovens psiquiatras a partir do contato com os doentes hospitalizados e também como foi importante essa transmissão para Lopes Rodrigues.

Henrique Roxo afirmava sobre Rodrigues: “[...] discípulo amado e dileto de Juliano Moreira, que se orgulha em dizer que também é meu discípulo.” (BRASIL,1959, p. 64). Rodrigues sempre enfatizou o incentivo que Juliano Moreira dava aos alunos que conseguiam construir a relação entre estudos teóricos e aplicação clínica.

Na década de 1920, os jovens psiquiatras estavam às voltas com as recentes descobertas da psiquiatria. Muitas vezes, ao estudarmos história da psiquiatria em matérias da graduação ou nos programas de residência médica a informação generalizada é a de que a psiquiatria francesa foi substituída pelas idéias alemãs no Brasil na virada do século XIX para o século XX. De certa forma, não há dúvida de que Juliano Moreira e sua ligação estreita com a psiquiatria de Kraepelin colocavam em cheque as idéias francesas sobre a inoperância em se pesquisar as causas da doença mental. No entanto, a transição entre idéias que vão sendo abandonadas em detrimento da adoção de outras é mais complexa do que a simples descrição de uma “invasão” teórica abrupta.

É importante frisar que no caso das influências européias na psiquiatria brasileira, a transição entre as idéias francesas e alemãs não se deu com o efeito de uma ruptura súbita, mas de forma gradual. Lakatos (1989) afirma que diferentes modelos teóricos sofreriam progressão ou regressão conforme seu sucesso ou fracasso na explicação dos fenômenos que se propõe a estudar. No nosso caso, torna-se fundamental demonstrar as diferenças entre o pensamento psiquiátrico dos franceses e dos alemães e analisar os fatores determinantes para a gradual adoção

no Brasil das idéias psiquiátricas alemãs em relação às idéias francesas no início do século XX, principalmente no campo teórico.

Na verdade, podemos afirmar que se trata antes de uma inter-relação do que de uma seta única, que progrediria das influências da psiquiatria francesa para as

influências da psiquiatria alemã. Como exemplo dessa troca de experiências

teóricas, podemos citar a evolução do conceito da paranóia, onde percebemos que os estudos não tinham uma única fonte a partir da qual se repetiriam as idéias, mas antes, um fluxo de informações de colaboração mútua:

Esta manifestação mental mórbida (paranóia) foi estudada por Morel Foville, Falret, Serieux et Capgras (na França) e por Snell, Sander, Westphal e, depois, por Kraepelin, Bumke; mais recentemente por K. Kolle (na Alemanha) e também foi objeto de grande interesse por parte de J. Moreira e seus discípulos Afrânio Peixoto, Bueno de Andrade e Nobre de Mello. O mesmo poder-se-ia dizer das questões relativas à catatonia, à mania, a melancolia e à hebefrenia, em torno das quais é evidente aquela mútua influência nas interpretações nosológicas e na evolução dos conceitos. (ARRUDA, 1995, p.41)

Segundo Arruda (1995), o que marcou a diferença entre as contribuições ao conhecimento psiquiátrico não foi apenas uma mudança de uma parte do conteúdo desses avanços, mas principalmente o locus a partir do qual esse conhecimento era gerado. Assim como na França a psiquiatria da primeira metade do século XIX “[...] havia sido edificada pelos chefes dos serviços psiquiátricos dos grandes hospitais de Paris, a rápida ascensão da psiquiatria alemã está ligada à multiplicação das clínicas universitárias e ao prestígio que passaram a desfrutar.“ (ARRUDA, 1995, p.48). Além disso, até a metade do século XIX, a Alemanha não tinha a unidade política que a França possuía, e nem uma cidade como Paris, que concentrava quase toda a vida intelectual e científica francesa.

Em 1913, o psiquiatra alemão Karl Jaspers (1883-1969), em seu tratado de Psicopatologia, comentou sobre o papel desempenhado inicialmente pela medicina francesa e com a qual a psiquiatria alemã teria uma grande dívida. Segundo Jaspers (1979), psiquiatras alemães como Griesinger (1817-1868), Kraft-Ebing (1840-1902) e Emil Kraepelin sofreram influências diretas ou indiretas de Esquirol, psiquiatra francês discípulo de Pinel. Arruda (1995) afirma, no entanto, que Jaspers considerava que aos psiquiatras franceses faltava espírito crítico, o que resultava em trabalhos científicos inacabados. Os psiquiatras alemães, por sua vez, teriam purificado as idéias psiquiátricas francesas, dando a elas mais rigor conceitual. Por

sua vez, o nacionalismo francês desempenhou uma forte resistência às idéias de Emil Kraepelin.

Apesar das divergências nacionalistas, Alemanha e França se influenciaram mútua e alternativamente, e também os dois países inspiraram mudanças na lógica assistencial e no ensino psiquiátrico brasileiros nesse período: “Em que se pese essa antiga disputa, o Brasil se deixou influenciar por ambas as escolas, naquilo que elas tinham de melhor” (ARRUDA, 1995, p.43).

Não seria possível o estudo dos impasses que Hermelino Lopes Rodrigues enfrentou para articular ensino e assistência psiquiátrica em 1929 sem entendermos como as influências franco-germânicas tinham sido absorvidas pela Psiquiatria brasileira no início do século XX. O estudo desses impasses aparentemente isolados do âmbito nacional, no entanto, aponta para uma dificuldade comum do ensino da disciplina psiquiátrica em todo o Brasil nesta época: a separação entre conhecimento científico e assistência aos doentes mentais. O caso que estamos estudando ilustra essa separação, com uma especificidade que merece ser detalhada, mas que acompanha um movimento mais amplo:

Essa relação entre produção de uma ciência – que toma a loucura como objeto a ser investigado – e de uma assistência pública inaugurada com a instituição asilar é mesmo fundamental na constituição da psiquiatria como especialidade médica, atualizando-se de diferentes modos em contextos nacionais específicos. (VENÂNCIO, 2003a, p.884).

A relação citada pela autora é regida por dois modos de atuação: de um lado, havia a existência de uma clínica psiquiátrica caracterizada por uma predominância da política assistencial centralizada no asilo, onde o que interessava era o estabelecimento de um locus para o psiquiatra e seu fazer, ainda que distante de uma cientificidade médica. Esse modo de assistência, de inspiração francesa, privilegiava a atuação psiquiátrica pública, sua implantação, seus edifícios e suas lógicas de atendimento (ou seja, uma inspiração principalmente vinda de Pinel, Esquirol, e no Brasil, de Teixeira Brandão) sendo a estruturação da política assistencial sinônimo de conhecimento psiquiátrico.

Ainda segundo a autora, o segundo modo de organização assistencial sucedeu o primeiro, e tem na psiquiatria alemã sua maior influência. Nesse contexto, o conhecimento científico aparece gerado a partir das clínicas universitárias e suas publicações. Aqui o ensino e a pesquisa aparecem no centro das preocupações,

tomado principalmente a partir de uma perspectiva distanciada da experiência clínica prática, com predominância da teoria produzida no espaço acadêmico (ou seja, influências de Griesinger, Kraepelin e Juliano Moreira). Na década de 1920, Juliano Moreira já tinha construído uma tradição no contexto da psiquiatria brasileira influenciada por Kraepelin, e continuava a produzir discípulos.

Lopes Rodrigues era um legítimo representante dessa safra de psiquiatras “kraepelinianos”. Alguns autores, como Resende (1992), consideram que a psiquiatria científica fez sua entrada no Brasil com a ascensão de representantes médicos no cuidado dos doentes mentais, no período imediatamente posterior à proclamação da República.

Lopes Rodrigues (1959/1960), no entanto, não concorda com essa afirmação. Em uma análise que faz desse período, Rodrigues (1959/1960, p.64) critica a psiquiatria francesa representada no Brasil pelas idéias de Teixeira Brandão no período anterior à chegada de Juliano Moreira ao Rio de Janeiro, em 1903. Brandão, Professor Catedrático de Psiquiatria ensinava aos seus alunos uma psiquiatria aferrada à decadente influência francesa, fato que era responsável pelo descrédito que a disciplina desfrutava junto aos alunos da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e aos demais médicos, “[...] dada a sua escassa eficiência terapêutica e às movediças bases teóricas e científicas em que se assentavam.” (RESENDE, 1992, p.43). Conforme Lopes Rodrigues:

[...] o pensamento universal deste ramo do saber patejava neste estuário levadiço das “degenerações” de Morel, e em Magnam, continuava a se estagnar a denominada psiquiatria francesa e todo o pensamento psiquiátrico nacional não se arejava fora das cercanias da “idiotia adquirida”, da “melancolia” e do “delírio crônico de evolução sistemática”. Quase 90% dos diagnósticos dessa época caíam na categoria da generalidade onomástica de “degenerado atípico”. (RODRIGUES,

1959/1960. p.62).

Para Lopes Rodrigues (1959/1960), a psiquiatria nacional se tornaria “científica” apenas a partir da chegada de seu mestre Juliano Moreira ao Rio de Janeiro. Essa filiação a Juliano Moreira marcou Lopes Rodrigues e seu pensamento docente, centralizado na idéia que adotava o pensamento médico geral aplicado à psiquiatria, conforme podemos verificar:

[...] há uma psiquiatria científica, base e síntese do conhecimento médico, em cuja complexidade se universaliza todo o edifício das ciências médicas

e dos ramos da medicina; objetiva, concreta, palpável à clínica, ao laboratório, ao microscópio, à cirurgia: semioticamente, quimicamente, anatomicamente, histologicamente, fisiologicamente, compulsável pela propedêutica orgânica; tangível às reações biológicas, enquadrada a processos vitais, imanente à bioquímica das células e dos humores, de etiopatogenias sensíveis aos fatos da histopatologia, da fisiopatologia, da neuropatologia; que a genética vislumbra e a heredologia esclarece, a unidade do processo biopatológico imprime configurações, contornos e dimensões. (RODRIGUES, 1959/1960, p.64)

Seria Juliano Moreira o psiquiatra a materializar esse projeto, fazendo do “ [...] microscópio o olho da razão, da pesquisa o fulcro de sua mágica oficina, do escalpelo o silogismo, da lâmina a dialética, em vez do livro o doente” (RODRIGUES, 1959/1960, p.64). Aqui percebemos claramente a maior ambição da psiquiatria alemã, e que caracterizaria os esforços de Lopes Rodrigues em Belo Horizonte: provar que as doenças mentais tinham o mesmo comportamento de qualquer outra doença. Na verdade, se tratava de um movimento médico geral, próprio da transição entre o século XIX e o século XX, conforme visto na introdução deste capítulo.

É importante frisar que, francesa ou alemã, a psiquiatria brasileira se desenvolveu a partir da sustentação do espaço asilar46, como percebemos na

citação seguinte:

Mesmo com a substituição do paradigma francês pelo conhecimento psiquiátrico alemão, foi do interior da instituição assistencial pública e de instituições do tipo científico e filantrópico que a ciência psiquiátrica brasileira seria produzida, em todos os casos capitaneada por Juliano Moreira. No período dos anos 1920 e 1930, a consolidação de toda uma política da higiene mental aparecia sustentada na ciência psiquiátrica de inspiração alemã ainda produzida no interior do asilo. A ascensão do paradigma científico alemão no contexto brasileiro não foi, portanto, incompatível com a preocupação em torno de uma política assistencial, ainda que certamente possamos criticar as bases ideológicas e as práticas sociais que lhe serviram de sustentação. (VENÂNCIO, 2003, p.898)

Desta forma, podemos perceber em Lopes Rodrigues uma série de influências provenientes da psiquiatria européia, principalmente nas concepções assistenciais ou de cunho teórico. Mas Rodrigues estava entusiasmado principalmente com as idéias de Eugen Bleuler. Por uma feliz coincidência, o

46 Em Minas Gerais, por exemplo, o Instituto Raul Soares, até a posse de Lopes Rodrigues, estava

“aparelhado” como um hospital alemão, mas sua lógica assistencial e a postura e formação dos médicos que lá trabalhavam mostravam influências francesas, como veremos em um capítulo específico.

assunto sorteado para o tema de sua tese principal seria as diferenças entre a

Demência Precoce de Kraepelin e As Esquizofrenias de Bleuler, conforme veremos

a seguir.

Benzer Belgeler